Tag: kungfu

  • Irmãos Sun

    Irmãos Sun

    Viramos o ano de 2024 com uma feliz estreia na Netflix. Estamos falando da nova série estrelada por ninguém menos que Michelle Yeoh, Irmãos Sun (The Brothers Sun). E só por essa pequena introdução, vocês já entenderam que gostamos da série e vamos falar o porquê.

    A história aborda o universo das gangues de Taiwan, mais especificamente de Taipei. Após um atentado contra a vida de um dos chefes de uma gangue, o seu filho Charles (Justin Chien) vai até Los Angeles proteger sua mãe, Eileen (Michelle Yeoh), e seu irmão, Bruce (Sam Song Li).

    Bruce é um estudante de medicina que quer muito trabalhar com Stand up e improvisos e, por sair de Taiwan muito criança, ele não tem idéia que sua família, na verdade, é uma família de gangsters até seu irmão chegar.

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    Bruce (Sam Song Li) e Eileen (Michelle Yeoh)

    Ao longo da série você acompanha a saga de Bruce nesse novo mundo que ele acaba descobrindo, e é muito interessante porque a história é conduzida de forma cômica mas, em contrapartida ela tem sim seus momentos de tensão, luta (muito bem coreografadas) e sangue. Esse equilíbrio deixa a série gostosa de assistir.

    Outro ponto muito legal é o elenco! A produção da série contou com um elenco 100% asiático e achei isso muito legal. Para uma produção americana, fazer uma série sem estereotipar a comunidade asiática é um ponto muito positivo. Claro que conta muito a proposta que a série traz, mas essa preocupação com o elenco e até com os coadjuvantes serem asiáticos é um grande diferencial.

    Um destaque importante é a atuação de Michelle Yeoh. Eu particularmente sou muito fã da atriz e, claro, ela está nos holofotes do mundo depois de ganhar o Oscar. E o melhor: ela foi a primeira mulher asiática a ganhar o Oscar de melhor atriz. Atuação como sempre impecável, o seu papel é muito importante e conduz bem a história, então não tem como não falar dela.

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    Michelle Yeoh

    Em todo filme ou série de luta, eu presto muito atenção em como ele foi coreografado e não tenha dúvidas de como a revolução de filmes de kung fu nos anos 80/90 serviu como referência pra essa série. E claro assistir a série deu muita nostalgia para filmes dos anos 80 de máfias chinesas, por isso me agradou muito.

    Ainda falando em luta, tenho que destacar a participação de dois atores/dublês que eu gosto muito que são o Andy Le e o seu irmão Brian Le. Eles tiveram uma participação muito grande no filme vencedor do Oscar, Tudo em todo lugar ao mesmo tempo (2022), também estrelado pela Michelle Yeoh. Os dois atores são muito bons de luta, porém é uma pena que a participação deles seja muito curta na série.

    Agora, fazendo um pequeno comparativo, hoje em dia é difícil ter uma série de luta com um elenco asiático tão bom. Uma série que tem a mesma qualidade, seja de coreografia de ação ou elenco, que Irmãos Sun é a série Warrior. Porém, apesar de cada uma ter seu contexto e linguagens diferentes, ainda acho que a série Irmãos Sun é mais gostosa de assistir, a história te envolve mais e é muito mais dinâmica.

    Irmãos Sun foi um grande acerto da Netflix, os personagens são cativantes, a história é envolvente com muitos plot twists e, claro, com muita ação. A série também deixou algumas pontas no final e, se tiver uma segunda temporada, com certeza será bem-vinda.

    Para quem tiver interesse a primeira temporada, ela já está disponível no streaming.

  • Bons Companheiros

    Bons Companheiros

    Depois de um bom tempo longe dos cinemas brasileiros, Jackie Chan volta com um novo filme, carregado de drama, comédia e muitas homenagens.

    Bons Companheiros (Ride On) traz a história do Mestre Luo, interpretado pelo Jackie Chan, que é um dublê que já teve muito sucesso na sua carreira, e hoje, digamos, é fracassado e cheio de dívidas. Além disso, Luo se vê numa situação em que ele pode perder seu cavalo para um leilão para cobrir uma de suas dívidas. Ele acaba recorrendo à sua filha, uma jovem estudante de Direito, que ele não via há 6 anos. Mas sua vida muda quando ele e seu cavalo de estimação acabam viralizando na internet com uma luta que os dois se envolvem com cobradores de dívidas.

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    Fonte: IMDB

    Vendo sua carreira crescer novamente e sua filha se reaproximando, Luo terá que escolher entre sua carreira como dublê ou sua família.

    Se você está procurando um filme para chorar, essa é a melhor escolha! Brincadeiras a parte é um filme muito emocionante. Primeiro porque tem o drama familiar do personagem de Jackie Chan, e segundo porque tem o drama dele e do cavalo de estimação, mostrando uma grande sensibilidade e carinho entre os dois.

    Mas acredito que seja ainda mais emocionante para quem é fã do ator, porque o filme relembra muito a carreira de Jackie Chan. Eu senti uma mistura de ficção com a vida real dele. No filme são mostradas cenas de filmes reais do Jackie Chan, como sendo cenas de filmes onde o personagem atuou como dublê. As cenas pós créditos do filme, com os erros de gravação, ele se machucando, enfim, são mostradas no filme e o personagem se emociona muito.

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    Fonte: IMDB

    Isso pra mim, como fã, pesou muito porque mostrou como ele era muito bom no que fazia, o quanto ele se doou para o filme, e isso foi uma verdadeira homenagem. Sem contar que o filme tem vários Easter Eggs de muitos trabalhos que ele já fez. Alguns deles são do Mestre Invencível (Drunken Master – 1978), First Strike (1996), O Grande Desafio (Gorgeous – 1999), Operação Condor (1991), Quem sou eu? (1998), entre outros.

    O filme também conta com grande atores que já trabalharam com o Jackie em outros filmes como o Wu Jing, Yu Rongguang, Shi Yanneng, Andy On.

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    Wu Jing à direita. Fonte: IMDB

    Apesar do filme ter muito drama, tem sua parte de comédia e lutas no estilo Jackie Chan, que é uma grande característica nos filmes do ator. As lutas continuam com pessoas voando, cadeiras e mesas sendo utilizadas, mas não têm mais aquela emoção como antigamente até porque o Jackie Chan já tem idade e não tem mais condições de fazer altas cenas de luta.

    No final mostra que o filme foi feito como uma homenagem aos dublês, mas pra mim, além disso, foi uma grande homenagem à carreira de Jackie Chan.

