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  • Taky Kimura e o Grande Legado do Jun Fan Gung Fu

    Taky Kimura e o Grande Legado do Jun Fan Gung Fu

    Recentemente recebi um comentário de um de nossos leitores aqui do nosso site, e ele perguntava o que havia acontecido com a academia e os alunos de Bruce Lee. Eu achei a pergunta muito legal, até porque acho que acabei ignorando esse fato todo esse tempo conhecendo a história de Bruce Lee. Ok, ele nasceu na China, foi para os EUA, montou a sua academia, criou seu estilo de luta, foi para o Cinema e faleceu.

    E realmente olhando para essa “ordem cronológica” existe uma ponta solta, o que aconteceu com a sua academia, o Jun Fan Gung Fu Institute, e seus alunos?

    A primeira pessoa que veio na minha cabeça foi Dan Inosanto, e de primeira foi nele que eu pensei que continuou seu legado, acho que é o nome mais conhecido na verdade. Mas na hora eu fui buscar se a escola dele tinha o mesmo nome da escola de Bruce Lee, e não tinha. Enfim, fui buscar pelo nome da escola, e já estava esperando encontrar escolas pequenas que podem ter se apropriado do nome, até para tentar vender o Jeet Kune Do “mais fácil”. Sim, tem muitas pessoas que dizem ensinar Jeet Kune Do, cuidado para não cair nessa, pesquisem bem a origem de todo esse conhecimento, até onde sei poucos no mundo são realmente certificados, enfim… vamos parar com a polêmica…

    Voltando as minhas buscas eu achei uma página no Facebook e acabei entrando no site dessa página. Lendo, vi que sim, era realmente o site da academia e, sim, ela existe! O grande responsável pela academia é o Taky Kimura.

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    Taky Kimura

    Taky Kimura nasceu em 12 de março de 1924, em Clallam Bay, Washington, EUA. Ele era descendente de japoneses, e ele e sua família logo foram colocados em campo interno durante a segunda guerra mundial, porque eles eram japoneses, mesmo ele sendo um cidadão americano.

    Nós argumentamos com eles porque o sistema educacional nos disse que somos iguais perante a constituição. Mas então (quando a guerra veio) tudo de repente mudou e fomos colocamos em campos internos, mesmo que a gente fosse cidadãos. o Serviço de seletiva  nos colocou numa categoria 4y, que era uma classificação extraterrestre , e eles nos falaram que tinham boatos que eles iam nos pegar e nos levar para uma ilha assim que eles pudessem se livrar de nós. De qualquer forma, eles nos colocaram em um campo.

    Taky Kimura

    No pós guerra, Taky conseguiu sair desse campo e foi em busca de trabalho, mas não conseguia um trabalho descente com o sentimento anti-japoneses do povo americano, isso o deixou desmoralizado e sem motivação. E foi nessa época, em 1959, que ele conheceu Bruce Lee. Ele, na época, tinha 18 anos e era cheio de energia, enquanto Taky tinha 36 anos e estava mentalmente devastado, mas Bruce começou a anima-lo, incentivando-o a comprar roupas novas para ele se sentir mais humano, uma vez que Taky ficava todo mal vestido e sem ânimo nenhum. Bruce o incentivou em tantas coisas, que Taky começou a se sentir melhor e logo se tornaram grandes amigos, tanto que ele foi padrinho de casamento de Bruce e Linda Lee.

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    Taky, Bruce e Linda Lee

    Taky assim que conheceu Bruce, já começou a treinar com ele se tornando um dos primeiros alunos de Bruce Lee nos EUA, ao lado de Jesse Glover, James DeMile, Ed Hart, Skipp Ellsworth e LeRoy Garcia. Taky foi aluno e assistente de Lee e juntos eles praticavam e treinavam muito.

    Bruce tinha um respeito muito grande por Taky, principalmente por sua moral, e desde 1964, Taky é instrutor do Jun Fan Gung Fu Institute em Seattle. Na verdade, ele foi o primeiro instrutor da academia de Lee, e foi ele que assumiu a academia quando Bruce decidiu ir para a California tentar a carreira como ator. Bruce chegou a chamá-lo para ir com ele, mas Taky decidiu ficar e se dedicar a academia.

