Categoria: Fundamentos e Teorias

  • A Filosofia do Kung Fu

    A Filosofia do Kung Fu

    É muito comum quando se fala em kung fu, ou qualquer outra arte marcial, que além de ensinar a luta, ela desenvolve muito a disciplina. Isso não deixa de ser verdade, pois a grande maioria das artes marciais tem seus princípios filosóficos.

    No kung fu, por exemplo, falamos sobre o Wude, termo muito comum para nos referirmos aos princípios e ética marcial, entre eles estão respeito, disciplina, humildade, honestidade, paciência, entre outros. Mas para chegar nesses princípios, devemos entender que isso vem de uma grande influência de filosofias que predominavam a China na época. Confucionismo, Taoismo, Budismo são alguns nomes fortes que influenciaram muito o pensamento chinês, alguns chegam até colocar o Maoismo nessa influencia, mas como estamos falando de kung fu e ele nasceu bem antes da era de Mao Tse-Tung (1893-1976), nem vou comentar muito sobre ele.

    Entender essas três linhas filosóficas, Confucionismo, Taoismo e Budismo, vai ficar muito claro visualizar a sua influência no Kung fu.

    Budismo

    O budismo surgiu com o o Sidarta Gautama(Buda), na Índia, no século V a.c, com ele veio o conceito do que é sofrimento que está nas Quatro Nobres Verdades e o Nobre Caminho Óctuplo que é basicamente o caminho para cessar esse sofrimento. Em linhas gerais, são condutas corretas como: Compreensão correta, Pensamento Correto, Palavra Correta, Ação correta, Meio de vida correto, Esforço correto, Plena atenção correta, concentração correta.

    É no Nobre Caminho Óctuplo que vemos sua grande influência na filosofia do kung fu. Assuntos como compaixão, “não prejudicar o outro”, “não mentir”, “não matar e não roubar”, “obter o controle da mente”, “sabedoria e serenidade”, não são assuntos estranhos para quem é praticante, e podemos dizer que essa influência veio em peso com budismo.

    Taoismo

    A grande base da filosofia do Taoismo é o Tao. Sua tradução literal é o caminho, e segundo a Oldstone- Moore (2010), o Tao se refere a um poder anônimo, sem forma e que tudo permeia, que cria todas as coisas e reverte-as ao estado de não ser em um ciclo eterno.

    Para os taoístas, seguir o caminho, seria seguir de acordo com o que é natural, com o fluxo da natureza, ou “como as coisas são”. Esse pensamento levou a busca da imortalidade do homem, por isso foi uma época de métodos de muita cura espiritual e física, dando destaque para o I-Ching (oráculo taoista), e o Tai Chi Chuan e Qi Gong, que surgiram nessa época como forma de cura física.

    Confucionismo

    O Confucionismo começou na China, e como o próprio nome já diz, seu fundador foi Confúcio. Ele viveu e cresceu em uma época de muita miséria devido às guerras que ocorriam nesse período. Isso foi uma grande fonte de inspiração para que ele criasse a própria filosofia em que pudesse mudar o conceito de sociedade. O ideal é que os governantes passassem governar para todos e não para si próprios.

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    Confúcio. Autor desconhecido (c. 1770)

    Sua filosofia tem muitos conceitos de generosidade, virtude e amor pela humanidade. No kung fu, por exemplo, o confucionismo está presente em algumas virtudes como honra, respeito e sinceridade e até mesmo em meios de treinamento como “estar centrado” durante uma luta, achar o seu centro, algo que Confúcio falava que todos os seres humanos deviam achar.

    A prática constante dos Taolus (ou Katis) também é uma forma de pensar de Confúcio. Para ele, a prática é um meio de alcançar a perfeição, a essência. O senso de justiça que aprendemos no kung fu, de quando usar o que sabemos, e utilizar somente para defesa, vem também dessa filosofia.

    E por último, essa ideia de que nunca aprenderemos tudo do kung fu que sempre tem algo que temos que aprender e aperfeiçoar, também é uma visão confucionista. Atingir a perfeição e maestria depende de muitos anos de prática e estudos. E kung fu não é só socos e chutes, tem todo um estudo de saber aplicar a técnica de forma perfeita, saber aliar a técnica a força, potência, agilidade, ritmo, etc. E fora tudo isso, toda uma filosofia, uma história, um estudo para entender toda essa arte marcial. E vamos concordar, não é em 2 anos que você adquire tudo isso.

    O kung fu definitivamente não é só forma ou só luta, mas puxando toda a sua história a sua construção de movimentos a partir de animais, por exemplo, e vendo o quão profundo é a sua filosofia, vemos como é complexo e rico essa arte marcial.

  • Bodhidharma e o Templo Shaolin

    Bodhidharma e o Templo Shaolin

    O que eu vou propor hoje é sair “um pouco da caixinha” como eu sempre proponho e mostrar um outro lado sobre a relação de Bodhidharma e as artes marciais de Shaolin. Achei algumas informações importantes que acho válido escrever um artigo só sobre isso.

    Primeiros de tudo temos que enfatizar aqui que muitas fontes ignoram a história das artes marciais antes da chegada de Bodhidharma no Templo Shaolin. Acredito que o Templo teve sim sua grande contribuição e participação nas artes marciais, mas temos que levar em consideração que foi um tempo de muitas guerras e é muito provável o desenvolvimento de lutas nessa época, e nem os templos estavam isentos nisso.

    Segundo Acevedo, Gutiérrez e Cheung (2011, p.41) O Livro de Wei (Weishu) diz que vários templos foram confiscado armas, e um historiado chinês chamado Kang Gewu diz que os monges praticavam jiao li como esporte. Isso desmente a crença que os monges desconheciam sobre as artes marciais antes de Bodhidharma.

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    Bodhidharma caminha sobre um caule lançado nas águas do rio Yangtzé (Estela de Shaolin, 1624)

    Bodhidharma era um monge indiano que foi para China, no monte Song, na região de Louyang nos anos de 480 e foi ele quem introduziu o budismo Chan no país de 480- 520. Algumas obras mencionam que eles esteve na região como Registro dos Mosteiros Budistas em Luoyang (Luoyang qielan ji) de 547 e também nos Registros Preciosos das Transmissões do Dharma(chuanfa baoji), que foi escrita 2 séculos após a sua chegada, e nessa obra ele fala sobre o templo ser um lugar de meditação e onde ele formou seus discípulos do budismo Chan. Porém nenhum deles cita a relação do monge com as artes marciais.

    No Registros Preciosos das Transmissões do Dharma também conta uma história famosa em que um dos discípulos de Bodhidharma, o Huike, amputa o próprio braço e dá ao monge para provar o desapego e em resposta ele foi levada a iluminação. Na obra Registro da Transmissão da Lâmpada do Período Jing (JIng de Chuangdeng lu), de 1004, acabou romantizando essa história.

    O grande motivo de várias histórias serem atribuídas ao Bodhidharma é que os escritores chineses tem o hábito de atribuir escritos a figuras lendárias. Nesse caso, muitos textos atribuídos ao monge foram escritos anos ou até mesmo séculos após a sua morte, e muitos deles estão relacionados com Qi Gong e artes marciais. Alguns dos textos atribuídos a ele são: Metamorfose de Tendões (Yi Jin Jing), Dezoito Mãos de Luohan (Shi Ba Luo Han), Limpeza da Medula Óssea (Xishui Jing), por exemplo.

    Segundo Acevedo, Gutiérrez e Cheung (2011, p.44), existe uma lenda para a atribuição desses textos, onde Bodhidharma deixou uma caixa de ferro com todas as suas obras com seus discípulos antes de ir embora, e a única obra que teria sobrevivido é a Metamorfose de Tendões (Yi Jin Jing), que na verdade foi escrita por um monge taoísta Zhongheng do Monte Tiantai em 1624, onde ele escreveu dois prefácios que acabou falsamente atribuído aos famosos generais Li Jing (517-649) da dinastia Tang e Niu Gao (1087-1147) da dinastia Song. Mas já foi comprovado por historiadores de artes marciais que esse livro é uma mistura de lenda e fatos históricos.