    O filme estreia nos cinemas brasileiros dia 12 de outubro de 2023.

  • Police Story

    Police Story

    Eu não poderia deixar de escrever esse artigo a respeito de um dos filmes mais famosos do Jackie Chan: Police Story.

    Esse filme fez com que o Jackie Chan fosse visto e reconhecido no mundo inteiro por conta do seu estilo “Jackie Chan” de fazer filmes. Fez tanto sucesso que, pra quem é da década de 80/90, com certeza, assistiu o filme várias vezes na Sessão da Tarde, da Rede Globo.

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    Fonte: Sato Company

    Jackie Chan é o protagonista do filme fazendo o papel do policial Chan Ka Kui, ou como foi traduzido no ocidente, Jackie Chan, que consegue prender um dos grandes traficantes da China, o Mr. Chu (Chor Yuen). Porém Jackie acaba indo dos seus momentos de glória para momentos de fim de carreira quando os traficantes querem se vingar dele.

    Além dos traficantes, Jackie tem que lidar com o seu relacionamento com a Mei (Maggie Cheung) que acaba sendo abalado nessa história por um suposto envolvimento com uma testemunha chave, a Selina Fong (Brigitte Lin).

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    Meggie Cheung e Brigitte Lin. Fonte: Sato Company

    Contando dessa forma parece que o filme é um pouco “pesado”, ainda mais por ser uma história de policiais versus traficantes mas, acredite se quiser, tem muita comédia dentro do filme, o que deixa ele mais leve. Comédia e ação são marcas registradas do Jackie Chan.

    Falando em marcas registradas, muitos atores acabam sempre fazendo os filmes de Jackie Chan. Nesse filme contamos com a presença de dois atores muito conhecidos: o Mars que faz o papel do policial Kim, e o famoso Bill Tung que faz o papel, também de outro policial, Bill Wong.

    Como um filme policial dos anos 80, a história não tem grandes altos e baixos, mas prende bastante principalmente pelas cenas de luta. Aliás, os filmes do Jackie Chan são muito famosos pelas cenas de luta porque ele não utiliza dublês, e são muito impressionantes com coreografias de lutas fora do normal, com pessoas voando, quebramentos de mesas e cadeiras, etc.

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    Fonte: Sato Company

    No livro biográfico do Jackie Chan, Never Grow Up (2015), ele conta o quão insana foi a gravação da cena final. Pra quem não assistiu o filme, o final se passa em um shopping, e eles abusaram nas cenas com vidros. Tem um momento em que Jackie tem que descer numa especie de um poste cheio de luzes de natal e cabos e ele cai em um lugar com muito vidro (cenográfico claro!).

    Em seu livro, ele conta o quão demorado foi para a montagem, a quantidade de pessoas que estavam ali para gravar aquela cena e a pressão que ele teve para fazer isso em um único take. Até porque ele também estava gravando outro filme, Heart of Dragon, dirigido pelo Sammo Hung, e ele tinha que sair de lá para outra gravação. Fora o horário do funcionamento do Shopping que não podia ser alterado por conta das gravações, ou seja, tinha que dar certo!

    Naquele dia de gravação, ele conta que tudo deu muito errado, até mesmo o momento exato de gravar foi errado. Nessa hora ele não teve escapatória e ele teve medo de morrer. A cena foi feita e ele conta que na decida a mão dele queimava no atrito com o poste e chegou a ficar dormente!

    A adrenalina foi tanta que ele caiu no chão e já levantou rapidamente batendo nas pessoas e logo a equipe mandou ele parar desesperadamente. Quando ele olha em volta, ele vê a equipe chorando, principalmente as atrizes Maggie Cheung e Brigitte Lin e, mesmo vendo a cara de desespero de todos, ele não se deu conta que ele estava com a mão toda cortada, sangrando e cheia de cacos de vidro.

    Ele desesperadamente pega o carro e pede para o motorista levá-lo para a gravação do outro filme e ele apaga de tanta adrenalina. Ele só se deu conta do estado dele quando ele não conseguiu abrir a porta do carro sozinho.

    Em resumo, acho que é um dos melhores filmes do Jackie Chan, pela história, pelo enredo, e claro, pelas ótimas e mais insanas cenas de ação do filme. Aqui no Brasil, a distribuição do filme é de responsabilidade da Sato Company e está disponível no Prime Video.

    Trailer:

    Referências: CHAN, Jackie; MO, Zhu. Never Grow Up. New York: Gallery Books, 2018.

  • Warrior  – 3ª Temporada

    Warrior – 3ª Temporada

    Depois de 2 anos de espera, saiu a 3ª Temporada da série Warrior, que agora está sendo produzido e exibido oficialmente pela HBO Max, depois que a Cinemax abriu mão dos direitos da série.

    Confesso que eu comecei a assistir e fiquei meio confusa com algumas coisas na história. Tive que rever a série inteira para recapitular alguns detalhes, e foi bom! Parece que a série me prendeu muito mais do que na primeira vez que assisti.

    É uma série que, apesar de ter muita luta, ela puxa um contexto histórico gigante da Chinatown de São Francisco na Califórnia, mas claro, tem muita ficção envolvida.

    Mas vamos ao que interessa, 3ª Temporada! (Contém muitos spoilers!)

    Achei uma ótima temporada, que me prendeu de verdade. Todos os personagens tiveram uma construção e um crescimento muito significativo.

    Primeiro, o nosso personagem principal Ah Sahm (Andrew Koji) finalmente foi colocado à prova de qual lado ele está nessa guerra entre as Tongs. Além disso, é um personagem que cresce muito como lutador e isso acaba colocando ele como uma pessoa de destaque em Chinatown. Isso com certeza abala o ego do novo líder dos Hop Wei, o Young Jun, interpretado por Jason Tobin.

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    créditos: https://tinyurl.com/a8r9eu63

    Young Jun passa por alguns momentos de crise nessa temporada, pois ele quer se mostrar líder depois que ele “tirou” seu pai do poder, se assim podemos dizer, mas ao mesmo tempo ele não se sente à altura de ser o sucessor do seu pai. Isso gerou também uma insegurança perante seu amigo e subordinado, Ah Sahm, que acaba tendo uma maior confiança e respeito de todos de Chinatown, ainda mais após o episódio da invasão irlandesa no bairro. Além disso, Young Jun passa a ter uma desconfiança principalmente depois de descobrir que Ah Sahm e Mai Ling (Dianne Doan), líder da Tong rival, são irmãos.

    As coisas também não ficam fáceis para Mai Ling, que é uma mulher extremamente ambiciosa, e quer expandir os negócios da Tong Long Zii, mas o que ela consegue é só mais desconfiança por parte dos conselheiros dos Long Zii.

