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  • Kung Fu Origens: Idade de Aço – Idade Moderna

    Kung Fu Origens: Idade de Aço – Idade Moderna

    No nosso último artigo (se não conferiu, pode clicar aqui), falamos sobre a pré história até a idade de ferro, na dinastia Qin, com o início do shoupo(boxe) e juedi(wrestling) na China.

    Continuaremos nossa história com a dinastia Han(207 BCE – 220CE), e nesse período a China estava travando várias batalhas contra os Hunos, que eram uma tribo do norte da China. Eles utilizavam um facão de um fio, que era muito superior a espada de dois fios do exército chinês, mas mesmo com essa desvantagem, o exército de Han conseguiu derrotar os hunos, e acabaram se apropriando dessa arma, o facão, que foi muito superior nas batalhas.

    Um termo muito popular na época para artes marciais era o wuyi. Esse termo incluía: tiro com arco, cavalaria, levantamento de peso, boxe, wrestling, combate desarmado, luta com armas e sparring.

    漢武帝
    Imperador Wu

    Os mais populares eram o shoupo(boxe) e o juedi(wrestling), e quem ajudou nessa popularidade foi o Imperador Wu(141 – 87 a.C), que era praticante de juedi e organizava competições que atraía muitos espectadores. O shoupo era praticado com short, não utilizavam luvas e não tinham regras muito seguras. O juedi era mais seguro, os competidores não podiam golpear ou chutar e ainda ganhavam pontos jogando o oponente no chão.

    Nessa época, os mestres da espada era muito populares e respeitados, e não era só restrito aos homens, mulheres também eram muito habilidosas nessa arte. As técnicas de espada eram passada como se fossem em taoulus (katis), e as donzelas da época faziam performances com esses taolus como sem fossem uma dança, mas também havia disputas entre artistas marciais muito bem treinados.

    A dinastia Han contribuiu muito para as informações que temos hoje sobre o Kung Fu. Foram escritos vários documentos nessa época com táticas de guerra, textos sobre espada, métodos de tiro, e houve alguns escritos sobre o shoupo, mas, infelizmente, esses textos não foram encontrados, e esses métodos foram conhecidos por outras fontes. Segundo Acevedo, Gutiérrez e Cheung (2011), o historiador Ma Mingda fala que na dinastia Han, o shoupo incluía 4 elementos básicos da luta sem armas: golpear com as mãos (da), chutar (ti), derrubar (shuai) e controlar as articulações (na).

    Em 1973, foi encontrado na província de Hunan, uma pintura em seda, datada da dinastia Han, que mostra pessoas fazendo uma série de exercício. Não se sabe ao certo o significado dessas imagens, uns falam que é um manual de kung fu, outros falam que é um exercício de ginástica (dao yin).

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    L0036007 Daoyin tu – chart for leading and guiding people in exercise
    Credit: Wellcome Library, London. Wellcome Images
    images@wellcome.ac.uk
    http://wellcomeimages.org
    Daoyin tu – chart for leading and guiding people in exercise for improving health and treatment of pain, containing animal postures such as bear walk. This is a reconstruction of a ‘Guiding and Pulling Chart’ excavated from the Mawangdui Tomb 3 (sealed in 168BC) in the former kingdom of Changsha. The original is in the Hunan Provincial Museum, Changsha, China.
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    20th Century Published: –

    Copyrighted work available under Creative Commons Attribution only licence CC BY 4.0 http://creativecommons.org/licenses/by/4.0/

    No período de 220-280 d.C, acaba a dinastia Han e começa o Período de Três Reinos, e é considerado um dos períodos mais sangrentos da China, e também foi marcada por uma era taoísa e pela expansão do budismo.

    Nessa época, o shoupo era praticado por todos os níveis da sociedade, e até grande pensadores tinham interesse nas artes marciais. Taolus de armas e mãos foram criados com o intuito das técnicas não serem esquecidas, mas havia uma grande diferença entre as formas para lutas e demonstrações.

    Mais ou menos nessa época que Bodhidharma veio da Índia para a China para espalhar o budismo, e em 527CE, ele chegou no Templo Shaolin, onde ele acabou influenciando no desenvolvimento do Kung Fu Shaolin. Isso foi um marco, pois antes a arte marcial era um senso comum, todos conheciam mas não era separado por tipos ou estilos. Depois do surgimento do Kung Fu Shaolin, as coisas ficaram mais um pouco mais organizadas, e começou a separar varias escolas de lutas por estilos, como Taijiquan, Baguá, Louva-a-Deus, etc.

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    Bodhidharma

    Entramos na Dinastia Tang (618-906 CE), e foi nesse período que a China foi unificada novamente. Nessa época, eles começaram a fazer exames imperiais para selecionar guerreiros para os altos cargos, com graduações de distritos e províncias para nível nacional. As modalidades inclusas nessa prova eram cavalaria, luta no solo, técnicas de lança, uso de várias armas, arquearia, levantamento de peso e estratégias militares.

    Shoupo e juedi continuaram populares, mas surgiu uma nova modalidade de wrestling, o xiangpu ou jueli. Nessa técnica eles lutavam com uma tanga e um elástico no cabelo. Essa modalidade pode ter contribuído com a origem do sumô japonês.

    Na Dinastia Song (960-1279 CE) foi marcado pelo surgimento de escolas e faculdade de artes marciais. Um dos imperadores era muito habilidoso em kung fu Shaolin, então ele incentivou que as pessoas fossem praticar artes marciais. O kung fu era conhecido nessa época como wuyi, e muitos clubes de artes marciais foram criados, muitos artistas marciais experientes viajavam para fazer demonstrações públicas de suas técnicas. O mais interessante é que a maioria desses artistas eram mulheres, e acabou surgindo um termo para elas, nu zhan.

    Grand Classic of Martial Arts” (traduzindo, O grande Classico de Artes Marciais), foi escrito nesse período, contendo estratégias e treinamentos militares, e também contava histórias de batalhas importantes antes da Dinastia Song.

    Chega um momento da história da China que eles são governados por mongóis, na dinastia Yuan (1260-1368 CE), e uma das medidas tomadas foi a proibição da prática de artes marciais e da posse de armas. Mas uma modalidade de wrestling, de origem mongol, o Zuojiao, ficou popular na China. Os praticantes de artes marciais chineses acabaram treinando secretamente ou eles colocavam suas técnicas em show ou em dramas, sem muita marcialidade, o que acabou ajudando a preservar as técnicas.

    Na Dinastia Ming (1368-1644 CE), além do termo wuyi, o kung fu também era conhecido como quanfa (técnicas de punho). Nessa época as técnicas de demonstração e as técnicas marciais começaram a ficar mais distintas. Os generais do exército faziam competição de lutas entre soldados e os profissionais de kung fu faziam apresentações com técnicas mais “floreadas”.

    Nesse período surgiu vários estilos de kung fu, como Taiju, fundado pelo primeiro imperador Song, Garra de águia fundada pelo famoso general Yue Fei e Louva a deus fundado por um mestre shaolin Wang Lang, e também foi nesse período que foi dividido pela primeira fez entre estilos internos e externos.

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    General Yue Fei

    As artes marciais chinesas se expandiram para o Japão, quando o mestre Chen Yuan Bian, em 1619, foi ensinar o kung fu shaolin, que acabou dando base para o jiu jitsu, que foi um precursor do judo.

    Os manchus dominaram a China na Dinastia Qing (1644–1911 CE), e para eles as artes marciais chinesas tinham que estar no exército e não entre a população, e muitos generais manchus eram grandes mestres de kung fu. Então as artes marciais acabaram ficando em academias e clubes, e acabou surgindo o conceito que conhecemos hoje, onde as técnicas nessas escolas eram lutas individuais e sem armas e os taolus eram para saúde e demonstração.

    Foi um período de grande crescimento para os estilos internos como o Taijiquan, muito praticado no norte da China, e também do estilo Baguá, muito praticado pelos guardas imperiais e Xing Yi. Ja na parte sul da China prevaleceu o Kung Fu Shaolin, sendo que o mosteiro de Fujian acabou sendo um centro de revolução contra o governo manchu. O exército manchu destruiu o monastério e fez com que vários mestres se dispersassem pela China, sul da Ásia e pela América.

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    Revolução de Xinhai (1911)

    A revolução de 1911 acabou com a maior dinastia da China e muitos discípulos de Shaolin participaram dessa revolução. Nesse período da dominância dos manchus, muitas organizações foram montadas e uma delas foi a famosa Jin Wu Athletic Association, do Huo Yuanjia.

