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  • Jet Li (李连杰)

    Jet Li (李连杰)

    Jet Li, ou Li Lianjie (nome de batismo), nasceu dia 26 de Abril de 1963, em Beijing na China. Ele era o caçula de cinco filhos, e a vida de sua família não foi fácil depois da morte de seu pai, quando ele tinha dois anos.

    Em 1971, quando tinha oito anos ele se matriculou na escola Beijing Amateur Sports, onde começou a estudar Wushu em um programa de verão. Ele foi um dos poucos estudantes que continuaram o treino depois desse programa, e nessa época já era visível o talento que ele tinha para artes marciais, seus treinadores Li Junfeng e Wu bin foram os que mais se esforçaram para ajudar a aprimorar suas técnicas. Jet li atingiu um nível tão bom, que aos nove anos ele ganhou um prêmio de excelência no Campeonato Nacional de Wushu. Devido sua grande habilidade e velocidade no Wushu, seu apelido virou Jet, e que acabou dando origem ao seu nome artístico.

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    Jet Li e o Time de Wushu

    Wu Bin teve um papel importante para a vida de Li, pois após a morte do pai, ele e sua família viveram na pobreza, e Bim chegou a comprar carne para o Jet Li e para a família, até porque a alimentação era muito importante na vida de um atleta.

    Em 1974, ele ganhou seu primeiro campeonato nacional, e acabou fazendo uma turnê mundial para fazer algumas apresentações, e uma delas é muito conhecida onde ele se apresenta para o Presidente Richard Nixon, na Casa Branca dos EUA. O presidente dos EUA até o chama para ser seu guarda costas pessoal, e o pedido foi negado por Li.

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    Jet Li e Presidente dos EUA Richard Nixon

    Quando ele tinha doze anos ele sofre um pequeno acidente em um campeonato, os Jogos Nacionais da China, cortando sua cabeça com o seu Facão (Dao), mas isso não impediu que ele ficasse em primeiro lugar. Ele era muito talentoso a ponto de ganhar um título, em 1979,  de Campeão Nacional de Wushu na China.

    Meu primeiro lugar me causou uma grande sensação porque eu era muito jovem. Eu tinha 12 anos, e os outros dois medalhistas tinham entre 20 e 30 anos. Durante a cerimônia de premiação, enquanto eu estava no topo do pódio, eu era ainda pequeno do que o segundo e o terceiro lugar. Deve ter sido uma visão e tanto.

    Jet Li China’s Internet Celebrity

    Alguns estilos de wushu que o Jet Li é especialista: Chang Quan (punho longo do Norte) e Fanzinquán. Outros estilos e acabou estudando como Baguazhang, taijiquan, Xing Yi Quan, Zui Quan (Estilo do Bêbado), Ying Zhao Quan (Garra de águia)e Tanglangquan (Louva-a-deus). Ele também tem grande habilidades em algumas armas como Sanjiegun (bastão de 3 seções), Gun (Bastão longo de Wushu), Dao (Facão), jian (espada reta).

    Aos 18 anos, Jet li decidiu se aposentar do Wushu, depois de uma lesão no joelho, mas ele continuou sendo assistente de treinador do time de Beijin de Wushu por alguns anos.

    Li decide seguir sua carreira no cinema, e em 1982, saiu o filme Shaolin Temple, e foi um sucesso na China, e logo ele já virou um astro. O filme fez tanto sucesso que ele acabou filmando mais duas sequências. Em 1986, ele se aventurou em dirigir um filme, o Born to Defend (Nascido para Vencer), mas não fez muito sucesso.

    Em 1987, Jet li se casa com a estrela do filme Kids from Shaolin, e também membro o time de wushu de Beijing, Huang Qiuyan, com quem teve duas filhas, mas se divorciaram em 1990.

