Quando se fala em zen e filosofia oriental, um símbolo muito comum vem à mente: o Yin-Yang.
Ele é basicamente o símbolo do equilíbrio. Porém, muita gente se limita aos opostos: masculino e feminino, claro escuro… enfim… mas isso é muito mais do que se imagina.
Não podemos nos limitar que determinada coisa sempre vai ser Yin ou Yang, isso vai depender muito do contexto ou ponto de vista.
Um exemplo prático é a água. Ela pode ser Yin quando líquida ou sólida (gelo) ou pode ser Yang quando está no estado gasoso. Tudo é uma questão de contexto.
Mas agora vamos um pouco mais denso no conteúdo. Estamos, por enquanto, falando de coisas que são muito populares para explicar o Yin-Yang, mas ele é muito mais profundo que isso e também o conceito mais importante da medicina chinesa.
A energia Yin é uma energia de reclusão, de descanso, de sombra, de densidade. Já a energia Yang é a expansão, atividade, luminosidade, dispersão.
Falar em Yin-Yang é sempre falar em algo cíclico. O próprio símbolo nos sugere isso. Logo, todo ápice de expansão inicia uma reclusão para criar energia para iniciar uma expansão novamente.
Um exemplo prático é o dia e a noite. O meio dia é o ápice do Yang, o pôr do sol é o final do Yang e começo do Yin. Meia noite é o ápice do Yin e o amanhecer é fim do Yin e começo do Yang.
Pensar que o conceito de Yin-Yang está em tudo é a mais pura verdade. Tudo se modifica, se transforma.
Levando esse conceito em conta, eu resolvi pensar um pouco mais nos meus treinos. Treinar kung fu todos esses anos foi e ainda é ótimo. É a parte ativa do meu dia, meu treino de força e físico. Mas a ideia de também treinar o interno, a energia também passou a falar mais alto. Era a peça que faltava.
Saber fazer a alternância do tensionamento e do relaxamento, me faz sentir que o corpo flui melhor. Saber manipular e aplicar a energia de forma certa fez total diferença no meu treino de kung fu.
E aqui não falo só de contração e relaxamento, isso é o básico. Mas falo também de posturas que facilitam essa alternância de energia. O Yin-Yang acontece o tempo todo no nosso corpo, nos movimentos, intenções, em tudo. E saber usar isso a seu favor deixa sua forma mais fluida e dinâmica.
Acredito que aqui começamos a assimilar cada vez mais o treinamento e o propósito dele.
Poderia simplesmente treinar Kung fu e treinar Taijiquan ou Qi Gong e focar somente em treinos isolados. Mas e se a gente unir esses universos?
Essa foi a melhor combinação que eu fiz e saí um pouco da caixa. Isso pode ser extremamente comum para os chineses mas, pelo menos aqui no Brasil, é pouquíssimo falado.
Essa busca de entender mais sobre energia me fez andar em campos que eu talvez não iria em uma academia e acredito que fez eu ligar cada vez mais os pontos.
E não é sobre misticismo; é sobre inteligência de movimento e de energia. Sair dessa caixa dos treinos isolados me mostrou que o equilíbrio não é algo estático, mas sim um ajuste constante. Hoje, meu treino não é mais sobre o que eu faço, mas sobre como permito que essa alternância natural aconteça.
Quando comecei a treinar kung fu lá no inicio dos anos 2000, foi uma mudança de chave na minha vida. No primeiro momento já me apaixonei pela arte e não quis mais parar.
A vida me trouxe novas rotas, automaticamente o kung fu também teve que se adaptar a essa nova fase. No começo eu fui muito resistente, achava que não ia achar um lugar onde eu pudesse treinar kung fu como eu treinava, e queria continuar naquela linhagem, naquela academia.
Mas o percurso me provou o contrário. Passei por algumas academias até me encontrar onde estou hoje.