    Em 1926, o governo de Kuomintang mudou o termo wushu para guoshu, que passou a ter forma muito floreadas de demonstração. Quando o governo comunista substituiu o governo, foi feita uma grande campanha para resgatar os grande períodos das artes marciais chinesas, que passou a ser chamada de wushu novamente. Nessa época foi feito comitês nacionais, e até distritais para promover o wushu, fizeram escolas e faculdades especializadas, muitos times de wushu viajaram o mundo para fazer demonstrações e foram publicados vários livros com muitos conteúdos sobre wushu, assim como foram criados vários torneios nacionais e internacionais. Segundo Kit (2002), uma das grandes contribuições do governo chinês foi a restauração do Templo Shaolin que atrai praticantes do mundo todo.

  • Kung Fu Origens: Pré História – Idade de Ferro

    Kung Fu Origens: Pré História – Idade de Ferro

    O termo Kung Fu não é um registro muito comum nas escritas históricas, ele é um termo mais moderno e utilizado no século 20. Nas escritas históricas tem mais de 40 termos que fazem referência ao Kung Fu, e o mais comum deles é o “Wushu” e “Wuyi“, sendo esse último mais utilizado pois sua tradução literal se aproxima mais a palavra arte marcial.

    Já é de conhecimento que o homem pré histórico usava um pedaço de pau para se defender ou até mesmo caçar. Na China, por exemplo, na província de Yunnan, e também em outros locais, foi encontrado pinturas pré históricas que retratam a luta de homens com animais.

    Há registros na China de armas feitas de pedras como facas e pontas de lança, mais ou menos do período paleolítico. Já no período Neolítico, há estudos que as armas já foram aprimoradas, utilizando além de pedra, ossos, e ainda mais afiadas. Segundo Acevedo, Gutiérrez e Cheung (2011), na província de Yuannan, existem pinturas rupestres do Neolítico que representam caçadas nas quais se pode observar técnicas específicas de ataque, como atacar a partir de uma posição superior (zha) e atacara a partir de uma posição frontal (ci).

    Na província de Shanxi, foi encontrado indícios de uso de pedra polida  para ataque a distância, há mais ou menos 700 mil anos. Essas armas eram feiras com pedras de rios e vulcões, e algumas armas eram feitas dessas pedras amarradas em cordas que podiam até ser amarradas no braço para ser mais fácil de se achada.

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    Balestra

    Depois que essa arma caiu em desuso, veio o arco e flecha e há relatos que ela foi antecessora da balestra, um tipo de arco que atirava pedras. foi encontrado na jazida arqueológica de Miaotigou (província de Henan ), alguns resto que parecem ser de balestras.

    Com o passar do tempo as armas de caça não são suficientes para a batalha, por essa razão começa a ter o desenvolvimento de armas militares: lanças, armas de arremesso, martelos de guerra, bastão, escudo.

    Nessa época não havia escola dedicadas ao treinamento, mas esses conhecimentos eram passados de geração para geração. Nos períodos que não havia luta eles faziam  danças baseadas nos movimentos de luta, os taolus podem ter vindo dessa época.

    Nas dinastias Hsia (2070 AEC – 1600 AEC) e Shang (1600 AEC-1046 AEC) as armas eram feitas de cobre e bronze. Nessa época surgiu algumas armas que conhecemos hoje, como facão chinês (da dao), lança, adaga, e equipamentos de guerra como capacetes. As primeira escolas de artes marciais apareceram nessa época com o ensino de arco e flecha, que será bem popular e importante nas dinastias seguintes. Nessa época também houve o surgimento dos carros  de combate, que eram puxados por dois ou 4 cavalos. 

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    Carros de Guerra

    Na dinastia Zhou (1046 AEC – 256 AEC), com o aumento de treinamento militar, foi criado rotinas para treinar os soldados, e algumas delas eram acompanhadas de músicas, criando um estilo de dança militar (wu wu). Nessa época o Kung Fu era conhecido pelos termos quanyong (luta de punho) e shoupo (combate de mãos), e foi desenvolvido um sistema sofisticado com filosofias profundas, como  yin-yang, baguá e wu-xing.

    Durante o período de guerra (480-221 BCE) vários governos deram muita importância para as artes marciais, tanto que houve uma estreita relação entre o treinamento marcial e intelectual. Confúcio, por exemplo, achava importante que quem fosse da área acadêmica, também fizesse o treinamento marcial. Essa relação é bem presente no livro, que foi escrito nessa época, “A arte da Guerra” de Sun Tzu, que, para quem não conhece, fala sobre estratégias de combate e que hoje é muito utilizado no mundo dos negócios.

    Técnicas conhecidas como jiji (técnicas de luta) e xiangpo (combate interno), e tiro com o arco e lutas com cavalo foram essenciais para a formação marcial. Mas as artes marciais não era exclusivo de elites, classes mais baixas também tiveram acessos, tanto que em algumas pesquisas do historiador chinês Kang Gewu, que houve uma revolta em 841 a.C, e nesses relatos há indício de lutas armadas por pessoas comuns.

    No período da Primavera e do Outono(722 – 481 AEC), quando a China foi dividida em pequenos reinos, foi caracterizado pelo aumento da alfabetização, e também o ferro tornou-se mais barato e mais abundante que o estanho (material utilizado para a fabricação de bronze), possibilitando a criação das primeiras armas de ferro como: espada de dois gumes, facas, lanças e também acessórios militares como os capacetes. 

    E por fim, entramos na dinastia Qin (221 – 206 AEC), um período muito controverso, pois foi muito focado na busca da imortalidade. Qin Shi Huang, primeiro imperador da dinastia Qin e que deu inicio a um governo militar, foi responsável por unificar toda a China com o seu exército bem treinado derrubando todas as muralhas e exércitos, e acabando com o feudalismo. Segundo Acevedo, Gutiérrez e Cheung (2011), ordenou a destruição de todas as armas que a população possuía e seu envio para a capital para que fossem derretidas e transformadas em sinos e estátuas de bronze. Foi um governo muito rígido e burocrático, e segundo Antunes (2014), ele promoveu a primeira grande queima de livros e escritos da história da China, na tentativa de extinguir a diversidade cultural . Nessa época que foi construída a Grande Muralha, afim de delimitar as conquistas dele. Uma curiosidade, é que os Guerreiros de Terracota é justamente o exército do Imperador Huang, que foram feitos para serem enterrados junto com seu túmulo, no intuito de protegê-lo na sua vida pós morte.

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    Guerreiros de Terracota

    Ele acabou introduzindo as modalidades de shoupo (boxe) e juedi (wrestling), em que  os competidores lutavam um um lugar cercado, como esporte militar oficial nas cerimônias.  Essas duas modalidades podem ter contribuído para o inicio do boxe e do wrestling no mundo.

    Após essa dinastia Qin, entraremos na dinastia Han e na idade do Aço, onde as técnicas de artes marciais começam a ficar mais parecidas com o Kung Fu que conhecemos hoje, mas deixarei esse assunto para um novo artigo!

  • Warrior – 2ª Temporada

    Warrior – 2ª Temporada

    Assistimos a segunda temporada de Warrior, e para ser bem franca eu demorei um pouquinho pra engatar nessa temporada, e eu vou te explicar o porquê.

    Mas antes, já vou deixar bem claro que pode ser que contenha alguns Spoilers, então se não assistiu e não se importar, boa leitura!

    Por que eu demorei um pouco para entrar na história? Bom, essa temporada vem um pouquinho mais densa, explorando um pouco mais alguns personagens e focando bastante em duas questões: de um lado os Hop Wei atrás de um ópio mais barato e de outro os Long Zii atrás de aumentar uma certa influência e fazer novas alianças. Logicamente uma Tong visando acabar com a outra. Mas esse processo pra mim foi meio arrastado, muito diálogo e negociação, para mim esse processo podia ser mais dinâmico.

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    Imagem Reprodução/ Cinemax

    Sobre o aprofundamento de personagens, alguns ganharam muito espaço na série: Ah Toy, Penny Blake, Dan Leary, Bill O’Hara.

    Ah Toy (Olivia Cheng), a dona do bordel de Chinatown, vem com uma força absurda, principalmente se mostrando como uma justiceira em favor dos chineses, é claro, ao lado de Ah Sahm(Andrew Koji), com quem aprofunda mais a relação nessa temporada. Ela também acaba se envolvendo com uma nova personagem, a Nellie Davenport (Miranda Raison), que a ajuda nas questões de resgate de mulheres chinesas, que eram escravas sexuais nos EUA. A personagem de Nellie foi inspirada em Donaldina Cameron que combateu o tráfico de mulheres chinesas. Quem se interessar e quiser se aprofundar mais na história tem um artigo interessante sobre o assunto aqui.

