Quando comecei a treinar kung fu lá no inicio dos anos 2000, foi uma mudança de chave na minha vida. No primeiro momento já me apaixonei pela arte e não quis mais parar.
A vida me trouxe novas rotas, automaticamente o kung fu também teve que se adaptar a essa nova fase. No começo eu fui muito resistente, achava que não ia achar um lugar onde eu pudesse treinar kung fu como eu treinava, e queria continuar naquela linhagem, naquela academia.
Mas o percurso me provou o contrário. Passei por algumas academias até me encontrar onde estou hoje.
Essa história toda me mostrou muitas coisas, e a principal delas, e talvez a mais “clichê” de todas, é que eu não sei nada.
Todas as pessoas que chegam em uma certa fase do kung fu ou, senão, para mostrar aquele símbolo de humildade perante o conhecimento, falam a mesma coisa.
Mas isso é extremamente real.
Eu, por experiência própria, achava que sabia muito. Mas quando entrei em contato com novos professores e novos pontos de vista, percebi o quão limitada eu era no assunto.
Eu não acho que meu primeiro professor não sabia nada, muito pelo contrário, ele me ensinou muitas coisas que eu levo até hoje. Mas cada professor passa pra gente a vivência e o estudo que ele teve dentro da arte marcial.
É muito comum em uma academia que treinamos há algum tempo, reproduzirmos “vícios” de pessoas que estão acima da gente. É a nossa referência e isso é inevitável.
E toda essa experiência me fez querer estudar mais, expandir minha mente e estar aberta para novas informações.
Foi aí que comecei a tentar evoluir no meu treinamento, não só dentro da academia, mas também fora dela, principalmente pelos livros.
Comecei a prestar a atenção na minha forma, no que eu precisava melhorar. E vi que a rigidez estava muito presente. Isso é muito comum em quem treina estilos externos do kung fu. Queremos botar força na forma o tempo inteiro. Mas não é força que precisamos o tempo inteiro – é precisão e firmeza.
Foi aí que eu fui buscar o Taijiquan e o Qi Gong para relaxar meu corpo. Confesso que eu achei que ia ser mais fácil, mas encontrei muitos desafios.
O maior desafio pra mim era o alinhamento. Eu não imaginava que isso seria tão importante. Estudando o porquê do alinhamento comecei também a aplicaá-lo no kung fu.
Temos dois canais de energia muito importantes: Dū Mài 督脉 (Vaso Governador) e Rèn Mài 任脉 (Vaso Concepção). O Dū Mài sobe pela coluna vertebral representando a energia ativa, é o mar dos meridianos Yang, e o Rèn Mài que desce pela linha média anterior do corpo, é o eixo da nutrição do nosso corpo e o mar dos meridianos Yin. Esses dois se conectam e formam a Pequena Circulação 小周天 (Xiǎo Zhōu Tiān).
Rèn Mài – Dū Mài – Pequena Circulação.
O grande objetivo dessa Pequena Circulação é desobstruir esses dois canais, permitindo que o Qi circule sem resistência nenhuma e que ele comece a nutrir o corpo.
E como isso se aplica na arte marcial?
No artigo anterior, falei sobre o fluxo do Qi, e para que o golpe tenha poder real, sem depender somente da força muscular, a energia precisa estar livre para circular. A partir disso, você consegue fazer o Fā jìn 発勁, que é justamente essa explosão de força e energia. Se bloquearmos esse fluxo, a força trava nos ombros ou na lombar, deixando o golpe mais rígido, sem potência e você se cansa mais.
É um conceito extremamente comum no estilo Chen de Taijiquan, mas se aplicamos no kung fu, você percebe que a velocidade de transição de movimentos aumentam e com menos esforço. E claro a aplicação de energia fica muito melhor.
Colocar esse conceito no treinamento foi extremamente difícil. No treino de Taijiquan eu me pego muitas vezes desalinhando o eixo, ou perdendo o equilíbrio para tentar encaixar.
Me pego fazendo o mesmo movimento várias vezes, nos treinos, em casa do nada no meio da sala, vendo meu reflexo na tv… enfim qualquer oportunidade que eu posso estar me vendo e me percebendo é uma oportunidade.
Cada repetição é um momento de perceber o corpo e onde posso melhorar. Além de repetição o que pode ser feito? Treinar perna? Core? Equilíbrio? Várias possibilidades para que a técnica seja mais fluída.
Me pego errando ainda, mas o lado positivo é que eu percebo quando as coisas não andam certas.
Mas isso é treino, consistência… persistência.
Poderia ter parado lá atrás quando mudei de academia, ou quando percebi que não sabia nada. Também poderia treinar somente na academia e me contentar com o que eu aprendi, sem me aperfeiçoar ou expandir. Mas resolvi fazer tudo diferente.
A arte do kung fu é isso, treinar constantemente e ter paciência para melhora até os movimentos mais simples.
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Quando se fala em kung fu (功夫) é muito comum vir à mente chutes, socos, Bruce Lee (Risos)…Isso é um inconsciente coletivo. Mas acredito que muitas pessoas que treinam há alguns anos, também se limitam apenas a esse conceito.
Grande parte dos praticantes acabam se importando com quantas técnicas eles sabem, ou o quão rápido eles se tornaram faixa preta. E acabam deixando de lado uma coisa extremamente importante: o Fundamento.
A dinâmica de treinamento do kung fu acaba se diferenciando de algumas artes marciais, pois existem vários conjuntos de formas que, em grande parte do tempo, são feitas individualmente. Como se fosse uma coreografia que simula um combate. Essas formas chamamos de Taolu (套路), que é o termo oficial e técnico em mandarim.
Curiosamente, o termo Kati é muito difundido no Brasil para se referir a essas formas, mas ainda não achei a origem dessa palavra. Muitos dizem que é o termo Cantonês, mas nas minhas pesquisas, vi que o termo cantonês ainda não é Kati.
Voltando…
O treino dos Taolus acaba sendo um divisor de águas para identificar se a pessoa sabe ou não kung fu. Muitas pessoas não têm noção da aplicação marcial do que ela está fazendo. Uma coisa é decorar a forma, outra é entendê-la. E, infelizmente, o que mais se encontra são pessoas que não a entendem.
Você pode achar um absurdo, mas é a realidade.
Dentro do kung fu existem vários fundamentos, mas acho que é válido começar a falar de algo fundamental e primordial: o Qi (氣).
Há quem diga que esse assunto é só para o Tàijíquán (太極拳), e sinto dizer que estão extremamente enganados.
Agora eu vou trazer alguns conceitos de MTC (Medicina Tradicional Chinesa) até para mostrar o quanto tudo está conectado.
Imagem antiga de mapa de meridianos de acupuntura.
Existem canais no nosso corpo por onde flui o Qi. Sem ele não tem força e/ou energia. Se a gente não aplica e direciona o Qi, os golpes são vazios.
Provavelmente você já ouviu o seu professor de kung fu ou até mesmo Bruce Lee falar que a força vem do quadril. Mecanicamente falando, sim, ele é a parte mais forte do nosso corpo e abriga nosso centro de gravidade. Mas em uma visão mais oriental, ali também abriga o centro de energia do nosso corpo, nossa energia vital. Não no quadril, mas na região pélvica. Essa região chamamos de Dāntián (丹田).
Para mim, a grande força que temos nessa região e no nosso corpo é graças ao Dāntián.
No desenho ele está localizado na base próximo a região do umbigo. Mais ou menos 3 dedos abaixo do umbigo e mais para dentro no dentro do corpo.
Ok, ele é o grande motor de energia do nosso corpo, mas como que a energia chega nos golpes?
Temos energias nos nossos canais, mas a contração e o relaxamento é a bomba que impulsiona a energia. Um exemplo prático, é quando a gente aperta a nossa mão bem forte e de repente abre. Você sente que o sangue ficou preso por um momento e quando solta o sangue flui. Esse é o Qi voltando a circular.
A título de conhecimento, o sangue, (xue (血), em chinês), é a parte mais densa do Qi. Logo se não há sangue, não há Qi.
Esse movimento de contração e relaxamento acontece no kung fu. O tempo inteiro. Muitos acham que contrair o corpo o tempo inteiro para ter mais força é o certo. E não é. E isso é muito comum, me pego muito contraindo o corpo sem precisar.