Essa história toda me mostrou muitas coisas, e a principal delas, e talvez a mais “clichê” de todas, é que eu não sei nada.
Todas as pessoas que chegam em uma certa fase do kung fu ou, senão, para mostrar aquele símbolo de humildade perante o conhecimento, falam a mesma coisa.
Mas isso é extremamente real.
Eu, por experiência própria, achava que sabia muito. Mas quando entrei em contato com novos professores e novos pontos de vista, percebi o quão limitada eu era no assunto.
Eu não acho que meu primeiro professor não sabia nada, muito pelo contrário, ele me ensinou muitas coisas que eu levo até hoje. Mas cada professor passa pra gente a vivência e o estudo que ele teve dentro da arte marcial.
É muito comum em uma academia que treinamos há algum tempo, reproduzirmos “vícios” de pessoas que estão acima da gente. É a nossa referência e isso é inevitável.
E toda essa experiência me fez querer estudar mais, expandir minha mente e estar aberta para novas informações.
Foi aí que comecei a tentar evoluir no meu treinamento, não só dentro da academia, mas também fora dela, principalmente pelos livros.
Comecei a prestar a atenção na minha forma, no que eu precisava melhorar. E vi que a rigidez estava muito presente. Isso é muito comum em quem treina estilos externos do kung fu. Queremos botar força na forma o tempo inteiro. Mas não é força que precisamos o tempo inteiro – é precisão e firmeza.
Foi aí que eu fui buscar o Taijiquan e o Qi Gong para relaxar meu corpo. Confesso que eu achei que ia ser mais fácil, mas encontrei muitos desafios.
O maior desafio pra mim era o alinhamento. Eu não imaginava que isso seria tão importante. Estudando o porquê do alinhamento comecei também a aplicaá-lo no kung fu.
Temos dois canais de energia muito importantes: Dū Mài 督脉 (Vaso Governador) e Rèn Mài 任脉 (Vaso Concepção). O Dū Mài sobe pela coluna vertebral representando a energia ativa, é o mar dos meridianos Yang, e o Rèn Mài que desce pela linha média anterior do corpo, é o eixo da nutrição do nosso corpo e o mar dos meridianos Yin. Esses dois se conectam e formam a Pequena Circulação 小周天 (Xiǎo Zhōu Tiān).
Rèn Mài – Dū Mài – Pequena Circulação.
O grande objetivo dessa Pequena Circulação é desobstruir esses dois canais, permitindo que o Qi circule sem resistência nenhuma e que ele comece a nutrir o corpo.
E como isso se aplica na arte marcial?
No artigo anterior, falei sobre o fluxo do Qi, e para que o golpe tenha poder real, sem depender somente da força muscular, a energia precisa estar livre para circular. A partir disso, você consegue fazer o Fā jìn 発勁, que é justamente essa explosão de força e energia. Se bloquearmos esse fluxo, a força trava nos ombros ou na lombar, deixando o golpe mais rígido, sem potência e você se cansa mais.
É um conceito extremamente comum no estilo Chen de Taijiquan, mas se aplicamos no kung fu, você percebe que a velocidade de transição de movimentos aumentam e com menos esforço. E claro a aplicação de energia fica muito melhor.
Colocar esse conceito no treinamento foi extremamente difícil. No treino de Taijiquan eu me pego muitas vezes desalinhando o eixo, ou perdendo o equilíbrio para tentar encaixar.
Me pego fazendo o mesmo movimento várias vezes, nos treinos, em casa do nada no meio da sala, vendo meu reflexo na tv… enfim qualquer oportunidade que eu posso estar me vendo e me percebendo é uma oportunidade.
Cada repetição é um momento de perceber o corpo e onde posso melhorar. Além de repetição o que pode ser feito? Treinar perna? Core? Equilíbrio? Várias possibilidades para que a técnica seja mais fluída.
Me pego errando ainda, mas o lado positivo é que eu percebo quando as coisas não andam certas.