    Já Penny Blake(Joanna Vanderham) vem bem diferente da primeira temporada, de uma moça vulnerável para uma mais durona, cheia de responsabilidades depois de assumir a fábrica do seu falecido pai. Essa carga aumenta diante de conflitos com seu próprio marido, o prefeito Samuel Blake (Christian Mckay), principalmente em assuntos sobre a mão de obra Chinesa.

    Dan Leary (Dean S. Jagger) ganha destaque no combate à mão de obra chinesa. Ele vai queimando fábricas que compactuam com isso, na intenção de tentar favorecer a mão de obra do povo irlandês. Ele acaba se relacionando com a irmã de Penny, Sophie Mercer (Céline Buckens), mas essa relação acaba tumultuando bastante os rumos da trama. O mais interessante que Dan se coloca no final da segunda temporada como representante do Partido dos trabalhadores da California, fazendo uma grande alusão a um ativista importante anti-chinês, Denis Kearney. Um artigo muito legal sobre essa história você encontra aqui.

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    Imagem Reprodução / Cinemax

    Já o policial O’Hara (Kieran Bew) é outro que acaba manipulando e tumultuando a trama, é um personagem que dá um pouco de raiva, ainda mais que ele acaba se enrolando com os chineses e nessa temporada ele acaba usando da força policial para limpar a bagunça que ele fez. O’Hara entra num grande conflito com o seu parceiro de trabalho, Richard Lee (Tom Weston Jones), uma vez que Lee vai descobrindo todas as tramas de seu parceiro.

    No quesito ação, essa série não deixa a desejar. As cenas de luta, principalmente protagonizadas por Ah Sahm, são excepcionais. E claro uma luta ou outra você consegue perceber um toque de Bruce Lee nos seus movimentos.

    Um personagem que ganhou destaque, principalmente nas lutas, foi o Hong (Chen Tang). Ele se juntou ao elenco nessa segunda temporada para se integrar a Tong dos Hop Wei. No começo confesso que “não botava muita fé” no personagem, ele é um pouco esquisito e evasivo, mas quando ele começou a lutar eu fiquei realmente impressionada com as habilidades dele.

    Sem dúvida nenhuma o penúltimo episódio, “Enter the Dragon”, é o melhor dessa temporada. Tem muita luta, muito sangue, e ele retrata um período histórico sobre o massacre em Chinatown, logicamente ele não é fiel aos fatos, mas ele traz uma realidade que aconteceu mais de uma vez nessa época de imigração chinesa nos EUA. Outro artigo interessante sobre o assunto para quem tiver interesse, você encontra aqui.

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    Imagem Reprodução/Cinemax

    Nesse episódio sem dúvidas Ah Sahm foi coroado como Bruce Lee na série, principalmente na luta com o nunchaku, onde ele reproduz todos os trejeitos da lenda das artes marciais.

    No geral, a série é sim muito boa, apesar de alguns deslizes eu acho que ela merece sim uma continuação, não só pelas cenas de luta, mas também pelo seu contexto histórico. Por parte do Cinemax não tem mais continuação, mesmo a série deixando alguns ganchos para uma possível terceira temporada, mas por mudanças estratégicas e não por falta de audiência. Mas com a ida da série para a HBO Max, a produtora executiva Shannon Lee, mantêm uma certa esperança de continuação, como ela fala em entrevista ao site Den of Geek:

    Estamos em tempos incertos, mas eu espero que assim que a 2ª temporada for concluída no Cinemax, eles irão lançá-lo para as plataformas da HBO e eu espero que o programa alcance um público muito maior e que haja demandas para uma terceira temporada.

    O Ator Andrew Koji também concorda:

    Bem, obviamente, com o clima atual, é muito menos certo, tudo o que sabemos é se os fãs fazem barulho o suficiente e nos ajudam fazendo aquele barulho, isso está em nossas intenções de encerrar esse show como eu acho que deveria. Não apenas para o show, a história, para os fãs, mas para a lenda Bruce Lee. Acho que merece um final conclusivo.

    O que nos resta é torcer para que a série continue! Atualmente série pode ser vista aqui no Brasil na HBOMax, Netflix e AmazonPrime.

  • COBRA KAI – 3ª Temporada

    COBRA KAI – 3ª Temporada

    Estreou a série dia 1 de Janeiro de 2021 e em um dia eu já “maratonei” ela inteira. Sou um pouco suspeita para falar, porque eu realmente amo essa série, uma vez que os criadores tiveram a capacidade de trazer a tona um filme de sucesso dos anos 80, que em princípio você não via mais nenhum tipo de continuação, e transformar essa história em uma série.

    A primeira e a segunda temporada foram ótimas, eu realmente fiquei presa na trama, porque ela te mostra dois lados da história, é difícil de dizer quem é o mocinho e o vilão entre Daniel LaRusso (Ralph Macchio) e Johnny Lawrence (William Zabka), e a série termina com uma luta de tirar o fôlego no colégio de Samantha (Mary Mouser) e Miguel (Xolo Maridueña).

    Então, tivemos uma janela de 1 ano e meio, mais ou menos, na expectativa de uma terceira temporada, em um cenário que você quer buscar respostas do que vai ser de Miguel, o que vai ser do Cobra Kai no comando de Kreese (Martin Kove). Confesso que minha expectativa estava bem alta, uma vez que a série me segurou tão bem em duas temporadas, e aumentou ainda mais quando já confirmaram uma 4ª Temporada.

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    Imagem Reprodução/Youtube

    Pois bem, assisti a última temporada e digo, sem sombra de dúvida, que mais uma vez eles acertaram. Conseguiram me prender de uma forma que não tinha como não ver um atrás do outro, o rumo que eles tomaram pra série achei sensacional e termina com aquele “gostinho de quero mais”. (Ainda bem que já foi confirmada mais uma temporada!)

    (Alerta de SPOILER: se você ainda não viu a série recomendo parar por aqui)

    Mas vamos para o que interessa, o que a série traz de tão bom?

    O grande lance dessa temporada que ela é um pouco mais densa que as demais, ela vai um pouco mais a fundo nos personagens e suas relações. É certo que essa temporada foca muito na origem de John Kreese, uma vez que já conhecemos a vida de Daniel, pelos filmes, e de Lawrence que foi muito trabalhada nas temporadas anteriores. Essa temporada reforça cada vez mais esse perfil meio psicopata, ou louco, de Kreese, que consegue manipular e recrutar mais jovens para o seu Dojô.

    Daniel e Johnny, por sua vez, acabam levando as consequências da luta na escola. Johnny carrega uma culpa pelo estado de saúde de Miguel, e entra em um processo para ajudá-lo a andar, o que o afasta ainda mais de seu filho Robby (Tanner Buchanan), e se encontra sem um Dojô e sem alunos.

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    Imagem Reprodução/ Netflix

    Por outro lado, Daniel entra em uma das suas piores fases da vida, os negócios vão mal, devido a um boicote dos consumidores que o culpam pelo ocorrido na escola, e ainda está em busca de Robby com intuito de ajudá-lo, uma vez que ele se torna procurado da justiça, sem contar que todos na escola o culpam também pelo ocorrido.

    Então vem um dos pontos mais fortes da temporada, a ida de Daniel para o Japão para tentar levantar seu negócio, mas é claro que ele aproveita para ir a Okinawa em busca de respostas para sua vida turbulenta. Lá ele encontra duas pessoas que o ajudaram nesse processo: Kumiko e Chozen, sendo a namorada e o grande rival de Daniel, respectivamente, no filme Karatê Kid 2. A série traz os mesmos atores para o papel fazendo essa grande surpresa para esquentar nossos corações com nostalgia.

    Outra personagem que ganha muito destaque é a Samantha, filha de Daniel, que fica com o emocional muito abalado após a luta no colégio, e também acaba carregando uma certa culpa pelo que aconteceu tanto com Miguel quanto com o Robby. Esse processo emocional da Samantha teve um espaço considerável e importante na trama. O Robby, por sua vez, foi para um reformatório e aconteceu o que era um pouco previsível, ele foi para o lado de John Kreese. Esse processo do Robby me lembra um pouco o processo de Daniel no terceiro filme que ele vai para o Cobra Kai. Será que é isso que devemos esperar para a próxima temporada?

    Uma personagem que também teve destaque foi a Tory (Peyton List), teve uma breve abordagem de sua história nessa temporada, e ela se revela como uma verdadeira líder dos Cobra Kai, tanto que Kreese vê um grande potencial nela e até a ajuda em questões pessoais para que ela siga com os treinos.