    Em 1988, ele decidiu ir para os EUA para tentar uma carreira de sucesso no país, mas ele conseguiu nenhum grande papel, até porque ele não tinha um inglês muito bom. Jet Li acaba indo para Hong Kong, e nessa época os filmes de  kung fu estavam no auge, e ele consegue um grande papel, em 1991, em Once Upon A Time in China (Era uma vez na China) interpretando o Wong Fei Hung e nos filmes do Fong Sai-Yuk.

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    Jet Li como Fong Sai Yuk (1993)

    Outros filmes muito conhecidos desse período foram Tai Chi Master (Batalha de Honra – 1993); Fist of Legend (Lutar ou Morrer – 1994) que foi um remake do clássico do Bruce Lee, Fist of Fury (Dragão Chinês); e claro que tem muitos outros títulos que para uma fã como eu já vi vários, mas tentei deixar os mais relevantes.

    No meio da década de 90, foi um período conturbado para o cinema chinês, essa influência negativa no cinema veio da má fase da economia asiática e também de algumas coisas da China Comunista.  Isso deixou Jet Li cansado preparado para se aposentar. Ele acabou focando bastante na sua vida espiritual estudando Budismo Tibetano, mas seu mentor disse para ele continuar no seu trabalho.

    Logo Jet Li conseguiu um papel em um filme americano, Lethal Weapon 4 (Máquina Mortífera 4), para interpretar o vilão do filme, com Mel Gibson e Danny Glover no elenco. Nessa época, ele se mudou para Los Angeles e faz um intensivo de inglês para fazer o filme. Foi o grande salto na carreira do Jet Li, que ficou muito conhecido na América, e muitos dizem que ele foi o grande destaque do filme. Seu próximo sucesso americano foi Romeo Must Die (Romeu Tem que Morrer), uma adaptação urbana da obra de Shakespeare, Romeu e Julieta. Jet Li foi muito elogiado pela revista Time, e o filme arrecadou $100 milhões.

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    Jet Li com Danny Glover e Mel Gibson em Máquina Mortífera 4 (1998)

    Em 1999, ele se casa com Nina Li, uma atriz de Hong Kong, com quem teve mais duas filhas. E em uma entrevista ele disse que recusou o papel de Li Mu Bai, que foi dado ao Chow Yun-Fat, do sucesso Crouching Tiger, Hidden Dragon (O Tigre e o Dragão), pois ele havia prometido para a sua esposa que não aceitaria nenhum trabalho quando ela engravidasse. Além desse trabalho, ele recusou outros papeis como interpretar o Seraph na trilogia de Matrix, pois ele acreditava que o papel não precisaria das suas habilidade e que o filme já era icônico e impressionante para colocar o nome dele no elenco. O nome de Li também estava no elenco do remake de The Green Hornet, para interpretar Kato, nos anos 2000, mas houve mudanças de estúdio em 2001, e quando o filme foi pra frente isso era só em 2011 e o papel já ficou com o ator Jay Chou.

    Depois do nascimento da sua filha, Jet Li já viajou para Paris para gravar Kiss of the Dragon(O Beijo do Dragão), onde ele interpreta um policial que luta contra a corrupção na polícia francesa. Esse filme foi dirigido e produzido por Luc Besson com Bridget Fonda no elenco. Foi outro grande sucesso de ação, porém Jet Li postou uma nota falando que a classificação indicativa do filme era alta e não era apropriado para crianças, e que o próximo filme, The One (O Confronto) seria mais indicado para a família.

    The One chegou em 2001 e não foi muito bem aceito pela crítica. Nesse filme Jet Li interpretava dois personagens, um era bom e outro era o “do mal”. Depois desse filme, ele volta para a China para fazer o filme Hero (Herói), que saiu em 2002, do diretor Zhang Yi Mou, interpretando o papel de um guerreiro na China antiga. O filme fez muito sucesso, chegando a ganhar $17.8 milhões na primeira semana, um record para um filme asiático. Além disso, o filme concorreu concorreu ao Oscar de Filme estrangeiro em 2003.

