No nosso último artigo (se não conferiu, pode clicar aqui), falamos sobre a pré história até a idade de ferro, na dinastia Qin, com o início do Shoupo (手搏)(sanda) e Juedi (角抵)(shuai jiao) na China.

Continuaremos nossa história com a Dinastia Han(207 a.C – 220 d.C), e nesse período a China estava travando várias batalhas contra os Xiongnu, que eram uma tribo do norte da China. Eles utilizavam um facão de um fio (pp), que era muito mais barato, durável e mais fácil de treinar do que a espada de dois fios (Jian 劍) do exército chinês. O exército de Han conseguiu derrotar a tribo de Xiongnu.
Um termo muito popular na época para artes marciais era o Wuyi(武藝). Esse termo incluía: tiro com arco, cavalaria, levantamento de peso, shoupo, juedi, combate desarmado, luta com armas e sparring.

Os mais populares eram o shoupo(sanda) e o juedi (shuai jiao), e quem ajudou nessa popularidade foi o Imperador Wu(141 – 87 a.C), que era praticante de juedi e organizava competições que atraía muitos espectadores. O shoupo era praticado com short, não utilizavam luvas e não tinham regras muito seguras. O juedi era mais seguro, os competidores não podiam golpear ou chutar e ainda ganhavam pontos jogando o oponente no chão.
Nessa época, os mestres da espada eram muito populares e respeitados, e não era só restrito aos homens, mulheres também eram muito habilidosas nessa arte. As técnicas de espada eram passada como se fossem em Taolu (套路), e as mulheres da época faziam performances com esses Taolu como se fossem uma dança, mas também havia disputas entre artistas marciais muito bem treinados.
A dinastia Han contribuiu muito para as informações que temos hoje sobre o Kung Fu. Foram escritos vários documentos nessa época com táticas de guerra, textos sobre espada, métodos de tiro, e houve alguns escritos sobre o shoupo, mas, infelizmente, esses textos não foram encontrados, e esses métodos foram conhecidos por outras fontes. O historiador Ma Mingda (马明达) fala que o shoupo incluía 4 elementos básicos da luta sem armas: golpear com as mãos (da), chutar (ti),derrubar (shuai) e controlar as articulações (na). Apesar de estarem presentes na dinastia Han, ele se consolidou de forma mais clara em períodos posteriores.
Em 1973, foi encontrado na província de Hunan, uma pintura em seda, datada da dinastia Han, que mostra pessoas fazendo uma série de exercício. Não se sabe ao certo o significado dessas imagens, uns falam que é um manual de kung fu, outros falam que é um exercício de ginástica (Dao Yin (导引).

Credit: Wellcome Library, London. Wellcome Images
images@wellcome.ac.uk
http://wellcomeimages.org
Daoyin tu – chart for leading and guiding people in exercise for improving health and treatment of pain, containing animal postures such as bear walk. This is a reconstruction of a ‘Guiding and Pulling Chart’ excavated from the Mawangdui Tomb 3 (sealed in 168BC) in the former kingdom of Changsha. The original is in the Hunan Provincial Museum, Changsha, China.
Poster
20th Century Published: –
Copyrighted work available under Creative Commons Attribution only licence CC BY 4.0 http://creativecommons.org/licenses/by/4.0/
No período de 220-280 d.C, acaba a dinastia Han e começa o Período de Três Reinos, e é considerado um dos períodos mais sangrentos da China, e também foi marcada por uma era taoísa e pela expansão do budismo.
Nessa época, o shoupo era praticado por todos os níveis da sociedade, e até grande pensadores tinham interesse nas artes marciais. Taolu de armas e mãos foram criados com o intuito das técnicas não serem esquecidas, mas havia uma grande diferença entre as formas para lutas e demonstrações.
Mais ou menos nessa época que Bodhidharma veio da Índia para a China para espalhar o budismo, em 527 d.C, ele chegou no Templo Shaolin,e inicialmente ele só veio espalhar o budismo Chan.
Mas, diz a tradição, ele percebeu que os monges estavam fisicamente despreparados, e não aguentavam horas de meditação. Logo Bodhidharma introduziu uma série de exercícios, que podemos associar ao Qi Gong afim de melhorar a condição física dos monges. Segundo ele corpo e mente são inseparáveis.
Esses exercícios acabaram influenciando o desenvolvimento do Kung Fu Shaolin. Um exemplo claro é a técnica 18 mãos de Luohan (18 Lohan Shou) que nasceu para dar vitalidade e como o passar do tempo os monges perceberam que essa técnica dava força, coordenação e que os movimentos imitavam ações naturais como empurrar, desviar, e acabaram aplicando isso em combate também.
Embora essa seja a narrativa tradicional, historiadores modernos como Meir Shahar demonstram que as artes marciais de Shaolin se desenvolveram organicamente devido à necessidade de autodefesa e ao status militar do templo, e não por um único monge indiano.
O desenvolvimento do Templo Shaolin após a passagem de Bodhidharma tornou-se um marco porque, até então, as técnicas de luta eram predominantemente militares, focadas apenas no combate. Com a influência da filosofia budista trazida por ele, consolidou-se, ao longo dos séculos, uma nova metodologia: a união entre saúde interna (Qi Gong) e treinamento marcial. Foi essa integração que permitiu a virada de chave do ‘saber lutar’ para o ‘praticar uma arte’.
Isso foi uma grande inspiração que, séculos mais tarde, surgisse diversas ramificações de estilos e escolas que conhecemos hoje.