    Uma grande supresa foi o Mark Dacascos no elenco de Warrior com o personagem Kong Pak. Um clássico ator de artes marciais tinha que estar no elenco dessa série. Ele integra a história como líder de uma Tong que se funde com os Long Zii, fazendo com que ele faça parte do conselho. E claro, ele entrega grande cenas de luta na série.

    Além da entrada de Kong Pak, tivemos dois novos personagens muito relevantes para a história: o policial Benjamin Atwood (Neels Clasen) e o Douglas Strickland (Adam Rayner). O policial Atwood tem um papel importante no contexto da xenofobia com relação aos asiáticos, que vem muito forte nessa temporada, sem contar que ele vira uma grande pedra no sapato do Sargento Bill O’Hara (Kieran Bew). Já o Strickland se utiliza de seu grande poder para manipular políticos, Dan Leary (Dean S. Jagger) e também a Ah Toy (Olivia Cheng) e Nellie Davenport (Miranda Raison), que acaba movimentando muito a história.

    E claro, não poderia deixar de comentar que a filha de Bruce Lee, Shannon Lee, além de produtora executiva da série, também fez uma participação especial no episódio 6. Foi uma breve participação, porém, foi até que relevante para o desfecho do episódio.

    Achei interessante ver como a política acaba interferindo em interesses e também em ideais, como foi o caso do Dan Leary. Depois de ver que ele não consegue muita coisa na força, Leary acaba indo pelo caminho da política, mas até nesse caminho ele descobre o quanto é difícil atender os seus interesses sem ter que abrir mão de algumas coisas e até mesmo passar por cima do próprio ego. Isso fez com que muitos dos seus apoiadores o questionassem se ele estava realmente a favor de seu povo.

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    créditos: https://tinyurl.com/yt5f6jhj

    Um tema que ficou claro foi a fragilidade da força feminina nessa época. Isso foi mostrado com as personagens de Ah Toy, Nellie Davenport e Mai Ling que foram, de certa forma, prejudicadas e silenciadas por homens que foram atrás dos seus interesses e, claro, foram beneficiados pela justiça.

    Falando das mulheres, e a Penny Blake (Joanna Vanderham)? Ela e sua irmã, Sophie Mercer (Céline Buckens), não aparecem nessa temporada deixando uma ponta solta na história. Porém são tantos acontecimentos que não imagino ainda algo que elas pudessem ser úteis nessa temporada.

    Se fosse para resumir essa temporada em uma palavra seria: Acordo.

    Querendo ou não, todos os personagens se sustentaram e sobreviveram, por assim dizer, dentro da trama por meio de acordos feitos durante a temporada. E chega a ser engraçado como todos os personagens tem o “rabo preso” com alguém.

    E as cenas de luta? Continuam muito boas e muito bem coreografadas. Achei que nessa temporada as cenas de quebramentos, cortes com facas e mortes estão mais explicitas. Isso faz com que eu elogie ainda mais os efeitos especiais.

    A série continua mantendo o seu nível com ótimas cenas de luta e também com um contexto histórico e político muito rico, fora a cenografia e figurino que deixam a série ainda melhor. Mas vai ter continuação? Até a publicação desse artigo não temos nenhuma confirmação, mas o fim da série deixa algumas pontas soltas principalmente com o destino de Ah Sahm e sua irmã, Mai Ling.

    Assista o trailer:

  • A Filosofia do Kung Fu

    A Filosofia do Kung Fu

    É muito comum quando se fala em kung fu, ou qualquer outra arte marcial, que além de ensinar a luta, ela desenvolve muito a disciplina. Isso não deixa de ser verdade, pois a grande maioria das artes marciais tem seus princípios filosóficos.

    No kung fu, por exemplo, falamos sobre o Wude, termo muito comum para nos referirmos aos princípios e ética marcial, entre eles estão respeito, disciplina, humildade, honestidade, paciência, entre outros. Mas para chegar nesses princípios, devemos entender que isso vem de uma grande influência de filosofias que predominavam a China na época. Confucionismo, Taoismo, Budismo são alguns nomes fortes que influenciaram muito o pensamento chinês, alguns chegam até colocar o Maoismo nessa influencia, mas como estamos falando de kung fu e ele nasceu bem antes da era de Mao Tse-Tung (1893-1976), nem vou comentar muito sobre ele.

    Entender essas três linhas filosóficas, Confucionismo, Taoismo e Budismo, vai ficar muito claro visualizar a sua influência no Kung fu.

    Budismo

    O budismo surgiu com o o Sidarta Gautama(Buda), na Índia, no século V a.c, com ele veio o conceito do que é sofrimento que está nas Quatro Nobres Verdades e o Nobre Caminho Óctuplo que é basicamente o caminho para cessar esse sofrimento. Em linhas gerais, são condutas corretas como: Compreensão correta, Pensamento Correto, Palavra Correta, Ação correta, Meio de vida correto, Esforço correto, Plena atenção correta, concentração correta.

    É no Nobre Caminho Óctuplo que vemos sua grande influência na filosofia do kung fu. Assuntos como compaixão, “não prejudicar o outro”, “não mentir”, “não matar e não roubar”, “obter o controle da mente”, “sabedoria e serenidade”, não são assuntos estranhos para quem é praticante, e podemos dizer que essa influência veio em peso com budismo.

    Taoismo

    A grande base da filosofia do Taoismo é o Tao. Sua tradução literal é o caminho, e segundo a Oldstone- Moore (2010), o Tao se refere a um poder anônimo, sem forma e que tudo permeia, que cria todas as coisas e reverte-as ao estado de não ser em um ciclo eterno.

    Para os taoístas, seguir o caminho, seria seguir de acordo com o que é natural, com o fluxo da natureza, ou “como as coisas são”. Esse pensamento levou a busca da imortalidade do homem, por isso foi uma época de métodos de muita cura espiritual e física, dando destaque para o I-Ching (oráculo taoista), e o Tai Chi Chuan e Qi Gong, que surgiram nessa época como forma de cura física.

    Confucionismo

    O Confucionismo começou na China, e como o próprio nome já diz, seu fundador foi Confúcio. Ele viveu e cresceu em uma época de muita miséria devido às guerras que ocorriam nesse período. Isso foi uma grande fonte de inspiração para que ele criasse a própria filosofia em que pudesse mudar o conceito de sociedade. O ideal é que os governantes passassem governar para todos e não para si próprios.