Mas temos que pensar que a maior parte do tempo estamos relaxados e, um pouco antes de cada ação é que contraímos os músculos para, no final, quando acertarmos o oponente, relaxar novamente. O golpe é o famoso efeito chicote.
Por isso que a repetição é extremamente importante. Não para decorar a sequência e a forma, mas para treinar o corpo e perceber se você está fazendo o movimento certo. Repetição é auto-observação.
Essa alternância de contração e relaxamento é o famoso conceito de Yin Yang. Mas isso é assunto para o próximo artigo…
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É muito comum quando se fala em kung fu, ou qualquer outra arte marcial, que além de ensinar a luta, ela desenvolve muito a disciplina. Isso não deixa de ser verdade, pois a grande maioria das artes marciais tem seus princípios filosóficos.
No kung fu, por exemplo, falamos sobre o Wude, termo muito comum para nos referirmos aos princípios e ética marcial, entre eles estão respeito, disciplina, humildade, honestidade, paciência, entre outros. Mas para chegar nesses princípios, devemos entender que isso vem de uma grande influência de filosofias que predominavam a China na época. Confucionismo, Taoismo, Budismo são alguns nomes fortes que influenciaram muito o pensamento chinês, alguns chegam até colocar o Maoismo nessa influencia, mas como estamos falando de kung fu e ele nasceu bem antes da era de Mao Tse-Tung (1893-1976), nem vou comentar muito sobre ele.
Entender essas três linhas filosóficas, Confucionismo, Taoismo e Budismo, vai ficar muito claro visualizar a sua influência no Kung fu.
Budismo
O budismo surgiu com o o Sidarta Gautama(Buda), na Índia, no século V a.c, com ele veio o conceito do que é sofrimento que está nas Quatro Nobres Verdades e o Nobre Caminho Óctuplo que é basicamente o caminho para cessar esse sofrimento. Em linhas gerais, são condutas corretas como: Compreensão correta, Pensamento Correto, Palavra Correta, Ação correta, Meio de vida correto, Esforço correto, Plena atenção correta, concentração correta.
É no Nobre Caminho Óctuplo que vemos sua grande influência na filosofia do kung fu. Assuntos como compaixão, “não prejudicar o outro”, “não mentir”, “não matar e não roubar”, “obter o controle da mente”, “sabedoria e serenidade”, não são assuntos estranhos para quem é praticante, e podemos dizer que essa influência veio em peso com budismo.
Taoismo
A grande base da filosofia do Taoismo é o Tao. Sua tradução literal é o caminho, e segundo a Oldstone- Moore (2010), o Tao se refere a um poder anônimo, sem forma e que tudo permeia, que cria todas as coisas e reverte-as ao estado de não ser em um ciclo eterno.
Para os taoístas, seguir o caminho, seria seguir de acordo com o que é natural, com o fluxo da natureza, ou “como as coisas são”. Esse pensamento levou a busca da imortalidade do homem, por isso foi uma época de métodos de muita cura espiritual e física, dando destaque para o I-Ching (oráculo taoista), e o Tai Chi Chuan e Qi Gong, que surgiram nessa época como forma de cura física.
Confucionismo
O Confucionismo começou na China, e como o próprio nome já diz, seu fundador foi Confúcio. Ele viveu e cresceu em uma época de muita miséria devido às guerras que ocorriam nesse período. Isso foi uma grande fonte de inspiração para que ele criasse a própria filosofia em que pudesse mudar o conceito de sociedade. O ideal é que os governantes passassem governar para todos e não para si próprios.
Confúcio. Autor desconhecido (c. 1770)
Sua filosofia tem muitos conceitos de generosidade, virtude e amor pela humanidade. No kung fu, por exemplo, o confucionismo está presente em algumas virtudes como honra, respeito e sinceridade e até mesmo em meios de treinamento como “estar centrado” durante uma luta, achar o seu centro, algo que Confúcio falava que todos os seres humanos deviam achar.
A prática constante dos Taolus (ou Katis) também é uma forma de pensar de Confúcio. Para ele, a prática é um meio de alcançar a perfeição, a essência. O senso de justiça que aprendemos no kung fu, de quando usar o que sabemos, e utilizar somente para defesa, vem também dessa filosofia.
E por último, essa ideia de que nunca aprenderemos tudo do kung fu que sempre tem algo que temos que aprender e aperfeiçoar, também é uma visão confucionista. Atingir a perfeição e maestria depende de muitos anos de prática e estudos. E kung fu não é só socos e chutes, tem todo um estudo de saber aplicar a técnica de forma perfeita, saber aliar a técnica a força, potência, agilidade, ritmo, etc. E fora tudo isso, toda uma filosofia, uma história, um estudo para entender toda essa arte marcial. E vamos concordar, não é em 2 anos que você adquire tudo isso.
O kung fu definitivamente não é só forma ou só luta, mas puxando toda a sua história a sua construção de movimentos a partir de animais, por exemplo, e vendo o quão profundo é a sua filosofia, vemos como é complexo e rico essa arte marcial.
O que eu vou propor hoje é sair “um pouco da caixinha”, como eu sempre proponho, e mostrar um outro lado sobre a relação de Bodhidharma e as artes marciais de Shaolin. Achei algumas informações importantes que acho válido escrever um artigo só sobre isso.
Primeiros de tudo temos que enfatizar que muitas fontes ignoram a história das artes marciais antes da chegada de Bodhidharma no Templo Shaolin. Acredito que o Templo teve sim sua grande contribuição e participação nas artes marciais, mas temos que levar em consideração que foi um tempo de muitas guerras e é muito provável o desenvolvimento de lutas nessa época, e nem os templos estavam isentos nisso.
O Livro de Wei (Weishu) diz que em vários templos foram confiscados armas, e um historiador chinês chamado Kang Gewu diz que os monges praticavam jiao li como esporte. Isso desmente a crença que os monges desconheciam sobre as artes marciais antes de Bodhidharma.
Bodhidharma caminha sobre um caule lançado nas águas do rio Yangtzé (Estela de Shaolin, 1624)
Bodhidharma era um monge indiano que foi para China, no monte Song, na região de Louyang. Embora tenha vivido na China entre o final do século V e o início do VI, a tradição marca sua chegada ao Templo Shaolin especificamente em 527 d.C., onde introduziu o Budismo Chan no país. Algumas obras mencionam que eles esteve na região como Registro dos Mosteiros Budistas em Luoyang (Luoyang qielan ji) de 547 e também nos Registros Preciosos das Transmissões do Dharma(chuanfa baoji), que foi escrita 2 séculos após a sua chegada, e nessa obra ele fala sobre o templo ser um lugar de meditação e onde ele formou seus discípulos do budismo Chan. Porém nenhum deles cita a relação do monge com as artes marciais.
No Registros Preciosos das Transmissões do Dharma também conta uma história famosa em que um dos discípulos de Bodhidharma, o Huike, amputa o próprio braço e dá ao monge para provar o desapego e em resposta ele foi levada a iluminação. Na obra Registro da Transmissão da Lâmpada do Período Jing (JIng de Chuangdeng lu), de 1004, acabou romantizando essa história.
O grande motivo de várias histórias serem atribuídas ao Bodhidharma é que os escritores chineses tem o hábito de atribuir escritos a figuras lendárias. Nesse caso, muitos textos atribuídos ao monge foram escritos anos ou até mesmo séculos após a sua morte, e muitos deles estão relacionados com Qi Gong e artes marciais. Alguns dos textos atribuídos a ele são: Metamorfose de Tendões (Yi Jin Jing), Dezoito Mãos de Luohan (Shi Ba Luo Han), Limpeza da Medula Óssea (Xisui Jing), por exemplo.
Existe uma lenda para a atribuição desses textos, onde Bodhidharma deixou uma caixa de ferro com todas as suas obras com seus discípulos antes de ir embora, e uma das obras que teria sobrevivido é a Metamorfose de Tendões (Yi Jin Jing), que na verdade foi escrita por um monge taoísta Zining do Monte Tiantai em 1624, onde ele escreveu dois prefácios que acabou falsamente atribuído aos famosos generais Li Jing (517-649) da dinastia Tang e Niu Gao (1087-1147) da dinastia Song. Mas já foi comprovado por historiadores de artes marciais que esse livro é uma mistura de lenda e fatos históricos.