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    Taky e Bruce

    Taky nunca aceitou alguma compensação por seu trabalho em nome do Bruce Lee, e, além de ter ter carregado o caixão após a morte de Bruce, ele cuidou muito discretamente de seu túmulo por 30 anos. Isso demonstra muito a relação muito profunda que eles tinham um pelo outro. Ele é um homem muito respeitado na comunidade de Bruce Lee, e é um exemplo muito positivo do impacto da filosofia de Bruce Lee. Tanto que Taky e mais duas pessoas no mundo foram pessoalmente certificadas por Bruce Lee para ensinar sua arte marcial, o Jun Fan Gung Fu e o Jeet Kune Do. As outras pessoas são Dan Inosanto e James Yimm Lee (Nenhuma relação com Bruce Lee).

    Infelizmente, Taky kimura morreu em sua casa dia 7 de janeiro de 2021, aos 96 anos, e deixou alguns instrutores certificados de Jun Fan Gung Fu, e um deles é seu filho Andy Kimura, que ainda dá aula no Jun Fan Gung Fu, em Seattle.

    Abaixo fica um vídeo de um mini documentário sobre Taky Kimura. E agradeço o nosso leitor pelo insight de trazer um tema diferente para o nosso site!

  • Jeet Kune Do

    Jeet Kune Do

    Absorva o que for útil, rejeita o que for inútil. Acrescente o que é especificamente seu. O homem, criador individual, é sempre mais importante que qualquer estilo ou sistema estabelecido.

    Bruce Lee

    Essa frase fala muito bem o que é o estilo de Bruce Lee, o Jeet Kune Do. E antes de falar sobre a parte técnica, é legal entender que Bruce era muito ligado as filosofias Taoístas, que falam basicamente de viver o momento, de simplicidade e mover-se conforme o fluxo.

    Dessa filosofia vemos claramente a famosa frase de ser como a água.

    Quando lemos o livro, o Tao do Jeet Kune Do, a presença da filosofia é muito clara.  Ele traz a luta como arte de revelação da alma, de expressão, assim como ele coloca muito a questão de meditação para ter uma mente vazia para luta, e a observação da técnica e dos movimentos dá a entender muito de estar presente no momento, estar focado.

    Engraçado falar do estilo de Bruce Lee, pois ele era contra estilos. Ele não era a favor de estilos por achar que isso deixava a pessoa engessada naquilo como se fosse lei, mas acreditava que havia outras possibilidades de ataque e defesa que podiam ser exploradas. Para ele, as lutas era algo que não se pode prever, por tanto o artista marcial tem que deixar fluir. Um exemplo claro do seu estilo de luta é que não tem uma posição de guarda fixa, ela varia de acordo com as necessidades. Bruce considerava o JKD como um laboratório de pesquisa.

    Não inventei um “novo estilo”, composto, modificado ou não, definido de forma distinta, além do método “este” ou “aquele”. Pelo contrário, espero libertar meus seguidores do apego a estilos, padrões ou moldes. Lembre-se de que Jeet Kune Do é apenas um nome usado, um espelho para ver “nós mesmos”. . . Jeet Kune Do não é uma instituição organizada da qual alguém possa ser membro. Ou você entende ou não, e é isso. Não há mistério sobre o meu estilo. Meus movimentos são simples, diretos e não clássicos. A parte extraordinária está na sua simplicidade. Todo movimento no Jeet Kune Do é tão por si só. Não há nada artificial nisso. Eu sempre acredito que o caminho mais fácil é o caminho certo. Jeet Kune Do é simplesmente a expressão direta dos sentimentos de uma pessoa com o mínimo de movimentos e energia. Quanto mais próximo do verdadeiro modo de Kung Fu, menos desperdício de expressão existe. Finalmente, um homem de Jeet Kune Do que diz que Jeet Kune Do é exclusivamente Jeet Kune Do simplesmente não está com ele. Ele ainda está pendurado em sua resistência de fechamento automático, neste caso ancorado ao padrão reacionário, e naturalmente ainda está vinculado a outro padrão modificado e pode se mover dentro de seus limites. Ele não digeriu o simples fato de que a verdade existe fora de todos os moldes; padrão e consciência nunca são exclusivos. Mais uma vez, deixe-me lembrá-lo que Jeet Kune Do é apenas um nome usado, um barco para atravessar alguém, e uma vez atravessado deve ser descartado e não ser carregado nas costas.