Mas isso é treino, consistência… persistência.
Poderia ter parado lá atrás quando mudei de academia, ou quando percebi que não sabia nada. Também poderia treinar somente na academia e me contentar com o que eu aprendi, sem me aperfeiçoar ou expandir. Mas resolvi fazer tudo diferente.
A arte do kung fu é isso, treinar constantemente e ter paciência para melhora até os movimentos mais simples.
Prefere conteúdo em vídeo? Assista o vídeo abaixo para um resumo visual deste artigo.
Quando se fala em kung fu (功夫) é muito comum vir à mente chutes, socos, Bruce Lee (Risos)…Isso é um inconsciente coletivo. Mas acredito que muitas pessoas que treinam há alguns anos, também se limitam apenas a esse conceito.
Grande parte dos praticantes acabam se importando com quantas técnicas eles sabem, ou o quão rápido eles se tornaram faixa preta. E acabam deixando de lado uma coisa extremamente importante: o Fundamento.
A dinâmica de treinamento do kung fu acaba se diferenciando de algumas artes marciais, pois existem vários conjuntos de formas que, em grande parte do tempo, são feitas individualmente. Como se fosse uma coreografia que simula um combate. Essas formas chamamos de Taolu (套路), que é o termo oficial e técnico em mandarim.
Curiosamente, o termo Kati é muito difundido no Brasil para se referir a essas formas, mas ainda não achei a origem dessa palavra. Muitos dizem que é o termo Cantonês, mas nas minhas pesquisas, vi que o termo cantonês ainda não é Kati.
Voltando…
O treino dos Taolus acaba sendo um divisor de águas para identificar se a pessoa sabe ou não kung fu. Muitas pessoas não têm noção da aplicação marcial do que ela está fazendo. Uma coisa é decorar a forma, outra é entendê-la. E, infelizmente, o que mais se encontra são pessoas que não a entendem.
Você pode achar um absurdo, mas é a realidade.
Dentro do kung fu existem vários fundamentos, mas acho que é válido começar a falar de algo fundamental e primordial: o Qi (氣).
Há quem diga que esse assunto é só para o Tàijíquán (太極拳), e sinto dizer que estão extremamente enganados.
Agora eu vou trazer alguns conceitos de MTC (Medicina Tradicional Chinesa) até para mostrar o quanto tudo está conectado.
Imagem antiga de mapa de meridianos de acupuntura.
Existem canais no nosso corpo por onde flui o Qi. Sem ele não tem força e/ou energia. Se a gente não aplica e direciona o Qi, os golpes são vazios.
Provavelmente você já ouviu o seu professor de kung fu ou até mesmo Bruce Lee falar que a força vem do quadril. Mecanicamente falando, sim, ele é a parte mais forte do nosso corpo e abriga nosso centro de gravidade. Mas em uma visão mais oriental, ali também abriga o centro de energia do nosso corpo, nossa energia vital. Não no quadril, mas na região pélvica. Essa região chamamos de Dāntián (丹田).
Para mim, a grande força que temos nessa região e no nosso corpo é graças ao Dāntián.
No desenho ele está localizado na base próximo a região do umbigo. Mais ou menos 3 dedos abaixo do umbigo e mais para dentro no dentro do corpo.
Ok, ele é o grande motor de energia do nosso corpo, mas como que a energia chega nos golpes?
Temos energias nos nossos canais, mas a contração e o relaxamento é a bomba que impulsiona a energia. Um exemplo prático, é quando a gente aperta a nossa mão bem forte e de repente abre. Você sente que o sangue ficou preso por um momento e quando solta o sangue flui. Esse é o Qi voltando a circular.
A título de conhecimento, o sangue, (xue (血), em chinês), é a parte mais densa do Qi. Logo se não há sangue, não há Qi.