Diante de todos esses fatos é difícil achar alguma relação dele com o Kung Fu, por exemplo. Mas é fato que ele sim esteve no Templo Shaolin para levar o Budismo Chan para a China. Além dos escritos no próprio templo tem a presença de algumas estelas (pedras com escritos) que mostram a relação do monge com o Templo Shaolin.
A mais antiga é de 728 d.C (Estela de Pei Cui) é famosa por descrever a ajuda dos monges de Shaolin ao futuro Imperador Taizong na batalha contra Wang Shichong. O fato de ela não mencionar Bodhidharma como instrutor marcial é revelador. Até mesmo nessa estela, que celebra a coragem militar dos monges, Bodhidharma não é citado como o mestre daquelas técnicas.
A relação de Bodhidharma com o Templo Shaolin é atestada por fontes epigráficas locais, como a estela de 798 d.C., que já reconhecia Huike como seu sucessor. No entanto, a narrativa detalhada e poética desse encontro — incluindo o famoso diálogo sobre ‘alcançar a medula’ — foi imortalizada mais de dois séculos depois na obra Registro da Transmissão da Lâmpada do Período Jing (Jingde Chuandeng Lu), de 1004 d.C. O famoso diálogo, que ecoa a tradição registrada na estela, descreve o seguinte:
Depois que nove anos se passaram Bodhidharma quis retornar ao oeste, para a Índia. Então, ele comandou seus discípulos, dizendo: “o tempo está próximo; cada um de vocês deveria dizer que alcançou”
Nesse momento, o discípulo Daofu respondeu: “Como eu vejo, a função do Tao consiste em não se ligar em escrituras e não ser parte das escrituras”.
O mestre respondeu: “você alcançou a minha pele”
A freira Zongchi disse: “Meu entendimento, agora, é de que isso é algo como a alegria de ver a terra búdica de Akshobhya: reconhecível a primeira vista, não reconhecível a segunda vista.”
O mestre respondeu: “você alcançou a minha carne”
Dayou disse: “Os quatro elementos são, na raiz, vazios, e os cinco skandhas não tem existência; do meu ponto de vista, não há um único darma que possa ser alcançado”
O mestre respondeu: ” você alcançou meus ossos”.
Finalmente, Huike, depois de fazer uma prostração, apenas permaneceu em seu lugar. O mestre falou: “Você alcançou a minha medula.”
Nesse texto a expressão “você alcançou a minha medula” foi para expressar metaforicamente que ele atingiu a essência dos ensinamentos, e que mais tarde isso ganharia uma interpretação totalmente diferente como na tentativa de associar Bodhidharma a arte marcial de Shaolin associando a “medula” com o nome de uma manual secreto – O Clássico da Limpeza da Medula (Xisui Jin) – que o Bodhidharma supostamente teria dado ao seu discípulo. Nessa obra contém as ginásticas secretas que permaneceu em segredo por mais de um milênio, e no século VII ele ressurgiu milagrosamente para influenciar as artes marciais.
A devoção ao Bodhidharma era tão grande no mosteiro de Shaolin que em 1125, época que o budismo Chan estava ganhando mais popularidade, construíram um templo à 800 metros do mosteiro em sua homenagem. No templo você pode encontrar uma grande pedra com a imagem do monge gravada, pois acredita-se que ele ficou 9 anos meditando na caverna que sua sombra ficou impressa na pedra.
Diz a lenda que existe uma técnica famosa atribuída a ele o “18 Lohan Shou” (18 mãos de Luohan” que inicialmente foi criado para aumentar a vitalidade dos monges, com uma vertente mais energética. Porém sabemos que a sistematização marcial veio de séculos de evolução interna dos monges.
Em resumo, Bodhidharma só esteve no Templo Shaolin para levar o Budismo Chan, o que acaba enfraquecendo a história que muitos conhecem sobre ele ter influenciado diretamente nas artes marciais. Ele pode ter influenciado de alguma forma? Pode! Quem sabe outros textos e evidências não sejam achados para nos provar o contrário? Mas eu não estou aqui para dizer o que é certo ou errado, mas sim para te mostrar o outro lado da história.
No nosso último artigo (se não conferiu, pode clicar aqui), falamos sobre a pré história até a idade de ferro, na dinastia Qin, com o início do Shoupo (手搏)(sanda) e Juedi (角抵)(shuai jiao) na China.
Xiongnu – Fonte: South China Morning Post
Continuaremos nossa história com a Dinastia Han(207 a.C – 220 d.C), e nesse período a China estava travando várias batalhas contra os Xiongnu, que eram uma tribo do norte da China. Eles utilizavam um facão de um fio (pp), que era muito mais barato, durável e mais fácil de treinar do que a espada de dois fios (Jian 劍) do exército chinês. O exército de Han conseguiu derrotar a tribo de Xiongnu.
Um termo muito popular na época para artes marciais era o Wuyi(武藝). Esse termo incluía: tiro com arco, cavalaria, levantamento de peso, shoupo, juedi, combate desarmado, luta com armas e sparring.
Imperador Wu
Os mais populares eram o shoupo(sanda) e o juedi (shuai jiao), e quem ajudou nessa popularidade foi o Imperador Wu(141 – 87 a.C), que era praticante de juedi e organizava competições que atraía muitos espectadores. O shoupo era praticado com short, não utilizavam luvas e não tinham regras muito seguras. O juedi era mais seguro, os competidores não podiam golpear ou chutar e ainda ganhavam pontos jogando o oponente no chão.
Nessa época, os mestres da espada eram muito populares e respeitados, e não era só restrito aos homens, mulheres também eram muito habilidosas nessa arte. As técnicas de espada eram passada como se fossem em Taolu (套路), e as mulheres da época faziam performances com esses Taolu como se fossem uma dança, mas também havia disputas entre artistas marciais muito bem treinados.
A dinastia Han contribuiu muito para as informações que temos hoje sobre o Kung Fu. Foram escritos vários documentos nessa época com táticas de guerra, textos sobre espada, métodos de tiro, e houve alguns escritos sobre o shoupo, mas, infelizmente, esses textos não foram encontrados, e esses métodos foram conhecidos por outras fontes. O historiador Ma Mingda (马明达) fala que o shoupo incluía 4 elementos básicos da luta sem armas: golpear com as mãos (da), chutar (ti),derrubar (shuai) e controlar as articulações (na). Apesar de estarem presentes na dinastia Han, ele se consolidou de forma mais clara em períodos posteriores.
Em 1973, foi encontrado na província de Hunan, uma pintura em seda, datada da dinastia Han, que mostra pessoas fazendo uma série de exercício. Não se sabe ao certo o significado dessas imagens, uns falam que é um manual de kung fu, outros falam que é um exercício de ginástica (Dao Yin (导引).
L0036007 Daoyin tu – chart for leading and guiding people in exercise Credit: Wellcome Library, London. Wellcome Images images@wellcome.ac.uk http://wellcomeimages.org Daoyin tu – chart for leading and guiding people in exercise for improving health and treatment of pain, containing animal postures such as bear walk. This is a reconstruction of a ‘Guiding and Pulling Chart’ excavated from the Mawangdui Tomb 3 (sealed in 168BC) in the former kingdom of Changsha. The original is in the Hunan Provincial Museum, Changsha, China. Poster 20th Century Published: –
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No período de 220-280 d.C, acaba a dinastia Han e começa o Período de Três Reinos, e é considerado um dos períodos mais sangrentos da China, e também foi marcada por uma era taoísa e pela expansão do budismo.
Nessa época, o shoupo era praticado por todos os níveis da sociedade, e até grande pensadores tinham interesse nas artes marciais. Taolu de armas e mãos foram criados com o intuito das técnicas não serem esquecidas, mas havia uma grande diferença entre as formas para lutas e demonstrações.
Mais ou menos nessa época que Bodhidharma veio da Índia para a China para espalhar o budismo, em 527 d.C, ele chegou no Templo Shaolin,e inicialmente ele só veio espalhar o budismo Chan.