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    Confúcio. Autor desconhecido (c. 1770)

    Sua filosofia tem muitos conceitos de generosidade, virtude e amor pela humanidade. No kung fu, por exemplo, o confucionismo está presente em algumas virtudes como honra, respeito e sinceridade e até mesmo em meios de treinamento como “estar centrado” durante uma luta, achar o seu centro, algo que Confúcio falava que todos os seres humanos deviam achar.

    A prática constante dos Taolus (ou Katis) também é uma forma de pensar de Confúcio. Para ele, a prática é um meio de alcançar a perfeição, a essência. O senso de justiça que aprendemos no kung fu, de quando usar o que sabemos, e utilizar somente para defesa, vem também dessa filosofia.

    E por último, essa ideia de que nunca aprenderemos tudo do kung fu que sempre tem algo que temos que aprender e aperfeiçoar, também é uma visão confucionista. Atingir a perfeição e maestria depende de muitos anos de prática e estudos. E kung fu não é só socos e chutes, tem todo um estudo de saber aplicar a técnica de forma perfeita, saber aliar a técnica a força, potência, agilidade, ritmo, etc. E fora tudo isso, toda uma filosofia, uma história, um estudo para entender toda essa arte marcial. E vamos concordar, não é em 2 anos que você adquire tudo isso.

    O kung fu definitivamente não é só forma ou só luta, mas puxando toda a sua história a sua construção de movimentos a partir de animais, por exemplo, e vendo o quão profundo é a sua filosofia, vemos como é complexo e rico essa arte marcial.

  • O Grande Dragão Branco

    O Grande Dragão Branco

    Finalmente chagamos a época de ouro dos filmes de artes marciais, onde grandes atores de artes marciais foram revelados. Sim! Estamos falando da década de 80 e um dos grandes nomes da época foi Jean Claude Van Damme.

    Hoje não vou falar do filme que o revelou como um ator de filmes de artes marciais, mas sim de um grande sucesso, e sou muito suspeita de falar desse filme, que é “O Grande Dragão Branco”, ou “Bloodsport“, de 1988.

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    Jean Claude Van Damme – Fonte: IMDB

    Esse filme é baseado em fatos reais da vida de Frank Dux, interpretado pelo Van Damme, que é um militar americano que decide disputar um torneio super secreto e ilegal em Hong Kong, o Kumite. Esse torneio reúne os maiores lutadores de todo o mundo e a regra é que “não há regras”. Nesse torneio tudo pode, até a morte.

    Nessa trama toda nos deparamos com personagens chaves, que são os policiais que estão atrás do Dux que acabou fugindo do exército para participar do torneio. A repórter que quer tirar informações do evento para escrever sua matéria. Temos também o mestre de Dux, o Sr. Tanaka, que protagoniza uma das melhores partes do filme, na minha opinião. E claro, o grande vilão do filme o Chong Li, interpretado por ninguém menos que o Bolo Yeung, quem não se lembra dele no filme Operação Dragão com o Bruce Lee? Ah! E temos o Jackson, o amigo que o Frank Dux fez no torneio, é relevante? é…. mas eu particularmente não gosto dele.

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    Bolo Yeung – Fonte: IMDB

    Bom, história e personagens apresentados… agora vamos para as partes relevantes!

    Primeiro de tudo temos que destacar os filmes de artes marciais dessa época são totalmente “raiz”. Por que? Porque são realmente os atores que estão fazendo as cenas de luta sem efeito especial nenhum. E o mais importante sem pessoas voando e nenhuma “magia”, como está tendo nos filmes de hoje. E claro que temos que destacar que o Jean Claude Van-Damme vem do Karatê e do Kickboxing e a gente consegue ver isso no filme pela sua postura, pela sua habilidade em fazer os movimentos e os próprios chutes dele que são bem característicos, bem marcados e definidos. Bolo Yeung também tem sua experiencia em artes marciais, isso é fato, só foi meio difícil descobrir o que ele praticou mas é bem provável que seja Kung Fu.

    Como todo filme de artes marciais dos anos 70/80 temos as cenas de treinamento clássicas, e como eu sempre falo, são as melhores! Frank Dux protagoniza ótimas cenas com seu Sensei, Mr. Tanaka. Como sempre é naquele cenário no fundo da casa do mestre, onde o aluno apanha pra caramba e a gente consegue ver a grande evolução. E é claro que não podia deixar de faltar a cena para mostrar o alongamento em espacate que o Van Damme sempre tem. É clichê, mas é um clássico.

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    Fonte: IMDB

    No quesito lutas, acho que elas são muito bem coreografadas, até demais, mas isso não me incomoda, eu enxergo a luta nesses filmes mais fiéis ao real do que muitos filmes de hoje em dia que tem as pessoas voando, por exemplo. Eu sou um pouco suspeita, na verdade muito suspeita, porque eu gosto do estilo de filme dessa época. Como falei anteriormente, foi uma época importante para os filmes de artes marciais, tanto que realmente deu um boom nesse gênero. E quem ocidentalizou isso nos anos 70 foi o Bruce Lee, então considero esse período muito importante para a construção desse gênero de filme e que reflete até os dias de hoje.

    O Grande Dragão Branco pode não ter o melhor roteiro ou as melhores atuações mas pra mim ele é um filme excelente, um clássico que eu ja vi milhões de vezes e não canso. Gosto do Van Damme, gosto das lutas, gosto da trilha sonora e claro que toda a ambientação em Hong Kong junto com a trilha sonora nos anos 80 é muito nostálgico e realmente me remete aos filmes de Bruce Lee.

    Atualmente o filme se encontra na Apple Tv e na Amazon Prime somente para locação. Abaixo está o trailer para vocês sentirem o gostinho de como é o filme.

  • Bodhidharma e o Templo Shaolin

    Bodhidharma e o Templo Shaolin

    O que eu vou propor hoje é sair “um pouco da caixinha” como eu sempre proponho e mostrar um outro lado sobre a relação de Bodhidharma e as artes marciais de Shaolin. Achei algumas informações importantes que acho válido escrever um artigo só sobre isso.

    Primeiros de tudo temos que enfatizar aqui que muitas fontes ignoram a história das artes marciais antes da chegada de Bodhidharma no Templo Shaolin. Acredito que o Templo teve sim sua grande contribuição e participação nas artes marciais, mas temos que levar em consideração que foi um tempo de muitas guerras e é muito provável o desenvolvimento de lutas nessa época, e nem os templos estavam isentos nisso.

    Segundo Acevedo, Gutiérrez e Cheung (2011, p.41) O Livro de Wei (Weishu) diz que vários templos foram confiscado armas, e um historiado chinês chamado Kang Gewu diz que os monges praticavam jiao li como esporte. Isso desmente a crença que os monges desconheciam sobre as artes marciais antes de Bodhidharma.