    Diante de todos esses fatos é difícil achar alguma relação dele com o Kung Fu, por exemplo. Mas é fato que ele sim esteve no Templo Shaolin para levar o Budismo Chan para a China. Além dos escritos no próprio templo tem a presença de algumas estelas (pedras com escritos) que mostram a relação do monge com o Templo Shaolin. A mais antiga é de 728 e a de 798 relata o episódio com o Huike.

    A obra Registro da Transmissão da Lâmpada do Período Jing é citada na estela de Shaolin:

    Depois que nove anos se passaram Bodhidharma quis retornar ao oeste, para a Índia. Então, ele comandou seus discípulos, dizendo: “o tempo está próximo; cada um de vocês deveria dizer que alcançou”

    Nesse momento, o discípulo Daofu respondeu: “Como eu vejo, a função do Tao consiste em não se ligar em escrituras e não ser parte das escrituras”.

    O mestre respondeu: “você alcançou a minha pele”

    A freira Zongchi disse: “Meu entendimento, agora, é de que isso é algo como a alegria de ver a terra búdica de Akshobhya: reconhecível a primeira vista, não reconhecível a segunda vista.”

    O mestre respondeu: “você alcançou a minha carne”

    Dayou disse: “Os quatro elementos são, na raiz, vazios, e os cinco skandhas não tem existência; do meu ponto de vista, não há um único darma que possa ser alcançado”

    O mestre respondeu: ” você alcançou meus ossos”.

    Finalmente, Huike, depois de fazer uma prostração, apenas permaneceu em seu lugar. O mestre falou: “Você alcançou a minha medula.”

    Segundo Shahar(2011, p.12), nesse texto a expressão “você alcançou a minha medula” foi para expressar metaforicamente que ele atingiu a essência dos ensinamentos, e que mais tarde isso ganharia uma interpretação totalmente diferente como na tentativa de associar Bodhidharma a arte marcial de Shaolin associando a “medula” com o nome de uma manual secreto – O Clássico da Limpeza da Medula (Xisui Jin) – que o Bodhidharma supostamente teria dado ao seu discípulo. Nessa obra contém as ginásticas secretas que permaneceu em segredo por mais de um milênio, e no século VII ele ressurgiu milagrosamente para influenciar as artes marciais.

    A devoção ao Bodhidharma era tão grande no mosteiro de Shaolin que em 1125, época que o budismo Chan estava ganhando mais popularidade, construíram um templo à 800 metros do mosteiro em sua homenagem. No templo você pode encontrar uma grande pedra com a imagem do monge gravada, pois acredita-se que ele ficou 9 anos meditando na caverna que sua sombra ficou impressa na pedra.

    Em resumo, Bodhidharma só esteve no Templo Shaolin para levar o Budismo Chan, o que acaba enfraquecendo a história que muitos conhecem sobre ele ter influenciado nas artes marciais. Ele pode ter influenciado de alguma forma? Pode! Quem sabe outros textos e evidências não sejam achados para nos provar o contrário? Mas eu não estou aqui para dizer o que é certo ou errado, mas sim para te mostrar o outro lado da história.

  • Taky Kimura e o Grande Legado do Jun Fan Gung Fu

    Taky Kimura e o Grande Legado do Jun Fan Gung Fu

    Recentemente recebi um comentário de um de nossos leitores aqui do nosso site, e ele perguntava o que havia acontecido com a academia e os alunos de Bruce Lee. Eu achei a pergunta muito legal, até porque acho que acabei ignorando esse fato todo esse tempo conhecendo a história de Bruce Lee. Ok, ele nasceu na China, foi para os EUA, montou a sua academia, criou seu estilo de luta, foi para o Cinema e faleceu.

    E realmente olhando para essa “ordem cronológica” existe uma ponta solta, o que aconteceu com a sua academia, o Jun Fan Gung Fu Institute, e seus alunos?

    A primeira pessoa que veio na minha cabeça foi Dan Inosanto, e de primeira foi nele que eu pensei que continuou seu legado, acho que é o nome mais conhecido na verdade. Mas na hora eu fui buscar se a escola dele tinha o mesmo nome da escola de Bruce Lee, e não tinha. Enfim, fui buscar pelo nome da escola, e já estava esperando encontrar escolas pequenas que podem ter se apropriado do nome, até para tentar vender o Jeet Kune Do “mais fácil”. Sim, tem muitas pessoas que dizem ensinar Jeet Kune Do, cuidado para não cair nessa, pesquisem bem a origem de todo esse conhecimento, até onde sei poucos no mundo são realmente certificados, enfim… vamos parar com a polêmica…

    Voltando as minhas buscas eu achei uma página no Facebook e acabei entrando no site dessa página. Lendo, vi que sim, era realmente o site da academia e, sim, ela existe! O grande responsável pela academia é o Taky Kimura.

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    Taky Kimura

    Taky Kimura nasceu em 12 de março de 1924, em Clallam Bay, Washington, EUA. Ele era descendente de japoneses, e ele e sua família logo foram colocados em campo interno durante a segunda guerra mundial, porque eles eram japoneses, mesmo ele sendo um cidadão americano.

    Nós argumentamos com eles porque o sistema educacional nos disse que somos iguais perante a constituição. Mas então (quando a guerra veio) tudo de repente mudou e fomos colocamos em campos internos, mesmo que a gente fosse cidadãos. o Serviço de seletiva  nos colocou numa categoria 4y, que era uma classificação extraterrestre , e eles nos falaram que tinham boatos que eles iam nos pegar e nos levar para uma ilha assim que eles pudessem se livrar de nós. De qualquer forma, eles nos colocaram em um campo.

    Taky Kimura

    No pós guerra, Taky conseguiu sair desse campo e foi em busca de trabalho, mas não conseguia um trabalho descente com o sentimento anti-japoneses do povo americano, isso o deixou desmoralizado e sem motivação. E foi nessa época, em 1959, que ele conheceu Bruce Lee. Ele, na época, tinha 18 anos e era cheio de energia, enquanto Taky tinha 36 anos e estava mentalmente devastado, mas Bruce começou a anima-lo, incentivando-o a comprar roupas novas para ele se sentir mais humano, uma vez que Taky ficava todo mal vestido e sem ânimo nenhum. Bruce o incentivou em tantas coisas, que Taky começou a se sentir melhor e logo se tornaram grandes amigos, tanto que ele foi padrinho de casamento de Bruce e Linda Lee.

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    Taky, Bruce e Linda Lee

    Taky assim que conheceu Bruce, já começou a treinar com ele se tornando um dos primeiros alunos de Bruce Lee nos EUA, ao lado de Jesse Glover, James DeMile, Ed Hart, Skipp Ellsworth e LeRoy Garcia. Taky foi aluno e assistente de Lee e juntos eles praticavam e treinavam muito.

    Bruce tinha um respeito muito grande por Taky, principalmente por sua moral, e desde 1964, Taky é instrutor do Jun Fan Gung Fu Institute em Seattle. Na verdade, ele foi o primeiro instrutor da academia de Lee, e foi ele que assumiu a academia quando Bruce decidiu ir para a California tentar a carreira como ator. Bruce chegou a chamá-lo para ir com ele, mas Taky decidiu ficar e se dedicar a academia.

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    Taky e Bruce

    Taky nunca aceitou alguma compensação por seu trabalho em nome do Bruce Lee, e, além de ter ter carregado o caixão após a morte de Bruce, ele cuidou muito discretamente de seu túmulo por 30 anos. Isso demonstra muito a relação muito profunda que eles tinham um pelo outro. Ele é um homem muito respeitado na comunidade de Bruce Lee, e é um exemplo muito positivo do impacto da filosofia de Bruce Lee. Tanto que Taky e mais duas pessoas no mundo foram pessoalmente certificadas por Bruce Lee para ensinar sua arte marcial, o Jun Fan Gung Fu e o Jeet Kune Do. As outras pessoas são Dan Inosanto e James Yimm Lee (Nenhuma relação com Bruce Lee).

    Infelizmente, Taky kimura morreu em sua casa dia 7 de janeiro de 2021, aos 96 anos, e deixou alguns instrutores certificados de Jun Fan Gung Fu, e um deles é seu filho Andy Kimura, que ainda dá aula no Jun Fan Gung Fu, em Seattle.

