A disseminação do novo coronavírus (Covid-19) alterou radicalmente a rotina de atletas de alto rendimento, principalmente com o fechamento temporário de academias, parques e demais locais destinados à realização de atividades físicas
Durante o período de isolamento social, os atletas contemplados pelo programa Bolsa Atleta, concedido pelo Governo do Estado, por intermédio da Fundação de Desporto e Lazer de Mato Grosso do Sul (Fundesporte), mantêm os treinamentos em suas residências com a ajuda de utensílios domésticos e com acompanhamento técnico à distância.
Para Edineia Camargo, atleta da seleção brasileira de Kung Fu Wushu (www.cbkw.org.br), o período de isolamento, serve para reflexão a respeito da importância do esporte em sua vida. “Me fez pensar em quanto amo o que faço e nas coisas realmente importantes, como família, amigos e pequenos gestos que, na correria do dia a dia, passavam despercebidos.
Eu nunca imaginei que passaríamos por algo dessa forma, esse momento está sendo de muita mudança. Tive que adaptar toda minha rotina, como atleta e profissional. Os treinos que eram feitos em academia estão sendo realizados em casa, é claro que não tenho a mesma estrutura. As consultas de nutricionista e psicóloga estão sendo feitas online. Estou fazendo o melhor que eu posso na realidade que tenho. O calendário esportivo da minha modalidade do primeiro semestre foram canceladas todas as competições e estou aguardando notícias sobre o segundo semestre. Não é fácil pensar que talvez ficaremos longe das competições por algum tempo. Mas esse momento deve ser de resiliência, fé, esperança e otimismo por dias melhores no esporte e no mundo.
“Consigo fazer em casa treino de flexibilidade, aeróbicos (pular corda, rounds), circuitos com exercícios funcionais voltados à luta, sequências de golpes específicos da minha modalidade, o Wushu Sanda com uso de manoplas e aparadores de chutes”, completa a multicampeã sul-mato-grossense na arte marcial chinesa (Wushu/Kungfu), que ainda realiza consultas online com nutricionista e psicóloga.
Fonte: Lucas Castro – Fundação de Desporto e Lazer de Mato Grosso do Sul (Fundesporte) – http://www.fundesporte.ms.gov.br/e Atleta Edineia Camargo.
O Kungfudoc deseja sucesso para a atleta Edineia Camargo, nesta fase de isolamento social e estamos na torcida por dias melhores para a atleta, assim como para todos no mundo.
Não são poucas as pessoas que ao se depararem com o Sanda competitivo pela primeira vez, fazem aquele olhar de que tem algo faltando (ou sobrando) por ali. Conversando com diversas dessas pessoas, ao longo do tempo, acabei identificando que o espanto ocorre por dois motivos básicos, elas esperam encontrar os vôos e os chutes mirabolantes dos filmes de kung fu, e também esperam identificar a aplicação das formas em toda a sua pompa e plasticidade. Como não encontraram esses elementos, pelo menos a olho nu, se frustram! Tal fato não é de se admirar, muito menos de se condenar, considerando que a forma pela qual a grande maioria tem contato com as artes marciais é a via materiais de qualidade histórico-científica bastante duvidosa e de baixa qualidade. Sendo assim, tentarei, obviamente, sem a mínima pretensão de encerrar um tema tão complexo, contribuir com alguma luz sobre essa questão que chamo jocosamente de “boxificação” do kung fu, e também sobre sua esportivização, a partir de dois tópicos: histórico e técnico.
Primeiramente, dentro da questão histórica, é preciso esclarecer que tais fenômenos não são recentes, criados para adequar o Wushu ao MMA ou para concorrer com o Muay Thai, mas é sim efeito de um processo histórico que, segundo o Sifu David Ross, em seu artigo intitulado “Kung Fu and Western Boxing”, começa antes mesmo do primeiro registro escrito sobre Boxe ocidental na China, intitulado “The Technique of western Boxing”, publicado em 1920, em Shangai. O amálgama, de acordo com o autor, começa já nos primeiros contatos do ocidente com a China, durante dinastia Qing (1644-1912). Mais tarde, dando alguns saltos na linha do tempo, durante advento da china nacionalista (1912–1949), temos o início de uma movimentação mais acentuada em direção à esportivização do Sanda. Nesse período, ocorrem em toda a China competições entre centenas de participantes em diversas regiões da China, onde os melhores colocados eram selecionados para assumirem cargos nos institutos de artes marciais locais. Esses institutos tinham como objetivo organizar as artes marciais chinesas, tornando-as patrimônio nacional. Uma das edições mais famosas do evento ocorreu na província de Hangzhou, no ano de 1929, que de acordo com Yosaku, no artigo Masters of IMA, contou com a participação de 240 lutadores. Importante salientar que era possível observar referências do Boxe ocidental em muitos desses lutadores, o que teria gerado protestos por parte de alguns participantes.