Mas, diz a tradição, ele percebeu que os monges estavam fisicamente despreparados, e não aguentavam horas de meditação. Logo Bodhidharma introduziu uma série de exercícios, que podemos associar ao Qi Gong afim de melhorar a condição física dos monges. Segundo ele corpo e mente são inseparáveis.
Esses exercícios acabaram influenciando o desenvolvimento do Kung Fu Shaolin. Um exemplo claro é a técnica 18 mãos de Luohan (18 Lohan Shou) que nasceu para dar vitalidade e como o passar do tempo os monges perceberam que essa técnica dava força, coordenação e que os movimentos imitavam ações naturais como empurrar, desviar, e acabaram aplicando isso em combate também.
Embora essa seja a narrativa tradicional, historiadores modernos como Meir Shahar demonstram que as artes marciais de Shaolin se desenvolveram organicamente devido à necessidade de autodefesa e ao status militar do templo, e não por um único monge indiano.
O desenvolvimento do Templo Shaolin após a passagem de Bodhidharma tornou-se um marco porque, até então, as técnicas de luta eram predominantemente militares, focadas apenas no combate. Com a influência da filosofia budista trazida por ele, consolidou-se, ao longo dos séculos, uma nova metodologia: a união entre saúde interna (Qi Gong) e treinamento marcial. Foi essa integração que permitiu a virada de chave do ‘saber lutar’ para o ‘praticar uma arte’.
Isso foi uma grande inspiração que, séculos mais tarde, surgisse diversas ramificações de estilos e escolas que conhecemos hoje.
Bodhidharma
Entramos na Dinastia Tang (618-906 d.C), e foi nesse período que a China foi unificada novamente. Nessa época, eles começaram a fazer exames imperiais para selecionar guerreiros para os altos cargos, com graduações de distritos e províncias para nível nacional. As modalidades inclusas nessa prova eram cavalaria, luta no solo, técnicas de lança, uso de várias armas, arquearia, levantamento de peso e estratégias militares.
Shoupo e juedi continuaram populares, mas surgiu uma nova modalidade de wrestling, o Xiangpu (相扑) ou Jueli (角力). Nessa técnica eles lutavam com uma tanga e um elástico no cabelo. Essa modalidade pode ter contribuído com a origem do sumô japonês.
Xiangpu (相扑) e Jueli (角力) são a mesma coisa, porém são termos para épocas diferentes. Jueli é um termo mais comum nos manuais militares um termo que siginifica literalmente “medir forças” muito comum entre as Dinastias Han e Tang. O xiangpu é essa técnica em forma de espetáculo. Um termo que ganhou mais força entre as Dinastias Tang e Song. A título de curiosidade, o Xiangpu da Dinastia Song permitia golpes de mão aberta e chutes baixos. Enquanto o Jueli focava em força nos troncos e braços, basicamente o agarrar.
A Dinastia Song (960-1279 d.C.) foi marcada pelo surgimento de escolas e academias militares oficiais.
Imperador Taizu
Diz a tradição que o próprio fundador da dinastia, o Imperador Taizu, era um mestre de artes marciais renomado. Ele criou um estilo próprio, o Taizu Changquan (a técnica de Punho Longo), que se tornou tão respeitado que acabou sendo incorporado ao currículo do Templo Shaolin e incentivou toda a população a praticar para a defesa do império.
O kung fu era conhecido nessa época como wuyi, e muitos clubes de artes marciais foram criados, muitos artistas marciais experientes viajavam para fazer demonstrações públicas de suas técnicas. O mais interessante é que a maioria desses artistas eram mulheres, mas vale destacar que elas eram artistas de rua profissionais.
“Grand Classic of Martial Arts” (O grande Clássico de Artes Marciais)ou em chinês Wujing Zongyao (武经总要), foi escrito nesse período, contendo estratégias e treinamentos militares, e também contava histórias de batalhas importantes antes da Dinastia Song.
Reprodução do Livro: Wujing Zongyao (武经总要)
Chega um momento da história da China que eles são governados por mongóis, na dinastia Yuan (1260-1368 d.C), e uma das medidas tomadas foi a proibição da prática de artes marciais e da posse de armas. Mas uma modalidade de wrestling, de origem mongol, o Zuojiao (zuò jiǎo – 坐脚), ficou popular na China. Essa técnica influenciou diretamente o que conhecemos hoje como Shuai Jiao (摔跤). Ela está ligada ao ato de “derrubar” ou “fazer cair”. Foi nesse período que começou o uso das jaquetas resistentes (de lona ou couro) e se tornou padrão nas lutas, algo que os mongóis já usavam.
Com a proibição de armas para os chineses, as artes marciais foram preservadas secretamente através de dramas teatrais e danças, mascarando a técnica marcial em performances.
Na Dinastia Ming (1368-1644 d.C), além do termo wuyi, o kung fu também era conhecido como quanfa (técnicas de punho). Nessa época as técnicas de demonstração e as técnicas marciais começaram a ficar mais distintas. Os generais do exército faziam competição de lutas entre soldados e os profissionais de kung fu faziam apresentações com técnicas mais “floreadas”.
Assim como Bodhidharma, a atribuição de estilos à personagens é considerada lendária. A partir da dinastia Ming, começam a aparecer os primeiros registros de estilos como o Taijiquan e Louva-a-Deus, por exemplo, mas não há registos históricos que comprovem quem foi o real fundador do estilo. Isso tudo faz com que a gente veja a grandeza do kung fu. É um patrimônio construído por gerações.
Aqui entramos em um terreno fascinante onde a lenda e a história se encontram. Segundo a tradição, o estilo Louva-a-Deus foi criado por Wang Lang (王朗). Porém, se olharmos para os registros históricos, não encontramos evidências diretas dele. Isso não tira o valor da arte; mostra que o Kung Fu era tão precioso que os antigos preferiam atribuí-lo a heróis lendários para preservar sua importância.
Um estilo de Kung Fu raramente nasce de uma pessoa só, como um estalo de dedos.
É difícil apontar um único ‘pai’ para esses estilos porque o Kung Fu funciona como um rio que vai recebendo afluentes. O Taijiquan que praticamos hoje é a soma de séculos de conhecimento da família Chen, influências taoistas e técnicas militares. Figuras como Zhang Sanfeng (张三丰) simbolizam o espírito da arte, mesmo que a história documental nos aponte caminhos mais complexos.
Muitas dessas figuras lendárias foram associadas aos estilos durante períodos de resistência política, como na Dinastia Qing. Atribuir uma técnica a um monge imortal ou a um general heróico como Yue Fei (岳飛) era uma forma de dar moral aos rebeldes e manter a cultura chinesa viva contra os invasores.
Na China antiga, a linhagem era tudo. É como se fosse um selo de qualidade. Uma coisa é falar que eu inventei um soco outra coisa é falar que esse soco é o estilo secreto do General Yue Fei.
O que ajudou também nessas lendas foi a literatura. História com heróis com poderes e estilos incríveis circulavam pela China, então o povo passava a acreditar nessas histórias.
Voltando ao General Yue Fei, só para vocês terem uma noção sobre ficção e realidade, ele viveu na Dinastia Song, mas quase todos os estilos que dizem ter sido criados por ele (Garra de Águia, Xingyiquan) só aparecem em registros escritos séculos depois, durante a Dinastia Ming ou Qing.
Já o General Qi Jiguang (戚继光) (Dinastia Ming) escreveu manuais reais, o Ji Xiao Xin Shu (纪效新书), citando estilos que existiam na sua época, e ele raramente mencionava fundadores lendários; ele focava na eficácia militar.
Reprodução do Livro Ji Xiao Xin Shu (纪效新书)
Em resumo, as lendas não foram “mentiras” criadas para enganar, mas uma forma de resistência cultural. Em tempos de guerra e ocupação, ligar o Kung Fu a figuras como Yue Fei ou Bodhidharma mantinha o orgulho do povo chinês vivo e dava aos praticantes um propósito maior do que apenas lutar: eles estavam carregando o legado dos seus maiores heróis.