Esse movimento de contração e relaxamento acontece no kung fu. O tempo inteiro. Muitos acham que contrair o corpo o tempo inteiro para ter mais força é o certo. E não é. E isso é muito comum, me pego muito contraindo o corpo sem precisar.
Mas temos que pensar que a maior parte do tempo estamos relaxados e, um pouco antes de cada ação é que contraímos os músculos para, no final, quando acertarmos o oponente, relaxar novamente. O golpe é o famoso efeito chicote.
Por isso que a repetição é extremamente importante. Não para decorar a sequência e a forma, mas para treinar o corpo e perceber se você está fazendo o movimento certo. Repetição é auto-observação.
Essa alternância de contração e relaxamento é o famoso conceito de Yin Yang. Mas isso é assunto para o próximo artigo…
Prefere conteúdo em vídeo? Assista o vídeo abaixo para um resumo visual deste artigo.
No nosso último artigo (se não conferiu, pode clicar aqui), falamos sobre a pré história até a idade de ferro, na dinastia Qin, com o início do Shoupo (手搏)(sanda) e Juedi (角抵)(shuai jiao) na China.
Xiongnu – Fonte: South China Morning Post
Continuaremos nossa história com a Dinastia Han(207 a.C – 220 d.C), e nesse período a China estava travando várias batalhas contra os Xiongnu, que eram uma tribo do norte da China. Eles utilizavam um facão de um fio (pp), que era muito mais barato, durável e mais fácil de treinar do que a espada de dois fios (Jian 劍) do exército chinês. O exército de Han conseguiu derrotar a tribo de Xiongnu.
Um termo muito popular na época para artes marciais era o Wuyi(武藝). Esse termo incluía: tiro com arco, cavalaria, levantamento de peso, shoupo, juedi, combate desarmado, luta com armas e sparring.
Imperador Wu
Os mais populares eram o shoupo(sanda) e o juedi (shuai jiao), e quem ajudou nessa popularidade foi o Imperador Wu(141 – 87 a.C), que era praticante de juedi e organizava competições que atraía muitos espectadores. O shoupo era praticado com short, não utilizavam luvas e não tinham regras muito seguras. O juedi era mais seguro, os competidores não podiam golpear ou chutar e ainda ganhavam pontos jogando o oponente no chão.
Nessa época, os mestres da espada eram muito populares e respeitados, e não era só restrito aos homens, mulheres também eram muito habilidosas nessa arte. As técnicas de espada eram passada como se fossem em Taolu (套路), e as mulheres da época faziam performances com esses Taolu como se fossem uma dança, mas também havia disputas entre artistas marciais muito bem treinados.
A dinastia Han contribuiu muito para as informações que temos hoje sobre o Kung Fu. Foram escritos vários documentos nessa época com táticas de guerra, textos sobre espada, métodos de tiro, e houve alguns escritos sobre o shoupo, mas, infelizmente, esses textos não foram encontrados, e esses métodos foram conhecidos por outras fontes. O historiador Ma Mingda (马明达) fala que o shoupo incluía 4 elementos básicos da luta sem armas: golpear com as mãos (da), chutar (ti),derrubar (shuai) e controlar as articulações (na). Apesar de estarem presentes na dinastia Han, ele se consolidou de forma mais clara em períodos posteriores.
Em 1973, foi encontrado na província de Hunan, uma pintura em seda, datada da dinastia Han, que mostra pessoas fazendo uma série de exercício. Não se sabe ao certo o significado dessas imagens, uns falam que é um manual de kung fu, outros falam que é um exercício de ginástica (Dao Yin (导引).
L0036007 Daoyin tu – chart for leading and guiding people in exercise Credit: Wellcome Library, London. Wellcome Images images@wellcome.ac.uk http://wellcomeimages.org Daoyin tu – chart for leading and guiding people in exercise for improving health and treatment of pain, containing animal postures such as bear walk. This is a reconstruction of a ‘Guiding and Pulling Chart’ excavated from the Mawangdui Tomb 3 (sealed in 168BC) in the former kingdom of Changsha. The original is in the Hunan Provincial Museum, Changsha, China. Poster 20th Century Published: –
Copyrighted work available under Creative Commons Attribution only licence CC BY 4.0 http://creativecommons.org/licenses/by/4.0/
No período de 220-280 d.C, acaba a dinastia Han e começa o Período de Três Reinos, e é considerado um dos períodos mais sangrentos da China, e também foi marcada por uma era taoísa e pela expansão do budismo.
Nessa época, o shoupo era praticado por todos os níveis da sociedade, e até grande pensadores tinham interesse nas artes marciais. Taolu de armas e mãos foram criados com o intuito das técnicas não serem esquecidas, mas havia uma grande diferença entre as formas para lutas e demonstrações.
Mais ou menos nessa época que Bodhidharma veio da Índia para a China para espalhar o budismo, em 527 d.C, ele chegou no Templo Shaolin,e inicialmente ele só veio espalhar o budismo Chan.
Mas, diz a tradição, ele percebeu que os monges estavam fisicamente despreparados, e não aguentavam horas de meditação. Logo Bodhidharma introduziu uma série de exercícios, que podemos associar ao Qi Gong afim de melhorar a condição física dos monges. Segundo ele corpo e mente são inseparáveis.
Esses exercícios acabaram influenciando o desenvolvimento do Kung Fu Shaolin. Um exemplo claro é a técnica 18 mãos de Luohan (18 Lohan Shou) que nasceu para dar vitalidade e como o passar do tempo os monges perceberam que essa técnica dava força, coordenação e que os movimentos imitavam ações naturais como empurrar, desviar, e acabaram aplicando isso em combate também.
Embora essa seja a narrativa tradicional, historiadores modernos como Meir Shahar demonstram que as artes marciais de Shaolin se desenvolveram organicamente devido à necessidade de autodefesa e ao status militar do templo, e não por um único monge indiano.
O desenvolvimento do Templo Shaolin após a passagem de Bodhidharma tornou-se um marco porque, até então, as técnicas de luta eram predominantemente militares, focadas apenas no combate. Com a influência da filosofia budista trazida por ele, consolidou-se, ao longo dos séculos, uma nova metodologia: a união entre saúde interna (Qi Gong) e treinamento marcial. Foi essa integração que permitiu a virada de chave do ‘saber lutar’ para o ‘praticar uma arte’.
Isso foi uma grande inspiração que, séculos mais tarde, surgisse diversas ramificações de estilos e escolas que conhecemos hoje.
Bodhidharma
Entramos na Dinastia Tang (618-906 d.C), e foi nesse período que a China foi unificada novamente. Nessa época, eles começaram a fazer exames imperiais para selecionar guerreiros para os altos cargos, com graduações de distritos e províncias para nível nacional. As modalidades inclusas nessa prova eram cavalaria, luta no solo, técnicas de lança, uso de várias armas, arquearia, levantamento de peso e estratégias militares.
Shoupo e juedi continuaram populares, mas surgiu uma nova modalidade de wrestling, o Xiangpu (相扑) ou Jueli (角力). Nessa técnica eles lutavam com uma tanga e um elástico no cabelo. Essa modalidade pode ter contribuído com a origem do sumô japonês.
Xiangpu (相扑) e Jueli (角力) são a mesma coisa, porém são termos para épocas diferentes. Jueli é um termo mais comum nos manuais militares um termo que siginifica literalmente “medir forças” muito comum entre as Dinastias Han e Tang. O xiangpu é essa técnica em forma de espetáculo. Um termo que ganhou mais força entre as Dinastias Tang e Song. A título de curiosidade, o Xiangpu da Dinastia Song permitia golpes de mão aberta e chutes baixos. Enquanto o Jueli focava em força nos troncos e braços, basicamente o agarrar.
A Dinastia Song (960-1279 d.C.) foi marcada pelo surgimento de escolas e academias militares oficiais.
Imperador Taizu
Diz a tradição que o próprio fundador da dinastia, o Imperador Taizu, era um mestre de artes marciais renomado. Ele criou um estilo próprio, o Taizu Changquan (a técnica de Punho Longo), que se tornou tão respeitado que acabou sendo incorporado ao currículo do Templo Shaolin e incentivou toda a população a praticar para a defesa do império.
O kung fu era conhecido nessa época como wuyi, e muitos clubes de artes marciais foram criados, muitos artistas marciais experientes viajavam para fazer demonstrações públicas de suas técnicas. O mais interessante é que a maioria desses artistas eram mulheres, mas vale destacar que elas eram artistas de rua profissionais.
“Grand Classic of Martial Arts” (O grande Clássico de Artes Marciais)ou em chinês Wujing Zongyao (武经总要), foi escrito nesse período, contendo estratégias e treinamentos militares, e também contava histórias de batalhas importantes antes da Dinastia Song.
Reprodução do Livro: Wujing Zongyao (武经总要)
Chega um momento da história da China que eles são governados por mongóis, na dinastia Yuan (1260-1368 d.C), e uma das medidas tomadas foi a proibição da prática de artes marciais e da posse de armas. Mas uma modalidade de wrestling, de origem mongol, o Zuojiao (zuò jiǎo – 坐脚), ficou popular na China. Essa técnica influenciou diretamente o que conhecemos hoje como Shuai Jiao (摔跤). Ela está ligada ao ato de “derrubar” ou “fazer cair”. Foi nesse período que começou o uso das jaquetas resistentes (de lona ou couro) e se tornou padrão nas lutas, algo que os mongóis já usavam.
Com a proibição de armas para os chineses, as artes marciais foram preservadas secretamente através de dramas teatrais e danças, mascarando a técnica marcial em performances.
Na Dinastia Ming (1368-1644 d.C), além do termo wuyi, o kung fu também era conhecido como quanfa (técnicas de punho). Nessa época as técnicas de demonstração e as técnicas marciais começaram a ficar mais distintas. Os generais do exército faziam competição de lutas entre soldados e os profissionais de kung fu faziam apresentações com técnicas mais “floreadas”.
Assim como Bodhidharma, a atribuição de estilos à personagens é considerada lendária. A partir da dinastia Ming, começam a aparecer os primeiros registros de estilos como o Taijiquan e Louva-a-Deus, por exemplo, mas não há registos históricos que comprovem quem foi o real fundador do estilo. Isso tudo faz com que a gente veja a grandeza do kung fu. É um patrimônio construído por gerações.
Aqui entramos em um terreno fascinante onde a lenda e a história se encontram. Segundo a tradição, o estilo Louva-a-Deus foi criado por Wang Lang (王朗). Porém, se olharmos para os registros históricos, não encontramos evidências diretas dele. Isso não tira o valor da arte; mostra que o Kung Fu era tão precioso que os antigos preferiam atribuí-lo a heróis lendários para preservar sua importância.
Um estilo de Kung Fu raramente nasce de uma pessoa só, como um estalo de dedos.
É difícil apontar um único ‘pai’ para esses estilos porque o Kung Fu funciona como um rio que vai recebendo afluentes. O Taijiquan que praticamos hoje é a soma de séculos de conhecimento da família Chen, influências taoistas e técnicas militares. Figuras como Zhang Sanfeng (张三丰) simbolizam o espírito da arte, mesmo que a história documental nos aponte caminhos mais complexos.
Muitas dessas figuras lendárias foram associadas aos estilos durante períodos de resistência política, como na Dinastia Qing. Atribuir uma técnica a um monge imortal ou a um general heróico como Yue Fei (岳飛) era uma forma de dar moral aos rebeldes e manter a cultura chinesa viva contra os invasores.