Prática de técnicas de combate com luvas, no famoso Instituto de Artes Marciais de Nanjing, China, 1930.
Mais adiante, na década de 40, ocorreriam grandes combates entre lutadores chineses e estrangeiros na cidade de Shangai. Segundo Gigi Oh e Gene Ching, em um desses eventos, mestre Cai Longyun, com apenas 14 anos, ganharia destaque internacional, derrotando um lutador russo nas regras do boxe ocidental, incluindo luvas fechadas e ringue com cordas. Já entre os anos 60-80, temos o desenvolvimento e a fundação da equipe de Sanda de Beijing, pelo mestre Zhang Wenguang, que também foi responsável pelos primeiros estudos e pela organização das regras internacionais de Sanda, com características muito próximas das competições de hoje. Logo em seguida, começam as edições dos Campeonatos Mundiais de Wushu e a consolidação internacional do Sanda como a forma oficial de combate competitivo do Wushu padronizado. Importante salientar que os mestres Cai e Zhang, entre muitos outros que também construíram elos entre o Boxe ocidental e o Kung fu, eram especialistas em estilos tradicionais como Huaquan e Chanquan, alicerces do Wushu nortista contemporâneo. A importância da atuação desses professores transcendeu o tempo, permeando as escolas tradicionais e as estruturas desportivas do Wushu padronizado como um todo. Legados que ainda vivem!
Acima: Mestre Cai Longyun, especialista nos estilos Huaquan e Taijiquan, em uma de suas lutas em Shangai, China, década de 40. Abaixo: luta da categoria feminina no 14° Mundial de Wushu, Rússia, 2017.
E quanto as aplicações do Taolu dentro da competição de Sanda; elas podem acontecer ou não? Bem, nessa parte vou tomar a liberdade de trazer uma opinião pessoal, embasada nas experiências que vivi ao longo desses mais de 20 anos dentro das artes marciais chinesas. As possibilidades existem, mas devido a todas as transformações sofridas ao longo de séculos, como citado anteriormente, unidas as necessidades e adaptações impostas pelas competições modernas, não são percebidas tão facilmente a olho nu e não acontecem com a frequência que os apreciadores de um bom filme de kung fu e que os praticantes mais tradicionalistas gostariam de ver. Desta forma, sintetizei de maneira bem objetiva algumas considerações que acho importante a respeito das possibilidades de aplicação tradicional dentro da estrutura do Sanda moderno. Existe uma aplicação direta, onde temos um caráter mais externo, que são as técnicas de luta propriamente ditas, podendo ser observadas, principalmente, no contexto das projeções, uma vez que o Taolu é repleto de técnicas de quedas. E existe a aplicação indireta, onde estão inseridas questões como o condicionamento físico e mental, abrangendo desde a melhoria da concentração, até a melhoria da agilidade, criatividade e resistência do lutador. Entretanto, apesar de todas as possibilidades que as formas podem oferecer no processo de preparação interna e externa do atleta, elas parecem, com o passar do tempo, ter ficado restritas aos ambientes tradicionais de ensino, e cada vez menos utilizadas pelos sistemas de graduação modernizados. Isto pode ser observado claramente nos currículos de formação de professores e alunos de diversas instituições ao redor do mundo, onde os programas são desenvolvidos sem a exigência de conhecimentos em técnicas tradicionais como o Taolu.
Mestre Zhang Wenguang (no centro), fundador da equipe de Wushu Sanda de Beijing, com alguns de seus alunos, entre os anos 1979-80. Todos Especialistas em Taolu.
Dado o exposto, podemos concluir que
o Sanda como modalidade esportiva evoluiu de tal maneira que o treinamento das
formas, apesar de ter o potencial de ser um diferencial no desenvolvimento do
atleta, ficou restrito aos professores que optam por utilizá-lo dentro de uma
didática particular. Além disso, parece que a alta demanda por atletas
treinados especificamente para competições vem influenciando as graduações, as
regras e o jogo do Sanda, distanciando o Wushu de suas raízes tradicionais, que
devido a um longo tempo de formação, acaba por fugir dos processos dinâmicos e
extremamente específicos exigidos em um treinamento esportivo moderno. Sendo
assim, para aqueles que apostam em uma futura reunificação do Sanda com seus
aspectos técnicos mais clássicos, como vem acontecendo com o Taolu, parece que
não deve acontecer tão breve. Pelo contrário, parece se tornar algo cada vez
mais distante, levando em conta a especificidade exigida para se chegar a altos
patamares do esporte, contrapondo o caráter generalista dos métodos antigos.
Porém, apesar da modernização do Sanda ser uma discussão polêmica, com linhas
de pensamento e opiniões diversas, não se pode negar que a modalidade é mais
uma das infinitas faces do Wushu, que por sua vez carrega na sua essência um
histórico e constante transformar-se. Uma arte a ser repensada constantemente,
como fizeram os antigos mestres. Sempre fora da zona de conforto.