    Abaixo fica um vídeo de um mini documentário sobre Taky Kimura. E agradeço o nosso leitor pelo insight de trazer um tema diferente para o nosso site!

  • Kung Fu Origens: Idade de Aço – Idade Moderna

    Kung Fu Origens: Idade de Aço – Idade Moderna

    No nosso último artigo (se não conferiu, pode clicar aqui), falamos sobre a pré história até a idade de ferro, na dinastia Qin, com o início do shoupo(boxe) e juedi(wrestling) na China.

    Continuaremos nossa história com a dinastia Han(207 BCE – 220CE), e nesse período a China estava travando várias batalhas contra os Hunos, que eram uma tribo do norte da China. Eles utilizavam um facão de um fio, que era muito superior a espada de dois fios do exército chinês, mas mesmo com essa desvantagem, o exército de Han conseguiu derrotar os hunos, e acabaram se apropriando dessa arma, o facão, que foi muito superior nas batalhas.

    Um termo muito popular na época para artes marciais era o wuyi. Esse termo incluía: tiro com arco, cavalaria, levantamento de peso, boxe, wrestling, combate desarmado, luta com armas e sparring.

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    Imperador Wu

    Os mais populares eram o shoupo(boxe) e o juedi(wrestling), e quem ajudou nessa popularidade foi o Imperador Wu(141 – 87 a.C), que era praticante de juedi e organizava competições que atraía muitos espectadores. O shoupo era praticado com short, não utilizavam luvas e não tinham regras muito seguras. O juedi era mais seguro, os competidores não podiam golpear ou chutar e ainda ganhavam pontos jogando o oponente no chão.

    Nessa época, os mestres da espada era muito populares e respeitados, e não era só restrito aos homens, mulheres também eram muito habilidosas nessa arte. As técnicas de espada eram passada como se fossem em taoulus (katis), e as donzelas da época faziam performances com esses taolus como sem fossem uma dança, mas também havia disputas entre artistas marciais muito bem treinados.

    A dinastia Han contribuiu muito para as informações que temos hoje sobre o Kung Fu. Foram escritos vários documentos nessa época com táticas de guerra, textos sobre espada, métodos de tiro, e houve alguns escritos sobre o shoupo, mas, infelizmente, esses textos não foram encontrados, e esses métodos foram conhecidos por outras fontes. Segundo Acevedo, Gutiérrez e Cheung (2011), o historiador Ma Mingda fala que na dinastia Han, o shoupo incluía 4 elementos básicos da luta sem armas: golpear com as mãos (da), chutar (ti), derrubar (shuai) e controlar as articulações (na).

    Em 1973, foi encontrado na província de Hunan, uma pintura em seda, datada da dinastia Han, que mostra pessoas fazendo uma série de exercício. Não se sabe ao certo o significado dessas imagens, uns falam que é um manual de kung fu, outros falam que é um exercício de ginástica (dao yin).

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    L0036007 Daoyin tu – chart for leading and guiding people in exercise
    Credit: Wellcome Library, London. Wellcome Images
    images@wellcome.ac.uk
    http://wellcomeimages.org
    Daoyin tu – chart for leading and guiding people in exercise for improving health and treatment of pain, containing animal postures such as bear walk. This is a reconstruction of a ‘Guiding and Pulling Chart’ excavated from the Mawangdui Tomb 3 (sealed in 168BC) in the former kingdom of Changsha. The original is in the Hunan Provincial Museum, Changsha, China.
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    20th Century Published: –

    Copyrighted work available under Creative Commons Attribution only licence CC BY 4.0 http://creativecommons.org/licenses/by/4.0/

    No período de 220-280 d.C, acaba a dinastia Han e começa o Período de Três Reinos, e é considerado um dos períodos mais sangrentos da China, e também foi marcada por uma era taoísa e pela expansão do budismo.

    Nessa época, o shoupo era praticado por todos os níveis da sociedade, e até grande pensadores tinham interesse nas artes marciais. Taolus de armas e mãos foram criados com o intuito das técnicas não serem esquecidas, mas havia uma grande diferença entre as formas para lutas e demonstrações.

    Mais ou menos nessa época que Bodhidharma veio da Índia para a China para espalhar o budismo, e em 527CE, ele chegou no Templo Shaolin, onde ele acabou influenciando no desenvolvimento do Kung Fu Shaolin. Isso foi um marco, pois antes a arte marcial era um senso comum, todos conheciam mas não era separado por tipos ou estilos. Depois do surgimento do Kung Fu Shaolin, as coisas ficaram mais um pouco mais organizadas, e começou a separar varias escolas de lutas por estilos, como Taijiquan, Baguá, Louva-a-Deus, etc.

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    Bodhidharma

    Entramos na Dinastia Tang (618-906 CE), e foi nesse período que a China foi unificada novamente. Nessa época, eles começaram a fazer exames imperiais para selecionar guerreiros para os altos cargos, com graduações de distritos e províncias para nível nacional. As modalidades inclusas nessa prova eram cavalaria, luta no solo, técnicas de lança, uso de várias armas, arquearia, levantamento de peso e estratégias militares.

    Shoupo e juedi continuaram populares, mas surgiu uma nova modalidade de wrestling, o xiangpu ou jueli. Nessa técnica eles lutavam com uma tanga e um elástico no cabelo. Essa modalidade pode ter contribuído com a origem do sumô japonês.

    Na Dinastia Song (960-1279 CE) foi marcado pelo surgimento de escolas e faculdade de artes marciais. Um dos imperadores era muito habilidoso em kung fu Shaolin, então ele incentivou que as pessoas fossem praticar artes marciais. O kung fu era conhecido nessa época como wuyi, e muitos clubes de artes marciais foram criados, muitos artistas marciais experientes viajavam para fazer demonstrações públicas de suas técnicas. O mais interessante é que a maioria desses artistas eram mulheres, e acabou surgindo um termo para elas, nu zhan.

    Grand Classic of Martial Arts” (traduzindo, O grande Classico de Artes Marciais), foi escrito nesse período, contendo estratégias e treinamentos militares, e também contava histórias de batalhas importantes antes da Dinastia Song.

    Chega um momento da história da China que eles são governados por mongóis, na dinastia Yuan (1260-1368 CE), e uma das medidas tomadas foi a proibição da prática de artes marciais e da posse de armas. Mas uma modalidade de wrestling, de origem mongol, o Zuojiao, ficou popular na China. Os praticantes de artes marciais chineses acabaram treinando secretamente ou eles colocavam suas técnicas em show ou em dramas, sem muita marcialidade, o que acabou ajudando a preservar as técnicas.

    Na Dinastia Ming (1368-1644 CE), além do termo wuyi, o kung fu também era conhecido como quanfa (técnicas de punho). Nessa época as técnicas de demonstração e as técnicas marciais começaram a ficar mais distintas. Os generais do exército faziam competição de lutas entre soldados e os profissionais de kung fu faziam apresentações com técnicas mais “floreadas”.

    Nesse período surgiu vários estilos de kung fu, como Taiju, fundado pelo primeiro imperador Song, Garra de águia fundada pelo famoso general Yue Fei e Louva a deus fundado por um mestre shaolin Wang Lang, e também foi nesse período que foi dividido pela primeira fez entre estilos internos e externos.

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    General Yue Fei

    As artes marciais chinesas se expandiram para o Japão, quando o mestre Chen Yuan Bian, em 1619, foi ensinar o kung fu shaolin, que acabou dando base para o jiu jitsu, que foi um precursor do judo.

    Os manchus dominaram a China na Dinastia Qing (1644–1911 CE), e para eles as artes marciais chinesas tinham que estar no exército e não entre a população, e muitos generais manchus eram grandes mestres de kung fu. Então as artes marciais acabaram ficando em academias e clubes, e acabou surgindo o conceito que conhecemos hoje, onde as técnicas nessas escolas eram lutas individuais e sem armas e os taolus eram para saúde e demonstração.