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    Bodhidharma caminha sobre um caule lançado nas águas do rio Yangtzé (Estela de Shaolin, 1624)

    Bodhidharma era um monge indiano que foi para China, no monte Song, na região de Louyang nos anos de 480 e foi ele quem introduziu o budismo Chan no país de 480- 520. Algumas obras mencionam que eles esteve na região como Registro dos Mosteiros Budistas em Luoyang (Luoyang qielan ji) de 547 e também nos Registros Preciosos das Transmissões do Dharma(chuanfa baoji), que foi escrita 2 séculos após a sua chegada, e nessa obra ele fala sobre o templo ser um lugar de meditação e onde ele formou seus discípulos do budismo Chan. Porém nenhum deles cita a relação do monge com as artes marciais.

    No Registros Preciosos das Transmissões do Dharma também conta uma história famosa em que um dos discípulos de Bodhidharma, o Huike, amputa o próprio braço e dá ao monge para provar o desapego e em resposta ele foi levada a iluminação. Na obra Registro da Transmissão da Lâmpada do Período Jing (JIng de Chuangdeng lu), de 1004, acabou romantizando essa história.

    O grande motivo de várias histórias serem atribuídas ao Bodhidharma é que os escritores chineses tem o hábito de atribuir escritos a figuras lendárias. Nesse caso, muitos textos atribuídos ao monge foram escritos anos ou até mesmo séculos após a sua morte, e muitos deles estão relacionados com Qi Gong e artes marciais. Alguns dos textos atribuídos a ele são: Metamorfose de Tendões (Yi Jin Jing), Dezoito Mãos de Luohan (Shi Ba Luo Han), Limpeza da Medula Óssea (Xishui Jing), por exemplo.

    Segundo Acevedo, Gutiérrez e Cheung (2011, p.44), existe uma lenda para a atribuição desses textos, onde Bodhidharma deixou uma caixa de ferro com todas as suas obras com seus discípulos antes de ir embora, e a única obra que teria sobrevivido é a Metamorfose de Tendões (Yi Jin Jing), que na verdade foi escrita por um monge taoísta Zhongheng do Monte Tiantai em 1624, onde ele escreveu dois prefácios que acabou falsamente atribuído aos famosos generais Li Jing (517-649) da dinastia Tang e Niu Gao (1087-1147) da dinastia Song. Mas já foi comprovado por historiadores de artes marciais que esse livro é uma mistura de lenda e fatos históricos.

    Diante de todos esses fatos é difícil achar alguma relação dele com o Kung Fu, por exemplo. Mas é fato que ele sim esteve no Templo Shaolin para levar o Budismo Chan para a China. Além dos escritos no próprio templo tem a presença de algumas estelas (pedras com escritos) que mostram a relação do monge com o Templo Shaolin. A mais antiga é de 728 e a de 798 relata o episódio com o Huike.

    A obra Registro da Transmissão da Lâmpada do Período Jing é citada na estela de Shaolin:

    Depois que nove anos se passaram Bodhidharma quis retornar ao oeste, para a Índia. Então, ele comandou seus discípulos, dizendo: “o tempo está próximo; cada um de vocês deveria dizer que alcançou”

    Nesse momento, o discípulo Daofu respondeu: “Como eu vejo, a função do Tao consiste em não se ligar em escrituras e não ser parte das escrituras”.

    O mestre respondeu: “você alcançou a minha pele”

    A freira Zongchi disse: “Meu entendimento, agora, é de que isso é algo como a alegria de ver a terra búdica de Akshobhya: reconhecível a primeira vista, não reconhecível a segunda vista.”

    O mestre respondeu: “você alcançou a minha carne”

    Dayou disse: “Os quatro elementos são, na raiz, vazios, e os cinco skandhas não tem existência; do meu ponto de vista, não há um único darma que possa ser alcançado”

    O mestre respondeu: ” você alcançou meus ossos”.

    Finalmente, Huike, depois de fazer uma prostração, apenas permaneceu em seu lugar. O mestre falou: “Você alcançou a minha medula.”

    Segundo Shahar(2011, p.12), nesse texto a expressão “você alcançou a minha medula” foi para expressar metaforicamente que ele atingiu a essência dos ensinamentos, e que mais tarde isso ganharia uma interpretação totalmente diferente como na tentativa de associar Bodhidharma a arte marcial de Shaolin associando a “medula” com o nome de uma manual secreto – O Clássico da Limpeza da Medula (Xisui Jin) – que o Bodhidharma supostamente teria dado ao seu discípulo. Nessa obra contém as ginásticas secretas que permaneceu em segredo por mais de um milênio, e no século VII ele ressurgiu milagrosamente para influenciar as artes marciais.

    A devoção ao Bodhidharma era tão grande no mosteiro de Shaolin que em 1125, época que o budismo Chan estava ganhando mais popularidade, construíram um templo à 800 metros do mosteiro em sua homenagem. No templo você pode encontrar uma grande pedra com a imagem do monge gravada, pois acredita-se que ele ficou 9 anos meditando na caverna que sua sombra ficou impressa na pedra.

    Em resumo, Bodhidharma só esteve no Templo Shaolin para levar o Budismo Chan, o que acaba enfraquecendo a história que muitos conhecem sobre ele ter influenciado nas artes marciais. Ele pode ter influenciado de alguma forma? Pode! Quem sabe outros textos e evidências não sejam achados para nos provar o contrário? Mas eu não estou aqui para dizer o que é certo ou errado, mas sim para te mostrar o outro lado da história.

  • Kung Fu Origens: Pré História – Idade de Ferro

    Kung Fu Origens: Pré História – Idade de Ferro

    O termo Kung Fu não é um registro muito comum nas escritas históricas, ele é um termo mais moderno e utilizado no século 20. Nas escritas históricas tem mais de 40 termos que fazem referência ao Kung Fu, e o mais comum deles é o “Wushu” e “Wuyi“, sendo esse último mais utilizado pois sua tradução literal se aproxima mais a palavra arte marcial.

    Já é de conhecimento que o homem pré histórico usava um pedaço de pau para se defender ou até mesmo caçar. Na China, por exemplo, na província de Yunnan, e também em outros locais, foi encontrado pinturas pré históricas que retratam a luta de homens com animais.

    Há registros na China de armas feitas de pedras como facas e pontas de lança, mais ou menos do período paleolítico. Já no período Neolítico, há estudos que as armas já foram aprimoradas, utilizando além de pedra, ossos, e ainda mais afiadas. Segundo Acevedo, Gutiérrez e Cheung (2011), na província de Yuannan, existem pinturas rupestres do Neolítico que representam caçadas nas quais se pode observar técnicas específicas de ataque, como atacar a partir de uma posição superior (zha) e atacara a partir de uma posição frontal (ci).

    Na província de Shanxi, foi encontrado indícios de uso de pedra polida  para ataque a distância, há mais ou menos 700 mil anos. Essas armas eram feiras com pedras de rios e vulcões, e algumas armas eram feitas dessas pedras amarradas em cordas que podiam até ser amarradas no braço para ser mais fácil de se achada.

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    Balestra

    Depois que essa arma caiu em desuso, veio o arco e flecha e há relatos que ela foi antecessora da balestra, um tipo de arco que atirava pedras. foi encontrado na jazida arqueológica de Miaotigou (província de Henan ), alguns resto que parecem ser de balestras.

    Com o passar do tempo as armas de caça não são suficientes para a batalha, por essa razão começa a ter o desenvolvimento de armas militares: lanças, armas de arremesso, martelos de guerra, bastão, escudo.

    Nessa época não havia escola dedicadas ao treinamento, mas esses conhecimentos eram passados de geração para geração. Nos períodos que não havia luta eles faziam  danças baseadas nos movimentos de luta, os taolus podem ter vindo dessa época.

    Nas dinastias Hsia (2070 AEC – 1600 AEC) e Shang (1600 AEC-1046 AEC) as armas eram feitas de cobre e bronze. Nessa época surgiu algumas armas que conhecemos hoje, como facão chinês (da dao), lança, adaga, e equipamentos de guerra como capacetes. As primeira escolas de artes marciais apareceram nessa época com o ensino de arco e flecha, que será bem popular e importante nas dinastias seguintes. Nessa época também houve o surgimento dos carros  de combate, que eram puxados por dois ou 4 cavalos. 

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    Carros de Guerra

    Na dinastia Zhou (1046 AEC – 256 AEC), com o aumento de treinamento militar, foi criado rotinas para treinar os soldados, e algumas delas eram acompanhadas de músicas, criando um estilo de dança militar (wu wu). Nessa época o Kung Fu era conhecido pelos termos quanyong (luta de punho) e shoupo (combate de mãos), e foi desenvolvido um sistema sofisticado com filosofias profundas, como  yin-yang, baguá e wu-xing.

    Durante o período de guerra (480-221 BCE) vários governos deram muita importância para as artes marciais, tanto que houve uma estreita relação entre o treinamento marcial e intelectual. Confúcio, por exemplo, achava importante que quem fosse da área acadêmica, também fizesse o treinamento marcial. Essa relação é bem presente no livro, que foi escrito nessa época, “A arte da Guerra” de Sun Tzu, que, para quem não conhece, fala sobre estratégias de combate e que hoje é muito utilizado no mundo dos negócios.

    Técnicas conhecidas como jiji (técnicas de luta) e xiangpo (combate interno), e tiro com o arco e lutas com cavalo foram essenciais para a formação marcial. Mas as artes marciais não era exclusivo de elites, classes mais baixas também tiveram acessos, tanto que em algumas pesquisas do historiador chinês Kang Gewu, que houve uma revolta em 841 a.C, e nesses relatos há indício de lutas armadas por pessoas comuns.

    No período da Primavera e do Outono(722 – 481 AEC), quando a China foi dividida em pequenos reinos, foi caracterizado pelo aumento da alfabetização, e também o ferro tornou-se mais barato e mais abundante que o estanho (material utilizado para a fabricação de bronze), possibilitando a criação das primeiras armas de ferro como: espada de dois gumes, facas, lanças e também acessórios militares como os capacetes. 

    E por fim, entramos na dinastia Qin (221 – 206 AEC), um período muito controverso, pois foi muito focado na busca da imortalidade. Qin Shi Huang, primeiro imperador da dinastia Qin e que deu inicio a um governo militar, foi responsável por unificar toda a China com o seu exército bem treinado derrubando todas as muralhas e exércitos, e acabando com o feudalismo. Segundo Acevedo, Gutiérrez e Cheung (2011), ordenou a destruição de todas as armas que a população possuía e seu envio para a capital para que fossem derretidas e transformadas em sinos e estátuas de bronze. Foi um governo muito rígido e burocrático, e segundo Antunes (2014), ele promoveu a primeira grande queima de livros e escritos da história da China, na tentativa de extinguir a diversidade cultural . Nessa época que foi construída a Grande Muralha, afim de delimitar as conquistas dele. Uma curiosidade, é que os Guerreiros de Terracota é justamente o exército do Imperador Huang, que foram feitos para serem enterrados junto com seu túmulo, no intuito de protegê-lo na sua vida pós morte.

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    Guerreiros de Terracota

    Ele acabou introduzindo as modalidades de shoupo (boxe) e juedi (wrestling), em que  os competidores lutavam um um lugar cercado, como esporte militar oficial nas cerimônias.  Essas duas modalidades podem ter contribuído para o inicio do boxe e do wrestling no mundo.

    Após essa dinastia Qin, entraremos na dinastia Han e na idade do Aço, onde as técnicas de artes marciais começam a ficar mais parecidas com o Kung Fu que conhecemos hoje, mas deixarei esse assunto para um novo artigo!

  • Warrior – 1ª Temporada

    Warrior – 1ª Temporada

    Em outubro desse ano de 2020 caótico vai estrear, no canal Cinemax, a 2ª temporada de Warrior, uma série baseada nos escritos de Bruce Lee encontrados pela sua filha Shanon Lee.

    A série mal estreou em 2019 e já foi renovada para uma segunda temporada, e eu vou te dizer o porquê ela mereceu ser renovada.

    A série se passa em 1878, na Chinatown de São Francisco. Uma época de grande imigração chinesa nos EUA, uma vez que a mão de obra deles era mais barata do que a de americanos ou outros imigrantes.

    O foco central da série está em torno do personagem Ah Sahm, interpretado pelo ator Andrew Koji, um imigrante chinês que chega nos EUA e que acaba se envolvendo com a famosa Guerra de Tong da Chinatown, devido a sua grande habilidade marcial. Sim, as Guerras de Tong, ou melhor a rivalidade entre as gangues chinesas de Chinatown são bem reais e bem violentas.

    Como eu falei, as Guerras de Tong foram bem violentas e a série passa muito isso. As lutas são muito bem feitas, e tem muito sangue nos 10 episódios dessa temporada.

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    Mas o que me fascinou mais na série é que eu consegui ver muito o Bruce Lee. Eu, que particularmente gosto muito do Bruce Lee, consegui enxergar ele na série inteira, e também grandes referências de seus próprios filmes.

    Primeiro, a série tem um ar meio “western”ou, no português mais claro, um ambiente mais “velho-oeste”, isso me remeteu muito na época que Bruce Lee escreveu essa série, onde os filmes de cowboys estavam muito em alta, fora que a própria série “Kung Fu”, que o Bruce Lee tentou entrar como personagem principal tinha também essa história de kung fu misturado com o Western. Mas não posso afirmar que isso foi escrito antes ou depois da série Kung Fu, as vezes pode ter sido só uma coincidência.

    Outra referência que eu já peguei de cara na primeira cena da série foi quando o Ah Sahm desembarca nos EUA. A sua postura e a roupa é igual de Bruce Lee no filme “The Big Boss” (O Dragão Chinês – 1971). O estilo de luta é igual do Bruce Lee, e dá até gosto de ver.

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    Ah Sahm interpretado por Andrew Koji

    Agora um pequeno spoiler, o personagem Ah Sahm se envolve com uma garota loira americana, e existe a questão de um chinês estar namorando uma americana. Vi muito o relacionamento do Bruce Lee com a Linda Lee.

    Na série também tem muito a questão da prostituição e do tráfico de drogas, temas muito presentes nos filmes de Bruce Lee, mas me remeteu em particular o filme “Enter the Dragon” (Operação Dragão – 1973). Talvez o próprio Bruce Lee tirou suas inspirações das histórias de seus filmes na própria Chinatown de São Francisco com as Guerras de Tong.

    Em resumo, a série me deu um pouco de nostalgia, talvez de sentir o trabalho do Bruce Lee como se ele ainda estivesse vivo. Acho que deu para perceber como eu sou fã, ou pelo menos gosto muito do trabalho dele, mas fora isso, vale muito a pena assistir a série porque a própria história te prende pelas guerras das Tong, que eu nem detalhei muito para não dar muitos spoilers já que tem muitas reviravoltas, e também pelas cenas de ação, não tem como não gostar. A série teve um bom desfecho e deixou aquela vontade de ver uma segunda temporada.

    Assista o trailer:

  • Entrevista com Michele Santos

    Entrevista com Michele Santos

    Wushu Moderno é um esporte de alto rendimento (baseado nas arte marciais chinesas tradicionais, o kungfu). Modalidade que já esta incluída nos Jogos Olímpicos da Juventude em 2022(Summer Youth Olympics), sendo temas de diversos filmes e documentários. Um dos praticantes mais conhecidos é o ator  Jet Li (Pentacampeão Chines de Wushu). 

    O blog convidou Michele Santos, atleta da Seleção Brasileira de Wushu Moderno – Taolu Esportivo para contar um pouco da sua vivência na China e sua trajetória no Wushu.

    Sabemos que o grande sonho de um atleta de Wushu Kung Fu, é um dia conhecer e treinar na China, o grande berço das artes marciais. Para a atleta Michele, este sonho foi muito além do esperado. Michele conseguiu uma bolsa de estudos na Beijing Sports University (北京体育大学), e com isto, pode fazer um mestrado em artes marciais chinesas, o Wushu.

    Acompanhe abaixo o relato da atleta e sua Vivência na China:

    Meu nome chinês é xiāo méi 萧梅。Em 2017 um dos meus ex- companheiros de Seleção Brasileira, Roque neto, que tenho com muito carinho, nos compartilhou e ajudou com a oportunidade de realizar este sonho de ir estudar na China . 

    Aprender um idioma tão difícil como o mandarim do zero, além da mudança de cultura, não é uma tarefa fácil, mas devido a nossa garra de brasileiro, não seria impossível . Incialmente me dediquei um ano para estudar e passar em provas do idioma chinês e posteriormente ingressar no mestrado de Wushu.

    E confesso que ao mesmo tempo foi estressante e desafiador. Mais com o passar do tempo a língua chinesa e o convívio transforma essa situação em algo bom e divertido, onde a cada dia é um evolução . 
    Viver na China tem muitas facilidades e situações bem confortáveis. Você pode comprar coisas e pagar de forma muito simples e rápida, com o uso da tecnologia.  Apesar de muita gente ter o conceito que chinês come comida esquisita, encontramos uma variedade de frutas, legumes, ovos, entre outras coisas com muita fartura.

    O único problema é que carne vermelha na China custa muito caro, então raramente consumimos. Hoje na China já existem várias influências de outros países, você encontra com facilidade mercados internacionais e bares. 

    Em questão de segurança, você pode transitar com tranquilidade e sem preocupações, pois roubo e assalto é rado e com isto, temos uma sensação maior de conforto e segurança. Novas amizades com pessoas do mundo inteiro, ajudam praticar e conhecer vários idiomas. 

    Mesmo sendo estudante de Wushu e representar a universidade em competições para estrangeiros, não é algo tão simples treinar nos ginásios da escola, o wushuguan (武术馆). Infelizmente a escola tem uma política muito severa de não aceitar alunos dentro desses ambientes se não for para aulas da universidade. Muitas vezes os estudantes estrangeiros e chineses, não temos aonde práticar dentro da própria escola. Ou seja, se você pensa que viver na China, esta associado com treinar Wushu facilmente, naquele tão sonhado “carpete azul”, não é bem assim!

    Mais com passar do tempo fazemos amizades com professores da escola, e vamos nos acostumando a conhecer a filosofia, métodos, e costumes e lugares. No meu caso , foi isto que aconteceu . Meu professor Duan Laoshi (段永斌), nos recebeu em uma escola fora da universidade e começou a treinar a mim e companheiros de time da seleção brasileira ( Márcio Coutinho, Gabriel Nakamura, entre outros ).

    Sou muito grata ao professor Duan (段), pois eu e meus companheiros começamos a ter uma nova concepção e entendimento de fazer Wushu . Porém, todas essas aulas são pagas no começo e com o passar do tempo os professores também nos ajudam e passam a entender sobre as dificuldades financeiras, pois treinar Wushu na china não custa barato. 

    Pela Beijing Sports já participei de várias competições e apresentações , sou muito grata a escola por oferecer esta oportunidade . E por fim, esta experiência na China tem sido algo inovador, e certamente ficará gravado na minha vida para sempre. Eu sou muita grata a Deus e as pessoas que participaram e participam desse momento na minha vida . E espero que outras pessoas possam ter cada vez mais conhecimentos e experiências como as minhas e possam realizar os seus sonhos.

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    Michele em Competição da Beijing University

    Trajetória no Wushu

    1– Por que vc começou a treinar Wushu-kung fu?