Entramos na Dinastia Tang (618-906 d.C), e foi nesse período que a China foi unificada novamente. Nessa época, eles começaram a fazer exames imperiais para selecionar guerreiros para os altos cargos, com graduações de distritos e províncias para nível nacional. As modalidades inclusas nessa prova eram cavalaria, luta no solo, técnicas de lança, uso de várias armas, arquearia, levantamento de peso e estratégias militares.
Shoupo e juedi continuaram populares, mas surgiu uma nova modalidade de wrestling, o Xiangpu (相扑) ou Jueli (角力). Nessa técnica eles lutavam com uma tanga e um elástico no cabelo. Essa modalidade pode ter contribuído com a origem do sumô japonês.
Xiangpu (相扑) e Jueli (角力) são a mesma coisa, porém são termos para épocas diferentes. Jueli é um termo mais comum nos manuais militares um termo que siginifica literalmente “medir forças” muito comum entre as Dinastias Han e Tang. O xiangpu é essa técnica em forma de espetáculo. Um termo que ganhou mais força entre as Dinastias Tang e Song. A título de curiosidade, o Xiangpu da Dinastia Song permitia golpes de mão aberta e chutes baixos. Enquanto o Jueli focava em força nos troncos e braços, basicamente o agarrar.
A Dinastia Song (960-1279 d.C.) foi marcada pelo surgimento de escolas e academias militares oficiais.

Diz a tradição que o próprio fundador da dinastia, o Imperador Taizu, era um mestre de artes marciais renomado. Ele criou um estilo próprio, o Taizu Changquan (a técnica de Punho Longo), que se tornou tão respeitado que acabou sendo incorporado ao currículo do Templo Shaolin e incentivou toda a população a praticar para a defesa do império.
O kung fu era conhecido nessa época como wuyi, e muitos clubes de artes marciais foram criados, muitos artistas marciais experientes viajavam para fazer demonstrações públicas de suas técnicas. O mais interessante é que a maioria desses artistas eram mulheres, mas vale destacar que elas eram artistas de rua profissionais.
“Grand Classic of Martial Arts” (O grande Clássico de Artes Marciais)ou em chinês Wujing Zongyao (武经总要), foi escrito nesse período, contendo estratégias e treinamentos militares, e também contava histórias de batalhas importantes antes da Dinastia Song.