As artes marciais chinesas se expandiram para o Japão, quando o mestre Chen Yuan Bian, em 1638, foi ensinar técnica de agarramento/torção (Chin Na) a três ronins no templo Azabu em Edo, que podem ter influenciado alguma linhagem do Jiu-Jitsu.
Os manchus dominaram a China na Dinastia Qing (1644–1911 d.C), e para eles as artes marciais chinesas tinham que estar no exército e não entre a população, até porque eles tinham medo de rebeliões. Eles temiam que o Kung Fu fosse usado como ferramenta para o lema: “Derrubar os Qing, restaurar os Ming” – 反清復明” (Fǎn Qīng fù Míng).
Foi um período de grande crescimento para os estilos internos no norte, como o Taijiquan(太極拳), o Xingyiquan(形意拳) e o Baguazhang(八卦掌) — este último muito popular entre os guardas imperiais. Já no sul, prevaleceu a linhagem de Shaolin. Segundo a tradição, o Mosteiro de Fujian tornou-se um foco de resistência contra os Manchus, o que levou à sua destruição e à fuga de mestres para o sudeste asiático. Esse movimento de resistência ajudou a preservar as técnicas que, séculos depois, chegariam ao Ocidente.
Revolução de Xinhai (1911)
Com a queda da Dinastia Qing e a Revolução de 1911, o Kung Fu deixou de ser uma ferramenta puramente militar para se tornar um símbolo de identidade nacional. Organizações como a Jin Wu, de Huo Yuanjia, e mais tarde o governo chinês com a criação do Wushu moderno, transformaram o Kung Fu no fenômeno cultural e esportivo que atrai praticantes do mundo todo até hoje.
Em 1928, o governo de Kuomintang mudou o termo wushu para Guoshu(国术), que significa “Arte Nacional”, que passou a ter forma muito floreadas de demonstração. Quando o Partido Comunista, em 1949, substituiu o governo, foi feita uma grande campanha para resgatar os grande períodos das artes marciais chinesas, que passou a ser chamada de wushu novamente.
Nessa época foi feito comitês nacionais, e até distritais para promover o wushu, fizeram escolas e faculdades especializadas, muitos times viajaram o mundo para fazer demonstrações e foram publicados vários livros com muitos conteúdos sobre wushu, assim como foram criados vários torneios nacionais e internacionais.Uma das grandes contribuições do governo chinês foi a restauração do Templo Shaolin que atrai praticantes do mundo todo.
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O termo Kung Fu não é um registro muito comum nas escritas históricas, ele é um termo mais moderno e utilizado no século 20. Nas escritas históricas tem mais de 40 termos que fazem referência ao Kung Fu, e o mais comum deles é o Wushu (武術) e Wuyi(武藝), sendo esse último mais utilizado pois sua tradução literal se aproxima mais a palavra arte marcial.
Já é de conhecimento que o homem pré histórico usava um pedaço de pau para se defender ou até mesmo caçar. Na China, por exemplo, na província de Yunnan, e também em outros locais, foi encontrado pinturas pré históricas que retratam a luta de homens com animais.
Pinturas Rupestres em Cangyuan – Província em Yunnan
Há registros na China de armas feitas de pedras como facas e pontas de lança, mais ou menos do período paleolítico. Já no período Neolítico, há estudos que as armas já foram aprimoradas, utilizando além de pedra, ossos, e ainda mais afiadas. Na província de Yuannan, existem pinturas rupestres do Neolítico que representam caçadas nas quais se pode observar técnicas específicas de ataque, como atacar a partir de uma posição superior (zha) e atacar a partir de uma posição frontal (ci).
Na província de Shanxi, foi encontrado indícios de uso de pedra polida para ataque a distância, há mais ou menos 700 mil anos. Essas armas eram feiras com pedras de rios e vulcões, e algumas armas eram feitas dessas pedras amarradas em cordas que podiam até ser amarradas no braço para ser mais fácil de se achada.
Balestra Chinesa
Depois que essa arma caiu em desuso, veio o arco e flecha e há relatos que ela foi antecessora da balestra, um tipo de arco que atirava pedras. Foi encontrado na jazida arqueológica de Miaotigou (província de Henan ), alguns resto que parecem ser de balestras.
Representação de besteiros chineses, a manobrar Cho-ko-nu, em batalha naval
Com o passar do tempo as armas de caça não são suficientes para a batalha, por essa razão começa a ter o desenvolvimento de armas militares: lanças, armas de arremesso, martelos de guerra, bastão, escudo.
Nessa época não havia escola dedicadas ao treinamento, mas esses conhecimentos eram passados de geração para geração. Nos períodos que não havia luta eles faziam danças baseadas nos movimentos de luta, os taolus podem ter vindo dessa época.
Nas dinastias Hsia ou Xia(2070 a.C – 1600 a.C) e Shang (1600 a.C-1046 a.C) as armas eram feitas de cobre e bronze. Nessa época surgiu algumas armas que conhecemos hoje, como facão chinês (dao), lança, adaga, e equipamentos de guerra como capacetes. As primeira escolas de artes marciais apareceram nessa época com o ensino de arco e flecha, que será bem popular e importante nas dinastias seguintes. Nessa época também houve o surgimento dos carros de combate, que eram puxados por dois ou 4 cavalos.
Carros de Guerra
Na dinastia Zhou (1046 a.C – 256 a.C), com o aumento de treinamento militar, foi criado rotinas para treinar os soldados, e algumas delas eram acompanhadas de músicas, criando um estilo de dança militar (Wuwu 武舞).
Nessa época o Kung Fu era conhecido pelos termos Quanyong (拳勇) (luta de punho), focado na eficiência bruta. Essa luta também ganhou extrema importância na dinastia Qin, após o desarme da população. Outro termo conhecido foi o Shoupo (手搏) (combate de mãos) que consistia em golpes com palma e punho, projeções e imobilizações.
Essas duas técnicas são as mais próximas que conhecemos como o Wushu e o Sanda. É do Quanyong que vieram as técnicas de punho, o Quanfa (拳法).
Também nessa época, foi desenvolvido um sistema sofisticado com filosofias profundas, como Yin-Yang (陰陽), Bagua (八卦) (8 trigramas) e Wu Xing (五行) (5 elementos) que são a base da Medicina Chinesa.
Durante o período de guerra (480-221 a.C) vários governos deram muita importância para as artes marciais, tanto que houve uma estreita relação entre o treinamento marcial e intelectual. Confúcio, por exemplo, achava importante que quem fosse da área acadêmica, também fizesse o treinamento marcial. Essa relação é bem presente no livro, que foi escrito nessa época, “A arte da Guerra” de Sun Tzu, que, para quem não conhece, fala sobre estratégias de combate e que hoje é muito utilizado no mundo dos negócios.
Técnicas conhecidas como Jiji (技擊)(técnicas de luta) e Xiangpo (相搏)(competição de combate), e tiro com o arco e lutas com cavalo foram essenciais para a formação marcial.
Hoje na China, quando acadêmicos usam o termo Wushu Jiji (武術技擊) é para se referir a aplicação real das técnicas e o que funciona no combate, o que diferencia do Taolu (套路).
Mas as artes marciais não era exclusivo de elites, classes mais baixas também tiveram acessos, tanto que em algumas pesquisas do historiador chinês Kang Gewu, houve uma revolta em 841 a.C, e nesses relatos há indício de lutas armadas por pessoas comuns.
No período da Primavera e do Outono(722 – 481 a.C), quando a China foi dividida em pequenos reinos, foi caracterizado pelo aumento da alfabetização, e também o ferro tornou-se mais barato e mais abundante que o estanho (material utilizado para a fabricação de bronze), possibilitando a criação das primeiras armas de ferro como: espada de dois gumes, facas, lanças e também acessórios militares como os capacetes.
E por fim, entramos na dinastia Qin (221 – 206 a.C), um período muito controverso, pois foi muito focado na busca da imortalidade.
Imperador Qin Shi Huang
Qin Shi Huang, primeiro imperador da dinastia Qin e que deu inicio a um governo militar, foi responsável por unificar toda a China com o seu exército bem treinado derrubando todas as muralhas e exércitos, e acabando com o feudalismo.