    Michele Santos : Desde da minha infância eu demonstrava interesse e aptidão por práticas esportivas. Durante minha fase escolar prátiquei vários desportos. Porém, sempre fui encantada com esportes de apresentações e alta plasticidade tais como : balé, ginástica artística , ginástica rítmica entre outros . Aos meus 15 anos de idade eu conheci o Wushu, e foi então amor à primeira vista .O motivo de eu ter escolhido e começado a treinar Wushu, foi porque dentro dele eu tinha tudo que mais me encantava e apreciava dentro de uma modalidade esportiva. E com o passar dos anos eu entendia que Wushu para mim não representava “só  esporte”… e  sim estilo e filosofia de vida , e por fim um chamado e missão destinado a mim. 

    2- Quando entrou para a Seleção Brasileira?

    MS: Eu me tornei membro da seleção brasileira de Wushu taolu no ano de 2012.

    3- Qual seu principais títulos? De todos qual o mais especial?

    MS: Eu conquistei títulos nacionais e internacionais. Sou campeã brasiliense , brasileira , 2 x campeã panamericana, 2x campeã sulamericana, 3º lugar no campeonato Internacional Brics Games e 2 participações em campeonatos mundiais. Para mim, todas minhas conquistas e derrotas tem um nível alto de importância, pois foi aonde aprendi e continuo aprendendo muitas coisas. 

    Porém, no panamericano de 2016 nos EUA, tem um significado especial para mim. Um ano atrás (2015) eu perdi meu pai. Ele era militar e faleceu voltando de missão. E naquele ano eu entrei com meu coração e mente destinado a honra tudo que ele representou e representa na minha vida de atleta e também como ser humano . Eu lembro que no pódio eu fiz um sinal de gratidão a ele . Então, este momento está registrado na minha mente com muito carinho e fidelidade ao um dos grandes semeador dos meus sonhos, meu pai .

    4- Qual a sensação de representar o seu pais em Mundial ? 

    MS:A sensação de representar um esporte de um país é um momento único, incrível e desafiador . Eu me sinto muito grata a Deus , por destinar a mim, e outros companheiros do time do Brasil esta missão. Porque através do nosso trabalho escrevemos a história do esporte no nosso país , e isso é único. Nada e ninguém pode tirar.

    5- Voce ja teve lesão? Qual o sentimento e como foi a recuperação?

    RF:Eu já tive mini lesões causadas pelo treinamento. Eu e meu treinador  (Márcio Coutinho), sempre tivemos o cuidado e discernimento do valor do preparo físico e dos métodos de  prevenção a lesão e recuperação pós treino. Mesmo sem apoio financeiro nós sempre procuramos nos orientar e tentar fazer o melhor, e isto tem me ajudado muito a me manter protegida de lesões sérias . 

    Porém, um dos piores momentos que as lesões se manifestaram foi durante meu primeiro mundial na Rússia. Meu tornozelo estava inchado e doendo muito, causado pelos nandus. Eu me sentia tão preocupada e amedrontada que contribuiu muito para desprogramar meu mental , e me levando a uma apresentação que não correspondia a quem eu queria e tinha preparado para ser naquela competição . A prevenção de lesões e algo muito importante e seria. Porém, um atleta mentalmente preparado, torna ele um  indivíduo mais qualificado e preparado para qualquer coisa, inclusive saber lidar com o medo e as dores da lesão

    6- Ja pensou em desistir do wushu?

    MS: Em algumas fases, eu já pensei em desistir da minha vida de atleta . Do wushu não, ele ja está enraizado. Em algumas momentos eu sentia que eu trabalhava, colocava tanto fisicamente e mentalmente meu esforço e muitas das vezes o felling de volta, que meu trabalho era de menos. E eu me sentia desvalorizada. E isso me fazia refletir fortemente em desistir da minha carreira de atleta . Contudo, meu elo com Deus e pessoas que trabalham comigo (técnico, alguns amigos e família ) me ajudaram a superar e trabalhar cada vez mais. Porém,  com outras perspectivas  é tentar tirar aprendizados. Ainda estou em aprendizado com isto .

    7- Na sua opinião, o que precisa para se tornar um bom atleta?

    RF:Eu acredito que ter sucesso em algo não existe uma fórmula ou receita. Ter sonhos é importante, eles nos mantém vivos , mais sonhar por sonhar pode te levar ao fracasso e desilusões . Meu conselho baseado nas minhas experiências é: construir metas e planos bem sólidos com você e com pessoas que acreditam no seu trabalho, e trabalhar fielmente nisso dia após dia . Isto com certeza te levará a bons frutos ou boas experiências.  

    8- Quais seus ídolos no wushu? 

    RF:Um dos meu grandes ídolos no Wushu, e meu técnico e companheiro de Seleção Brasileira, Márcio Coutinho . Apesar da pouca idade, meu técnico sempre foi alguém que eu poderia dar vários adjetivos incríveis. Eu sou muito grata , e espero um dia retribuir e ser como ele, para outras pessoas que vivem pelo Wushu como nós. Como atleta ele sempre me inspira a buscar o máximo de excelência tanto tecnicamente, fisicamente e como ser humano . 

    9- Qual conselho voce daria para quem esta iniciando no wushu?

    MS:Como eu citei anteriormente, um dos conselhos para as futuras gerações é: Viva o seu momento, viva os seus sonhos, mais sonhos baseados em metas e planos sólidos . E o mais importante, após traçar seus objetivos, e procurar meios de evolução/excelência constantemente (tecnicamente, fisicamente e mentalmente). Trabalhefielmente dia a pós dia. E então com certeza seus sonhos podem se tornar realidade.

    Gostaria de compartilhar uma frase bíblica que meu pai me ensinou e sempre uso ela para me fortalecer : ”combati o bom combate”. Então, as futuras gerações eu desejo que vocês trabalhem duro e façam o bom combate internamente, sua disputa é com si mesmo. Jiayou!!!

    10- Qual o seu sentimento pelo wushu?

    MS:Esta é uma pergunta um tão pouco extensa para mim… mais em resumo, o Wushu se tornou uma filosofia de vida para mim. Ao decorrer desses 13 anos, eu tenho aprendido e aplicado muitas coisas em prol do meu elo com o Wushu . Cada vez que estudo e prático o mesmo, entendo o quanto e profundo e difícil, mais isto não me desanima, e sim me torna cada vez mais inspirada para estudar e aprender.  Sou muito grata a Deus por ter me dado a oportunidade de conhecer e estar aprendendo algo tão incrível que é o Wushu .