    O segundo ponto mais alto, para mim, foi a Ali (Elisabeth Shue). Sim!!! Para quem estava especulando a sua volta, ela foi confirmada na terceira temporada. Apesar de muito nostálgico vê-la novamente na série, acredito que foi uma aparição breve, não acho que ela retorne na quarta temporada. Ela veio em um momento importante da trama que é curar as feridas do passado tanto de Daniel quando de Johnny, e isso deu uma abertura muito grande para o ponto mais importante da série, a união de Daniel e Johnny contra Kreese no torneio Regional.

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    Johnny e Ali – Imagem Reprodução/Netflix

    Desde a ultima temporada eu enxergava Daniel e Johnny como o equilíbrio, e pensei nessa possibilidade deles se juntarem contra o Kreese, e foi o que exatamente aconteceu. Agora fica a pergunta para a quarta temporada, como vai ser essa união de Daniel e Johnny? E o Robby será que ele vai se arrepender antes do torneio, ou vamos ver vê-lo competindo como Cobra Kai?

    Falei tanto da trama, mas e as lutas? Bom sobre as lutas, já vi melhores em outras séries, mas sinceramente, isso não me incomoda, uma vez que a série em si me chama muito mais atenção. Essa temporada achei que tem menos treinamento, na verdade, não tem cena nenhuma de treinamento, e de lutas, bem pouco. Mas a série se mostrou tão densa nas relações entre os personagens, que o Karatê em si ficou bem em segundo plano.

    No geral, Cobra Kai vem pra mostrar que a série não sobrevive só de karatê, que dá pra explorar os personagens com uma temporada mais densa, sem perder o nível que vem mostrando desde a primeira temporada. Para mim sem dúvidas, é a melhor temporada.

  • Warrior – 1ª Temporada

    Warrior – 1ª Temporada

    Em outubro desse ano de 2020 caótico vai estrear, no canal Cinemax, a 2ª temporada de Warrior, uma série baseada nos escritos de Bruce Lee encontrados pela sua filha Shanon Lee.

    A série mal estreou em 2019 e já foi renovada para uma segunda temporada, e eu vou te dizer o porquê ela mereceu ser renovada.

    A série se passa em 1878, na Chinatown de São Francisco. Uma época de grande imigração chinesa nos EUA, uma vez que a mão de obra deles era mais barata do que a de americanos ou outros imigrantes.

    O foco central da série está em torno do personagem Ah Sahm, interpretado pelo ator Andrew Koji, um imigrante chinês que chega nos EUA e que acaba se envolvendo com a famosa Guerra de Tong da Chinatown, devido a sua grande habilidade marcial. Sim, as Guerras de Tong, ou melhor a rivalidade entre as gangues chinesas de Chinatown são bem reais e bem violentas.

    Como eu falei, as Guerras de Tong foram bem violentas e a série passa muito isso. As lutas são muito bem feitas, e tem muito sangue nos 10 episódios dessa temporada.

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    Mas o que me fascinou mais na série é que eu consegui ver muito o Bruce Lee. Eu, que particularmente gosto muito do Bruce Lee, consegui enxergar ele na série inteira, e também grandes referências de seus próprios filmes.

    Primeiro, a série tem um ar meio “western”ou, no português mais claro, um ambiente mais “velho-oeste”, isso me remeteu muito na época que Bruce Lee escreveu essa série, onde os filmes de cowboys estavam muito em alta, fora que a própria série “Kung Fu”, que o Bruce Lee tentou entrar como personagem principal tinha também essa história de kung fu misturado com o Western. Mas não posso afirmar que isso foi escrito antes ou depois da série Kung Fu, as vezes pode ter sido só uma coincidência.

    Outra referência que eu já peguei de cara na primeira cena da série foi quando o Ah Sahm desembarca nos EUA. A sua postura e a roupa é igual de Bruce Lee no filme “The Big Boss” (O Dragão Chinês – 1971). O estilo de luta é igual do Bruce Lee, e dá até gosto de ver.

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    Ah Sahm interpretado por Andrew Koji

    Agora um pequeno spoiler, o personagem Ah Sahm se envolve com uma garota loira americana, e existe a questão de um chinês estar namorando uma americana. Vi muito o relacionamento do Bruce Lee com a Linda Lee.

    Na série também tem muito a questão da prostituição e do tráfico de drogas, temas muito presentes nos filmes de Bruce Lee, mas me remeteu em particular o filme “Enter the Dragon” (Operação Dragão – 1973). Talvez o próprio Bruce Lee tirou suas inspirações das histórias de seus filmes na própria Chinatown de São Francisco com as Guerras de Tong.

    Em resumo, a série me deu um pouco de nostalgia, talvez de sentir o trabalho do Bruce Lee como se ele ainda estivesse vivo. Acho que deu para perceber como eu sou fã, ou pelo menos gosto muito do trabalho dele, mas fora isso, vale muito a pena assistir a série porque a própria história te prende pelas guerras das Tong, que eu nem detalhei muito para não dar muitos spoilers já que tem muitas reviravoltas, e também pelas cenas de ação, não tem como não gostar. A série teve um bom desfecho e deixou aquela vontade de ver uma segunda temporada.

    Assista o trailer:

  • Entrevista com Michele Santos

    Entrevista com Michele Santos

    Wushu Moderno é um esporte de alto rendimento (baseado nas arte marciais chinesas tradicionais, o kungfu). Modalidade que já esta incluída nos Jogos Olímpicos da Juventude em 2022(Summer Youth Olympics), sendo temas de diversos filmes e documentários. Um dos praticantes mais conhecidos é o ator  Jet Li (Pentacampeão Chines de Wushu). 

    O blog convidou Michele Santos, atleta da Seleção Brasileira de Wushu Moderno – Taolu Esportivo para contar um pouco da sua vivência na China e sua trajetória no Wushu.

    Sabemos que o grande sonho de um atleta de Wushu Kung Fu, é um dia conhecer e treinar na China, o grande berço das artes marciais. Para a atleta Michele, este sonho foi muito além do esperado. Michele conseguiu uma bolsa de estudos na Beijing Sports University (北京体育大学), e com isto, pode fazer um mestrado em artes marciais chinesas, o Wushu.

    Acompanhe abaixo o relato da atleta e sua Vivência na China:

    Meu nome chinês é xiāo méi 萧梅。Em 2017 um dos meus ex- companheiros de Seleção Brasileira, Roque neto, que tenho com muito carinho, nos compartilhou e ajudou com a oportunidade de realizar este sonho de ir estudar na China . 

    Aprender um idioma tão difícil como o mandarim do zero, além da mudança de cultura, não é uma tarefa fácil, mas devido a nossa garra de brasileiro, não seria impossível . Incialmente me dediquei um ano para estudar e passar em provas do idioma chinês e posteriormente ingressar no mestrado de Wushu.

    E confesso que ao mesmo tempo foi estressante e desafiador. Mais com o passar do tempo a língua chinesa e o convívio transforma essa situação em algo bom e divertido, onde a cada dia é um evolução . 
    Viver na China tem muitas facilidades e situações bem confortáveis. Você pode comprar coisas e pagar de forma muito simples e rápida, com o uso da tecnologia.  Apesar de muita gente ter o conceito que chinês come comida esquisita, encontramos uma variedade de frutas, legumes, ovos, entre outras coisas com muita fartura.

    O único problema é que carne vermelha na China custa muito caro, então raramente consumimos. Hoje na China já existem várias influências de outros países, você encontra com facilidade mercados internacionais e bares. 

    Em questão de segurança, você pode transitar com tranquilidade e sem preocupações, pois roubo e assalto é rado e com isto, temos uma sensação maior de conforto e segurança. Novas amizades com pessoas do mundo inteiro, ajudam praticar e conhecer vários idiomas. 

    Mesmo sendo estudante de Wushu e representar a universidade em competições para estrangeiros, não é algo tão simples treinar nos ginásios da escola, o wushuguan (武术馆). Infelizmente a escola tem uma política muito severa de não aceitar alunos dentro desses ambientes se não for para aulas da universidade. Muitas vezes os estudantes estrangeiros e chineses, não temos aonde práticar dentro da própria escola. Ou seja, se você pensa que viver na China, esta associado com treinar Wushu facilmente, naquele tão sonhado “carpete azul”, não é bem assim!

    Mais com passar do tempo fazemos amizades com professores da escola, e vamos nos acostumando a conhecer a filosofia, métodos, e costumes e lugares. No meu caso , foi isto que aconteceu . Meu professor Duan Laoshi (段永斌), nos recebeu em uma escola fora da universidade e começou a treinar a mim e companheiros de time da seleção brasileira ( Márcio Coutinho, Gabriel Nakamura, entre outros ).