    Lee, Bruce (Setembro 1971)”Liberate Yourself From Classical Karate”, BlackBelt Magazine, Rainbow Publications, inc., vol.9 no. 9, p.24.

    O principio do Jeet Kune Do é a arte de interceptar punhos, Bruce Lee queria que seus alunos fossem mais rápidos que o agressor. Logo, no momento que o agressor se aproximar para atacar, é o momento perfeito para se interceptar o movimento.

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    Fonte: Treasures of Bruce Lee: The Official Story Of The Legendary Martial Artist – Paul Bowman (2013)

    O jeito de lutar de Bruce Lee, se é que podemos chamar assim, tinha fundamentos em Wing Chun, que foi a sua base de arte marcial, e esgrima que ajudaram a compor as técnicas de ataque enquanto defende. Esses dois estilos de luta ajudaram a criar conceitos de “parar o golpe e parar o chute” e “esquivar e socar simultaneamente”. Nesse estilo de luta também tem o arremesso, agarramento e imobilizações que vem de seus estudos sobre judô e jiu jitsu.

    Da esgrima também vem os trabalhos de pés, quando ele faz a movimentação frente e trás. Já as trocas na movimentação dos pés, que ele trabalha com muita leveza, são inspirados no boxe de Muhammad Ali. Além disso, Bruce usa muito uma postura do boxe em que ele fica com o pé e a mão direita a frente (southpaw horse stance), no filme “Vôo do Dragao” é possível ver muito isso, os jabs e cruzados vem da mão da frente com muitos chutes laterais.

    Além disso, Bruce Lee usa muito o chute oblíquo para interceptação de ataques ao invés de utilizar um o bloqueio de chute utilizando a perna mais alta. Nos ataques ele abusava de chutes nas canelas, joelhos coxas e barrigas, que vem do Savate, que segundo ele, são pontos mais próximos do pé o que deixa o ataque mais rápido e são mais difíceis de defender. Isso se enquadra na economia de movimentos que ele priorizava, pois segundo Bruce Lee, o simples funciona melhor, e é nesse momento que encontramos mais eficiência no ataque, com ataques rápidos, diretos e com muita força, até mesmo explosivos.

    Bruce Lee usa muito a questão dos ritmos, há relatos que ele já colocou até música para treino de ritmos. O ritmo do JKD é similar a esgrima ocidental, com ritmo irregular, meio tempo, um tempo e meio ou três tempos e meio.

    Mas para executar tudo que falamos anteriormente é preciso condicionamento físico. Para Bruce Lee o condicionamento é de extrema importância para que gaste o mínimo de energia e não tenha movimentos perdidos. O condicionamento também ajuda em uma maior eficiência para ataque rápidos e uma maior movimentação de pés.

    O Jeet Kune Do é muito relacionado ao MMA, pois o estilo de Bruce Lee não deixa de ser o que vemos nas lutas da atualidade. Alguns o consideram como o pai do MMA, mas não podemos negar que Bruce Lee foi um grande visionário na década de 70, por entender e estudar um estilo de luta que praticamente combinasse todos os estilos.

  • Bruce Lee – A vida nos EUA e a busca pela fama

    Bruce Lee – A vida nos EUA e a busca pela fama

    No último artigo, vimos que Bruce foi para os EUA para um nova vida, longe das confusões nas ruas de Hong Kong.

    Mas na sua ida aos EUA, o que muitos não sabem, é que ele foi com pouco dinheiro, e para resolver esse problema ele chegou a dar aulas de Cha Cha Cha no navio, na primeira classe. Ao contrário de muitas histórias, ele não foi sozinho, ele foi com seu irmão Peter e chegou a ficar na casa da sua irmã Agnes, em São Francisco, que lhe deu casa e trabalho.

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    Bruce Lee com o uniforme do exército

    Ele chegou a se alistar no exército, mas foi reprovado no exame médico, e acabou indo para Seattle. Lá ele procurou a amiga de seu pai, Ruby Chow, e acabou trabalhando como garçom em seu restaurante.

