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  • Yin e Yang no Kung Fu

    Quando se fala em zen e filosofia oriental, um símbolo muito comum vem à mente: o Yin-Yang.

    Ele é basicamente o símbolo do equilíbrio. Porém, muita gente se limita aos opostos: masculino e feminino, claro escuro… enfim… mas isso é muito mais do que se imagina.

    Não podemos nos limitar que determinada coisa sempre vai ser Yin ou Yang, isso vai depender muito do contexto ou ponto de vista.

    Um exemplo prático é a água. Ela pode ser Yin quando líquida ou sólida (gelo) ou pode ser Yang quando está no estado gasoso. Tudo é uma questão de contexto.

    Mas agora vamos um pouco mais denso no conteúdo. Estamos, por enquanto, falando de coisas que são muito populares para explicar o Yin-Yang, mas ele é muito mais profundo que isso e também o conceito mais importante da medicina chinesa.

    A energia Yin é uma energia de reclusão, de descanso, de sombra, de densidade. Já a energia Yang é a expansão, atividade, luminosidade, dispersão.

    Falar em Yin-Yang é sempre falar em algo cíclico. O próprio símbolo nos sugere isso. Logo, todo ápice de expansão inicia uma reclusão para criar energia para iniciar uma expansão novamente.

    Um exemplo prático é o dia e a noite. O meio dia é o ápice do Yang, o pôr do sol é o final do Yang e começo do Yin. Meia noite é o ápice do Yin e o amanhecer é fim do Yin e começo do Yang.

    Pensar que o conceito de Yin-Yang está em tudo é a mais pura verdade. Tudo se modifica, se transforma.

    Levando esse conceito em conta, eu resolvi pensar um pouco mais nos meus treinos. Treinar kung fu todos esses anos foi e ainda é ótimo. É a parte ativa do meu dia, meu treino de força e físico. Mas a ideia de também treinar o interno, a energia também passou a falar mais alto. Era a peça que faltava.

    Saber fazer a alternância do tensionamento e do relaxamento, me faz sentir que o corpo flui melhor. Saber manipular e aplicar a energia de forma certa fez total diferença no meu treino de kung fu.

    E aqui não falo só de contração e relaxamento, isso é o básico. Mas falo também de posturas que facilitam essa alternância de energia. O Yin-Yang acontece o tempo todo no nosso corpo, nos movimentos, intenções, em tudo. E saber usar isso a seu favor deixa sua forma mais fluida e dinâmica.

    Acredito que aqui começamos a assimilar cada vez mais o treinamento e o propósito dele.

    Poderia simplesmente treinar Kung fu e treinar Taijiquan ou Qi Gong e focar somente em treinos isolados. Mas e se a gente unir esses universos?

    Essa foi a melhor combinação que eu fiz e saí um pouco da caixa. Isso pode ser extremamente comum para os chineses mas, pelo menos aqui no Brasil, é pouquíssimo falado.

    Essa busca de entender mais sobre energia me fez andar em campos que eu talvez não iria em uma academia e acredito que fez eu ligar cada vez mais os pontos.

    E não é sobre misticismo; é sobre inteligência de movimento e de energia. Sair dessa caixa dos treinos isolados me mostrou que o equilíbrio não é algo estático, mas sim um ajuste constante. Hoje, meu treino não é mais sobre o que eu faço, mas sobre como permito que essa alternância natural aconteça.

  • A Base Fundamental do Kung fu

    Quando se fala em kung fu (功夫) é muito comum vir à mente chutes, socos, Bruce Lee (Risos)…Isso é um inconsciente coletivo. Mas acredito que muitas pessoas que treinam há alguns anos, também se limitam apenas a esse conceito.

    Grande parte dos praticantes acabam se importando com quantas técnicas eles sabem, ou o quão rápido eles se tornaram faixa preta. E acabam deixando de lado uma coisa extremamente importante: o Fundamento.

    A dinâmica de treinamento do kung fu acaba se diferenciando de algumas artes marciais, pois existem vários conjuntos de formas que, em grande parte do tempo, são feitas individualmente. Como se fosse uma coreografia que simula um combate. Essas formas chamamos de Taolu (套路), que é o termo oficial e técnico em mandarim.

    Curiosamente, o termo Kati é muito difundido no Brasil para se referir a essas formas, mas ainda não achei a origem dessa palavra. Muitos dizem que é o termo Cantonês, mas nas minhas pesquisas, vi que o termo cantonês ainda não é Kati.

    Voltando…

    O treino dos Taolus acaba sendo um divisor de águas para identificar se a pessoa sabe ou não kung fu. Muitas pessoas não têm noção da aplicação marcial do que ela está fazendo. Uma coisa é decorar a forma, outra é entendê-la. E, infelizmente, o que mais se encontra são pessoas que não a entendem.

    Você pode achar um absurdo, mas é a realidade.

    Dentro do kung fu existem vários fundamentos, mas acho que é válido começar a falar de algo fundamental e primordial: o Qi (氣).

    Há quem diga que esse assunto é só para o Tàijíquán (太極拳), e sinto dizer que estão extremamente enganados.

    Agora eu vou trazer alguns conceitos de MTC (Medicina Tradicional Chinesa) até para mostrar o quanto tudo está conectado.

    chinese acupuncture chart science source
    Imagem antiga de mapa de meridianos de acupuntura.

    Existem canais no nosso corpo por onde flui o Qi. Sem ele não tem força e/ou energia. Se a gente não aplica e direciona o Qi, os golpes são vazios.

    Provavelmente você já ouviu o seu professor de kung fu ou até mesmo Bruce Lee falar que a força vem do quadril. Mecanicamente falando, sim, ele é a parte mais forte do nosso corpo e abriga nosso centro de gravidade. Mas em uma visão mais oriental, ali também abriga o centro de energia do nosso corpo, nossa energia vital. Não no quadril, mas na região pélvica. Essa região chamamos de Dāntián (丹田).

    Para mim, a grande força que temos nessa região e no nosso corpo é graças ao Dāntián.

    dantian
    No desenho ele está localizado na base próximo a região do umbigo. Mais ou menos 3 dedos abaixo do umbigo e mais para dentro no dentro do corpo.

    Ok, ele é o grande motor de energia do nosso corpo, mas como que a energia chega nos golpes?

    Temos energias nos nossos canais, mas a contração e o relaxamento é a bomba que impulsiona a energia. Um exemplo prático, é quando a gente aperta a nossa mão bem forte e de repente abre. Você sente que o sangue ficou preso por um momento e quando solta o sangue flui. Esse é o Qi voltando a circular.

    A título de conhecimento, o sangue, (xue (血), em chinês), é a parte mais densa do Qi. Logo se não há sangue, não há Qi.

    Esse movimento de contração e relaxamento acontece no kung fu. O tempo inteiro. Muitos acham que contrair o corpo o tempo inteiro para ter mais força é o certo. E não é. E isso é muito comum, me pego muito contraindo o corpo sem precisar.

    Mas temos que pensar que a maior parte do tempo estamos relaxados e, um pouco antes de cada ação é que contraímos os músculos para, no final, quando acertarmos o oponente, relaxar novamente. O golpe é o famoso efeito chicote.

    Por isso que a repetição é extremamente importante. Não para decorar a sequência e a forma, mas para treinar o corpo e perceber se você está fazendo o movimento certo. Repetição é auto-observação.

    Essa alternância de contração e relaxamento é o famoso conceito de Yin Yang. Mas isso é assunto para o próximo artigo…

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