    Sou muito grata ao professor Duan (段), pois eu e meus companheiros começamos a ter uma nova concepção e entendimento de fazer Wushu . Porém, todas essas aulas são pagas no começo e com o passar do tempo os professores também nos ajudam e passam a entender sobre as dificuldades financeiras, pois treinar Wushu na china não custa barato. 

    Pela Beijing Sports já participei de várias competições e apresentações , sou muito grata a escola por oferecer esta oportunidade . E por fim, esta experiência na China tem sido algo inovador, e certamente ficará gravado na minha vida para sempre. Eu sou muita grata a Deus e as pessoas que participaram e participam desse momento na minha vida . E espero que outras pessoas possam ter cada vez mais conhecimentos e experiências como as minhas e possam realizar os seus sonhos.

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    Michele em Competição da Beijing University

    Trajetória no Wushu

    1– Por que vc começou a treinar Wushu-kung fu?

    Michele Santos : Desde da minha infância eu demonstrava interesse e aptidão por práticas esportivas. Durante minha fase escolar prátiquei vários desportos. Porém, sempre fui encantada com esportes de apresentações e alta plasticidade tais como : balé, ginástica artística , ginástica rítmica entre outros . Aos meus 15 anos de idade eu conheci o Wushu, e foi então amor à primeira vista .O motivo de eu ter escolhido e começado a treinar Wushu, foi porque dentro dele eu tinha tudo que mais me encantava e apreciava dentro de uma modalidade esportiva. E com o passar dos anos eu entendia que Wushu para mim não representava “só  esporte”… e  sim estilo e filosofia de vida , e por fim um chamado e missão destinado a mim. 

    2- Quando entrou para a Seleção Brasileira?

    MS: Eu me tornei membro da seleção brasileira de Wushu taolu no ano de 2012.

    3- Qual seu principais títulos? De todos qual o mais especial?

    MS: Eu conquistei títulos nacionais e internacionais. Sou campeã brasiliense , brasileira , 2 x campeã panamericana, 2x campeã sulamericana, 3º lugar no campeonato Internacional Brics Games e 2 participações em campeonatos mundiais. Para mim, todas minhas conquistas e derrotas tem um nível alto de importância, pois foi aonde aprendi e continuo aprendendo muitas coisas. 

    Porém, no panamericano de 2016 nos EUA, tem um significado especial para mim. Um ano atrás (2015) eu perdi meu pai. Ele era militar e faleceu voltando de missão. E naquele ano eu entrei com meu coração e mente destinado a honra tudo que ele representou e representa na minha vida de atleta e também como ser humano . Eu lembro que no pódio eu fiz um sinal de gratidão a ele . Então, este momento está registrado na minha mente com muito carinho e fidelidade ao um dos grandes semeador dos meus sonhos, meu pai .

    4- Qual a sensação de representar o seu pais em Mundial ? 

    MS:A sensação de representar um esporte de um país é um momento único, incrível e desafiador . Eu me sinto muito grata a Deus , por destinar a mim, e outros companheiros do time do Brasil esta missão. Porque através do nosso trabalho escrevemos a história do esporte no nosso país , e isso é único. Nada e ninguém pode tirar.

    5- Voce ja teve lesão? Qual o sentimento e como foi a recuperação?

    RF:Eu já tive mini lesões causadas pelo treinamento. Eu e meu treinador  (Márcio Coutinho), sempre tivemos o cuidado e discernimento do valor do preparo físico e dos métodos de  prevenção a lesão e recuperação pós treino. Mesmo sem apoio financeiro nós sempre procuramos nos orientar e tentar fazer o melhor, e isto tem me ajudado muito a me manter protegida de lesões sérias . 

    Porém, um dos piores momentos que as lesões se manifestaram foi durante meu primeiro mundial na Rússia. Meu tornozelo estava inchado e doendo muito, causado pelos nandus. Eu me sentia tão preocupada e amedrontada que contribuiu muito para desprogramar meu mental , e me levando a uma apresentação que não correspondia a quem eu queria e tinha preparado para ser naquela competição . A prevenção de lesões e algo muito importante e seria. Porém, um atleta mentalmente preparado, torna ele um  indivíduo mais qualificado e preparado para qualquer coisa, inclusive saber lidar com o medo e as dores da lesão

    6- Ja pensou em desistir do wushu?

    MS: Em algumas fases, eu já pensei em desistir da minha vida de atleta . Do wushu não, ele ja está enraizado. Em algumas momentos eu sentia que eu trabalhava, colocava tanto fisicamente e mentalmente meu esforço e muitas das vezes o felling de volta, que meu trabalho era de menos. E eu me sentia desvalorizada. E isso me fazia refletir fortemente em desistir da minha carreira de atleta . Contudo, meu elo com Deus e pessoas que trabalham comigo (técnico, alguns amigos e família ) me ajudaram a superar e trabalhar cada vez mais. Porém,  com outras perspectivas  é tentar tirar aprendizados. Ainda estou em aprendizado com isto .

    7- Na sua opinião, o que precisa para se tornar um bom atleta?

    RF:Eu acredito que ter sucesso em algo não existe uma fórmula ou receita. Ter sonhos é importante, eles nos mantém vivos , mais sonhar por sonhar pode te levar ao fracasso e desilusões . Meu conselho baseado nas minhas experiências é: construir metas e planos bem sólidos com você e com pessoas que acreditam no seu trabalho, e trabalhar fielmente nisso dia após dia . Isto com certeza te levará a bons frutos ou boas experiências.  

    8- Quais seus ídolos no wushu? 

    RF:Um dos meu grandes ídolos no Wushu, e meu técnico e companheiro de Seleção Brasileira, Márcio Coutinho . Apesar da pouca idade, meu técnico sempre foi alguém que eu poderia dar vários adjetivos incríveis. Eu sou muito grata , e espero um dia retribuir e ser como ele, para outras pessoas que vivem pelo Wushu como nós. Como atleta ele sempre me inspira a buscar o máximo de excelência tanto tecnicamente, fisicamente e como ser humano . 

    9- Qual conselho voce daria para quem esta iniciando no wushu?

    MS:Como eu citei anteriormente, um dos conselhos para as futuras gerações é: Viva o seu momento, viva os seus sonhos, mais sonhos baseados em metas e planos sólidos . E o mais importante, após traçar seus objetivos, e procurar meios de evolução/excelência constantemente (tecnicamente, fisicamente e mentalmente). Trabalhefielmente dia a pós dia. E então com certeza seus sonhos podem se tornar realidade.

    Gostaria de compartilhar uma frase bíblica que meu pai me ensinou e sempre uso ela para me fortalecer : ”combati o bom combate”. Então, as futuras gerações eu desejo que vocês trabalhem duro e façam o bom combate internamente, sua disputa é com si mesmo. Jiayou!!!

    10- Qual o seu sentimento pelo wushu?

    MS:Esta é uma pergunta um tão pouco extensa para mim… mais em resumo, o Wushu se tornou uma filosofia de vida para mim. Ao decorrer desses 13 anos, eu tenho aprendido e aplicado muitas coisas em prol do meu elo com o Wushu . Cada vez que estudo e prático o mesmo, entendo o quanto e profundo e difícil, mais isto não me desanima, e sim me torna cada vez mais inspirada para estudar e aprender.  Sou muito grata a Deus por ter me dado a oportunidade de conhecer e estar aprendendo algo tão incrível que é o Wushu .

  • Entrevista Exclusiva com a atriz Juju Chan

    Entrevista Exclusiva com a atriz Juju Chan

    Atriz, artista marcial, modelo, cantora e escritora, Juju Chan nasceu na cidade de Hong Kong, no dia 02 de Fevereiro de 1989. Ficou muito conhecida no papel da Silver Dart Shi, do Tigre e o Dragão 2: Espada do Destino (Crouching Tiger, Hidden Dragon: Sword of Destiny) e recentemente estrelando Wu Assassins no papel de Zan, ambas produções da Netflix.

    Actress, martial artist, model, singer and writer, Juju Chan was born in the city of Hong Kong, on February 2, 1987.O kungfu.doc traz com exclusividade uma entrevista com a atriz, que gentilmente respondeu nossas perguntas. Confira na integra:

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    JuJu Chan

    kungfu.doc: Quais artes marciais você praticou? Desde que idade?