    Como ele sempre foi muito indisciplinado nos estudos, ele acabou se matriculando no Edison Technical College, para terminar o colegial.

    Em 1961, em uma apresentação, Bruce Lee conheceu um lutador de Judo que se impressionou com as suas habilidades, Jesse Glover. Ele foi o seu primeiro aluno que não era chinês. Isso atraiu muitos alunos de várias raças e etnias.

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    Bruce treinando a primeira turma na década de 60, em Seattle

    Bruce ficou conhecido e começou a a aparecer na TV local e nos jornais. No início ele não tinha local próprio e nem uniforme, então dava aulas em uma garagem. Depois ele abriu sua própria escola de artes marciais, a Lee Jun Fan Kung Fu Institute, e também deu aulas na Universidade de Washington onde se matriculou no curso de filosofia. Ele gostava de ler e isso iria aprimorar sua bagagem como professor de kung fu.

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    Bruce e alguns alunos da Universidade de Washington

    Muitas pessoas frequentavam as aulas, e uma delas chamou a atenção dele, a Linda Emery, também estudante de filosofia, por quem ele acabou se apaixonando. Começaram a namorar em outubro de 1963.

    Na mesma época ele escreveu o primeiro Livro Chinese Kung fu, “The Philosophic Art of Self Defense“, o livro teve poucas tiragens e tinha várias formas de vários estilos de Kung fu.

    Ele queria sair do restaurante, e logo pediu Linda em casamento, a contra gosto da mãe dela, e juntaram dinheiro e foram para Oakland. Casaram em 17 de agosto de 1964.

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    Bruce e seus alunos na Jun Fan Gung Fu Institute

    Abriu uma academia na cidade que logo fez sucesso. Ele preferia dar aulas particulares e não em grupo, mas na época foi muito rentável para ele a aulas em grupo. A academia recebeu pessoas de vários tipos: negros, brancos, asiáticos, estudantes, pequenos empresários, adolescentes e idosos. Isso incomodou a comunidade chinesa do local, que defendia que não podia se ensinar uma arte milenar oriental para não chineses. Começaram a telefonar para Bruce Lee com ameaças e até abordá-lo na rua.

    Ele não ensinava o kung fu tradicional. Ele ensinava uma mistura de técnicas que envolve wing chun, boxe, jiu jitsu, karatê, boxe tailandês.

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    Demonstrando o soco de uma polegada no Campeonato do Ed Parker

    Em Agosto 1964, foi participar de um torneio de Karatê do mestre Ed Parker, em Long Beach. Ele fez a apresentação do soco de uma polegada que impressionou todo mundo.

    Mais ou menos nessa época que ocorreu a história entre Bruce Lee e Wong Jack Man, que vocês podem conferir nesse link.

    Bruce Lee ficou famoso após esse evento e foi convidado pelo produtor de TV William Dozier a assinar com o 20th Century Fox para fazer o seriado “O Filho de Charlie Chan”

    O seriado não deu certo e Bruce foi atuar do lado de Van Williams no seriado Besouro Verde. Foi um grande sucesso e ele virou astro da série com golpes “mirabolantes” de kung fu, que eram inéditas na época. Bruce e Linda mudaram para Los Angeles, onde tiveram Brandon Lee, dia 1 de fevereiro de 1965.

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    Van Williams e Bruce Lee em uma foto publicitária para Besouro Verde

    Antes o casal queria viver com o que ganhavam na academia, e a Linda até pensou em abrir franquias no país, mas o Bruce se empolgou com a vida da tv e do cinema. Porém em julho de 1967, Besouro Verde foi cancelado.

    Abriu uma academia em Los Angeles, sem placa em Chinatown. Conseguiu mais alunos devido a sua fama, e muitos alunos famosos também, como Steve Mc Queen, James Coburn, Lee Marvin e James Garner, Joe Lewis, Chuck Norris, Bob Wall. Kareem Abdul -Jabbar e Roman Polanski tiveram aulas particulares.

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    Bruce Lee como Kato em Besouro Verde

    Bruce chegou a receber uma proposta para dar aulas em uma academia chamada “Kato’s Self Defense School“, mas ele recusou. No documentário Bruce Lee in His Own Words, ele disse:

    Achava divertido fazer o personagem, mas dar aulas numa escola com esse nome seria sabotar minha arte

    Bruce teve dificuldades em conseguir papéis em programas de TV devido a sua origem. No seriado Kung Fu, ele foi fazer testes por indicação, todos gostaram muito da sua atuação, mas acabaram chamando David Carradine pois os produtores da série achavam que se colocassem um chinês para o papel, o público não se identificaria com o personagem e não teria audiência. Isso gerou uma grande revolta, e ele até cogitou a voltar para Hong Kong, onde a série Besouro Verde também fazia sucesso, mas Linda o convenceu a ficar e continuar dirigindo as 3 academias que ele tinha, em LA, Oakland e Seattle.

    Ele passou dois anos tentando entrar na TV e no cinema sem sucesso. As dívidas começaram a aumentar já que não estavam dando mais lucro, ele chegou a ficar deprimido e emagrecer.

    Em 19 de abril de 1969 nasce Shannon, a segunda filha do casal.

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    Bruce, Linda e seus dois filhos, na década de 70

    Em 1970 a situação econômica ficou ainda pior para eles. Bruce Lee resolveu voltar a treinar, mas em uma intensidade maior. Em um dos treinos machucou as costas grave mente levantando um haltere. A lesão atingiu o 4 nervo sacral.Bruce ficou 6 meses no hospital de repouso, e nessa época de reflexão que ele começou a esboçar seu estilo de luta: Jeet Kune Do

    Bruce Lee compilou todas as suas anotações, que foram feitas aos longo de sua vida, com relação a luta, condicionamento físico, além de citações filosóficas budistas, taoístas e de autoconhecimento. Infelizmente o livro “O Tao do Jeet Kune Do” só foi lançado em 1975, anos após a sua morte.

    O desejo de Bruce Lee é o que o livro fosse  um guia e um registro de sua forma de pensar. A base do estilo é aprender a lutar com simplicidade, seu livro mostra como se deve lutar de uma maneira mais funcional.

    Depois da sua recuperação, ele voltou ao ritmo de treinos intensivos. Há relatos que ele se alongava vendo TV e treinava com halteres enquanto lia um livro. Bruce chegou a pesar 63kg com 1,71m.

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    Quando Bruce se mudou para a Califórnia e estava definindo seu corpo físico

    Continua…

  • Bruce Lee – Da Infância aos EUA

    Bruce Lee – Da Infância aos EUA

    Chegou a hora de falar sobre o Bruce Lee, esse símbolo das artes marciais. A história dele é muito rica, e em poucos anos de vida ele deixou um grande legado e transformou a história das artes marciais no cinema e no mundo!

    Separamos a história da vida dele em algumas partes, e hoje falaremos sobre a infância dele até a chegada aos EUA.

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    Bruce Lee nasceu em 27 de Novembro de 1940 em São Francisco, EUA. Seu pai, Lee Hoi Chuen, era famoso ator da ópera chinesa, e ele estava em turnê pelos EUA. Seu nome em chinês era Li Jun Fan (李振藩 ).

    Porém ele teve vários nomes, primeiro um nome feminino, Sai-fon (細鳳). A mãe de Bruce Lee havia perdido o primeiro filho no nascimento, e segundo superstições é um péssimo sinal. Adotaram uma menina chamada Phoebe, e logo em seguida tiveram o primeiro bebe biológico, Peter. Com a vinda de Bruce, o segundo bebe biológico do casal, devido a superstição, deveria vir uma menina, por isso colocaram um nome feminino para despistar os deuses. Mas logo em seguida foi batizado de Li Jun Fan. O nome Bruce Lee foi dado por uma enfermeira do hospital, a Mary Glover, e foi batizado assim segundo as leis americanas. E por fim Lee Xiaolong (李小龍; Xiaolong significa “pequeno dragão”), que seria seu nome artístico.

    Aos 4 anos já acompanhava o pai nos seus trabalhos e começou a gostar de atuar. Aos 6 anos fez uma participação no filme “The Birth of a Mankind“. Aos 18 anos já tinha feito mais de 20 filmes chineses.

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    Uma das aparições de Bruce no cinema na década de 50

    Na adolescência, Bruce bagunçava muito na sala de aula, incomodava professores e gostava de uma luta com os colegas no pátio do colégio. Lutas contra alunos de outras escolas aconteciam nas ruas de Hong Kong. Várias vezes os pais de Bruce foram chamados na delegacia, mas isso não o intimidava e organizava mais lutas. Os principais rivais de Bruce eram alunos de uma escola britânica, uma vez que chineses e britânicos não se entendiam desde as guerras comerciais no século 19, quando a rainha se instalou em Hong Kong.

    Aos 13 anos, depois de ser transferido para várias escolas devido as suas confusões, resolve treinar sério com  o mestre de Wing Chun, Ip Man. O estilo tem como características movimentos rápidos e econômicos e contundentes, e com esse estilo, ele aprendeu a se defender de golpes potentes e a curta distância.

    Em entrevista a um canal de TV americano, e inserida no documentário “Bruce Lee in His Own Words“, Bruce Lee deu a seguinte declaração sobre a sua infância:

    Da infância à adolescência, fui um cara bem problemático. Era extremamente agressivo, sem paciência. Aí, aos 13 anos, depois de passar um tempo brigando contra gangues, decidi aprender como me proteger. Muito do que aprendi sobre artes marciais foi nesse período com o mestre Ip, quando comecei a moldar meu estilo de luta. Aprendi a neutralizar a energia e a força de um oponente. Tudo isso deve ser feito, me ensinou o mestre, com precisão, sem se deixar levar pela fúria e pela afobação.

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    Bruce Lee campeão de Cha Cha (1958)

    Para aprimorar o equilíbrio e os movimentos do corpo, ele começou a dançar Cha-Cha-Cha. Ele também estava interessando em uma dançarina, a  Pearl Cho. Em 1958, ele ganhou o trofeu Crow Colony Cha-Cha Dancing Championship. Também praticou Boxe e chegou a participar de um campeonato onde venceu o tri campeão Gary Elms, da escola britânica.

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    Bruce Lee indo para os EUA

    Em abril 1959, os pais de Bruce o mandaram para São Francisco, EUA, sua cidade natal, para fugir um pouco da sua vida conturbada, envolvida por brigas. Isso não deixa de ser verdade, mas também há relatos que, por ter nascido nos EUA, se ele se alistasse no exército americano, ganharia a cidadania. Como na época os EUA era um “país da oportunidade”, principalmente após a segunda guerra mundial, Bruce Lee era um homem ambicioso, e seus pais viram sua ida de uma forma bem positiva.

    Continua…

  • Wong Jack Man vs. Bruce Lee, a verdadeira história por trás dessa luta

    Wong Jack Man vs. Bruce Lee, a verdadeira história por trás dessa luta

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    Wong Jack Man

    Como é de conhecimento por todos, ou pelo menos pela maioria, o Wong Jack Man morreu no dia 26 de dezembro de 2018. Ele residia na cidade de São Francisco – Califórnia, e era mestre de Taijiquan, Xingyiquan e do estilo Shaolin do Norte.

    Infelizmente ele não era lembrado por ser um dos representantes das artes tradicionais chinesas na América, mas sim pela sua luta com o Bruce Lee. E hoje falaremos um pouco sobre a mitologia por trás dessa história.

    A luta aconteceu no final de outubro de 1964, na academia do Bruce Lee com apenas sete testemunhas. Mas existe vários mitos envolvendo essa luta, e tentarei ir desmistificando no decorrer do texto.

    Um parênteses antes de começar, recentemente saiu um filme sobre essa luta, “Birth of the Dragon” (2017), ou em português, “A origem do dragão”. O filme se contextualiza nesse acontecimento, mas foge muito da realidade. Isso é um assunto que posso me aprofundar depois em um review do filme.

    Voltando aos fatos, um dos maiores mitos na história que envolve Bruce Lee, é que ele foi duramente criticado pelos artistas marciais de Chinatown de São Francisco, por ensinar kung fu para os ocidentais, por isso mandaram Wong Jack Man para lutar com ele. A história se contradiz, pois Bruce Lee foi para São Francisco em 1959, uma vez que por três décadas, dois mestres já lecionavam na região, o Lau Bun e Ty Wong. Em 1930, Lau Bun fundou a primeira academia na América, a Hung Sing. 

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    Lau Bun (esq.) e Ty Wong (dir.)

    Para quem não sabe, Bruce Lee nasceu em São Francisco, Califórnia, em 1940, mas cresceu em Hong Kong. Ele retornou para os EUA em 1959. O período da sua adolescência, ele treinou com o mestre de Wing Chun, Ip Man. Lembrando que ele não chegou a finalizar todas as técnicas com o mestre Ip.

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    Lau Bun e alunos avançados

    Lau Bun e Ty Wong eram muito disciplinados e não permitiam que seus alunos brigassem na rua ou desafiassem outras academias. Isso era normal em Hong Kong e foi muito presente na vida de Bruce Lee. 

    Além disso Lau Bun e Ty Wong tiveram muitos alunos ocidentais. Um dos alunos mais conhecidos era o Al Novak, um veterano de guerra que treinou com o Ty Wong, e anos mais tarde entrou o Noel O’Brien, um adolescente irlandês. Com Lau Bun treinou um havaiano, Cliffors Kamaga, e ele não fazia nenhuma oposição ao seu aluno mais graduado Bing Chan, que aceitava alunos de todos os tipos.

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    Ty Wong (centro), Noel O’Brien (acima, dir.)

    Em 1965, um mestre de kung fu respeitados em Los Angeles, deu uma entrevista para a revista Black Belt Magazine, onde ele falava explicitamente que ele estava aceitando qualquer tipo de aluno para aprender com ele.

    Claro que a quantidade de ocidentais que treinavam com Bruce Lee era muito maior, mas já podemos descartar a teoria que lecionar para “estrangeiros” naquela época era proibido. Outra parte que não faz muito sentido é que se Lau Bun e Ty Wong tinham problemas com o Bruce Lee, por que eles mandariam um outro artista marcial lutar por eles? Eles tinham condições de lutar, não?

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    Bruce Lee e seus alunos de Oakland

    Eis que surge um ponto crucial que contribuiu para todas as tensões e e nas várias histórias que envolvem Bruce Lee, a sua personalidade.

    Em 1959, assim que Bruce Lee chegou em São Francisco, ele foi até a academia de Lau Bun, e segundo o um aluno graduado Sam Louie, Bruce Lee fez algumas demonstrações e tentou falar que Wing Chun era melhor. Lau Bun o expulsou de sua academia. 

    Em 1963, Bruce Lee publicou seu primeiro livro “Chinese Gong Fu – The Philosophical Art of Self-Defense“, com a ajuda de James Lee (não tinham parentesco). James era um operário, que tinha uma reputação quando jovem de ser um lutador de rua e body builder. Naquela época ele já olhava de outra forma para as artes marciais, desenvolveu seu próprio equipamento de treino, treinos modernos na sua gararem e publicou vários livros sobre o assunto. Ele foi responsável em apresentar Bruce Lee para outros artistas marciais inovadores como o americano pioneiro do Karatê Kenpo, Ed Parker. 

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    Em Novembro 1963, na escola de kenpo do Ralph Castro: Bruce Lee, Ed Parker e James Lee.

    No livro, Bruce Lee já começa a compartilhar um pouco das suas idéias sobre as artes marciais. O problema que ele causa uma tensão quando, no capítulo “Diferenças nos estilos de Kung Fu “, ele começa a “desmontar” algumas técnicas e as fotos de estudo de caso são justamente do livro to Ty Wong, publicado em 1961. Nesse capitulo, Bruce Lee começa a distinguir o que ele chama de “Sistema superior”, que no caso é o dele, e os sistemas que ele julga como “Sistemas mais lentos”, que seria do Ty Wong, que foi apresentado no livro, e de outros mais “tradicionais”, como o de Lau Bun. Ty Wong, claro, não gostou nada disso e o chamou de “Dissidente com maus modos”. 

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    Livro: Comparação entre os estilos de Ty Wong e Bruce Lee

    Na mesma época que o livro foi publicado, Wong Jack Man veio para Chinatown. Foi o primeiro a trazer o estilo Shaolin do Norte, e já ficou popular na região por sua dedicação sua alta habilidade. Como todos estavam impressionados com o Wong Jack Man na época, o pessoal de Chinatown acabou evitando um pouco o Bruce Lee.

    Em 1964, Bruce começou a fazer demonstrações em palestras para grandes públicos, ele chamava seus pensamentos de “brigas de ruas científicas”. Ele demonstrava outros estilos, e explicava o porquê eles não funcionavam em um briga de rua. O estilo que ele mais demonstrava e depois criticava era justamente o estilo Shaolin do Norte.

    O estopim foi em Agosto de 1964, no torneiro de Karatê de Ed Parker, Long Beach Tournament. Ele começou a criticar os outros estilos, e até chegou a falar como o Mabu, ou postura do cavalo, era ineficaz. Apesar de ser um evento que sempre foi lembrado como um marco positivo, metade do público presente não viu a apresentação com bons olhos. Muitos acharam Bruce Lee arrogante, e ele se achava superior aos demais. Depois de algumas semanas ele chegou a fazer duras críticas para Lau Bun e Ty Wong no Sun Sing Theatre, no coração de Chinatown de São Francisco, onde os dois mestres eram altamente respeitados. 

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    Demonstração do Bruce Lee no Torneio de Long Beach de Karatê do Ed Parker.

    Motivos para um duelo, conseguimos reunir vários, mas onde entra Wong Jack Man dessa história?

    Existem duas teorias para essa luta: a primeira é que Wong Jack Man queria promover sua academia de Kung fu e se apropriou dessa situação de tensão para esse duelo, que claro, ia ser uma grande luta. Um jovem que estava desafiando e provocando os estilo tradicionais, contra um artista marcial de grande habilidade que virou sensação de Chinatown. Segundo David Chin, um praticante de Tai Chi na época, Wong Jack Man havia dito algo parecido na época. Mas a outra teoria que é mais falada por fontes locais na época é que simplesmente levaram Wong Jack Man para lutar.

    No dia da luta, ao todo tinha nove pessoas: Bruce Lee e Wong Jack Man; as testemunhas de Bruce Lee, sua esposa Linda Lee e seu amigo James Lee; as testemunhas de Wong Jack Man, David Chin e Chan “Bald Head” Keung (Ambos frequentavam a academia Ghee Yau Seah, uma espécie de clube de Tai Chi)  e atrás deles havia três pessoas, que segundo Wong Jack Man, foi somente para fazer bagunça.

    Segundo David Chin, a luta não durou mais que sete minutos. Apesar de David Chin e Linda Lee estarem de lados opostos, ambos tem um relato parecido:  a luta foi rápida, furiosa e longe de ser cinematográfica. Bruce Lee já deu um primeiro golpe e lutou para ver o oponente longe, e rapidamente já se viu cansado. Mas em um dos avanços de Bruce Lee, Wong tropeçou em um degrau e caiu.

    Logo Bruce Lee foi para cima e gritou se ele se rendia. Sem ter como sair, Wong não teve escolha a não ser se render. Até os dias de hoje Wong Jack Man não fala sobre o assunto, Logo depois da luta veio os exageros em cima do que aconteceu, como Wong ter feito uma Headlock no Bruce enquanto os policiais não chegavam, Bruce bater a cabeça de Wong na parede, e claro no filme “A origem do dragão“, falar que a a luta durou 20 minutos (??!!!!). Nos jornais locais,começaram as noticias a respeito da luta em que Bruce Lee e Wong Jack Man negam começar ou perder a luta.

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    Essa luta serviu para que Bruce Lee refletisse a respeito de suas técnicas e condicionamentos, foi aí que ele começou a formar o seu novo sistema de luta, o Jeet Kune Do. No sistema ele pegou uma base do Wing Chun, esgrima, boxe, além de outras artes mariciais e tem uma abordagem bem filosófica. Apesar de David Chin estar do lado oposto de Bruce Lee, ele fez a seguinte declaração: “As coisas que Bruce estava dizendo naquela época eram verdadeiras. Eu discordei dele na época, mas ele estava certo”. Não é a toa que Bruce Lee é um artista marcial fora de série, apesar de sua arrogância, ele estudou afundo as artes marciais e pegou tudo que as outras artes marciais tem de melhor e trouxe isso para o combate real.