    Foi um período de grande crescimento para os estilos internos como o Taijiquan, muito praticado no norte da China, e também do estilo Baguá, muito praticado pelos guardas imperiais e Xing Yi. Ja na parte sul da China prevaleceu o Kung Fu Shaolin, sendo que o mosteiro de Fujian acabou sendo um centro de revolução contra o governo manchu. O exército manchu destruiu o monastério e fez com que vários mestres se dispersassem pela China, sul da Ásia e pela América.

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    Revolução de Xinhai (1911)

    A revolução de 1911 acabou com a maior dinastia da China e muitos discípulos de Shaolin participaram dessa revolução. Nesse período da dominância dos manchus, muitas organizações foram montadas e uma delas foi a famosa Jin Wu Athletic Association, do Huo Yuanjia.

    Em 1926, o governo de Kuomintang mudou o termo wushu para guoshu, que passou a ter forma muito floreadas de demonstração. Quando o governo comunista substituiu o governo, foi feita uma grande campanha para resgatar os grande períodos das artes marciais chinesas, que passou a ser chamada de wushu novamente. Nessa época foi feito comitês nacionais, e até distritais para promover o wushu, fizeram escolas e faculdades especializadas, muitos times de wushu viajaram o mundo para fazer demonstrações e foram publicados vários livros com muitos conteúdos sobre wushu, assim como foram criados vários torneios nacionais e internacionais. Segundo Kit (2002), uma das grandes contribuições do governo chinês foi a restauração do Templo Shaolin que atrai praticantes do mundo todo.

  • Kung Fu Origens: Pré História – Idade de Ferro

    Kung Fu Origens: Pré História – Idade de Ferro

    O termo Kung Fu não é um registro muito comum nas escritas históricas, ele é um termo mais moderno e utilizado no século 20. Nas escritas históricas tem mais de 40 termos que fazem referência ao Kung Fu, e o mais comum deles é o “Wushu” e “Wuyi“, sendo esse último mais utilizado pois sua tradução literal se aproxima mais a palavra arte marcial.

    Já é de conhecimento que o homem pré histórico usava um pedaço de pau para se defender ou até mesmo caçar. Na China, por exemplo, na província de Yunnan, e também em outros locais, foi encontrado pinturas pré históricas que retratam a luta de homens com animais.

    Há registros na China de armas feitas de pedras como facas e pontas de lança, mais ou menos do período paleolítico. Já no período Neolítico, há estudos que as armas já foram aprimoradas, utilizando além de pedra, ossos, e ainda mais afiadas. Segundo Acevedo, Gutiérrez e Cheung (2011), na província de Yuannan, existem pinturas rupestres do Neolítico que representam caçadas nas quais se pode observar técnicas específicas de ataque, como atacar a partir de uma posição superior (zha) e atacara a partir de uma posição frontal (ci).

    Na província de Shanxi, foi encontrado indícios de uso de pedra polida  para ataque a distância, há mais ou menos 700 mil anos. Essas armas eram feiras com pedras de rios e vulcões, e algumas armas eram feitas dessas pedras amarradas em cordas que podiam até ser amarradas no braço para ser mais fácil de se achada.

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    Balestra

    Depois que essa arma caiu em desuso, veio o arco e flecha e há relatos que ela foi antecessora da balestra, um tipo de arco que atirava pedras. foi encontrado na jazida arqueológica de Miaotigou (província de Henan ), alguns resto que parecem ser de balestras.

    Com o passar do tempo as armas de caça não são suficientes para a batalha, por essa razão começa a ter o desenvolvimento de armas militares: lanças, armas de arremesso, martelos de guerra, bastão, escudo.

    Nessa época não havia escola dedicadas ao treinamento, mas esses conhecimentos eram passados de geração para geração. Nos períodos que não havia luta eles faziam  danças baseadas nos movimentos de luta, os taolus podem ter vindo dessa época.

    Nas dinastias Hsia (2070 AEC – 1600 AEC) e Shang (1600 AEC-1046 AEC) as armas eram feitas de cobre e bronze. Nessa época surgiu algumas armas que conhecemos hoje, como facão chinês (da dao), lança, adaga, e equipamentos de guerra como capacetes. As primeira escolas de artes marciais apareceram nessa época com o ensino de arco e flecha, que será bem popular e importante nas dinastias seguintes. Nessa época também houve o surgimento dos carros  de combate, que eram puxados por dois ou 4 cavalos. 

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    Carros de Guerra

    Na dinastia Zhou (1046 AEC – 256 AEC), com o aumento de treinamento militar, foi criado rotinas para treinar os soldados, e algumas delas eram acompanhadas de músicas, criando um estilo de dança militar (wu wu). Nessa época o Kung Fu era conhecido pelos termos quanyong (luta de punho) e shoupo (combate de mãos), e foi desenvolvido um sistema sofisticado com filosofias profundas, como  yin-yang, baguá e wu-xing.

    Durante o período de guerra (480-221 BCE) vários governos deram muita importância para as artes marciais, tanto que houve uma estreita relação entre o treinamento marcial e intelectual. Confúcio, por exemplo, achava importante que quem fosse da área acadêmica, também fizesse o treinamento marcial. Essa relação é bem presente no livro, que foi escrito nessa época, “A arte da Guerra” de Sun Tzu, que, para quem não conhece, fala sobre estratégias de combate e que hoje é muito utilizado no mundo dos negócios.

    Técnicas conhecidas como jiji (técnicas de luta) e xiangpo (combate interno), e tiro com o arco e lutas com cavalo foram essenciais para a formação marcial. Mas as artes marciais não era exclusivo de elites, classes mais baixas também tiveram acessos, tanto que em algumas pesquisas do historiador chinês Kang Gewu, que houve uma revolta em 841 a.C, e nesses relatos há indício de lutas armadas por pessoas comuns.

    No período da Primavera e do Outono(722 – 481 AEC), quando a China foi dividida em pequenos reinos, foi caracterizado pelo aumento da alfabetização, e também o ferro tornou-se mais barato e mais abundante que o estanho (material utilizado para a fabricação de bronze), possibilitando a criação das primeiras armas de ferro como: espada de dois gumes, facas, lanças e também acessórios militares como os capacetes. 

    E por fim, entramos na dinastia Qin (221 – 206 AEC), um período muito controverso, pois foi muito focado na busca da imortalidade. Qin Shi Huang, primeiro imperador da dinastia Qin e que deu inicio a um governo militar, foi responsável por unificar toda a China com o seu exército bem treinado derrubando todas as muralhas e exércitos, e acabando com o feudalismo. Segundo Acevedo, Gutiérrez e Cheung (2011), ordenou a destruição de todas as armas que a população possuía e seu envio para a capital para que fossem derretidas e transformadas em sinos e estátuas de bronze. Foi um governo muito rígido e burocrático, e segundo Antunes (2014), ele promoveu a primeira grande queima de livros e escritos da história da China, na tentativa de extinguir a diversidade cultural . Nessa época que foi construída a Grande Muralha, afim de delimitar as conquistas dele. Uma curiosidade, é que os Guerreiros de Terracota é justamente o exército do Imperador Huang, que foram feitos para serem enterrados junto com seu túmulo, no intuito de protegê-lo na sua vida pós morte.

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    Guerreiros de Terracota

    Ele acabou introduzindo as modalidades de shoupo (boxe) e juedi (wrestling), em que  os competidores lutavam um um lugar cercado, como esporte militar oficial nas cerimônias.  Essas duas modalidades podem ter contribuído para o inicio do boxe e do wrestling no mundo.

    Após essa dinastia Qin, entraremos na dinastia Han e na idade do Aço, onde as técnicas de artes marciais começam a ficar mais parecidas com o Kung Fu que conhecemos hoje, mas deixarei esse assunto para um novo artigo!

  • Bastão de Shaolin

    Bastão de Shaolin

    Temos certeza que os monges de Shaolin são especialistas na arte do bastão, mas suas informações e registros vem em forma de lendas.

    A primeira lenda é sobre os rebeldes, conhecidos como “Turbantes Vermelhos” (紅巾起義), tentaram atacar o Mosteiro de Shaolin, mas foram impedidos de atacar pelo Jinnaluo, ou em sânscrito Vajrapani, que tornou-se um gigante armado com um bastão, que acabou espantando os rebeldes.

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    Estela de Vajrapani (Narayana) de 1517 pelo abada Wenzai. O guerreiro está segurando um bastão.

    Vajrapani é um Bodhidattva protetor de Buda, que segundo a lenda, estava reencarnado em um modesto monge que trabalhava nos fornos carregando lenha. Existe várias versões sobre essa história, e a mais antiga registrada é a estela de 1517, com autoria do abade de Wenzai (1454 – 1524), A Divindade Narayana Protege a Lei e Expõe Sua Natureza Divina (Naluoyan shen hufa shiji):

    No vigésimo-sexto dia do terceiro mês do décimo-primeiro ano (xinmao) do período Zhizheng (22 de abril de 1351), na hora si (entre 9 e 11 horas da manhã), quando o levante dos Turbantes Vermelhors  (Hongjin) em Yingzhou [na atual Anhui ocidental] acabara de se iniciar, uma multidão de saqueadores chegou no mosteiro. Havia um santo (shengxian) em Shaolin, que até então tinha trabalhado na cozinha do mosteiro. Por vários anos, ele dedicadamente carregara lenha e conduzira o fogão. Seu cabelo era desgrenhado e ele estava sempre descalço. Vestia apenas suas calças e seu tronco estava sempre descoberto. Da manhã até a noite dificilmente pronunciava uma palavra, nunca chamando atenção de seus irmãos monges. Seu sobrenome era o nome de seu local de nascimento e seu primeiro nome era desconhecido. Ele cultivava constantemente todas as atividades de iluminação (wan xing).

    No dia que os Turbantes Vermelhos chegaram no mosteiro, o bodisatva empunhava um atiçador de fogo (huogun) e se manteve magistralmente sozinho no topo do destacado da colina. Os Turbantes Vermelhos ficaram horrorizados com sua imagem e fugiram, quando, então, ele desapareceu. As pessoas procuraram por ele, mas nunca mais foi visto. Apenas, então, as pessoas se deram conta de que era um Bodisatva expondo sua natureza divina. Desde então, se tornou o protetor das leis de Shaolin (hufa) e ocupou o lugar do “espírito guardião” do mosteiro (qielan shen).

    SHAHAR, 2008, p.121
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    Vajrapani sobre o Monte Song. Acima está o Bodisatva Avalokitesvara, de quem ele é considerado a reencarnação.

    Porém, essa versão é contestada pelo historiador Tang Hao, em Shaolin quanshu mijue kaozheng (p.55-62.), em que ele conta que o ataque aconteceu em 1356, e não em 1351, e que o mosteiro foi saqueado e parcialmente destruído. Esse fato é confirmado no em duas inscrições do século XIV, onde é comemorado a reconstrução do mosteiro nos primeiros anos da dinastia Ming e também há registros de dois epitáfios de 1373, sobre dois monges de Shaolin que viveram nesse período.

    Segundo Shahar (2008, p.132), os monges budistas impunham suas técnicas de combate às divindades budistas, pois ampliava o prestígio das técnicas de combate de Shaolin. Afirmar que certo método de combate possui origem divina, equivale a garantir-lhe a existência como objeto de veneração. Shahar (2008, p.132) também destaca para o fato que as divindades marciais como o Vajrapani livram os monges de suas responsabilidades pela criação de técnicas militares. Suas lendas, em relação a tal questão, poderiam ser lidas como apologias budistas à prática da violência pelos monges.

    Mas há estudiosos que reconhecem a característica defensiva do bastão, e como seu propósito não é de ferir ou matar ninguém, eles acabam justificando a arma como preferida dos monges budistas. Segundo Shahar (2008, p.149), isso é exemplificado por Cheng Dali:

    O bastão não é um instrumento afiado e, além disso, é feito de madeira. Seu poder de matar ou ferir é muito menor que o do facão, da espada e de outras armas afiadas de metal. Evidentemente, o uso do bastão de madeira é relativamente apropriado à condição de discípulos budistas, para quem o uso das artes marciais é permitido apenas visando objetivos limitados.

    Zhongguo Wushu, p.96

    Esse argumento acaba perdendo força em algumas literaturas militares, ficções e dramas, quando os bastões passaram a ser produzidos com ferro, se tornando uma arma letal, que era capaz de levar a morte. Esses bastões foram usados até por monges budistas em operações militares, que foi descrito por Wu Shu (1611-1695) em Registro de Armas (Shoubi lu, 1678).

    A forma de bastão não era limitado somente ao mosteiro, mas o exército do período Ming tardio já via a importância da arma para o treinamento militar. O general Yu Dayou utilizava o treinamento do bastão também para introdução de outros meios de combate, como facão e lança, por exemplo.

    Há relatos que por volta de 1560, Yu Dayou fez uma visita no Templo Shaolin para avaliar as técnicas de bastão pelos monges. Foi feita uma apresentação por 10 monges, e no final o general ficou descontente com o que viu e chegou a fazer uma demonstração com a sua técnica. Os monges pediram para que ele ensinasse suas técnicas, mas ele disse que precisaria de anos para aprender. Dois monges, Zongqing e Pucong, acabaram acompanhando o general e depois de três anos retornaram para o templo para passar seus conhecimentos.

    O bastão não era só de domínio dos monges budistas, mas a literatura ficcional e as lendas populares acabaram associando isso a eles, o que não significa que eles são os únicos que dominavam a técnica na época.

    Um dos primeiros registros sobre as técnicas de combate no templo Shaolin, foi o Livro da Disciplina Eficaz (Ji Xiao Xin Shu, c. 1562) escrito no século XVI. O contexto desse registro era na época que chineses e japoneses estavam atacando o leste da China, onde o general Qi Jiguang (1528-1588) escreveu os métodos de combate mais eficientes de formas de mãos livres e armas, onde ele cita sobre o bastão de Shaolin, que acabou não desenvolvendo muito sobre elas, e acabou dando ênfase as técnicas do General Yu Dayou. Nesse manual, Qi não fala de mais nenhuma técnica de mãos livres de Shaolin, e segundo Acevedo, Gutiérrez e Cheung (2011, p.48), na opinião de Stanley E. Henning, esse fato pode ser explicado de diversas maneiras: o templo de Shaolin não havia desenvolvido técnicas de combate sem armas dignas de ser mencionadas; Qi não considerou as técnicas de luta de mãos vazias de Shaolin fossem eficazes; ou ainda as técnicas de lutas sem armas de Shaolin eram as mesmas que se praticava fora do templo.

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    khakkhara

    Antes mesmo do bastão ser utilizado como arma, ele era um objeto obrigatório dos monges budistas. Porém ele era um pouco diferente, pois tinham argolas em suas pontas. Seu nome em sânscrito é khakkhara, em chinês foi traduzido como xizhang. Segundo Shahar (2008, p.150), a palavra “xi”, que significa estanho ou latão, talvez se refira ao metal com o qual as argolas eram feitas, ou uma onomatopéia referente ao som que as argolas produziam.

    Fayun (1088-1158) fez uma análise sobre o nome xizhang, e percebeu a importância do som, que seria, primeiro para ajudar a espantar animais peçonhentos, segundo para avisar o proprietário de uma casa sobre a presença de um monge, e por ultimo o bastão pode somente servir como apoio a monges velhos e doentes em suas jornadas.

    No geral, é difícil apontar suas origens, mas pode-se dizer que por ser um utensílio obrigatório de um monge, eles abaram o transformando em uma arma, mas não podemos negar que ele teve um papel muito importante na história de Shaolin e acabou influenciando várias lendas a seu respeito.

  • Jeet Kune Do

    Jeet Kune Do

    Absorva o que for útil, rejeita o que for inútil. Acrescente o que é especificamente seu. O homem, criador individual, é sempre mais importante que qualquer estilo ou sistema estabelecido.

    Bruce Lee

    Essa frase fala muito bem o que é o estilo de Bruce Lee, o Jeet Kune Do. E antes de falar sobre a parte técnica, é legal entender que Bruce era muito ligado as filosofias Taoístas, que falam basicamente de viver o momento, de simplicidade e mover-se conforme o fluxo.

    Dessa filosofia vemos claramente a famosa frase de ser como a água.

    Quando lemos o livro, o Tao do Jeet Kune Do, a presença da filosofia é muito clara.  Ele traz a luta como arte de revelação da alma, de expressão, assim como ele coloca muito a questão de meditação para ter uma mente vazia para luta, e a observação da técnica e dos movimentos dá a entender muito de estar presente no momento, estar focado.

    Engraçado falar do estilo de Bruce Lee, pois ele era contra estilos. Ele não era a favor de estilos por achar que isso deixava a pessoa engessada naquilo como se fosse lei, mas acreditava que havia outras possibilidades de ataque e defesa que podiam ser exploradas. Para ele, as lutas era algo que não se pode prever, por tanto o artista marcial tem que deixar fluir. Um exemplo claro do seu estilo de luta é que não tem uma posição de guarda fixa, ela varia de acordo com as necessidades. Bruce considerava o JKD como um laboratório de pesquisa.

    Não inventei um “novo estilo”, composto, modificado ou não, definido de forma distinta, além do método “este” ou “aquele”. Pelo contrário, espero libertar meus seguidores do apego a estilos, padrões ou moldes. Lembre-se de que Jeet Kune Do é apenas um nome usado, um espelho para ver “nós mesmos”. . . Jeet Kune Do não é uma instituição organizada da qual alguém possa ser membro. Ou você entende ou não, e é isso. Não há mistério sobre o meu estilo. Meus movimentos são simples, diretos e não clássicos. A parte extraordinária está na sua simplicidade. Todo movimento no Jeet Kune Do é tão por si só. Não há nada artificial nisso. Eu sempre acredito que o caminho mais fácil é o caminho certo. Jeet Kune Do é simplesmente a expressão direta dos sentimentos de uma pessoa com o mínimo de movimentos e energia. Quanto mais próximo do verdadeiro modo de Kung Fu, menos desperdício de expressão existe. Finalmente, um homem de Jeet Kune Do que diz que Jeet Kune Do é exclusivamente Jeet Kune Do simplesmente não está com ele. Ele ainda está pendurado em sua resistência de fechamento automático, neste caso ancorado ao padrão reacionário, e naturalmente ainda está vinculado a outro padrão modificado e pode se mover dentro de seus limites. Ele não digeriu o simples fato de que a verdade existe fora de todos os moldes; padrão e consciência nunca são exclusivos. Mais uma vez, deixe-me lembrá-lo que Jeet Kune Do é apenas um nome usado, um barco para atravessar alguém, e uma vez atravessado deve ser descartado e não ser carregado nas costas.

    Lee, Bruce (Setembro 1971)”Liberate Yourself From Classical Karate”, BlackBelt Magazine, Rainbow Publications, inc., vol.9 no. 9, p.24.

    O principio do Jeet Kune Do é a arte de interceptar punhos, Bruce Lee queria que seus alunos fossem mais rápidos que o agressor. Logo, no momento que o agressor se aproximar para atacar, é o momento perfeito para se interceptar o movimento.

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    Fonte: Treasures of Bruce Lee: The Official Story Of The Legendary Martial Artist – Paul Bowman (2013)

    O jeito de lutar de Bruce Lee, se é que podemos chamar assim, tinha fundamentos em Wing Chun, que foi a sua base de arte marcial, e esgrima que ajudaram a compor as técnicas de ataque enquanto defende. Esses dois estilos de luta ajudaram a criar conceitos de “parar o golpe e parar o chute” e “esquivar e socar simultaneamente”. Nesse estilo de luta também tem o arremesso, agarramento e imobilizações que vem de seus estudos sobre judô e jiu jitsu.

    Da esgrima também vem os trabalhos de pés, quando ele faz a movimentação frente e trás. Já as trocas na movimentação dos pés, que ele trabalha com muita leveza, são inspirados no boxe de Muhammad Ali. Além disso, Bruce usa muito uma postura do boxe em que ele fica com o pé e a mão direita a frente (southpaw horse stance), no filme “Vôo do Dragao” é possível ver muito isso, os jabs e cruzados vem da mão da frente com muitos chutes laterais.

    Além disso, Bruce Lee usa muito o chute oblíquo para interceptação de ataques ao invés de utilizar um o bloqueio de chute utilizando a perna mais alta. Nos ataques ele abusava de chutes nas canelas, joelhos coxas e barrigas, que vem do Savate, que segundo ele, são pontos mais próximos do pé o que deixa o ataque mais rápido e são mais difíceis de defender. Isso se enquadra na economia de movimentos que ele priorizava, pois segundo Bruce Lee, o simples funciona melhor, e é nesse momento que encontramos mais eficiência no ataque, com ataques rápidos, diretos e com muita força, até mesmo explosivos.

    Bruce Lee usa muito a questão dos ritmos, há relatos que ele já colocou até música para treino de ritmos. O ritmo do JKD é similar a esgrima ocidental, com ritmo irregular, meio tempo, um tempo e meio ou três tempos e meio.

    Mas para executar tudo que falamos anteriormente é preciso condicionamento físico. Para Bruce Lee o condicionamento é de extrema importância para que gaste o mínimo de energia e não tenha movimentos perdidos. O condicionamento também ajuda em uma maior eficiência para ataque rápidos e uma maior movimentação de pés.

    O Jeet Kune Do é muito relacionado ao MMA, pois o estilo de Bruce Lee não deixa de ser o que vemos nas lutas da atualidade. Alguns o consideram como o pai do MMA, mas não podemos negar que Bruce Lee foi um grande visionário na década de 70, por entender e estudar um estilo de luta que praticamente combinasse todos os estilos.

  • Estilo Mizongyi (迷蹤藝)

    Estilo Mizongyi (迷蹤藝)

    Vimos na matéria sobre Huo Yuanjia, que sua família praticava o estilo Mizongyi, e ele mesmo popularizou o estilo em 1901, no período em que a China estava sendo dominada por tropas imperialistas. Mas como é esse estilo? Quais suas características?

    Mizongyi (迷蹤藝), também conhecido como Mizongquan (迷蹤拳) ou Yanqingquan (燕青拳), é um estilo de kung fu que traz muita agilidade, mobilidade e movimentos que enganam o oponente, com pés que se entrelaçam com chutes variados e muitos saltos.

    É um estilo externo com influências do estilo interno. No aspecto externo, tem características da família dos Punhos Longos e do Shaolin do Norte, no aspecto interno, tem influencias do Tai Chi Chuan e Baguazhang.

    É possível identificar a influencia do estilo Shaolin do Norte na versatilidade dos seus ataques. A grande mobilidade do estilo gasta muita energia, e com a influencia dos estilos internos ele consegue compensar isso.

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    A técnica mais conhecida do Mizongyi é o Fa Jing, que é uma descarga de energia explosiva que vem do estilo interno de Hsing I ao estilo Chen de Tai Chi combinado com o encaixe do estilo externo de Punhos Longos de Shaolin. Essa combinação traz a capacidade de gerar força rápida e flexível a qualquer distancia através de uma produção de energia eficiente de vários lugares do corpo. Os chutes e socos são rápidos no impacto, que trazem força e potência. Esse estilo não é recomendado para quem tem problemas cardíacos, e recomenda-se que o praticante tenha um nível técnico intermediário para aprender o estilo em sua essência.

    Além de ser ume estilo com auto defesa muito eficaz, muitos utilizam o aprendizado do estilo para fortalecer o sistema imunológico, uma vez que que ele tem vários benefícios medicinais.

    O estilo se popularizou a partir de 1901, com o Mestre Huo Yuanjia. Dizem que seu pai, Huo Endi, era sucessor da 6ª geração do estilo. Nos dias atuais, o estilo se tornou raro e não tão popular como os outros estilos, mas foi mostrado brevemente no filme “Fearless”(2006), do Jet Li, onde conta a história de Huo Yuanjia.

    O Grão mestre Ye Yu Ting comandou o estilo no século XX até sua morte em 1962, aos 70 anos. Na década de 60, seus alunos, Chi Hung Marr, Raymond K. Wong e Johnny Lee foram para os EUA, Hawaii e Canadá para ensinar o sistema.

    Na Inglaterra, o sistema continuou sendo ensinado como base em alguns estilos como Hsing I Ch’uan dentro da tradição Yue Jia Ba Shao. Nessa linhagem o estilo Mizong era ensinado mais para as crianças, pois os aspectos técnicos internos são menos sofisticados, ou mais externos, do que o Hsing I.

    Sobre quem fundou o estilo, há registro que foi criado por Yue Fei, mas pesquisando sobre o assunto não achei evidências que ele foi o criador do estilo.

    Não se sabe ao certo de onde veio, mas todas as versões aqui colocadas são apenas algumas das várias histórias que tentam explicar a sua origem. Porém, as pessoas que montam a várias linhagens chegam em um ponto em comum: Mestre Sun Tong, nascido na província de Shandong, em 1722.

    Uma das histórias, dizem que o estilo Mizongyi foi criado por um monge no Templo Shaolin chamado Lu Junyi, que uniu as técnicas de Shaolin com o Neigong. Diz a lenda que o monge era muito habilidoso, mas em contra partida ele não queria treinar nenhum discípulo. Porém um jovem, Yan Qing, foi trabalhar na casa de Lu e começou a espioná-lo e treinar secretamente. Até que um dia durante o trabalho, ele e seus companheiros foram atacados por bandidos, e Yu teve que defender a todos. Depois do episódio, Lu acabou o aceitando como discípulo. Esse estilo acabou sendo chamado de Yanquinquan, em sua homenagem, pelos vários seguidores que ele conseguiu. Mas logo mudaram o nome para Mizongquan, ou seita secreta do boxe, quando viram que Lu Junyi e Yan Quan estavam sendo perseguidos pelas autoridades. Nesta fuga, há relatos que, para não serem capturados, eles levaram as tropas em labirintos e trilhas falsas. Devido a esse evento que surgiu o nome Mizongyi, que significa “Punho da Trilha Perdida”, mas também tem uma alusão das características do estilo, que tem movimentos que enganam o oponente.

    Outra versão diz que o monge shaolin Qin Naluo observou uma luta entre macaquinhos e se impressionou com a fluidez dos movimentos, chamando o estilo de Nizong Quan “punho tribais de animais”, e acabou se tornando Mizong Quan devido a pronuncia.

    Outra lenda diz que dois guerreiros da dinastia Tang chamados de Yan Qing, que não é o mesmo da história anterior, e Chen Zhijing, foram parar o templo Shaolin e dentro do mosteiro desenvolveram o estilo que chamaram de Mizong Quan, ou “seita secreta do Boxe”

    Atualmente, um dos principais nomes do estilo é Huo Jinghong. Ela começou a praticar com cinco anos de idade, e é bisneta de Huo Yuanjia. Um texto interessante sobre a vida da Huo Jinghong está neste link.

    A TV chinesa CGTN publicou em maio de 2019 uma breve matéria sobre ela, que vocês podem conferir em texto aqui ou no vídeo abaixo.

    Não leu a matéria sobre o mestre Huo Yuanjia? Clique na matéria abaixo que ela pode te interessar!

    HUO YUANJIA (霍元甲) – 1860 – 1910

  • Huo Yuanjia (霍元甲) – 1860 – 1910

    Huo Yuanjia (霍元甲) – 1860 – 1910

    Huo é símbolo de patriotismo e nacionalismo chinês desde o inicio do século XX, por desafiar combatentes estrangeiros no momento que a china estava sendo dominada por potências imperialistas, mas não se sabe se eles de fato lutaram.

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    Huo Yuanjia

    Huo Yuanjia nasceu em 1868, na vila Xiaonanhe, que hoje é município de Tianjin, é o quarto filho de 10 filhos. Seu pai Huo Endi (霍恩第), trabalhava com agricultura e, às vezes, fazia escolta de caravanas comerciais para a Manchuria e voltava. Ele praticava o estilo Mizongquan ( 秘宗拳), mais conhecido hoje como Mizongyi (秘宗义).

    Ele era um menino fraco e propenso a pegar doenças. Há relatos que ele teve asma e contraiu icterícia. Devido a saúde frágil, seu pai não quis treiná-lo, então contratou um professor particular do Japão chamado Chen Xeng-Ho, em contra partida ele aprendeu o estilo marcial da família. Mas Huo não deixou de lado seu gosto pelas artes marciais e começou a observar o pai de dia e treinando com o Chen a noite, e acabou se tornando adepto.

    Em 1980 venceu sua primeira luta contra um lutador de Henan que desafiou sua família. Primeiro, seu irmão perdeu a luta, então Huo lutou e venceu com muita ousadia. Seu pai viu que ele estava apto a treinar, e aceitou como seu aluno que acabou superando seus irmãos em habilidade. Foi o começo da construção de uma grande reputação entre os artistas marciais.

    Há uma história que ele se juntou ao seu pai no trabalho de escolta de caravanas, e uma das escoltas de um grupo de monges, eles foram atacados por bandidos. Huo lutou contra o chefe da quadrilha e venceu. Sua vitória se espalhou e aumentou sua fama.

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    Huo Yuanjia

    Em 1896 se mudou para Tianjin, participava de lutas organizadas e fazia bicos, como porteiro, vendedor de lenha e como cobrador de um jovem comerciante Nong Jinsun (农劲荪), ele negociava ervas e medicamentos chineses. Os dois tiveram uma amizade forte e de longa data. Nesse período ele conhece seu discípulo mais famoso Liu Zhensheng (刘振声) e começa a ter contato com a política nacional.

    Há historias que, em 1898, o Huo ajudou o Wang Zhengyi (王正宜), também conhecido como Dadaowangwu (大刀 王 五), que esteve envolvido na Rebelião dos Boxers. Wang era um comerciante muçulmano especialista em artes marciais, e era amigo de Tan Sitong (谭嗣同) que, após o fracasso da reforma dos 100 dias, foi executado e sua cabeça foi colocada em exibição. Wang, por sua vez, havia fugido para Pequim na época e acabou encontrando Huo Yuanjia, que se deram muito bem imediatamente. Huo ajudou ele voltar a Pequim furtivamente para pegar a cabeça de Tan para ser enterrada de forma descente. Depois, em 1900, Wang se uniu a Rebelião dos Boxers contra as Forças da Aliança das Oito Nações e foi morto em Pequim.

    Enquanto isso, a fama de Huo se espalhou. Em 1901 (alguns lugares falam 1902), um homem forte russo estava circulando em Tianjin, desafiando combatentes chineses e os chamando de “Os doentes da Ásia”. Dizem que Huo aceitou a luta, mas o russo supostamente recuou alegando ser apenas um showman e acabou fazendo uma carta de desculpas no jornal, mas essa carta nunca foi encontrada.

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    Cena do filme Fearless: Huo Yuanjia (Jet Li) lutando contra Hercules O’Brian

    Em 1909, o boxeador inglês Hercules O’Brien, publicou insultos nos jornais de Shanghai, chamando os chineses de fracos. Huo foi para Shanghai para uma luta com o boxeador e depois negociações consideráveis sobre as regras da luta, os termos da luta foram acertados. De acordo com alguns relatos, O’Brien deixou a cidade preocupado com a reputação de Huo e, aparentemente, a luta nunca ocorreu.Outros dizem que a luta chegou a acontecer e que O’Brien perdeu a luta. Essa luta foi uma inspiração para os Chineses que começaram a questionar esse domínio imperial.

    Aproveitando a sua fama, com a ajuda de investidores, incluindo seu amigo Nong Jinsun, Huo abriu a Sociedade Atlética Jing Wu. (精 武 体操 学校 mudou mais tarde para 精 武 体育 会)com o intuito de ensinar defesa pessoal e aprimorar a saude e bem estar. Ele atraiu muitos estudantes, bem como a atenção de algumas das principais figuras da China. Ele teve apoio de amigos como Song Jiaoren e Sun Yat-sen (孙中山) que elogiou a escola e disse que “Para tornar um país forte, todos devem praticar as artes marciais.” (欲使 国 强 , 非人 人 习武) ele até enfeitou a escola com sua caligrafia (como era) inscrevendo as palavras para espírito marcial (尚武精神) e dando-a como um presente para o clube.

    Huo yuanjia morreu em 1910, aos 42 anos. E ao contrário do filme “Fearless”, com Jet Li, Huo deixou a esposa, e cinco filhos, sendo dois homens, Huo Dongzhang (霍東章) e Huo Dongge (霍東閣), e três meninas, Huo Dongru (霍東茹), Huo Dongling (霍東玲) e Huo Dongqin (霍東琴).

    Sua morte é cercada por histórias. Como Huo sofria de icterícia e tuberculose, ele começou fazer um tratamento com um médico japonês, que era membro da Associação japonesa de Judô de Shanghai. Há histórias que o médico convidou Huo para uma competição, onde seu aluno, Liu Zhensheng, competiu com um praticante de Judo. Ninguém sabe quem ganhou mas sabem que houve uma briga e que membros da equipe de Judô ficaram feridos, incluindo instrutores.

    Parece que essa confusão influenciou um pouco na morte de uma das personalidades mais importantes da China, pois, segundo o historiador e aluno de Huo, Chen Gongzhe, que depois que ele começou a fazer o tratamento com esse médico, sua saúde piorou. Foi receitado um remédio para sua saúde, mas sua saúde foi piorando. Huo foi internado no Hospital da Cruz Vermelha de Shanghai, onde morreu 2 semanas depois. A morte de Huo Yuanjia levantou especulações sobre envenenamento sendo a causa da morte.

    Em 1989, o túmulo de Huo e de sua esposa foram levados para outro lugar, e foram encontrados pontos pretos nos ossos da pélvis. Os ossos foram levados para a perícia de Tianjin que confirmaram a presença de arsênico. Mas é dificil dizer se foi por envenenamento ou se por prescrição de remédios, uma vez que o trióxido de arsênico foi usado na medicina chinesa por 2400 anos. 

    Outras versões dizem que Huo derrotou o chefe da associação japonesa na competição, e no banquete de comemoração da noite, Huo ficou doente repentinamente, tossindo muito. Logo em seguida ele foi levado a um hospital japonês, onde recebeu “um remédio errado”, que ocasionou sua morte.

    Nunca saberemos ao certo a causa da morte, mas a versão de ser envenenado por japoneses persiste entre as várias versões, tanto que foi mostrada no filme “Fearless“.

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    Cena do filme Fearless: Huo Yuanjia (Jet Li) sentindo os efeitos após ser envenenado

    A associação Jing Wu foi deixada para seus filhos, Huo Dongzhang e Huo Dongge.

    Históricamente, Huo Yuanjia teve um papel extremamente importante na China, é como se fosse um herói chinês que “bateu de frente” com as potências estrangeiras que dominavam o país, aumentando um sentimento mais patriótico, uma busca de identidade.

    Na cultura, o primeiro filme a citar Huo Yuanjia foi “Legend of a Fighter“, de 1982, com a história de um menino fraco, cujo pai recusou de ensinar kung fu devido a sua condição física. O pai, então, chama um professor japones para educar seu filho sem saber que ele é um mestre em artes marciais. O menino acaba aprendendo luta por oito anos até que ele precisa utilizar suas habilidades para defender o pai doente.

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    Cena do filme Fist of Legend

    Outro filme que tem relação com os eventos após a sua morte é o Fist of Fury (1972) de Bruce Lee e o remake Fist of Legend (1994) com Jet Li. O personagem principal é um dos alunos de Huo Yuanjia, Chen Zhen. E por fim, retratando a sua vida, o filme que Fearless (2006), já citado aqui, que conta uma parte mais fantasiosa de sua história. Algumas informações, como a morte da família de Huo, renderam algumas polêmicas e familiares processaram Jet Li e tentaram impedir sua distribuição.

    Se quiserem saber o que achamos do filme Fearless, clique aqui!

  • Taichi Ball Qigong

    Taichi Ball Qigong

    O Tai Chi (Tai Chi) bola Qigong era um conhecimento comum tanto nas artes marciais chinesas quanto nas sociedades leigas. No entanto, sua popularidade foi limitada devido ao sigilo das técnicas de treinamento e quase desapareceu completamente nas últimas décadas.

    Cada estilo de arte marcial mantinha em segredo suas próprias técnicas de treinamento de bola e as passava apenas para estudantes de confiança. Na sociedade marcial, o treinamento especial de taigong de bola era considerado crucial para levar os artistas marciais a um nível muito mais alto, tanto na condição física quanto na manifestação de energia (qi) na batalha. Esse treinamento também ensina habilidades de adesão, neutralização e detecção da intenção de um oponente em combate corpo a corpo.

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    Taichi Qigong Ball

    Atualmente, a maioria das pessoas está familiarizada com o treinamento de das bolas medicinais, aquelas duas bolas do tamanho de pingue-pongue na palma da mão, que é reconhecida como uma das maneiras mais eficazes de melhorar a circulação do qi (energia), especialmente para os pulmões. e coração. Além disso, através deste tipo de treinamento, a condição da artrite das mãos pode ser remediada de forma eficaz. Agora é hora de trazer de volta esse treinamento tradicional e incorporá-lo a todos os estilos marciais.

    As bolas de Taiji usadas nas artes marciais têm tamanhos diferentes e são feitas de uma variedade de materiais. O tamanho pode variar do tamanho de uma bola parecida com a de futebol, até aquelas bolas em formato de pingue-pongue. Existem desde bolas leves até bolas pesadas para o tipo de treinamento. Esse tipo de treinamento com bola é mais comumente praticado nas artes marciais externas chinesas, que enfatizam mais o condicionamento físico do que a circulação de energia (Chi).

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    Bola de Taichi/Qigong Yin Yang

    Inicialmente os treinos devem começar com as mãos vazias, depois uma bola de plástico leve, até chegar em uma bola pesada para treino e fortalecimento.

    O nome original do treinamento é bola de qigong Taichi “yin-yan”. Embora os métodos de treinamento sejam diferentes de um estilo para outro, a principal teoria do treinamento e os objetivos gerais são os mesmos. Os objetivos gerais de treinamento do treinamento de taigong de taiji ball são:

    • Fortalecer o tronco físico, especialmente a coluna vertebral e a região lombar.
    • Condicione os músculos, tendões e ligamentos necessários para o combate.
    • Gradualmente, desenvolva e circular a energia (chi).

    História Bola de Taichi/Qigong Yin Yang

    Ninguém sabe quando e como se originou. No entanto, logicamente, pode-se supor que quando os artistas marciais perceberam que as bolas (movimentos em círculos) era a chave crucial para neutralizar o poder rígido, eles começaram a procurar maneiras de treinar. Eles procuraram um objeto para ajudá-los a desenvolver e alcançar esse sentimento. Os objetos redondos foram adotados. Os estilos marciais internos, comparados às artes externas, provavelmente contribuíram mais para o desenvolvimento do treinamento com bola taiji, devido à ênfase significativa dos próprios movimentos circulares do Taichi.

    “A prática da bola também oferece treinamento de força e alívio do estresse. Como o qigong Taichi da bola é uma combinação da prática de qigong interno (nei dan) e externo (wai dan), os benefícios para a saúde do qigong Taichi da bola podem ser divididos em duas partes, o lado interno e externo.

    Benefícios Internos

    1. Treine a mente para um nível mais alto de concentração e foco.
    2. Melhorar o metabolismo do corpo e construir um nível abundante de qi.
    3. Aprender a usar a mente para conduzir o qi para sua circulação a um nível mais suave.
    4. Melhorar a circulação geral, para que a sensação de sensibilidade possa ser significativamente aumentada.
    5. Aumentar o espírito de vitalidade.

    Benefícios Externos

    1. Fortalecer o corpo físico (ossos, ligamentos, tendões e músculos.)
    2. Estabelecer uma raiz firme, equilíbrio e capacidade de centralização e fortalecer as três principais articulações das pernas.
    3. Afrouxando e exercitando as articulações.
    4. Melhorar a circulação do qi nos órgãos internos.
    5. Melhorar a coordenação da mente, sentimento e corpo.