    Juju Chan: Comecei aos 10 anos com o judô porque essa era a escola de artes marciais mais próxima da minha casa. Conforme eu fui crescendo, eu fui aprendendo também Shotokan, Kung Fu, Tae Kwon Do, Boxe e Boxe tailandês. Depois que consegui minha faixa preta de Tae Kwon Do, fui selecionada para a Equipe de Hong Kong e comecei a competir no Tae Kwon Do, e pouco tempo depois, fui observado por uma escola Mauy Thai para entrar no clube e lutar por eles nos Campeonatos de Muay Thai.

    kungfu.doc: Por que você começou a treinar?

    Juju Chan: Eu entrei em artes marciais por causa do meu amor por filmes de ação, desde que eu era criança. Meu pai adora filmes de ação. Ele colocava um filme de ação na TV em casa quase todas as noites e, quando eu era criança, adorava copiar o que via na TV. Mas é claro que pode ser bastante perigoso para uma criança apenas copiar movimentos de artes marciais sem nenhum treinamento. Lembro-me de uma vez que estava copiando uma acrobacia que Jackie Chan estava fazendo na Hora do Rush, e quebrei o vidro da mesa de café em casa. Depois disso, meus pais me colocaram para aprender artes marciais.

    kungfu.doc: Qual é a sua arma favorita nas artes marciais?

    Juju Chan: Nunchaku. Eu amo como ele fluirá de acordo com o seu movimento com força e ritmo. Eu realmente amo usá-los, e realmente sinto falta deles quando estou em lugares onde não posso trazê-los.

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    JuJu Chan Nunchaku

    kungfu.doc: Qual foi sua primeira atuação como atriz?

    Juju Chan: No teatro no ensino médio.

    kungfu.doc: Você teve outros empregos além de ser atriz?

    Juju Chan: Já trabalhei em publicidade e programação de computadores.

    kungfu.doc: Você sofreu alguma lesão durante o treinamento ou como atriz?


    Juju Chan: Sim, hematomas são muito comuns. Também torci o tornozelo várias vezes durante o treinamento. E meu olho direito também se machucou algumas vezes. Já cortei algumas vezes no meu olho direito. As pessoas podem não perceber isso, mas meu olho direito é um pouco menor que o meu esquerdo. Acho que é de todos os ferimentos e impactos que tive ao longo dos anos no mesmo olho.
    Sempre há o risco de fazer filmes de ação e ser dublê. É por isso que é importante estar seguro. A segurança é tão importante. Além disso, quando você está cansado ou seu oponente está cansado e vê que algo não está certo, é melhor parar de treinar do que continuar, porque se você continuar e continuar e não ajustar algo ou apenas fazer uma pausa, as lesões são mais prováveis acontecer.

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    JuJu Chan em Tigre e o Dragão 2: Espada do Destino
    (Crouching Tiger, Hidden Dragon: Sword of Destiny)

    Eu estava filmandoO Tigre e o Dragão 2: A espada do Destino“, quando na minha última cena, precisamos realizar uma luta de espadas. Na verdade, filmamos várias takes e a última foi muito boa. Só por segurança, o diretor decidiu fazer mais um take, e é claro que foi quando me machuquei. Talvez a outra artista estivesse cansada, não sei porquê, mas ela cortou a espada mais cedo do que antes de eu terminar meu movimento e a espada acertou bem no meu olho direito. Foi muito doloroso. Era uma espada realmente pesada que entrou direto nos meus olhos. Eu fiquei com um hematoma enorme e não consegui ver por 10 dias. Eu realmente pensei que ficaria cega, mas, felizmente, não. E, felizmente, a tomada anterior foi boa, então eles usaram a tomada anterior e eu fui mandada para o hospital. Então, dois dias depois, tivemos nossa festa de encerramento. Muitas pessoas pensaram que eu não apareceria por causa de minha lesão nos olhos. Mas fiz um tapa-olho de borboleta vermelha muito fofa para cobrir meu olho direito e entrei na festa.

    kungfu.doc: Na série do Netflix “WU ASSASSINS”, qual foi sua maior dificuldade, e facilidade durante as cenas. Você usou dublês para as lutas ou fez suas próprias cenas? Qual é a sensação de ter feito esta série?

    Juju Chan: Eu interpretei Zan no Wu Assassins da Netflix – uma artista marcial de elite e tenente em uma tríade, e um guarda-costas de um comandante de alto escalão.O papel foi originalmente escrito para um ator/homem. Na verdade, eu estava me preparando para fazer um outro papel, a personagem Ying Ying, se você já viu a série.
    O criador da série gostou do meu visual e queria as habilidades que eu podia trazer para a série. Então, ele criou um novo papel de guarda-costas feminino para o chefe da Tríade da Chinatown de São Francisco, Zan, na série para substituir o personagem masculino original de guarda-costas.

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    Atriz JuJu Chan ao lado dos atores Iko Uwais e Mark Dacascos em Wu Assassins


    Os dois primeiros episódios já foram escritos quando eu fui escalada, então sou apenas um personagem em destaque nesses episódios. Mas Zan explode no programa no terceiro episódio com uma cena épica de luta na cozinha, e ela cresce a partir daí. Minhas cenas favoritas são a luta na cozinha no episódio 3, Zan invadindo a delegacia no episódio 8 e Zan assumindo o comando no episódio 9.

    Eu faço todas as minhas próprias lutas e cenas de ação em filmes. Devo dizer que sou SEMPRE desafiada, e preciso provar para mim mesma, pelo departamento de Dublês. Eu tenho duas coisas contra mim. Primeiro, eu sou atriz e não dublê. Os coordenadores de Dublês geralmente não confiam em atores com ação. E dois, claro, eu sendo uma mulher. Você terá sorte em encontrar mais de duas dublês femininas em alguns dos maiores filmes de ação, e as coordenadoras de dublês são extremamente raras em qualquer lugar. No final, trata-se de ganhar o respeito das pessoas com quem trabalha. Com todos os trabalhos que eu estive, no final das filmagens acabei trabalhando muito de perto e bem com as equipes de dublês.

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    JuJu Chan no Set de Wu Assassins com Diretor Stephen e o Ator Byron Mann

    De qualquer forma, é muito fácil ser dispensado por algumas pessoas quando eu quero me encarregar de minha própria ação, mas se eu não me forço para isso, minha experiência foi que eles colocaram uma dublê (ou um pequeno dublê) para fazer as lutas da atriz. E imediatamente parece genérico. Se você olhar para Jackie Chan, Sammo Hung, Donnie Yen e, claro, Bruce Lee, todos eles se encarregaram de suas próprias lutas, e todos têm uma expressão de assinatura para elas. Eu vejo a necessidade de fazer isso por mim.
    Eu certamente espero que, ao fazer isso, outras equipes de dublês estejam mais abertas a ouvir outras mulheres quando tiverem opiniões de ação, seja para brigar, andar a cavalo, dirigir ou qualquer outra habilidade relacionado ao papel do filme.

    kungfu.doc: Quem são seus ídolos na arte marcial e no cinema?


    Juju Chan:Para mim, minhas principais influências foram Donnie Yen e Jackie Chan. Eu acho que é por isso que eu faço muitos tipos de artes marciais. Antes deles, os filmes de Hong Kong eram sempre sobre o “Kung Fu Chinês” ser melhor. Mas se você olhar para Donnie Yen, suas artes marciais são muito mistas. Jackie Chan era mais sobre acrobacias e comédia, que eu certamente gostaria de explorar por mim mesma. Eu amei o fato de Jackie estar fazendo filmes americanos também. Também fui especificamente influenciada pela carreira de Michelle Yeoh. Adoro o que ela fez ao trazer as mulheres para a vanguarda da ação, não tanto no cinema chinês, que tem uma tradição de estrelas de ação femininas, mas pela maneira como ela fez isso em Hollywood. Antes dela, as “Bond girls” eram interesses amorosos ou uma inimiga. Eu amo que ela trouxe para a tela o que era na essência uma Bond feminina da China. E ela conseguiu continuar trabalhando no setor como uma mulher de ação! Espero conseguir fazer isso.

    kungfu.doc: Para seus fãs brasileiros, quais são seus novos projetos e trabalhos?


    Juju Chan: Tenho um filme “Hollow Point” que está agora na Fox Asia e no Netflix da Europa e do Reino Unido. E uma adaptação de quadrinhos de artes marciais, “Jiu Jitsu”, com Nicolas Cage, filmado em Cypress saindo neste verão (seria em julho aqui no Brasil).

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    Hollow Point
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    Filme Jiu Jitsu JuJu Chan e Nicolas Cage com atores e o diretor

    kungfu.doc: Que mensagem você gostaria de deixar ?


