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  • A arte de corrigir a si mesmo todos os dias

    Quando comecei a treinar kung fu lá no inicio dos anos 2000, foi uma mudança de chave na minha vida. No primeiro momento já me apaixonei pela arte e não quis mais parar.

    A vida me trouxe novas rotas, automaticamente o kung fu também teve que se adaptar a essa nova fase. No começo eu fui muito resistente, achava que não ia achar um lugar onde eu pudesse treinar kung fu como eu treinava, e queria continuar naquela linhagem, naquela academia.

    Mas o percurso me provou o contrário. Passei por algumas academias até me encontrar onde estou hoje.

    Essa história toda me mostrou muitas coisas, e a principal delas, e talvez a mais “clichê” de todas, é que eu não sei nada.

    Todas as pessoas que chegam em uma certa fase do kung fu ou, senão, para mostrar aquele símbolo de humildade perante o conhecimento, falam a mesma coisa.

    Mas isso é extremamente real.

    Eu, por experiência própria, achava que sabia muito. Mas quando entrei em contato com novos professores e novos pontos de vista, percebi o quão limitada eu era no assunto.

    Eu não acho que meu primeiro professor não sabia nada, muito pelo contrário, ele me ensinou muitas coisas que eu levo até hoje. Mas cada professor passa pra gente a vivência e o estudo que ele teve dentro da arte marcial.

    É muito comum em uma academia que treinamos há algum tempo, reproduzirmos “vícios” de pessoas que estão acima da gente. É a nossa referência e isso é inevitável.

    E toda essa experiência me fez querer estudar mais, expandir minha mente e estar aberta para novas informações.

    Foi aí que comecei a tentar evoluir no meu treinamento, não só dentro da academia, mas também fora dela, principalmente pelos livros.

    Comecei a prestar a atenção na minha forma, no que eu precisava melhorar. E vi que a rigidez estava muito presente. Isso é muito comum em quem treina estilos externos do kung fu. Queremos botar força na forma o tempo inteiro. Mas não é força que precisamos o tempo inteiro – é precisão e firmeza.

    Foi aí que eu fui buscar o Taijiquan e o Qi Gong para relaxar meu corpo. Confesso que eu achei que ia ser mais fácil, mas encontrei muitos desafios.

    O maior desafio pra mim era o alinhamento. Eu não imaginava que isso seria tão importante. Estudando o porquê do alinhamento comecei também a aplicaá-lo no kung fu.

    Temos dois canais de energia muito importantes: Dū Mài 督脉 (Vaso Governador) e Rèn Mài 任脉 (Vaso Concepção). O Dū Mài sobe pela coluna vertebral representando a energia ativa, é o mar dos meridianos Yang, e o Rèn Mài que desce pela linha média anterior do corpo, é o eixo da nutrição do nosso corpo e o mar dos meridianos Yin. Esses dois se conectam e formam a Pequena Circulação 小周天 (Xiǎo Zhōu Tiān).

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    Rèn Mài – Dū Mài – Pequena Circulação.

    O grande objetivo dessa Pequena Circulação é desobstruir esses dois canais, permitindo que o Qi circule sem resistência nenhuma e que ele comece a nutrir o corpo.

    E como isso se aplica na arte marcial?

    No artigo anterior, falei sobre o fluxo do Qi, e para que o golpe tenha poder real, sem depender somente da força muscular, a energia precisa estar livre para circular. A partir disso, você consegue fazer o Fā jìn 発勁, que é justamente essa explosão de força e energia. Se bloquearmos esse fluxo, a força trava nos ombros ou na lombar, deixando o golpe mais rígido, sem potência e você se cansa mais.

    É um conceito extremamente comum no estilo Chen de Taijiquan, mas se aplicamos no kung fu, você percebe que a velocidade de transição de movimentos aumentam e com menos esforço. E claro a aplicação de energia fica muito melhor.

    Colocar esse conceito no treinamento foi extremamente difícil. No treino de Taijiquan eu me pego muitas vezes desalinhando o eixo, ou perdendo o equilíbrio para tentar encaixar.

    Me pego fazendo o mesmo movimento várias vezes, nos treinos, em casa do nada no meio da sala, vendo meu reflexo na tv… enfim qualquer oportunidade que eu posso estar me vendo e me percebendo é uma oportunidade.

    Cada repetição é um momento de perceber o corpo e onde posso melhorar. Além de repetição o que pode ser feito? Treinar perna? Core? Equilíbrio? Várias possibilidades para que a técnica seja mais fluída.

    Me pego errando ainda, mas o lado positivo é que eu percebo quando as coisas não andam certas.

    Mas isso é treino, consistência… persistência.

    Poderia ter parado lá atrás quando mudei de academia, ou quando percebi que não sabia nada. Também poderia treinar somente na academia e me contentar com o que eu aprendi, sem me aperfeiçoar ou expandir. Mas resolvi fazer tudo diferente.

    A arte do kung fu é isso, treinar constantemente e ter paciência para melhora até os movimentos mais simples.

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  • A Base Fundamental do Kung fu

    Quando se fala em kung fu (功夫) é muito comum vir à mente chutes, socos, Bruce Lee (Risos)…Isso é um inconsciente coletivo. Mas acredito que muitas pessoas que treinam há alguns anos, também se limitam apenas a esse conceito.

    Grande parte dos praticantes acabam se importando com quantas técnicas eles sabem, ou o quão rápido eles se tornaram faixa preta. E acabam deixando de lado uma coisa extremamente importante: o Fundamento.

    A dinâmica de treinamento do kung fu acaba se diferenciando de algumas artes marciais, pois existem vários conjuntos de formas que, em grande parte do tempo, são feitas individualmente. Como se fosse uma coreografia que simula um combate. Essas formas chamamos de Taolu (套路), que é o termo oficial e técnico em mandarim.

    Curiosamente, o termo Kati é muito difundido no Brasil para se referir a essas formas, mas ainda não achei a origem dessa palavra. Muitos dizem que é o termo Cantonês, mas nas minhas pesquisas, vi que o termo cantonês ainda não é Kati.

    Voltando…

    O treino dos Taolus acaba sendo um divisor de águas para identificar se a pessoa sabe ou não kung fu. Muitas pessoas não têm noção da aplicação marcial do que ela está fazendo. Uma coisa é decorar a forma, outra é entendê-la. E, infelizmente, o que mais se encontra são pessoas que não a entendem.

    Você pode achar um absurdo, mas é a realidade.

    Dentro do kung fu existem vários fundamentos, mas acho que é válido começar a falar de algo fundamental e primordial: o Qi (氣).

    Há quem diga que esse assunto é só para o Tàijíquán (太極拳), e sinto dizer que estão extremamente enganados.

    Agora eu vou trazer alguns conceitos de MTC (Medicina Tradicional Chinesa) até para mostrar o quanto tudo está conectado.

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    Imagem antiga de mapa de meridianos de acupuntura.

    Existem canais no nosso corpo por onde flui o Qi. Sem ele não tem força e/ou energia. Se a gente não aplica e direciona o Qi, os golpes são vazios.

    Provavelmente você já ouviu o seu professor de kung fu ou até mesmo Bruce Lee falar que a força vem do quadril. Mecanicamente falando, sim, ele é a parte mais forte do nosso corpo e abriga nosso centro de gravidade. Mas em uma visão mais oriental, ali também abriga o centro de energia do nosso corpo, nossa energia vital. Não no quadril, mas na região pélvica. Essa região chamamos de Dāntián (丹田).

    Para mim, a grande força que temos nessa região e no nosso corpo é graças ao Dāntián.

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    No desenho ele está localizado na base próximo a região do umbigo. Mais ou menos 3 dedos abaixo do umbigo e mais para dentro no dentro do corpo.

    Ok, ele é o grande motor de energia do nosso corpo, mas como que a energia chega nos golpes?

    Temos energias nos nossos canais, mas a contração e o relaxamento é a bomba que impulsiona a energia. Um exemplo prático, é quando a gente aperta a nossa mão bem forte e de repente abre. Você sente que o sangue ficou preso por um momento e quando solta o sangue flui. Esse é o Qi voltando a circular.

    A título de conhecimento, o sangue, (xue (血), em chinês), é a parte mais densa do Qi. Logo se não há sangue, não há Qi.

    Esse movimento de contração e relaxamento acontece no kung fu. O tempo inteiro. Muitos acham que contrair o corpo o tempo inteiro para ter mais força é o certo. E não é. E isso é muito comum, me pego muito contraindo o corpo sem precisar.

    Mas temos que pensar que a maior parte do tempo estamos relaxados e, um pouco antes de cada ação é que contraímos os músculos para, no final, quando acertarmos o oponente, relaxar novamente. O golpe é o famoso efeito chicote.

    Por isso que a repetição é extremamente importante. Não para decorar a sequência e a forma, mas para treinar o corpo e perceber se você está fazendo o movimento certo. Repetição é auto-observação.

    Essa alternância de contração e relaxamento é o famoso conceito de Yin Yang. Mas isso é assunto para o próximo artigo…

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