Também ordenou o envio de todas as armas que a população possuía para a capital para que fossem derretidas e transformadas em sinos e estátuas de bronze. Foi um governo muito rígido e burocrático, e promoveu a primeira grande queima de livros e escritos da história da China, na tentativa de extinguir a diversidade cultural . Mas também foi responsável pela padronização da escrita, da moeda e dos pesos e medidas.
Nessa época que foi construída a Grande Muralha, afim de delimitar as conquistas dele e também se proteger dos nômades do norte (Xiongnu). Uma curiosidade, é que os Guerreiros de Terracota é justamente o exército do Imperador Qin, que foram feitos para serem enterrados junto com seu túmulo, no intuito de protegê-lo na sua vida pós morte.
Guerreiros de Terracota
O Imperador acabou introduzindo as modalidades de shoupo (sanda) e Juedi (角抵)(luta agarrada similar ao wrestling e futuramente virou o Shuai Jiao (摔跤)), em que os competidores lutavam um um lugar cercado, como esporte militar oficial nas cerimônias. Essas duas modalidades podem ter contribuído para o inicio do Sanda e do wrestling no mundo.
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Temos certeza que os monges de Shaolin são especialistas na arte do bastão, mas suas informações e registros vem em forma de lendas.
A primeira lenda é sobre os rebeldes, conhecidos como “Turbantes Vermelhos” (紅巾起義), tentaram atacar o Mosteiro de Shaolin, mas foram impedidos de atacar pelo Jinnaluo, ou em sânscrito Vajrapani, que tornou-se um gigante armado com um bastão, que acabou espantando os rebeldes.
Estela de Vajrapani (Narayana) de 1517 pelo abada Wenzai. O guerreiro está segurando um bastão.
Vajrapani é um Bodhidattva protetor de Buda, que segundo a lenda, estava reencarnado em um modesto monge que trabalhava nos fornos carregando lenha. Existe várias versões sobre essa história, e a mais antiga registrada é a estela de 1517, com autoria do abade de Wenzai (1454 – 1524), A Divindade Narayana Protege a Lei e Expõe Sua Natureza Divina (Naluoyan shen hufa shiji):
No vigésimo-sexto dia do terceiro mês do décimo-primeiro ano (xinmao) do período Zhizheng (22 de abril de 1351), na hora si (entre 9 e 11 horas da manhã), quando o levante dos Turbantes Vermelhors (Hongjin) em Yingzhou [na atual Anhui ocidental] acabara de se iniciar, uma multidão de saqueadores chegou no mosteiro. Havia um santo (shengxian) em Shaolin, que até então tinha trabalhado na cozinha do mosteiro. Por vários anos, ele dedicadamente carregara lenha e conduzira o fogão. Seu cabelo era desgrenhado e ele estava sempre descalço. Vestia apenas suas calças e seu tronco estava sempre descoberto. Da manhã até a noite dificilmente pronunciava uma palavra, nunca chamando atenção de seus irmãos monges. Seu sobrenome era o nome de seu local de nascimento e seu primeiro nome era desconhecido. Ele cultivava constantemente todas as atividades de iluminação (wan xing).
No dia que os Turbantes Vermelhos chegaram no mosteiro, o bodisatva empunhava um atiçador de fogo (huogun) e se manteve magistralmente sozinho no topo do destacado da colina. Os Turbantes Vermelhos ficaram horrorizados com sua imagem e fugiram, quando, então, ele desapareceu. As pessoas procuraram por ele, mas nunca mais foi visto. Apenas, então, as pessoas se deram conta de que era um Bodisatva expondo sua natureza divina. Desde então, se tornou o protetor das leis de Shaolin (hufa) e ocupou o lugar do “espírito guardião” do mosteiro (qielan shen).
SHAHAR, 2008, p.121
Vajrapani sobre o Monte Song. Acima está o Bodisatva Avalokitesvara, de quem ele é considerado a reencarnação.
Porém, essa versão é contestada pelo historiador Tang Hao, em Shaolin quanshu mijue kaozheng (p.55-62.), em que ele conta que o ataque aconteceu em 1356, e não em 1351, e que o mosteiro foi saqueado e parcialmente destruído. Esse fato é confirmado no em duas inscrições do século XIV, onde é comemorado a reconstrução do mosteiro nos primeiros anos da dinastia Ming e também há registros de dois epitáfios de 1373, sobre dois monges de Shaolin que viveram nesse período.
Segundo Shahar (2008, p.132), os monges budistas impunham suas técnicas de combate às divindades budistas, pois ampliava o prestígio das técnicas de combate de Shaolin. Afirmar que certo método de combate possui origem divina, equivale a garantir-lhe a existência como objeto de veneração. Shahar (2008, p.132) também destaca para o fato que as divindades marciais como o Vajrapani livram os monges de suas responsabilidades pela criação de técnicas militares. Suas lendas, em relação a tal questão, poderiam ser lidas como apologias budistas à prática da violência pelos monges.
Mas há estudiosos que reconhecem a característica defensiva do bastão, e como seu propósito não é de ferir ou matar ninguém, eles acabam justificando a arma como preferida dos monges budistas. Segundo Shahar (2008, p.149), isso é exemplificado por Cheng Dali:
O bastão não é um instrumento afiado e, além disso, é feito de madeira. Seu poder de matar ou ferir é muito menor que o do facão, da espada e de outras armas afiadas de metal. Evidentemente, o uso do bastão de madeira é relativamente apropriado à condição de discípulos budistas, para quem o uso das artes marciais é permitido apenas visando objetivos limitados.
Zhongguo Wushu, p.96
Esse argumento acaba perdendo força em algumas literaturas militares, ficções e dramas, quando os bastões passaram a ser produzidos com ferro, se tornando uma arma letal, que era capaz de levar a morte. Esses bastões foram usados até por monges budistas em operações militares, que foi descrito por Wu Shu (1611-1695) em Registro de Armas (Shoubi lu, 1678).
A forma de bastão não era limitado somente ao mosteiro, mas o exército do período Ming tardio já via a importância da arma para o treinamento militar. O general Yu Dayou utilizava o treinamento do bastão também para introdução de outros meios de combate, como facão e lança, por exemplo.
Há relatos que por volta de 1560, Yu Dayou fez uma visita no Templo Shaolin para avaliar as técnicas de bastão pelos monges. Foi feita uma apresentação por 10 monges, e no final o general ficou descontente com o que viu e chegou a fazer uma demonstração com a sua técnica. Os monges pediram para que ele ensinasse suas técnicas, mas ele disse que precisaria de anos para aprender. Dois monges, Zongqing e Pucong, acabaram acompanhando o general e depois de três anos retornaram para o templo para passar seus conhecimentos.
O bastão não era só de domínio dos monges budistas, mas a literatura ficcional e as lendas populares acabaram associando isso a eles, o que não significa que eles são os únicos que dominavam a técnica na época.
Um dos primeiros registros sobre as técnicas de combate no templo Shaolin, foi o Livro da Disciplina Eficaz (Ji Xiao Xin Shu, c. 1562) escrito no século XVI. O contexto desse registro era na época que chineses e japoneses estavam atacando o leste da China, onde o general Qi Jiguang (1528-1588) escreveu os métodos de combate mais eficientes de formas de mãos livres e armas, onde ele cita sobre o bastão de Shaolin, que acabou não desenvolvendo muito sobre elas, e acabou dando ênfase as técnicas do General Yu Dayou. Nesse manual, Qi não fala de mais nenhuma técnica de mãos livres de Shaolin, e segundo Acevedo, Gutiérrez e Cheung (2011, p.48), na opinião de Stanley E. Henning, esse fato pode ser explicado de diversas maneiras: o templo de Shaolin não havia desenvolvido técnicas de combate sem armas dignas de ser mencionadas; Qi não considerou as técnicas de luta de mãos vazias de Shaolin fossem eficazes; ou ainda as técnicas de lutas sem armas de Shaolin eram as mesmas que se praticava fora do templo.
khakkhara
Antes mesmo do bastão ser utilizado como arma, ele era um objeto obrigatório dos monges budistas. Porém ele era um pouco diferente, pois tinham argolas em suas pontas. Seu nome em sânscrito é khakkhara, em chinês foi traduzido como xizhang. Segundo Shahar (2008, p.150), a palavra “xi”, que significa estanho ou latão, talvez se refira ao metal com o qual as argolas eram feitas, ou uma onomatopéia referente ao som que as argolas produziam.
Fayun (1088-1158) fez uma análise sobre o nome xizhang, e percebeu a importância do som, que seria, primeiro para ajudar a espantar animais peçonhentos, segundo para avisar o proprietário de uma casa sobre a presença de um monge, e por ultimo o bastão pode somente servir como apoio a monges velhos e doentes em suas jornadas.
No geral, é difícil apontar suas origens, mas pode-se dizer que por ser um utensílio obrigatório de um monge, eles abaram o transformando em uma arma, mas não podemos negar que ele teve um papel muito importante na história de Shaolin e acabou influenciando várias lendas a seu respeito.
Absorva o que for útil, rejeita o que for inútil. Acrescente o que é especificamente seu. O homem, criador individual, é sempre mais importante que qualquer estilo ou sistema estabelecido.
Bruce Lee
Essa frase fala muito bem o que é o estilo de Bruce Lee, o Jeet Kune Do. E antes de falar sobre a parte técnica, é legal entender que Bruce era muito ligado as filosofias Taoístas, que falam basicamente de viver o momento, de simplicidade e mover-se conforme o fluxo.
Dessa filosofia vemos claramente a famosa frase de ser como a água.
Quando lemos o livro, o Tao do Jeet Kune Do, a presença da filosofia é muito clara. Ele traz a luta como arte de revelação da alma, de expressão, assim como ele coloca muito a questão de meditação para ter uma mente vazia para luta, e a observação da técnica e dos movimentos dá a entender muito de estar presente no momento, estar focado.
Engraçado falar do estilo de Bruce Lee, pois ele era contra estilos. Ele não era a favor de estilos por achar que isso deixava a pessoa engessada naquilo como se fosse lei, mas acreditava que havia outras possibilidades de ataque e defesa que podiam ser exploradas. Para ele, as lutas era algo que não se pode prever, por tanto o artista marcial tem que deixar fluir. Um exemplo claro do seu estilo de luta é que não tem uma posição de guarda fixa, ela varia de acordo com as necessidades. Bruce considerava o JKD como um laboratório de pesquisa.
Não inventei um “novo estilo”, composto, modificado ou não, definido de forma distinta, além do método “este” ou “aquele”. Pelo contrário, espero libertar meus seguidores do apego a estilos, padrões ou moldes. Lembre-se de que Jeet Kune Do é apenas um nome usado, um espelho para ver “nós mesmos”. . . Jeet Kune Do não é uma instituição organizada da qual alguém possa ser membro. Ou você entende ou não, e é isso. Não há mistério sobre o meu estilo. Meus movimentos são simples, diretos e não clássicos. A parte extraordinária está na sua simplicidade. Todo movimento no Jeet Kune Do é tão por si só. Não há nada artificial nisso. Eu sempre acredito que o caminho mais fácil é o caminho certo. Jeet Kune Do é simplesmente a expressão direta dos sentimentos de uma pessoa com o mínimo de movimentos e energia. Quanto mais próximo do verdadeiro modo de Kung Fu, menos desperdício de expressão existe. Finalmente, um homem de Jeet Kune Do que diz que Jeet Kune Do é exclusivamente Jeet Kune Do simplesmente não está com ele. Ele ainda está pendurado em sua resistência de fechamento automático, neste caso ancorado ao padrão reacionário, e naturalmente ainda está vinculado a outro padrão modificado e pode se mover dentro de seus limites. Ele não digeriu o simples fato de que a verdade existe fora de todos os moldes; padrão e consciência nunca são exclusivos. Mais uma vez, deixe-me lembrá-lo que Jeet Kune Do é apenas um nome usado, um barco para atravessar alguém, e uma vez atravessado deve ser descartado e não ser carregado nas costas.
Lee, Bruce (Setembro 1971)”Liberate Yourself From Classical Karate”, BlackBelt Magazine, Rainbow Publications, inc., vol.9 no. 9, p.24.
O principio do Jeet Kune Do é a arte de interceptar punhos, Bruce Lee queria que seus alunos fossem mais rápidos que o agressor. Logo, no momento que o agressor se aproximar para atacar, é o momento perfeito para se interceptar o movimento.
Fonte: Treasures of Bruce Lee: The Official Story Of The Legendary Martial Artist – Paul Bowman (2013)
O jeito de lutar de Bruce Lee, se é que podemos chamar assim, tinha fundamentos em Wing Chun, que foi a sua base de arte marcial, e esgrima que ajudaram a compor as técnicas de ataque enquanto defende. Esses dois estilos de luta ajudaram a criar conceitos de “parar o golpe e parar o chute” e “esquivar e socar simultaneamente”. Nesse estilo de luta também tem o arremesso, agarramento e imobilizações que vem de seus estudos sobre judô e jiu jitsu.
Da esgrima também vem os trabalhos de pés, quando ele faz a movimentação frente e trás. Já as trocas na movimentação dos pés, que ele trabalha com muita leveza, são inspirados no boxe de Muhammad Ali. Além disso, Bruce usa muito uma postura do boxe em que ele fica com o pé e a mão direita a frente (southpaw horse stance), no filme “Vôo do Dragao” é possível ver muito isso, os jabs e cruzados vem da mão da frente com muitos chutes laterais.
Além disso, Bruce Lee usa muito o chute oblíquo para interceptação de ataques ao invés de utilizar um o bloqueio de chute utilizando a perna mais alta. Nos ataques ele abusava de chutes nas canelas, joelhos coxas e barrigas, que vem do Savate, que segundo ele, são pontos mais próximos do pé o que deixa o ataque mais rápido e são mais difíceis de defender. Isso se enquadra na economia de movimentos que ele priorizava, pois segundo Bruce Lee, o simples funciona melhor, e é nesse momento que encontramos mais eficiência no ataque, com ataques rápidos, diretos e com muita força, até mesmo explosivos.
Bruce Lee usa muito a questão dos ritmos, há relatos que ele já colocou até música para treino de ritmos. O ritmo do JKD é similar a esgrima ocidental, com ritmo irregular, meio tempo, um tempo e meio ou três tempos e meio.
Mas para executar tudo que falamos anteriormente é preciso condicionamento físico. Para Bruce Lee o condicionamento é de extrema importância para que gaste o mínimo de energia e não tenha movimentos perdidos. O condicionamento também ajuda em uma maior eficiência para ataque rápidos e uma maior movimentação de pés.
O Jeet Kune Do é muito relacionado ao MMA, pois o estilo de Bruce Lee não deixa de ser o que vemos nas lutas da atualidade. Alguns o consideram como o pai do MMA, mas não podemos negar que Bruce Lee foi um grande visionário na década de 70, por entender e estudar um estilo de luta que praticamente combinasse todos os estilos.
Vimos na matéria sobre Huo Yuanjia, que sua família praticava o estilo Mizongyi, e ele mesmo popularizou o estilo em 1901, no período em que a China estava sendo dominada por tropas imperialistas. Mas como é esse estilo? Quais suas características?
Mizongyi (迷蹤藝), também conhecido como Mizongquan (迷蹤拳) ou Yanqingquan (燕青拳), é um estilo de kung fu que traz muita agilidade, mobilidade e movimentos que enganam o oponente, com pés que se entrelaçam com chutes variados e muitos saltos.
É um estilo externo com influências do estilo interno. No aspecto externo, tem características da família dos Punhos Longos e do Shaolin do Norte, no aspecto interno, tem influencias do Tai Chi Chuan e Baguazhang.
É possível identificar a influencia do estilo Shaolin do Norte na versatilidade dos seus ataques. A grande mobilidade do estilo gasta muita energia, e com a influencia dos estilos internos ele consegue compensar isso.
A técnica mais conhecida do Mizongyi é o Fa Jing, que é uma descarga de energia explosiva que vem do estilo interno de Hsing I ao estilo Chen de Tai Chi combinado com o encaixe do estilo externo de Punhos Longos de Shaolin. Essa combinação traz a capacidade de gerar força rápida e flexível a qualquer distancia através de uma produção de energia eficiente de vários lugares do corpo. Os chutes e socos são rápidos no impacto, que trazem força e potência. Esse estilo não é recomendado para quem tem problemas cardíacos, e recomenda-se que o praticante tenha um nível técnico intermediário para aprender o estilo em sua essência.
Além de ser ume estilo com auto defesa muito eficaz, muitos utilizam o aprendizado do estilo para fortalecer o sistema imunológico, uma vez que que ele tem vários benefícios medicinais.
O estilo se popularizou a partir de 1901, com o Mestre Huo Yuanjia. Dizem que seu pai, Huo Endi, era sucessor da 6ª geração do estilo. Nos dias atuais, o estilo se tornou raro e não tão popular como os outros estilos, mas foi mostrado brevemente no filme “Fearless”(2006), do Jet Li, onde conta a história de Huo Yuanjia.
O Grão mestre Ye Yu Ting comandou o estilo no século XX até sua morte em 1962, aos 70 anos. Na década de 60, seus alunos, Chi Hung Marr, Raymond K. Wong e Johnny Lee foram para os EUA, Hawaii e Canadá para ensinar o sistema.
Na Inglaterra, o sistema continuou sendo ensinado como base em alguns estilos como Hsing I Ch’uan dentro da tradição Yue Jia Ba Shao. Nessa linhagem o estilo Mizong era ensinado mais para as crianças, pois os aspectos técnicos internos são menos sofisticados, ou mais externos, do que o Hsing I.
Sobre quem fundou o estilo, há registro que foi criado por Yue Fei, mas pesquisando sobre o assunto não achei evidências que ele foi o criador do estilo.
Não se sabe ao certo de onde veio, mas todas as versões aqui colocadas são apenas algumas das várias histórias que tentam explicar a sua origem. Porém, as pessoas que montam a várias linhagens chegam em um ponto em comum: Mestre Sun Tong, nascido na província de Shandong, em 1722.
Uma das histórias, dizem que o estilo Mizongyi foi criado por um monge no Templo Shaolin chamado Lu Junyi, que uniu as técnicas de Shaolin com o Neigong. Diz a lenda que o monge era muito habilidoso, mas em contra partida ele não queria treinar nenhum discípulo. Porém um jovem, Yan Qing, foi trabalhar na casa de Lu e começou a espioná-lo e treinar secretamente. Até que um dia durante o trabalho, ele e seus companheiros foram atacados por bandidos, e Yu teve que defender a todos. Depois do episódio, Lu acabou o aceitando como discípulo. Esse estilo acabou sendo chamado de Yanquinquan, em sua homenagem, pelos vários seguidores que ele conseguiu. Mas logo mudaram o nome para Mizongquan, ou seita secreta do boxe, quando viram que Lu Junyi e Yan Quan estavam sendo perseguidos pelas autoridades. Nesta fuga, há relatos que, para não serem capturados, eles levaram as tropas em labirintos e trilhas falsas. Devido a esse evento que surgiu o nome Mizongyi, que significa “Punho da Trilha Perdida”, mas também tem uma alusão das características do estilo, que tem movimentos que enganam o oponente.
Outra versão diz que o monge shaolin Qin Naluo observou uma luta entre macaquinhos e se impressionou com a fluidez dos movimentos, chamando o estilo de Nizong Quan “punho tribais de animais”, e acabou se tornando Mizong Quan devido a pronuncia.
Outra lenda diz que dois guerreiros da dinastia Tang chamados de Yan Qing, que não é o mesmo da história anterior, e Chen Zhijing, foram parar o templo Shaolin e dentro do mosteiro desenvolveram o estilo que chamaram de Mizong Quan, ou “seita secreta do Boxe”
Atualmente, um dos principais nomes do estilo é Huo Jinghong. Ela começou a praticar com cinco anos de idade, e é bisneta de Huo Yuanjia. Um texto interessante sobre a vida da Huo Jinghong está neste link.
A TV chinesa CGTN publicou em maio de 2019 uma breve matéria sobre ela, que vocês podem conferir em texto aqui ou no vídeo abaixo.
Não leu a matéria sobre o mestre Huo Yuanjia? Clique na matéria abaixo que ela pode te interessar!
O Tai Chi (Tai Chi) bola Qigong era um conhecimento comum tanto nas artes marciais chinesas quanto nas sociedades leigas. No entanto, sua popularidade foi limitada devido ao sigilo das técnicas de treinamento e quase desapareceu completamente nas últimas décadas.
Cada estilo de arte marcial mantinha em segredo suas próprias técnicas de treinamento de bola e as passava apenas para estudantes de confiança. Na sociedade marcial, o treinamento especial de taigong de bola era considerado crucial para levar os artistas marciais a um nível muito mais alto, tanto na condição física quanto na manifestação de energia (qi) na batalha. Esse treinamento também ensina habilidades de adesão, neutralização e detecção da intenção de um oponente em combate corpo a corpo.
Taichi Qigong Ball
Atualmente, a maioria das pessoas está familiarizada com o treinamento de das bolas medicinais, aquelas duas bolas do tamanho de pingue-pongue na palma da mão, que é reconhecida como uma das maneiras mais eficazes de melhorar a circulação do qi (energia), especialmente para os pulmões. e coração. Além disso, através deste tipo de treinamento, a condição da artrite das mãos pode ser remediada de forma eficaz. Agora é hora de trazer de volta esse treinamento tradicional e incorporá-lo a todos os estilos marciais.
As bolas de Taiji usadas nas artes marciais têm tamanhos diferentes e são feitas de uma variedade de materiais. O tamanho pode variar do tamanho de uma bola parecida com a de futebol, até aquelas bolas em formato de pingue-pongue. Existem desde bolas leves até bolas pesadas para o tipo de treinamento. Esse tipo de treinamento com bola é mais comumente praticado nas artes marciais externas chinesas, que enfatizam mais o condicionamento físico do que a circulação de energia (Chi).
Bola de Taichi/Qigong Yin Yang
Inicialmente os treinos devem começar com as mãos vazias, depois uma bola de plástico leve, até chegar em uma bola pesada para treino e fortalecimento.
O nome original do treinamento é bola de qigong Taichi “yin-yan”. Embora os métodos de treinamento sejam diferentes de um estilo para outro, a principal teoria do treinamento e os objetivos gerais são os mesmos. Os objetivos gerais de treinamento do treinamento de taigong de taiji ball são:
Fortalecer o tronco físico, especialmente a coluna vertebral e a região lombar.
Condicione os músculos, tendões e ligamentos necessários para o combate.
Gradualmente, desenvolva e circular a energia (chi).
História Bola de Taichi/Qigong Yin Yang
Ninguém sabe quando e como se originou. No entanto, logicamente, pode-se supor que quando os artistas marciais perceberam que as bolas (movimentos em círculos) era a chave crucial para neutralizar o poder rígido, eles começaram a procurar maneiras de treinar. Eles procuraram um objeto para ajudá-los a desenvolver e alcançar esse sentimento. Os objetos redondos foram adotados. Os estilos marciais internos, comparados às artes externas, provavelmente contribuíram mais para o desenvolvimento do treinamento com bola taiji, devido à ênfase significativa dos próprios movimentos circulares do Taichi.
“A prática da bola também oferece treinamento de força e alívio do estresse. Como o qigong Taichi da bola é uma combinação da prática de qigong interno (nei dan) e externo (wai dan), os benefícios para a saúde do qigong Taichi da bola podem ser divididos em duas partes, o lado interno e externo.
Benefícios Internos
Treine a mente para um nível mais alto de concentração e foco.
Melhorar o metabolismo do corpo e construir um nível abundante de qi.
Aprender a usar a mente para conduzir o qi para sua circulação a um nível mais suave.
Melhorar a circulação geral, para que a sensação de sensibilidade possa ser significativamente aumentada.
Aumentar o espírito de vitalidade.
Benefícios Externos
Fortalecer o corpo físico (ossos, ligamentos, tendões e músculos.)
Estabelecer uma raiz firme, equilíbrio e capacidade de centralização e fortalecer as três principais articulações das pernas.
Afrouxando e exercitando as articulações.
Melhorar a circulação do qi nos órgãos internos.
Melhorar a coordenação da mente, sentimento e corpo.