    Juju Chan: Sempre siga seu coração e sua paixão! Como artista, você nunca desiste quando enfrenta dificuldades ou desafios. Seja positivo e rodeie-se de pessoas inspiradoras. Você vive apenas uma vez, por isso, se ser um artista é sua paixão, ninguém o impede!

    Espero continuar melhorando minhas habilidades em artes marciais e adoraria interpretar um personagem legal de super-herói em filmes que possam mostrar minhas habilidades reais.

    O kungfu.doc gostaria de agradecer a atriz Juju Chan pela entrevista realizada via Instagram e Email. Estamos na torcida pelos seus próximos filmes e ainda queremos ver você em um papel como super heroína.

    Informações sobre a atriz e estrela de ação Juju Chan em suas redes sociais:

    Confira algumas fotos da Atriz JuJu Chan

  • Rotina da Atleta Edineia Camargo, durante isolamento social

    Rotina da Atleta Edineia Camargo, durante isolamento social

    A disseminação do novo coronavírus (Covid-19) alterou radicalmente a rotina de atletas de alto rendimento, principalmente com o fechamento temporário de academias, parques e demais locais destinados à realização de atividades físicas

    Durante o período de isolamento social, os atletas contemplados pelo programa Bolsa Atleta, concedido pelo Governo do Estado, por intermédio da Fundação de Desporto e Lazer de Mato Grosso do Sul (Fundesporte), mantêm os treinamentos em suas residências com a ajuda de utensílios domésticos e com acompanhamento técnico à distância. 

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    Para Edineia Camargo, atleta da seleção brasileira de Kung Fu Wushu (www.cbkw.org.br), o período de isolamento, serve para reflexão a respeito da importância do esporte em sua vida. “Me fez pensar em quanto amo o que faço e nas coisas realmente importantes, como família, amigos e pequenos gestos que, na correria do dia a dia, passavam despercebidos.

    Eu nunca imaginei que passaríamos por algo dessa forma, esse momento está sendo de muita mudança. Tive que adaptar toda minha rotina, como atleta e profissional. Os treinos que eram feitos em academia estão sendo realizados em casa, é claro que não tenho a mesma estrutura. As consultas de nutricionista e psicóloga estão sendo feitas online. Estou fazendo o melhor que eu posso na realidade que tenho. O calendário esportivo da minha modalidade do primeiro semestre foram canceladas todas as competições e estou aguardando notícias sobre o segundo semestre. Não é fácil pensar que talvez ficaremos longe das competições por algum tempo. Mas esse momento deve ser de resiliência, fé, esperança e otimismo por dias melhores no esporte e no mundo.

    Sanda Edineia Camargo

    “Consigo fazer em casa treino de flexibilidade, aeróbicos (pular corda, rounds), circuitos com exercícios funcionais voltados à luta, sequências de golpes específicos da minha modalidade, o Wushu Sanda com uso de manoplas e aparadores de chutes”, completa a multicampeã sul-mato-grossense na arte marcial chinesa (Wushu/Kungfu), que ainda realiza consultas online com nutricionista e psicóloga. 

    Fonte: Lucas Castro – Fundação de Desporto e Lazer de Mato Grosso do Sul (Fundesporte)http://www.fundesporte.ms.gov.br/ e Atleta Edineia Camargo.

    O Kungfudoc deseja sucesso para a atleta Edineia Camargo, nesta fase de isolamento social e estamos na torcida por dias melhores para a atleta, assim como para todos no mundo.

  • Bastão de Shaolin

    Bastão de Shaolin

    Temos certeza que os monges de Shaolin são especialistas na arte do bastão, mas suas informações e registros vem em forma de lendas.

    A primeira lenda é sobre os rebeldes, conhecidos como “Turbantes Vermelhos” (紅巾起義), tentaram atacar o Mosteiro de Shaolin, mas foram impedidos de atacar pelo Jinnaluo, ou em sânscrito Vajrapani, que tornou-se um gigante armado com um bastão, que acabou espantando os rebeldes.

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    Estela de Vajrapani (Narayana) de 1517 pelo abada Wenzai. O guerreiro está segurando um bastão.

    Vajrapani é um Bodhidattva protetor de Buda, que segundo a lenda, estava reencarnado em um modesto monge que trabalhava nos fornos carregando lenha. Existe várias versões sobre essa história, e a mais antiga registrada é a estela de 1517, com autoria do abade de Wenzai (1454 – 1524), A Divindade Narayana Protege a Lei e Expõe Sua Natureza Divina (Naluoyan shen hufa shiji):

    No vigésimo-sexto dia do terceiro mês do décimo-primeiro ano (xinmao) do período Zhizheng (22 de abril de 1351), na hora si (entre 9 e 11 horas da manhã), quando o levante dos Turbantes Vermelhors  (Hongjin) em Yingzhou [na atual Anhui ocidental] acabara de se iniciar, uma multidão de saqueadores chegou no mosteiro. Havia um santo (shengxian) em Shaolin, que até então tinha trabalhado na cozinha do mosteiro. Por vários anos, ele dedicadamente carregara lenha e conduzira o fogão. Seu cabelo era desgrenhado e ele estava sempre descalço. Vestia apenas suas calças e seu tronco estava sempre descoberto. Da manhã até a noite dificilmente pronunciava uma palavra, nunca chamando atenção de seus irmãos monges. Seu sobrenome era o nome de seu local de nascimento e seu primeiro nome era desconhecido. Ele cultivava constantemente todas as atividades de iluminação (wan xing).

    No dia que os Turbantes Vermelhos chegaram no mosteiro, o bodisatva empunhava um atiçador de fogo (huogun) e se manteve magistralmente sozinho no topo do destacado da colina. Os Turbantes Vermelhos ficaram horrorizados com sua imagem e fugiram, quando, então, ele desapareceu. As pessoas procuraram por ele, mas nunca mais foi visto. Apenas, então, as pessoas se deram conta de que era um Bodisatva expondo sua natureza divina. Desde então, se tornou o protetor das leis de Shaolin (hufa) e ocupou o lugar do “espírito guardião” do mosteiro (qielan shen).

    SHAHAR, 2008, p.121
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    Vajrapani sobre o Monte Song. Acima está o Bodisatva Avalokitesvara, de quem ele é considerado a reencarnação.

    Porém, essa versão é contestada pelo historiador Tang Hao, em Shaolin quanshu mijue kaozheng (p.55-62.), em que ele conta que o ataque aconteceu em 1356, e não em 1351, e que o mosteiro foi saqueado e parcialmente destruído. Esse fato é confirmado no em duas inscrições do século XIV, onde é comemorado a reconstrução do mosteiro nos primeiros anos da dinastia Ming e também há registros de dois epitáfios de 1373, sobre dois monges de Shaolin que viveram nesse período.

    Segundo Shahar (2008, p.132), os monges budistas impunham suas técnicas de combate às divindades budistas, pois ampliava o prestígio das técnicas de combate de Shaolin. Afirmar que certo método de combate possui origem divina, equivale a garantir-lhe a existência como objeto de veneração. Shahar (2008, p.132) também destaca para o fato que as divindades marciais como o Vajrapani livram os monges de suas responsabilidades pela criação de técnicas militares. Suas lendas, em relação a tal questão, poderiam ser lidas como apologias budistas à prática da violência pelos monges.

    Mas há estudiosos que reconhecem a característica defensiva do bastão, e como seu propósito não é de ferir ou matar ninguém, eles acabam justificando a arma como preferida dos monges budistas. Segundo Shahar (2008, p.149), isso é exemplificado por Cheng Dali:

    O bastão não é um instrumento afiado e, além disso, é feito de madeira. Seu poder de matar ou ferir é muito menor que o do facão, da espada e de outras armas afiadas de metal. Evidentemente, o uso do bastão de madeira é relativamente apropriado à condição de discípulos budistas, para quem o uso das artes marciais é permitido apenas visando objetivos limitados.

    Zhongguo Wushu, p.96

    Esse argumento acaba perdendo força em algumas literaturas militares, ficções e dramas, quando os bastões passaram a ser produzidos com ferro, se tornando uma arma letal, que era capaz de levar a morte. Esses bastões foram usados até por monges budistas em operações militares, que foi descrito por Wu Shu (1611-1695) em Registro de Armas (Shoubi lu, 1678).

    A forma de bastão não era limitado somente ao mosteiro, mas o exército do período Ming tardio já via a importância da arma para o treinamento militar. O general Yu Dayou utilizava o treinamento do bastão também para introdução de outros meios de combate, como facão e lança, por exemplo.