Chega um momento da história da China que eles são governados por mongóis, na dinastia Yuan (1260-1368 d.C), e uma das medidas tomadas foi a proibição da prática de artes marciais e da posse de armas. Mas uma modalidade de wrestling, de origem mongol, o Zuojiao (zuò jiǎo – 坐脚), ficou popular na China. Essa técnica influenciou diretamente o que conhecemos hoje como Shuai Jiao (摔跤). Ela está ligada ao ato de “derrubar” ou “fazer cair”. Foi nesse período que começou o uso das jaquetas resistentes (de lona ou couro) e se tornou padrão nas lutas, algo que os mongóis já usavam.
Com a proibição de armas para os chineses, as artes marciais foram preservadas secretamente através de dramas teatrais e danças, mascarando a técnica marcial em performances.
Na Dinastia Ming (1368-1644 d.C), além do termo wuyi, o kung fu também era conhecido como quanfa (técnicas de punho). Nessa época as técnicas de demonstração e as técnicas marciais começaram a ficar mais distintas. Os generais do exército faziam competição de lutas entre soldados e os profissionais de kung fu faziam apresentações com técnicas mais “floreadas”.
Assim como Bodhidharma, a atribuição de estilos à personagens é considerada lendária. A partir da dinastia Ming, começam a aparecer os primeiros registros de estilos como o Taijiquan e Louva-a-Deus, por exemplo, mas não há registos históricos que comprovem quem foi o real fundador do estilo. Isso tudo faz com que a gente veja a grandeza do kung fu. É um patrimônio construído por gerações.
Aqui entramos em um terreno fascinante onde a lenda e a história se encontram. Segundo a tradição, o estilo Louva-a-Deus foi criado por Wang Lang (王朗). Porém, se olharmos para os registros históricos, não encontramos evidências diretas dele. Isso não tira o valor da arte; mostra que o Kung Fu era tão precioso que os antigos preferiam atribuí-lo a heróis lendários para preservar sua importância.
Um estilo de Kung Fu raramente nasce de uma pessoa só, como um estalo de dedos.
É difícil apontar um único ‘pai’ para esses estilos porque o Kung Fu funciona como um rio que vai recebendo afluentes. O Taijiquan que praticamos hoje é a soma de séculos de conhecimento da família Chen, influências taoistas e técnicas militares. Figuras como Zhang Sanfeng (张三丰) simbolizam o espírito da arte, mesmo que a história documental nos aponte caminhos mais complexos.
Muitas dessas figuras lendárias foram associadas aos estilos durante períodos de resistência política, como na Dinastia Qing. Atribuir uma técnica a um monge imortal ou a um general heróico como Yue Fei (岳飛) era uma forma de dar moral aos rebeldes e manter a cultura chinesa viva contra os invasores.
Na China antiga, a linhagem era tudo. É como se fosse um selo de qualidade. Uma coisa é falar que eu inventei um soco outra coisa é falar que esse soco é o estilo secreto do General Yue Fei.
O que ajudou também nessas lendas foi a literatura. História com heróis com poderes e estilos incríveis circulavam pela China, então o povo passava a acreditar nessas histórias.
Voltando ao General Yue Fei, só para vocês terem uma noção sobre ficção e realidade, ele viveu na Dinastia Song, mas quase todos os estilos que dizem ter sido criados por ele (Garra de Águia, Xingyiquan) só aparecem em registros escritos séculos depois, durante a Dinastia Ming ou Qing.
Já o General Qi Jiguang (戚继光) (Dinastia Ming) escreveu manuais reais, o Ji Xiao Xin Shu (纪效新书), citando estilos que existiam na sua época, e ele raramente mencionava fundadores lendários; ele focava na eficácia militar.

Em resumo, as lendas não foram “mentiras” criadas para enganar, mas uma forma de resistência cultural. Em tempos de guerra e ocupação, ligar o Kung Fu a figuras como Yue Fei ou Bodhidharma mantinha o orgulho do povo chinês vivo e dava aos praticantes um propósito maior do que apenas lutar: eles estavam carregando o legado dos seus maiores heróis.
As artes marciais chinesas se expandiram para o Japão, quando o mestre Chen Yuan Bian, em 1638, foi ensinar técnica de agarramento/torção (Chin Na) a três ronins no templo Azabu em Edo, que podem ter influenciado alguma linhagem do Jiu-Jitsu.
Os manchus dominaram a China na Dinastia Qing (1644–1911 d.C), e para eles as artes marciais chinesas tinham que estar no exército e não entre a população, até porque eles tinham medo de rebeliões. Eles temiam que o Kung Fu fosse usado como ferramenta para o lema: “Derrubar os Qing, restaurar os Ming” – 反清復明” (Fǎn Qīng fù Míng).
Foi um período de grande crescimento para os estilos internos no norte, como o Taijiquan(太極拳), o Xingyiquan(形意拳) e o Baguazhang(八卦掌) — este último muito popular entre os guardas imperiais. Já no sul, prevaleceu a linhagem de Shaolin. Segundo a tradição, o Mosteiro de Fujian tornou-se um foco de resistência contra os Manchus, o que levou à sua destruição e à fuga de mestres para o sudeste asiático. Esse movimento de resistência ajudou a preservar as técnicas que, séculos depois, chegariam ao Ocidente.

Com a queda da Dinastia Qing e a Revolução de 1911, o Kung Fu deixou de ser uma ferramenta puramente militar para se tornar um símbolo de identidade nacional. Organizações como a Jin Wu, de Huo Yuanjia, e mais tarde o governo chinês com a criação do Wushu moderno, transformaram o Kung Fu no fenômeno cultural e esportivo que atrai praticantes do mundo todo até hoje.
Em 1928, o governo de Kuomintang mudou o termo wushu para Guoshu (国术), que significa “Arte Nacional”, que passou a ter forma muito floreadas de demonstração. Quando o Partido Comunista, em 1949, substituiu o governo, foi feita uma grande campanha para resgatar os grande períodos das artes marciais chinesas, que passou a ser chamada de wushu novamente.
Nessa época foi feito comitês nacionais, e até distritais para promover o wushu, fizeram escolas e faculdades especializadas, muitos times viajaram o mundo para fazer demonstrações e foram publicados vários livros com muitos conteúdos sobre wushu, assim como foram criados vários torneios nacionais e internacionais.Uma das grandes contribuições do governo chinês foi a restauração do Templo Shaolin que atrai praticantes do mundo todo.