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    Jet Li em Herói (2002)

    Em 2003, depois do sucesso de Hero, Jet Li deu a voz e também fez algumas cenas de luta para o jogo do PlayStation 2, Rise to Honor e também participou do filme Cradle 2 the Grave (Contra o Tempo), do mesmo produtor de Romeu Must Die (Romeu tem que Morrer), e em 2005, fez o filme Unleashed (Cão de Briga).

    Jet Li é muito ligado com a espiritualidade, medita pelo menos 1 hora por dia, e ele sempre olhou seu trabalho como uma forma de mostrar a filosofia do budismo pelas artes marciais para os americanos. Mas em uma entrevista para o Men’s Health, ele disse que estava triste que as pessoas só davam importância para as lutas.

    Sempre que eu trabalho nos EUA, as pessoas mais jovem falam ‘Yeah Jet Li! Você chuta (bunda), blá, blá, blá’. Às vezes me sinto triste, porque eu só mostrei para eles que artes marciais machucam pessoas. Eu não tive a oportunidade de mostrar para eles que a coisa mais importante não é chuta (a bunda) de pessoas. Se você entende a cultura ocidental e oriental, você vai entender o equilíbrio do Yin-Yang. Talvez voce cresça. A arte marcial tem três níveis, o primeiro é físico, fazendo seu corpo uma arma; o segundo é usando a psicologia para ajudar nas batalhas; e o terceiro é alcançar a paz interior.

    Jet Li

    A espiritualidade é tão presente em Jet Li que ele chegou a passar 3 meses no Tibet estudando Budismo. E uma entrevista ele conta que não teme a morte e que pensamentos como esse fazem com que viver o presente seja mais precioso. Esse fortalecimento espiritual faz com que ele também consiga lidar bem com o sucesso e o fracasso.

    Jet Li estava nas Ilhas Maldivas quando houve uma tsunami no sul da Ásia, em dezembro de 2004. Ele e sua filha de quatro anos estavam no lobby do hotel quando a onda veio. Ele acabou machucando seu pé quando ele tentava correr para se salvarem. Logo depois ele posto uma mensagem falando que ele estava bem e incentivou as pessoas a ajudarem os sobreviventes da tsunami.

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    Jet Li em o Mestre das Armas (2006)

    Em 2006, ele foi estrela do filme Fearless (O Mestre das Armas), interpretando o famoso Huo Yuanjia e nessa época ele falou que seria seu último filme de Wushu. O filme foi um sucesso de bilheteria nos EUA chegando em segundo lugar no primeiro final de semana.

    Eu entrei no cinema de artes marciais quando eu tinha apenas 16 anos. Eu acho que eu provei minha habilidade nesse campo e não faria sentido para mim continuar por mais 5 ou 10 anos. Huo Yuanjia é a conclusão para a minha vida como uma estrela de artes marciais.

    Jet Li

    Apesar de declarar seu o seu último filme de Wushu, ele disse que continuaria fazendo filmes de outros gêneros. Ele planejou continuar atuando em filmes de artes marciais onde ele lidaria mais com questões de religião e filosofia.

    Em 2007, ele fez o filme War com o Jason Statham, mas foi um fracasso de bilheteria nos EUA, comparado com grandes sucessos como Kiss of the Dragon, Unleashed, e até mesmo Fearless. No final desse ano ele retornou para a China e participou do filme The Warlords com o Andy Lau e Takeshi Kaneshiro, um filme mais denso e dramático onde ele recebeu o prêmio de melhor ator no Hong Kong Film Award.

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    Jackie Chan e Jet Li nos bastidores de O Reino Proibido (2008)

    Jackie Chan e Jet Li finalmente fazem um filme juntos em 2008, The Forbidden Kingdom (O Reino Proibido), baseado na lenda chinesa do Rei Macaco. Também nesse ano ele fez o vilão, Imperador Han, no filme The Mummy: Tomb of the Dragon Emperor (A Múmia: a Tumba do dragão Imperador) ao lado de Michelle Yeoh e Brendan Fraser.

    Longe dos dos cinemas, em 2009, Jet Li lançou seu programa de exercícios físicos chamado Wuji. Esse programa é uma mistura de artes marciais, yoga e pilates. Em 2011, ele e Jack Ma criaram o Taiji Zen, um programa online combinando o Taijiquan e práticas de meditação.

    Depois de uma janela sem aparecer nos cinemas, Jet Li aparece nos cinemas com o filme The Expendables (Os Mercenários), em 2010, com um grande elenco dos filmes de ação. Esse filme ganhou sequência em 2012 e 2014. Na China, em 2011, ainda participou de algumas produções de Wuxia (um tipo de gênero de filme que envolve fantasia e artes marciais) como The Sorcerer and the White Snake e Flying Swords of Dragon Gate . Uma das suas últimas produções recentes é o Live-Action de Mulan, que estreou em 2020 na Disney, onde ele interpreta o imperador da China.

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    Jet Li (direita)

    Uma das últimas noticias que chocaram os fãs foi uma foto publicada em 2018, em que o ator parece muito debilitado e envelhecido. Na verdade ele sofre de hipertireoidismo desde 2010, uma doença que pode acelerar seu coração mesmo em repouso e mudar o metabolismo do corpo. Devido a isso ele não pode exercícios físicos excessivos. Mas, segundo ele, seu sumiço nos cinemas não foi por conta de sua doença, mas por conta de seus trabalhos filantrópicos, onde ele é muito engajado.

  • Bastão de Shaolin

    Bastão de Shaolin

    Temos certeza que os monges de Shaolin são especialistas na arte do bastão, mas suas informações e registros vem em forma de lendas.

    A primeira lenda é sobre os rebeldes, conhecidos como “Turbantes Vermelhos” (紅巾起義), tentaram atacar o Mosteiro de Shaolin, mas foram impedidos de atacar pelo Jinnaluo, ou em sânscrito Vajrapani, que tornou-se um gigante armado com um bastão, que acabou espantando os rebeldes.

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    Estela de Vajrapani (Narayana) de 1517 pelo abada Wenzai. O guerreiro está segurando um bastão.

    Vajrapani é um Bodhidattva protetor de Buda, que segundo a lenda, estava reencarnado em um modesto monge que trabalhava nos fornos carregando lenha. Existe várias versões sobre essa história, e a mais antiga registrada é a estela de 1517, com autoria do abade de Wenzai (1454 – 1524), A Divindade Narayana Protege a Lei e Expõe Sua Natureza Divina (Naluoyan shen hufa shiji):

    No vigésimo-sexto dia do terceiro mês do décimo-primeiro ano (xinmao) do período Zhizheng (22 de abril de 1351), na hora si (entre 9 e 11 horas da manhã), quando o levante dos Turbantes Vermelhors  (Hongjin) em Yingzhou [na atual Anhui ocidental] acabara de se iniciar, uma multidão de saqueadores chegou no mosteiro. Havia um santo (shengxian) em Shaolin, que até então tinha trabalhado na cozinha do mosteiro. Por vários anos, ele dedicadamente carregara lenha e conduzira o fogão. Seu cabelo era desgrenhado e ele estava sempre descalço. Vestia apenas suas calças e seu tronco estava sempre descoberto. Da manhã até a noite dificilmente pronunciava uma palavra, nunca chamando atenção de seus irmãos monges. Seu sobrenome era o nome de seu local de nascimento e seu primeiro nome era desconhecido. Ele cultivava constantemente todas as atividades de iluminação (wan xing).

    No dia que os Turbantes Vermelhos chegaram no mosteiro, o bodisatva empunhava um atiçador de fogo (huogun) e se manteve magistralmente sozinho no topo do destacado da colina. Os Turbantes Vermelhos ficaram horrorizados com sua imagem e fugiram, quando, então, ele desapareceu. As pessoas procuraram por ele, mas nunca mais foi visto. Apenas, então, as pessoas se deram conta de que era um Bodisatva expondo sua natureza divina. Desde então, se tornou o protetor das leis de Shaolin (hufa) e ocupou o lugar do “espírito guardião” do mosteiro (qielan shen).

    SHAHAR, 2008, p.121
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    Vajrapani sobre o Monte Song. Acima está o Bodisatva Avalokitesvara, de quem ele é considerado a reencarnação.

    Porém, essa versão é contestada pelo historiador Tang Hao, em Shaolin quanshu mijue kaozheng (p.55-62.), em que ele conta que o ataque aconteceu em 1356, e não em 1351, e que o mosteiro foi saqueado e parcialmente destruído. Esse fato é confirmado no em duas inscrições do século XIV, onde é comemorado a reconstrução do mosteiro nos primeiros anos da dinastia Ming e também há registros de dois epitáfios de 1373, sobre dois monges de Shaolin que viveram nesse período.

    Segundo Shahar (2008, p.132), os monges budistas impunham suas técnicas de combate às divindades budistas, pois ampliava o prestígio das técnicas de combate de Shaolin. Afirmar que certo método de combate possui origem divina, equivale a garantir-lhe a existência como objeto de veneração. Shahar (2008, p.132) também destaca para o fato que as divindades marciais como o Vajrapani livram os monges de suas responsabilidades pela criação de técnicas militares. Suas lendas, em relação a tal questão, poderiam ser lidas como apologias budistas à prática da violência pelos monges.

    Mas há estudiosos que reconhecem a característica defensiva do bastão, e como seu propósito não é de ferir ou matar ninguém, eles acabam justificando a arma como preferida dos monges budistas. Segundo Shahar (2008, p.149), isso é exemplificado por Cheng Dali:

    O bastão não é um instrumento afiado e, além disso, é feito de madeira. Seu poder de matar ou ferir é muito menor que o do facão, da espada e de outras armas afiadas de metal. Evidentemente, o uso do bastão de madeira é relativamente apropriado à condição de discípulos budistas, para quem o uso das artes marciais é permitido apenas visando objetivos limitados.

    Zhongguo Wushu, p.96

    Esse argumento acaba perdendo força em algumas literaturas militares, ficções e dramas, quando os bastões passaram a ser produzidos com ferro, se tornando uma arma letal, que era capaz de levar a morte. Esses bastões foram usados até por monges budistas em operações militares, que foi descrito por Wu Shu (1611-1695) em Registro de Armas (Shoubi lu, 1678).

    A forma de bastão não era limitado somente ao mosteiro, mas o exército do período Ming tardio já via a importância da arma para o treinamento militar. O general Yu Dayou utilizava o treinamento do bastão também para introdução de outros meios de combate, como facão e lança, por exemplo.

    Há relatos que por volta de 1560, Yu Dayou fez uma visita no Templo Shaolin para avaliar as técnicas de bastão pelos monges. Foi feita uma apresentação por 10 monges, e no final o general ficou descontente com o que viu e chegou a fazer uma demonstração com a sua técnica. Os monges pediram para que ele ensinasse suas técnicas, mas ele disse que precisaria de anos para aprender. Dois monges, Zongqing e Pucong, acabaram acompanhando o general e depois de três anos retornaram para o templo para passar seus conhecimentos.

    O bastão não era só de domínio dos monges budistas, mas a literatura ficcional e as lendas populares acabaram associando isso a eles, o que não significa que eles são os únicos que dominavam a técnica na época.

    Um dos primeiros registros sobre as técnicas de combate no templo Shaolin, foi o Livro da Disciplina Eficaz (Ji Xiao Xin Shu, c. 1562) escrito no século XVI. O contexto desse registro era na época que chineses e japoneses estavam atacando o leste da China, onde o general Qi Jiguang (1528-1588) escreveu os métodos de combate mais eficientes de formas de mãos livres e armas, onde ele cita sobre o bastão de Shaolin, que acabou não desenvolvendo muito sobre elas, e acabou dando ênfase as técnicas do General Yu Dayou. Nesse manual, Qi não fala de mais nenhuma técnica de mãos livres de Shaolin, e segundo Acevedo, Gutiérrez e Cheung (2011, p.48), na opinião de Stanley E. Henning, esse fato pode ser explicado de diversas maneiras: o templo de Shaolin não havia desenvolvido técnicas de combate sem armas dignas de ser mencionadas; Qi não considerou as técnicas de luta de mãos vazias de Shaolin fossem eficazes; ou ainda as técnicas de lutas sem armas de Shaolin eram as mesmas que se praticava fora do templo.

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    khakkhara

    Antes mesmo do bastão ser utilizado como arma, ele era um objeto obrigatório dos monges budistas. Porém ele era um pouco diferente, pois tinham argolas em suas pontas. Seu nome em sânscrito é khakkhara, em chinês foi traduzido como xizhang. Segundo Shahar (2008, p.150), a palavra “xi”, que significa estanho ou latão, talvez se refira ao metal com o qual as argolas eram feitas, ou uma onomatopéia referente ao som que as argolas produziam.

    Fayun (1088-1158) fez uma análise sobre o nome xizhang, e percebeu a importância do som, que seria, primeiro para ajudar a espantar animais peçonhentos, segundo para avisar o proprietário de uma casa sobre a presença de um monge, e por ultimo o bastão pode somente servir como apoio a monges velhos e doentes em suas jornadas.

    No geral, é difícil apontar suas origens, mas pode-se dizer que por ser um utensílio obrigatório de um monge, eles abaram o transformando em uma arma, mas não podemos negar que ele teve um papel muito importante na história de Shaolin e acabou influenciando várias lendas a seu respeito.

  • Estilo Mizongyi (迷蹤藝)

    Estilo Mizongyi (迷蹤藝)

    Vimos na matéria sobre Huo Yuanjia, que sua família praticava o estilo Mizongyi, e ele mesmo popularizou o estilo em 1901, no período em que a China estava sendo dominada por tropas imperialistas. Mas como é esse estilo? Quais suas características?

    Mizongyi (迷蹤藝), também conhecido como Mizongquan (迷蹤拳) ou Yanqingquan (燕青拳), é um estilo de kung fu que traz muita agilidade, mobilidade e movimentos que enganam o oponente, com pés que se entrelaçam com chutes variados e muitos saltos.

    É um estilo externo com influências do estilo interno. No aspecto externo, tem características da família dos Punhos Longos e do Shaolin do Norte, no aspecto interno, tem influencias do Tai Chi Chuan e Baguazhang.

    É possível identificar a influencia do estilo Shaolin do Norte na versatilidade dos seus ataques. A grande mobilidade do estilo gasta muita energia, e com a influencia dos estilos internos ele consegue compensar isso.

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    A técnica mais conhecida do Mizongyi é o Fa Jing, que é uma descarga de energia explosiva que vem do estilo interno de Hsing I ao estilo Chen de Tai Chi combinado com o encaixe do estilo externo de Punhos Longos de Shaolin. Essa combinação traz a capacidade de gerar força rápida e flexível a qualquer distancia através de uma produção de energia eficiente de vários lugares do corpo. Os chutes e socos são rápidos no impacto, que trazem força e potência. Esse estilo não é recomendado para quem tem problemas cardíacos, e recomenda-se que o praticante tenha um nível técnico intermediário para aprender o estilo em sua essência.

    Além de ser ume estilo com auto defesa muito eficaz, muitos utilizam o aprendizado do estilo para fortalecer o sistema imunológico, uma vez que que ele tem vários benefícios medicinais.

    O estilo se popularizou a partir de 1901, com o Mestre Huo Yuanjia. Dizem que seu pai, Huo Endi, era sucessor da 6ª geração do estilo. Nos dias atuais, o estilo se tornou raro e não tão popular como os outros estilos, mas foi mostrado brevemente no filme “Fearless”(2006), do Jet Li, onde conta a história de Huo Yuanjia.

    O Grão mestre Ye Yu Ting comandou o estilo no século XX até sua morte em 1962, aos 70 anos. Na década de 60, seus alunos, Chi Hung Marr, Raymond K. Wong e Johnny Lee foram para os EUA, Hawaii e Canadá para ensinar o sistema.

    Na Inglaterra, o sistema continuou sendo ensinado como base em alguns estilos como Hsing I Ch’uan dentro da tradição Yue Jia Ba Shao. Nessa linhagem o estilo Mizong era ensinado mais para as crianças, pois os aspectos técnicos internos são menos sofisticados, ou mais externos, do que o Hsing I.

    Sobre quem fundou o estilo, há registro que foi criado por Yue Fei, mas pesquisando sobre o assunto não achei evidências que ele foi o criador do estilo.

    Não se sabe ao certo de onde veio, mas todas as versões aqui colocadas são apenas algumas das várias histórias que tentam explicar a sua origem. Porém, as pessoas que montam a várias linhagens chegam em um ponto em comum: Mestre Sun Tong, nascido na província de Shandong, em 1722.

    Uma das histórias, dizem que o estilo Mizongyi foi criado por um monge no Templo Shaolin chamado Lu Junyi, que uniu as técnicas de Shaolin com o Neigong. Diz a lenda que o monge era muito habilidoso, mas em contra partida ele não queria treinar nenhum discípulo. Porém um jovem, Yan Qing, foi trabalhar na casa de Lu e começou a espioná-lo e treinar secretamente. Até que um dia durante o trabalho, ele e seus companheiros foram atacados por bandidos, e Yu teve que defender a todos. Depois do episódio, Lu acabou o aceitando como discípulo. Esse estilo acabou sendo chamado de Yanquinquan, em sua homenagem, pelos vários seguidores que ele conseguiu. Mas logo mudaram o nome para Mizongquan, ou seita secreta do boxe, quando viram que Lu Junyi e Yan Quan estavam sendo perseguidos pelas autoridades. Nesta fuga, há relatos que, para não serem capturados, eles levaram as tropas em labirintos e trilhas falsas. Devido a esse evento que surgiu o nome Mizongyi, que significa “Punho da Trilha Perdida”, mas também tem uma alusão das características do estilo, que tem movimentos que enganam o oponente.

    Outra versão diz que o monge shaolin Qin Naluo observou uma luta entre macaquinhos e se impressionou com a fluidez dos movimentos, chamando o estilo de Nizong Quan “punho tribais de animais”, e acabou se tornando Mizong Quan devido a pronuncia.

    Outra lenda diz que dois guerreiros da dinastia Tang chamados de Yan Qing, que não é o mesmo da história anterior, e Chen Zhijing, foram parar o templo Shaolin e dentro do mosteiro desenvolveram o estilo que chamaram de Mizong Quan, ou “seita secreta do Boxe”

    Atualmente, um dos principais nomes do estilo é Huo Jinghong. Ela começou a praticar com cinco anos de idade, e é bisneta de Huo Yuanjia. Um texto interessante sobre a vida da Huo Jinghong está neste link.

    A TV chinesa CGTN publicou em maio de 2019 uma breve matéria sobre ela, que vocês podem conferir em texto aqui ou no vídeo abaixo.

    Não leu a matéria sobre o mestre Huo Yuanjia? Clique na matéria abaixo que ela pode te interessar!

    HUO YUANJIA (霍元甲) – 1860 – 1910

  • Câmara 36 de Shaolin

    Câmara 36 de Shaolin

    Um dos filmes mais importantes os estúdios Shaw Brothers, se não o mais importante, a Câmara 36 de Shaolin vem para mudar um pouco o estilos de filmes de kung fu da época. 

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    Lançado em 1978, a Câmara 36 de Shaolin conta a história de San-Te (Gordon Liu), uma lenda na história das artes marciais, que foi para o Templo Shaolin após seus amigos e familiares serem mortos pelo exército Manchu. Afim de buscar vingança, San Te tem que passar por 35 câmaras para aprender todas as técnicas de kung fu e virar monge. 

    Eis que vem algumas contradições do filme, um monge que busca vingança e quer ensinar kung fu para a população, o que vai contra as leis do mosteiro. Algumas coisas ficam em aberto, talvez o foco mesmo é nas artes marciais. Mas isso é o de menos, se comparado com o que o filme foi para época.

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    Em termos das artes marciais, ele não deixa a desejar. Acredito que nenhum outro filme de kung fu, talvez ele seja o primeiro, a mostrar um elenco, em sua maior parte, de monges, mostrando um pouco de como que é o Templo Shaolin e como é o seu treinamento, que na época ninguém sabia sobre, contribuiu muito para que ele se tornasse um dos maiores filmes de kung fu.

    A maior parte da história se passa no mosteiro, e é, sem dúvidas, a melhor parte. Ele é carregado de persistência e superação de um personagem que não sabia absolutamente nada de artes marciais. A cada câmara que San Te passa, você fica curioso para saber quais os desafios que ele vai encontrar pela frente. 

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    De uma maneira geral, a Câmara 36 de Shaolin é um filme indispensável para quem gosta de kung fu. A parte das lutas, como sempre, muito bem feitas e o personagem de Gordon Liu te cativa de alguma forma. Não é a toa que é um dos principais personagens da carreira do ator.

    Assista ao trailer:

    FICHA TÉCNICA:
    Título: A Câmara 36 de Shaolin
    Título Original: The 36th Chamber of Shaolin/ Shao Lin san shi liu fang/ Disciples of Master Killer/ Master Killer/ Shaolin Master Killer
    Ano: 1978
    Diretor: Lau Kar-leung
    Elenco: Gordon Liu, Lo Lieh, John Cheung, Norman Chu, Chia Yung Liu
    Gênero: Artes Marciais, Ação, Drama, Histórico

  • Templo Shaolin – Origem

    Templo Shaolin – Origem

    Para entender um pouco da história do templo, podemos começar a entender o significado de seu nome. 

    Shaolin = Shao se refere ao Monte Shaoshi e Lin se refere a pequena floresta que tem em torno do templo. O nome já nos diz mais ou menos a sua localização.

    Localizado na província de Henan, o Monte Shaoshi é uma das montanhas que fazem parte do Monte Song, e que teve uma grande importância religiosa. O monte foi um local de peregrinação taoísta, e com a chegada do budismo na China, os missionários perceberam o potencial do local.

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    Monte Song

    O budismo cresceu muito no país e teve muitos financiadores. O primeiro foi Xiaowen (reinado de 471-499), em 495 d.C, que transferiu a capital da sua dinastia para Luoyang, local próximo de onde foi construído o Templo Shaolin, e deu fundos para o monge indiano Batuo, também conhecido como Fotuo, construir o templo. 

    Mas teve uma figura que se destacou nessa história, e ajudou muito a aumentar o carisma do Templo Shaolin: o monge Bodhidharma.

    Há muitas histórias a respeito dele, e apesar de ser considerado um dos fundadores e doutrinadores da escola Chan, muitos historiadores  o consideram como uma lenda. 

    Bodhidharma
    BodhidharmaUkiyo-e woodblock print by Tsukioka Yoshitoshi, 1887.

    Relatos sobre a vida e obra do Bodhidharma são muito contraditórios. Algumas obras citam que o monge teria 150 anos e que viria da Pérsia(Irã). As obras relacionadas a ele misturam muita realidade com ficção, algumas com prefácios falsamente atribuídos a generais. No geral, a maioria deles só relacionam o monge com o budismo.

    A história mais conhecida sobre o monge é que ele passou nove anos meditando em uma caverna em absoluto silêncio, e ensinou seus discípulos uma série de exercícios, o qi gong,  que contribuíram para melhorar as habilidades marciais dos monges. Porém, as obras que relacionariam o Bodhidharma às artes marciais foram escritas anos ou séculos após a sua morte.

    Agora, como as artes marciais começaram em um templo budista, podemos abordar em um próximo tópico.