Na China antiga, a linhagem era tudo. É como se fosse um selo de qualidade. Uma coisa é falar que eu inventei um soco outra coisa é falar que esse soco é o estilo secreto do General Yue Fei.
O que ajudou também nessas lendas foi a literatura. História com heróis com poderes e estilos incríveis circulavam pela China, então o povo passava a acreditar nessas histórias.
Voltando ao General Yue Fei, só para vocês terem uma noção sobre ficção e realidade, ele viveu na Dinastia Song, mas quase todos os estilos que dizem ter sido criados por ele (Garra de Águia, Xingyiquan) só aparecem em registros escritos séculos depois, durante a Dinastia Ming ou Qing.
Já o General Qi Jiguang (戚继光) (Dinastia Ming) escreveu manuais reais, o Ji Xiao Xin Shu (纪效新书), citando estilos que existiam na sua época, e ele raramente mencionava fundadores lendários; ele focava na eficácia militar.
Reprodução do Livro Ji Xiao Xin Shu (纪效新书)
Em resumo, as lendas não foram “mentiras” criadas para enganar, mas uma forma de resistência cultural. Em tempos de guerra e ocupação, ligar o Kung Fu a figuras como Yue Fei ou Bodhidharma mantinha o orgulho do povo chinês vivo e dava aos praticantes um propósito maior do que apenas lutar: eles estavam carregando o legado dos seus maiores heróis.
As artes marciais chinesas se expandiram para o Japão, quando o mestre Chen Yuan Bian, em 1638, foi ensinar técnica de agarramento/torção (Chin Na) a três ronins no templo Azabu em Edo, que podem ter influenciado alguma linhagem do Jiu-Jitsu.
Os manchus dominaram a China na Dinastia Qing (1644–1911 d.C), e para eles as artes marciais chinesas tinham que estar no exército e não entre a população, até porque eles tinham medo de rebeliões. Eles temiam que o Kung Fu fosse usado como ferramenta para o lema: “Derrubar os Qing, restaurar os Ming” – 反清復明” (Fǎn Qīng fù Míng).
Foi um período de grande crescimento para os estilos internos no norte, como o Taijiquan(太極拳), o Xingyiquan(形意拳) e o Baguazhang(八卦掌) — este último muito popular entre os guardas imperiais. Já no sul, prevaleceu a linhagem de Shaolin. Segundo a tradição, o Mosteiro de Fujian tornou-se um foco de resistência contra os Manchus, o que levou à sua destruição e à fuga de mestres para o sudeste asiático. Esse movimento de resistência ajudou a preservar as técnicas que, séculos depois, chegariam ao Ocidente.
Revolução de Xinhai (1911)
Com a queda da Dinastia Qing e a Revolução de 1911, o Kung Fu deixou de ser uma ferramenta puramente militar para se tornar um símbolo de identidade nacional. Organizações como a Jin Wu, de Huo Yuanjia, e mais tarde o governo chinês com a criação do Wushu moderno, transformaram o Kung Fu no fenômeno cultural e esportivo que atrai praticantes do mundo todo até hoje.
Em 1928, o governo de Kuomintang mudou o termo wushu para Guoshu(国术), que significa “Arte Nacional”, que passou a ter forma muito floreadas de demonstração. Quando o Partido Comunista, em 1949, substituiu o governo, foi feita uma grande campanha para resgatar os grande períodos das artes marciais chinesas, que passou a ser chamada de wushu novamente.
Nessa época foi feito comitês nacionais, e até distritais para promover o wushu, fizeram escolas e faculdades especializadas, muitos times viajaram o mundo para fazer demonstrações e foram publicados vários livros com muitos conteúdos sobre wushu, assim como foram criados vários torneios nacionais e internacionais.Uma das grandes contribuições do governo chinês foi a restauração do Templo Shaolin que atrai praticantes do mundo todo.
Prefere conteúdo em vídeo? Assista o vídeo abaixo para um resumo visual deste artigo.