    Há relatos que por volta de 1560, Yu Dayou fez uma visita no Templo Shaolin para avaliar as técnicas de bastão pelos monges. Foi feita uma apresentação por 10 monges, e no final o general ficou descontente com o que viu e chegou a fazer uma demonstração com a sua técnica. Os monges pediram para que ele ensinasse suas técnicas, mas ele disse que precisaria de anos para aprender. Dois monges, Zongqing e Pucong, acabaram acompanhando o general e depois de três anos retornaram para o templo para passar seus conhecimentos.

    O bastão não era só de domínio dos monges budistas, mas a literatura ficcional e as lendas populares acabaram associando isso a eles, o que não significa que eles são os únicos que dominavam a técnica na época.

    Um dos primeiros registros sobre as técnicas de combate no templo Shaolin, foi o Livro da Disciplina Eficaz (Ji Xiao Xin Shu, c. 1562) escrito no século XVI. O contexto desse registro era na época que chineses e japoneses estavam atacando o leste da China, onde o general Qi Jiguang (1528-1588) escreveu os métodos de combate mais eficientes de formas de mãos livres e armas, onde ele cita sobre o bastão de Shaolin, que acabou não desenvolvendo muito sobre elas, e acabou dando ênfase as técnicas do General Yu Dayou. Nesse manual, Qi não fala de mais nenhuma técnica de mãos livres de Shaolin, e segundo Acevedo, Gutiérrez e Cheung (2011, p.48), na opinião de Stanley E. Henning, esse fato pode ser explicado de diversas maneiras: o templo de Shaolin não havia desenvolvido técnicas de combate sem armas dignas de ser mencionadas; Qi não considerou as técnicas de luta de mãos vazias de Shaolin fossem eficazes; ou ainda as técnicas de lutas sem armas de Shaolin eram as mesmas que se praticava fora do templo.

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    khakkhara

    Antes mesmo do bastão ser utilizado como arma, ele era um objeto obrigatório dos monges budistas. Porém ele era um pouco diferente, pois tinham argolas em suas pontas. Seu nome em sânscrito é khakkhara, em chinês foi traduzido como xizhang. Segundo Shahar (2008, p.150), a palavra “xi”, que significa estanho ou latão, talvez se refira ao metal com o qual as argolas eram feitas, ou uma onomatopéia referente ao som que as argolas produziam.

    Fayun (1088-1158) fez uma análise sobre o nome xizhang, e percebeu a importância do som, que seria, primeiro para ajudar a espantar animais peçonhentos, segundo para avisar o proprietário de uma casa sobre a presença de um monge, e por ultimo o bastão pode somente servir como apoio a monges velhos e doentes em suas jornadas.

    No geral, é difícil apontar suas origens, mas pode-se dizer que por ser um utensílio obrigatório de um monge, eles abaram o transformando em uma arma, mas não podemos negar que ele teve um papel muito importante na história de Shaolin e acabou influenciando várias lendas a seu respeito.

  • Ip Man (葉問) – 1893 – 1972

    Ip Man (葉問) – 1893 – 1972

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    Para quem não é do estilo Wing Chun, quando falamos do Ip Man (葉問) lembramos que ele foi o primeiro mestre de Kung Fu de Bruce Lee, há alguns que lembram dele dos filmes protagonizados pelo Donnie Yen, “O Grande Mestre”, como é conhecido no Brasil, ou apenas “Ip Man”.

    Mas Ip Man teve uma grande relevância na história do Kung Fu. Ele nasceu dia 1 de outubro de 1893, na província de Foshan, Guangdong, China. Ele é o terceiro filho de quatro irmãos. Sua infância não foi tão severa, sua era família rica e bem estruturada e ele estudou em uma escola tradicional chinesa.

    Começou a treinar Wing Chun aos 11 anos com o mestre Chan Wah Shun, se tornando o 16º e ultimo aluno. Ele treinou Ip Man por 3 anos até ter um derrame, em 1909. Após o derrame, seu mestre parou de treinar e Ip man ficou treinando com um dos alunos mais velhos de Chan, o Ng Chung-Sok (吳仲素). Foi com ele que Ip man aprendeu todas as suas técnicas e habilidades.

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    Leung Bik

    Após a morte do mestre Chan Wah Shun, aos 16 anos, Ip Man se mudou para Hong Kong e frequentou uma escola para famílias ricas e estrangeiras que moravam na cidade, a St. Stephen’s College. Ele era muito habilidoso no Wing Chun, e sempre estava envolvido em brigas com colegas de escola. Depois de uns 6 meses que ele estava em Hong Kong, um dos seus colegas de classe, o Lai, falou para Ip que o amigo do seu pai lutava kung fu e queria uma luta amigável com ele. Ip aceitou o desafio, pois na época ele achava que ninguém poderia derrotá-lo, uma vez que ele derrotava muito fácil seus colegas devido a sua habilidade, mas acabou perdendo a luta para Leung Bik. Ip ficou inconformado com a rapidez que foi derrotado, e o desafiou para um novo duelo, e acabou perdendo novamente. Depois dessa luta bem desanimado com a derrota e nunca mais falou que sabia kung fu, mas seu amigo falou que Leung Bik perguntou por ele após a luta, mas Ip estava com vergonha de voltar. Porém, Ip Man descobriu que Leung Bik havia elogiado muitos suas técnicas e que ele era filho de Leung Jan que treinou com o Chan Wah Shun, seu mestre. Ip Man acabou treinando com Leung Bik até 1911, quando Leung faleceu.

    Em 1917,  Ip Man voltou a Foshan, tinha 24 anos e se tornou policial. Apesar de não ter uma escola de artes marciais, ele ensinou Wing Chun para vários policiais, amigos e familiares.

    Entre seus alunos mais conhecidos estão Chow Kwong-yue (周光裕), Kwok Fu (富), Lun Kah (佳), Chan Chi-sun (新), Xu He-Wei (徐 和 威) e Lui Ying (應 應). O Chow era o melhor deles, mas acabou parando de praticar para se dedicar ao comércio e  Kwok Fu e Lun Kah lecionaram em Foshan e Guangdong.

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    Ip Man e seus alunos

    Ele se casou com a Cheung Wing-Sing, com que eles tiveram seus filhos: Ip Chun, Ip Ching, Ip Nga-Sum, Ip Nga-wun.

    Ip Man participou da Segunda Guerra Sino Japonesa, onde morou com o Kwok Fu, e só retornou a Foshan depois da guerra. Em 1949, começou a treinar seu filho Ip Ching, e no mesmo ano, mestre Ip, sua esposa e sua filha mais velha chegaram em Hong Kong, através de Macau, após o Partido Comunista Chinês vencer a Guerra Civil, uma vez que Ip era policial do partido de oposição.Sua esposa e filha chegaram a voltar a Foshan para resgatar suas identidades, mas a fronteira entre China e Hong Kong foi fechada e eles foram separados para sempre.

    Ip resolveu abrir uma escola de Wing Chun em Hong Kong. No inicio não foi muito bem, seus alunos ficavam alguns meses e saíam, ele chegou a se mudar algumas vezes. Mas com o tempo alguns alunos foram se graduando em Wing Chun, abriram suas próprias escolas e acabaram duelando com outros artistas marciais, e claro, as vitórias aumentam a fama de Ip man.

    Em 1955, Ip Man conhece Shanghai Po, com quem manteve um relacionamento e teve um filho, o Ip Siu-wah. Como ele não havia se separado de Cheung, Po era como se fosse sua amante, e mesmo Ip não a apresentou formalmente a seus filhos, em 1962, quando eles foram a Hong Kong. Cheung morreu em 1960 em decorrência de um câncer, assim como Po, em 1968.

    Em 1967,  surgiu a Associação Atlética de Ving Tsun ( Wing Chun) (詠 春 體育 會) feita por Ip e seus alunos, com o objetivo de ajudar Ip Man a enfrentar as dificuldades financeira, pois, segundo relatos, Ip havia se endividado pelo seu vício em ópio.

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    Ip Man e Bruce Lee

    Ip Man morreu em 2 de dezembro de 1972, de câncer de garganta, sete meses antes da morte de Bruce Lee. Seu grande legado sem dúvida foi o Wing Chun, deixando vários alunos de grande destaque, são eles: Leung Sheung, Lok Yiu, Chu Shong-tin, Wong Shun Leung, Siu Yuk Men, Bruce Lee, Moy Yat, Ho Kam Ming, Chow Tze Chuen, Victor Kan, seu sobrinho Lo Man Kam e Leung Ting. Em Foshan existe um museu sobre o Mestre Ip com muitos artefatos da sua vida.

    A CGTN fez uma pequena entrevista com Leung Ting confira: