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  • Bodhidharma e o Templo Shaolin

    Bodhidharma e o Templo Shaolin

    O que eu vou propor hoje é sair “um pouco da caixinha” como eu sempre proponho e mostrar um outro lado sobre a relação de Bodhidharma e as artes marciais de Shaolin. Achei algumas informações importantes que acho válido escrever um artigo só sobre isso.

    Primeiros de tudo temos que enfatizar aqui que muitas fontes ignoram a história das artes marciais antes da chegada de Bodhidharma no Templo Shaolin. Acredito que o Templo teve sim sua grande contribuição e participação nas artes marciais, mas temos que levar em consideração que foi um tempo de muitas guerras e é muito provável o desenvolvimento de lutas nessa época, e nem os templos estavam isentos nisso.

    Segundo Acevedo, Gutiérrez e Cheung (2011, p.41) O Livro de Wei (Weishu) diz que vários templos foram confiscado armas, e um historiado chinês chamado Kang Gewu diz que os monges praticavam jiao li como esporte. Isso desmente a crença que os monges desconheciam sobre as artes marciais antes de Bodhidharma.

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    Bodhidharma caminha sobre um caule lançado nas águas do rio Yangtzé (Estela de Shaolin, 1624)

    Bodhidharma era um monge indiano que foi para China, no monte Song, na região de Louyang nos anos de 480 e foi ele quem introduziu o budismo Chan no país de 480- 520. Algumas obras mencionam que eles esteve na região como Registro dos Mosteiros Budistas em Luoyang (Luoyang qielan ji) de 547 e também nos Registros Preciosos das Transmissões do Dharma(chuanfa baoji), que foi escrita 2 séculos após a sua chegada, e nessa obra ele fala sobre o templo ser um lugar de meditação e onde ele formou seus discípulos do budismo Chan. Porém nenhum deles cita a relação do monge com as artes marciais.

    No Registros Preciosos das Transmissões do Dharma também conta uma história famosa em que um dos discípulos de Bodhidharma, o Huike, amputa o próprio braço e dá ao monge para provar o desapego e em resposta ele foi levada a iluminação. Na obra Registro da Transmissão da Lâmpada do Período Jing (JIng de Chuangdeng lu), de 1004, acabou romantizando essa história.

    O grande motivo de várias histórias serem atribuídas ao Bodhidharma é que os escritores chineses tem o hábito de atribuir escritos a figuras lendárias. Nesse caso, muitos textos atribuídos ao monge foram escritos anos ou até mesmo séculos após a sua morte, e muitos deles estão relacionados com Qi Gong e artes marciais. Alguns dos textos atribuídos a ele são: Metamorfose de Tendões (Yi Jin Jing), Dezoito Mãos de Luohan (Shi Ba Luo Han), Limpeza da Medula Óssea (Xishui Jing), por exemplo.

    Segundo Acevedo, Gutiérrez e Cheung (2011, p.44), existe uma lenda para a atribuição desses textos, onde Bodhidharma deixou uma caixa de ferro com todas as suas obras com seus discípulos antes de ir embora, e a única obra que teria sobrevivido é a Metamorfose de Tendões (Yi Jin Jing), que na verdade foi escrita por um monge taoísta Zhongheng do Monte Tiantai em 1624, onde ele escreveu dois prefácios que acabou falsamente atribuído aos famosos generais Li Jing (517-649) da dinastia Tang e Niu Gao (1087-1147) da dinastia Song. Mas já foi comprovado por historiadores de artes marciais que esse livro é uma mistura de lenda e fatos históricos.

    Diante de todos esses fatos é difícil achar alguma relação dele com o Kung Fu, por exemplo. Mas é fato que ele sim esteve no Templo Shaolin para levar o Budismo Chan para a China. Além dos escritos no próprio templo tem a presença de algumas estelas (pedras com escritos) que mostram a relação do monge com o Templo Shaolin. A mais antiga é de 728 e a de 798 relata o episódio com o Huike.

    A obra Registro da Transmissão da Lâmpada do Período Jing é citada na estela de Shaolin:

    Depois que nove anos se passaram Bodhidharma quis retornar ao oeste, para a Índia. Então, ele comandou seus discípulos, dizendo: “o tempo está próximo; cada um de vocês deveria dizer que alcançou”

    Nesse momento, o discípulo Daofu respondeu: “Como eu vejo, a função do Tao consiste em não se ligar em escrituras e não ser parte das escrituras”.

    O mestre respondeu: “você alcançou a minha pele”

    A freira Zongchi disse: “Meu entendimento, agora, é de que isso é algo como a alegria de ver a terra búdica de Akshobhya: reconhecível a primeira vista, não reconhecível a segunda vista.”

    O mestre respondeu: “você alcançou a minha carne”

    Dayou disse: “Os quatro elementos são, na raiz, vazios, e os cinco skandhas não tem existência; do meu ponto de vista, não há um único darma que possa ser alcançado”

    O mestre respondeu: ” você alcançou meus ossos”.

    Finalmente, Huike, depois de fazer uma prostração, apenas permaneceu em seu lugar. O mestre falou: “Você alcançou a minha medula.”

    Segundo Shahar(2011, p.12), nesse texto a expressão “você alcançou a minha medula” foi para expressar metaforicamente que ele atingiu a essência dos ensinamentos, e que mais tarde isso ganharia uma interpretação totalmente diferente como na tentativa de associar Bodhidharma a arte marcial de Shaolin associando a “medula” com o nome de uma manual secreto – O Clássico da Limpeza da Medula (Xisui Jin) – que o Bodhidharma supostamente teria dado ao seu discípulo. Nessa obra contém as ginásticas secretas que permaneceu em segredo por mais de um milênio, e no século VII ele ressurgiu milagrosamente para influenciar as artes marciais.

    A devoção ao Bodhidharma era tão grande no mosteiro de Shaolin que em 1125, época que o budismo Chan estava ganhando mais popularidade, construíram um templo à 800 metros do mosteiro em sua homenagem. No templo você pode encontrar uma grande pedra com a imagem do monge gravada, pois acredita-se que ele ficou 9 anos meditando na caverna que sua sombra ficou impressa na pedra.

    Em resumo, Bodhidharma só esteve no Templo Shaolin para levar o Budismo Chan, o que acaba enfraquecendo a história que muitos conhecem sobre ele ter influenciado nas artes marciais. Ele pode ter influenciado de alguma forma? Pode! Quem sabe outros textos e evidências não sejam achados para nos provar o contrário? Mas eu não estou aqui para dizer o que é certo ou errado, mas sim para te mostrar o outro lado da história.

  • Kung Fu Origens: Idade de Aço – Idade Moderna

    Kung Fu Origens: Idade de Aço – Idade Moderna

    No nosso último artigo (se não conferiu, pode clicar aqui), falamos sobre a pré história até a idade de ferro, na dinastia Qin, com o início do shoupo(boxe) e juedi(wrestling) na China.

    Continuaremos nossa história com a dinastia Han(207 BCE – 220CE), e nesse período a China estava travando várias batalhas contra os Hunos, que eram uma tribo do norte da China. Eles utilizavam um facão de um fio, que era muito superior a espada de dois fios do exército chinês, mas mesmo com essa desvantagem, o exército de Han conseguiu derrotar os hunos, e acabaram se apropriando dessa arma, o facão, que foi muito superior nas batalhas.

    Um termo muito popular na época para artes marciais era o wuyi. Esse termo incluía: tiro com arco, cavalaria, levantamento de peso, boxe, wrestling, combate desarmado, luta com armas e sparring.

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    Imperador Wu

    Os mais populares eram o shoupo(boxe) e o juedi(wrestling), e quem ajudou nessa popularidade foi o Imperador Wu(141 – 87 a.C), que era praticante de juedi e organizava competições que atraía muitos espectadores. O shoupo era praticado com short, não utilizavam luvas e não tinham regras muito seguras. O juedi era mais seguro, os competidores não podiam golpear ou chutar e ainda ganhavam pontos jogando o oponente no chão.

    Nessa época, os mestres da espada era muito populares e respeitados, e não era só restrito aos homens, mulheres também eram muito habilidosas nessa arte. As técnicas de espada eram passada como se fossem em taoulus (katis), e as donzelas da época faziam performances com esses taolus como sem fossem uma dança, mas também havia disputas entre artistas marciais muito bem treinados.

    A dinastia Han contribuiu muito para as informações que temos hoje sobre o Kung Fu. Foram escritos vários documentos nessa época com táticas de guerra, textos sobre espada, métodos de tiro, e houve alguns escritos sobre o shoupo, mas, infelizmente, esses textos não foram encontrados, e esses métodos foram conhecidos por outras fontes. Segundo Acevedo, Gutiérrez e Cheung (2011), o historiador Ma Mingda fala que na dinastia Han, o shoupo incluía 4 elementos básicos da luta sem armas: golpear com as mãos (da), chutar (ti), derrubar (shuai) e controlar as articulações (na).

    Em 1973, foi encontrado na província de Hunan, uma pintura em seda, datada da dinastia Han, que mostra pessoas fazendo uma série de exercício. Não se sabe ao certo o significado dessas imagens, uns falam que é um manual de kung fu, outros falam que é um exercício de ginástica (dao yin).

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    L0036007 Daoyin tu – chart for leading and guiding people in exercise
    Credit: Wellcome Library, London. Wellcome Images
    images@wellcome.ac.uk
    http://wellcomeimages.org
    Daoyin tu – chart for leading and guiding people in exercise for improving health and treatment of pain, containing animal postures such as bear walk. This is a reconstruction of a ‘Guiding and Pulling Chart’ excavated from the Mawangdui Tomb 3 (sealed in 168BC) in the former kingdom of Changsha. The original is in the Hunan Provincial Museum, Changsha, China.
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    20th Century Published: –

    Copyrighted work available under Creative Commons Attribution only licence CC BY 4.0 http://creativecommons.org/licenses/by/4.0/

    No período de 220-280 d.C, acaba a dinastia Han e começa o Período de Três Reinos, e é considerado um dos períodos mais sangrentos da China, e também foi marcada por uma era taoísa e pela expansão do budismo.

    Nessa época, o shoupo era praticado por todos os níveis da sociedade, e até grande pensadores tinham interesse nas artes marciais. Taolus de armas e mãos foram criados com o intuito das técnicas não serem esquecidas, mas havia uma grande diferença entre as formas para lutas e demonstrações.

    Mais ou menos nessa época que Bodhidharma veio da Índia para a China para espalhar o budismo, e em 527CE, ele chegou no Templo Shaolin, onde ele acabou influenciando no desenvolvimento do Kung Fu Shaolin. Isso foi um marco, pois antes a arte marcial era um senso comum, todos conheciam mas não era separado por tipos ou estilos. Depois do surgimento do Kung Fu Shaolin, as coisas ficaram mais um pouco mais organizadas, e começou a separar varias escolas de lutas por estilos, como Taijiquan, Baguá, Louva-a-Deus, etc.

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    Bodhidharma

    Entramos na Dinastia Tang (618-906 CE), e foi nesse período que a China foi unificada novamente. Nessa época, eles começaram a fazer exames imperiais para selecionar guerreiros para os altos cargos, com graduações de distritos e províncias para nível nacional. As modalidades inclusas nessa prova eram cavalaria, luta no solo, técnicas de lança, uso de várias armas, arquearia, levantamento de peso e estratégias militares.

    Shoupo e juedi continuaram populares, mas surgiu uma nova modalidade de wrestling, o xiangpu ou jueli. Nessa técnica eles lutavam com uma tanga e um elástico no cabelo. Essa modalidade pode ter contribuído com a origem do sumô japonês.

    Na Dinastia Song (960-1279 CE) foi marcado pelo surgimento de escolas e faculdade de artes marciais. Um dos imperadores era muito habilidoso em kung fu Shaolin, então ele incentivou que as pessoas fossem praticar artes marciais. O kung fu era conhecido nessa época como wuyi, e muitos clubes de artes marciais foram criados, muitos artistas marciais experientes viajavam para fazer demonstrações públicas de suas técnicas. O mais interessante é que a maioria desses artistas eram mulheres, e acabou surgindo um termo para elas, nu zhan.

    Grand Classic of Martial Arts” (traduzindo, O grande Classico de Artes Marciais), foi escrito nesse período, contendo estratégias e treinamentos militares, e também contava histórias de batalhas importantes antes da Dinastia Song.

    Chega um momento da história da China que eles são governados por mongóis, na dinastia Yuan (1260-1368 CE), e uma das medidas tomadas foi a proibição da prática de artes marciais e da posse de armas. Mas uma modalidade de wrestling, de origem mongol, o Zuojiao, ficou popular na China. Os praticantes de artes marciais chineses acabaram treinando secretamente ou eles colocavam suas técnicas em show ou em dramas, sem muita marcialidade, o que acabou ajudando a preservar as técnicas.

    Na Dinastia Ming (1368-1644 CE), além do termo wuyi, o kung fu também era conhecido como quanfa (técnicas de punho). Nessa época as técnicas de demonstração e as técnicas marciais começaram a ficar mais distintas. Os generais do exército faziam competição de lutas entre soldados e os profissionais de kung fu faziam apresentações com técnicas mais “floreadas”.

    Nesse período surgiu vários estilos de kung fu, como Taiju, fundado pelo primeiro imperador Song, Garra de águia fundada pelo famoso general Yue Fei e Louva a deus fundado por um mestre shaolin Wang Lang, e também foi nesse período que foi dividido pela primeira fez entre estilos internos e externos.

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    General Yue Fei

    As artes marciais chinesas se expandiram para o Japão, quando o mestre Chen Yuan Bian, em 1619, foi ensinar o kung fu shaolin, que acabou dando base para o jiu jitsu, que foi um precursor do judo.

    Os manchus dominaram a China na Dinastia Qing (1644–1911 CE), e para eles as artes marciais chinesas tinham que estar no exército e não entre a população, e muitos generais manchus eram grandes mestres de kung fu. Então as artes marciais acabaram ficando em academias e clubes, e acabou surgindo o conceito que conhecemos hoje, onde as técnicas nessas escolas eram lutas individuais e sem armas e os taolus eram para saúde e demonstração.

    Foi um período de grande crescimento para os estilos internos como o Taijiquan, muito praticado no norte da China, e também do estilo Baguá, muito praticado pelos guardas imperiais e Xing Yi. Ja na parte sul da China prevaleceu o Kung Fu Shaolin, sendo que o mosteiro de Fujian acabou sendo um centro de revolução contra o governo manchu. O exército manchu destruiu o monastério e fez com que vários mestres se dispersassem pela China, sul da Ásia e pela América.

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    Revolução de Xinhai (1911)

    A revolução de 1911 acabou com a maior dinastia da China e muitos discípulos de Shaolin participaram dessa revolução. Nesse período da dominância dos manchus, muitas organizações foram montadas e uma delas foi a famosa Jin Wu Athletic Association, do Huo Yuanjia.

    Em 1926, o governo de Kuomintang mudou o termo wushu para guoshu, que passou a ter forma muito floreadas de demonstração. Quando o governo comunista substituiu o governo, foi feita uma grande campanha para resgatar os grande períodos das artes marciais chinesas, que passou a ser chamada de wushu novamente. Nessa época foi feito comitês nacionais, e até distritais para promover o wushu, fizeram escolas e faculdades especializadas, muitos times de wushu viajaram o mundo para fazer demonstrações e foram publicados vários livros com muitos conteúdos sobre wushu, assim como foram criados vários torneios nacionais e internacionais. Segundo Kit (2002), uma das grandes contribuições do governo chinês foi a restauração do Templo Shaolin que atrai praticantes do mundo todo.

  • Bastão de Shaolin

    Bastão de Shaolin

    Temos certeza que os monges de Shaolin são especialistas na arte do bastão, mas suas informações e registros vem em forma de lendas.

    A primeira lenda é sobre os rebeldes, conhecidos como “Turbantes Vermelhos” (紅巾起義), tentaram atacar o Mosteiro de Shaolin, mas foram impedidos de atacar pelo Jinnaluo, ou em sânscrito Vajrapani, que tornou-se um gigante armado com um bastão, que acabou espantando os rebeldes.

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    Estela de Vajrapani (Narayana) de 1517 pelo abada Wenzai. O guerreiro está segurando um bastão.

    Vajrapani é um Bodhidattva protetor de Buda, que segundo a lenda, estava reencarnado em um modesto monge que trabalhava nos fornos carregando lenha. Existe várias versões sobre essa história, e a mais antiga registrada é a estela de 1517, com autoria do abade de Wenzai (1454 – 1524), A Divindade Narayana Protege a Lei e Expõe Sua Natureza Divina (Naluoyan shen hufa shiji):

    No vigésimo-sexto dia do terceiro mês do décimo-primeiro ano (xinmao) do período Zhizheng (22 de abril de 1351), na hora si (entre 9 e 11 horas da manhã), quando o levante dos Turbantes Vermelhors  (Hongjin) em Yingzhou [na atual Anhui ocidental] acabara de se iniciar, uma multidão de saqueadores chegou no mosteiro. Havia um santo (shengxian) em Shaolin, que até então tinha trabalhado na cozinha do mosteiro. Por vários anos, ele dedicadamente carregara lenha e conduzira o fogão. Seu cabelo era desgrenhado e ele estava sempre descalço. Vestia apenas suas calças e seu tronco estava sempre descoberto. Da manhã até a noite dificilmente pronunciava uma palavra, nunca chamando atenção de seus irmãos monges. Seu sobrenome era o nome de seu local de nascimento e seu primeiro nome era desconhecido. Ele cultivava constantemente todas as atividades de iluminação (wan xing).

    No dia que os Turbantes Vermelhos chegaram no mosteiro, o bodisatva empunhava um atiçador de fogo (huogun) e se manteve magistralmente sozinho no topo do destacado da colina. Os Turbantes Vermelhos ficaram horrorizados com sua imagem e fugiram, quando, então, ele desapareceu. As pessoas procuraram por ele, mas nunca mais foi visto. Apenas, então, as pessoas se deram conta de que era um Bodisatva expondo sua natureza divina. Desde então, se tornou o protetor das leis de Shaolin (hufa) e ocupou o lugar do “espírito guardião” do mosteiro (qielan shen).

    SHAHAR, 2008, p.121
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    Vajrapani sobre o Monte Song. Acima está o Bodisatva Avalokitesvara, de quem ele é considerado a reencarnação.

    Porém, essa versão é contestada pelo historiador Tang Hao, em Shaolin quanshu mijue kaozheng (p.55-62.), em que ele conta que o ataque aconteceu em 1356, e não em 1351, e que o mosteiro foi saqueado e parcialmente destruído. Esse fato é confirmado no em duas inscrições do século XIV, onde é comemorado a reconstrução do mosteiro nos primeiros anos da dinastia Ming e também há registros de dois epitáfios de 1373, sobre dois monges de Shaolin que viveram nesse período.

    Segundo Shahar (2008, p.132), os monges budistas impunham suas técnicas de combate às divindades budistas, pois ampliava o prestígio das técnicas de combate de Shaolin. Afirmar que certo método de combate possui origem divina, equivale a garantir-lhe a existência como objeto de veneração. Shahar (2008, p.132) também destaca para o fato que as divindades marciais como o Vajrapani livram os monges de suas responsabilidades pela criação de técnicas militares. Suas lendas, em relação a tal questão, poderiam ser lidas como apologias budistas à prática da violência pelos monges.

    Mas há estudiosos que reconhecem a característica defensiva do bastão, e como seu propósito não é de ferir ou matar ninguém, eles acabam justificando a arma como preferida dos monges budistas. Segundo Shahar (2008, p.149), isso é exemplificado por Cheng Dali:

    O bastão não é um instrumento afiado e, além disso, é feito de madeira. Seu poder de matar ou ferir é muito menor que o do facão, da espada e de outras armas afiadas de metal. Evidentemente, o uso do bastão de madeira é relativamente apropriado à condição de discípulos budistas, para quem o uso das artes marciais é permitido apenas visando objetivos limitados.

    Zhongguo Wushu, p.96

    Esse argumento acaba perdendo força em algumas literaturas militares, ficções e dramas, quando os bastões passaram a ser produzidos com ferro, se tornando uma arma letal, que era capaz de levar a morte. Esses bastões foram usados até por monges budistas em operações militares, que foi descrito por Wu Shu (1611-1695) em Registro de Armas (Shoubi lu, 1678).

    A forma de bastão não era limitado somente ao mosteiro, mas o exército do período Ming tardio já via a importância da arma para o treinamento militar. O general Yu Dayou utilizava o treinamento do bastão também para introdução de outros meios de combate, como facão e lança, por exemplo.

    Há relatos que por volta de 1560, Yu Dayou fez uma visita no Templo Shaolin para avaliar as técnicas de bastão pelos monges. Foi feita uma apresentação por 10 monges, e no final o general ficou descontente com o que viu e chegou a fazer uma demonstração com a sua técnica. Os monges pediram para que ele ensinasse suas técnicas, mas ele disse que precisaria de anos para aprender. Dois monges, Zongqing e Pucong, acabaram acompanhando o general e depois de três anos retornaram para o templo para passar seus conhecimentos.

    O bastão não era só de domínio dos monges budistas, mas a literatura ficcional e as lendas populares acabaram associando isso a eles, o que não significa que eles são os únicos que dominavam a técnica na época.

    Um dos primeiros registros sobre as técnicas de combate no templo Shaolin, foi o Livro da Disciplina Eficaz (Ji Xiao Xin Shu, c. 1562) escrito no século XVI. O contexto desse registro era na época que chineses e japoneses estavam atacando o leste da China, onde o general Qi Jiguang (1528-1588) escreveu os métodos de combate mais eficientes de formas de mãos livres e armas, onde ele cita sobre o bastão de Shaolin, que acabou não desenvolvendo muito sobre elas, e acabou dando ênfase as técnicas do General Yu Dayou. Nesse manual, Qi não fala de mais nenhuma técnica de mãos livres de Shaolin, e segundo Acevedo, Gutiérrez e Cheung (2011, p.48), na opinião de Stanley E. Henning, esse fato pode ser explicado de diversas maneiras: o templo de Shaolin não havia desenvolvido técnicas de combate sem armas dignas de ser mencionadas; Qi não considerou as técnicas de luta de mãos vazias de Shaolin fossem eficazes; ou ainda as técnicas de lutas sem armas de Shaolin eram as mesmas que se praticava fora do templo.

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    khakkhara

    Antes mesmo do bastão ser utilizado como arma, ele era um objeto obrigatório dos monges budistas. Porém ele era um pouco diferente, pois tinham argolas em suas pontas. Seu nome em sânscrito é khakkhara, em chinês foi traduzido como xizhang. Segundo Shahar (2008, p.150), a palavra “xi”, que significa estanho ou latão, talvez se refira ao metal com o qual as argolas eram feitas, ou uma onomatopéia referente ao som que as argolas produziam.

    Fayun (1088-1158) fez uma análise sobre o nome xizhang, e percebeu a importância do som, que seria, primeiro para ajudar a espantar animais peçonhentos, segundo para avisar o proprietário de uma casa sobre a presença de um monge, e por ultimo o bastão pode somente servir como apoio a monges velhos e doentes em suas jornadas.

    No geral, é difícil apontar suas origens, mas pode-se dizer que por ser um utensílio obrigatório de um monge, eles abaram o transformando em uma arma, mas não podemos negar que ele teve um papel muito importante na história de Shaolin e acabou influenciando várias lendas a seu respeito.

  • Estilo Mizongyi (迷蹤藝)

    Estilo Mizongyi (迷蹤藝)

    Vimos na matéria sobre Huo Yuanjia, que sua família praticava o estilo Mizongyi, e ele mesmo popularizou o estilo em 1901, no período em que a China estava sendo dominada por tropas imperialistas. Mas como é esse estilo? Quais suas características?

    Mizongyi (迷蹤藝), também conhecido como Mizongquan (迷蹤拳) ou Yanqingquan (燕青拳), é um estilo de kung fu que traz muita agilidade, mobilidade e movimentos que enganam o oponente, com pés que se entrelaçam com chutes variados e muitos saltos.

    É um estilo externo com influências do estilo interno. No aspecto externo, tem características da família dos Punhos Longos e do Shaolin do Norte, no aspecto interno, tem influencias do Tai Chi Chuan e Baguazhang.

    É possível identificar a influencia do estilo Shaolin do Norte na versatilidade dos seus ataques. A grande mobilidade do estilo gasta muita energia, e com a influencia dos estilos internos ele consegue compensar isso.

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    A técnica mais conhecida do Mizongyi é o Fa Jing, que é uma descarga de energia explosiva que vem do estilo interno de Hsing I ao estilo Chen de Tai Chi combinado com o encaixe do estilo externo de Punhos Longos de Shaolin. Essa combinação traz a capacidade de gerar força rápida e flexível a qualquer distancia através de uma produção de energia eficiente de vários lugares do corpo. Os chutes e socos são rápidos no impacto, que trazem força e potência. Esse estilo não é recomendado para quem tem problemas cardíacos, e recomenda-se que o praticante tenha um nível técnico intermediário para aprender o estilo em sua essência.

    Além de ser ume estilo com auto defesa muito eficaz, muitos utilizam o aprendizado do estilo para fortalecer o sistema imunológico, uma vez que que ele tem vários benefícios medicinais.

    O estilo se popularizou a partir de 1901, com o Mestre Huo Yuanjia. Dizem que seu pai, Huo Endi, era sucessor da 6ª geração do estilo. Nos dias atuais, o estilo se tornou raro e não tão popular como os outros estilos, mas foi mostrado brevemente no filme “Fearless”(2006), do Jet Li, onde conta a história de Huo Yuanjia.

    O Grão mestre Ye Yu Ting comandou o estilo no século XX até sua morte em 1962, aos 70 anos. Na década de 60, seus alunos, Chi Hung Marr, Raymond K. Wong e Johnny Lee foram para os EUA, Hawaii e Canadá para ensinar o sistema.

    Na Inglaterra, o sistema continuou sendo ensinado como base em alguns estilos como Hsing I Ch’uan dentro da tradição Yue Jia Ba Shao. Nessa linhagem o estilo Mizong era ensinado mais para as crianças, pois os aspectos técnicos internos são menos sofisticados, ou mais externos, do que o Hsing I.

    Sobre quem fundou o estilo, há registro que foi criado por Yue Fei, mas pesquisando sobre o assunto não achei evidências que ele foi o criador do estilo.

    Não se sabe ao certo de onde veio, mas todas as versões aqui colocadas são apenas algumas das várias histórias que tentam explicar a sua origem. Porém, as pessoas que montam a várias linhagens chegam em um ponto em comum: Mestre Sun Tong, nascido na província de Shandong, em 1722.

    Uma das histórias, dizem que o estilo Mizongyi foi criado por um monge no Templo Shaolin chamado Lu Junyi, que uniu as técnicas de Shaolin com o Neigong. Diz a lenda que o monge era muito habilidoso, mas em contra partida ele não queria treinar nenhum discípulo. Porém um jovem, Yan Qing, foi trabalhar na casa de Lu e começou a espioná-lo e treinar secretamente. Até que um dia durante o trabalho, ele e seus companheiros foram atacados por bandidos, e Yu teve que defender a todos. Depois do episódio, Lu acabou o aceitando como discípulo. Esse estilo acabou sendo chamado de Yanquinquan, em sua homenagem, pelos vários seguidores que ele conseguiu. Mas logo mudaram o nome para Mizongquan, ou seita secreta do boxe, quando viram que Lu Junyi e Yan Quan estavam sendo perseguidos pelas autoridades. Nesta fuga, há relatos que, para não serem capturados, eles levaram as tropas em labirintos e trilhas falsas. Devido a esse evento que surgiu o nome Mizongyi, que significa “Punho da Trilha Perdida”, mas também tem uma alusão das características do estilo, que tem movimentos que enganam o oponente.

    Outra versão diz que o monge shaolin Qin Naluo observou uma luta entre macaquinhos e se impressionou com a fluidez dos movimentos, chamando o estilo de Nizong Quan “punho tribais de animais”, e acabou se tornando Mizong Quan devido a pronuncia.

    Outra lenda diz que dois guerreiros da dinastia Tang chamados de Yan Qing, que não é o mesmo da história anterior, e Chen Zhijing, foram parar o templo Shaolin e dentro do mosteiro desenvolveram o estilo que chamaram de Mizong Quan, ou “seita secreta do Boxe”

    Atualmente, um dos principais nomes do estilo é Huo Jinghong. Ela começou a praticar com cinco anos de idade, e é bisneta de Huo Yuanjia. Um texto interessante sobre a vida da Huo Jinghong está neste link.

    A TV chinesa CGTN publicou em maio de 2019 uma breve matéria sobre ela, que vocês podem conferir em texto aqui ou no vídeo abaixo.

    Não leu a matéria sobre o mestre Huo Yuanjia? Clique na matéria abaixo que ela pode te interessar!

    HUO YUANJIA (霍元甲) – 1860 – 1910

  • Os Cinco Venenos de Shaolin

    Os Cinco Venenos de Shaolin

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    Os 5 venenos de Shaolin conta uma história de um mestre, do “Clã dos cinco venenos”, que treinou 5 pessoas que não se conheciam, cada uma com um estilo diferente, sendo eles: Centopéia, Cobra, Escorpião, Lagarto e Sapo.

    Como ele está muito doente e prestes a morrer, ele pede para que o último discípulo dele descubra quem são essas pessoas, pois eles foram treinados com máscaras, e elimine quem está utilizando o estilo para o mal.

    Como sempre, a Shaw Brother consegue fazer um filme com ótimas cenas de luta, aquele velho estilo de sempre, ataques e defesas muito bem encaixados e sincronizados, perfeitos até demais, mas é legal de ver como são bem coreografadas. Porém, senti o filme com cenas mais violentas que o de costume. Quando eu digo violentas, é violentas para a época.

    Além das boas coreografias da época, que são marca dos filmes da Shaw Brothers, o filme conta com um diferencial, você se envolve com a trama do filme. Ele constrói uma narrativa, onde você tem vontade de ver e desvendar quem são as 5 pessoas e quais delas querem fazer o mal. Fora isso, eles desenvolvem mais os personagens e constroem uma relação entre eles durante o filme. Diferente dos demais filmes que é sempre o mestre que treina o discípulo que está em busca de vingança.

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    No geral, “Os Cinco Venenos de Shaolin” consegue explicar o porquê ele é um clássico no gênero e consegue atingir os amantes de filmes de artes marciais e os que estão apenas afim de ver uma boa história.

    Uma curiosidade para quem gosta do filme e do Kill Bill, Quentin Tarantino usou como grande referência este filme para criar o grupo “Deadly Viper Assassination Squad”.

    FICHA TÉCNICA:
    Título: Os Cinco Venenos de Shaolin
    Título Original: The Five Venons/ The Five Deadly Venons
    Ano: 1978
    Diretor: Chang Cheh
    Elenco: Chiang Sheng, Sun Chien, Philip Kwok, Lo Mang, Wei Pei, Lu Feng, Wang Lung-Wei, Ku Feng
    Gênero: Artes Marciais, Ação, Drama

  • Câmara 36 de Shaolin

    Câmara 36 de Shaolin

    Um dos filmes mais importantes os estúdios Shaw Brothers, se não o mais importante, a Câmara 36 de Shaolin vem para mudar um pouco o estilos de filmes de kung fu da época. 

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    Lançado em 1978, a Câmara 36 de Shaolin conta a história de San-Te (Gordon Liu), uma lenda na história das artes marciais, que foi para o Templo Shaolin após seus amigos e familiares serem mortos pelo exército Manchu. Afim de buscar vingança, San Te tem que passar por 35 câmaras para aprender todas as técnicas de kung fu e virar monge. 

    Eis que vem algumas contradições do filme, um monge que busca vingança e quer ensinar kung fu para a população, o que vai contra as leis do mosteiro. Algumas coisas ficam em aberto, talvez o foco mesmo é nas artes marciais. Mas isso é o de menos, se comparado com o que o filme foi para época.

    Captura de Tela 2018 12 18 às 12.21.55

    Em termos das artes marciais, ele não deixa a desejar. Acredito que nenhum outro filme de kung fu, talvez ele seja o primeiro, a mostrar um elenco, em sua maior parte, de monges, mostrando um pouco de como que é o Templo Shaolin e como é o seu treinamento, que na época ninguém sabia sobre, contribuiu muito para que ele se tornasse um dos maiores filmes de kung fu.

    A maior parte da história se passa no mosteiro, e é, sem dúvidas, a melhor parte. Ele é carregado de persistência e superação de um personagem que não sabia absolutamente nada de artes marciais. A cada câmara que San Te passa, você fica curioso para saber quais os desafios que ele vai encontrar pela frente. 

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    De uma maneira geral, a Câmara 36 de Shaolin é um filme indispensável para quem gosta de kung fu. A parte das lutas, como sempre, muito bem feitas e o personagem de Gordon Liu te cativa de alguma forma. Não é a toa que é um dos principais personagens da carreira do ator.

    Assista ao trailer:

    FICHA TÉCNICA:
    Título: A Câmara 36 de Shaolin
    Título Original: The 36th Chamber of Shaolin/ Shao Lin san shi liu fang/ Disciples of Master Killer/ Master Killer/ Shaolin Master Killer
    Ano: 1978
    Diretor: Lau Kar-leung
    Elenco: Gordon Liu, Lo Lieh, John Cheung, Norman Chu, Chia Yung Liu
    Gênero: Artes Marciais, Ação, Drama, Histórico

  • Estilo Garra de Tigre

    Estilo Garra de Tigre

    O estilo Hung Gar/Garra de Tigre é caracterizado com base de pernas e mãos fortes. Sua pricinpal característica é a utilização do ataques e defesas ao mesmo tempo.

    Surgiu na Dinastia Ching, no ano de 1734, época em que o imperador Yung Jing Ordenou a destruição dos Templos Shaolin .

    Garra Tigre
    Garra de Tigre

    Depois da destruição dos templos, somente cinco monges sobreviveram ao massacre, sendo eles: NQ Mui, Gee Sin, Pak Mei, Miu Hin, Fung To Tak.
    Desses sobreviventes, o monge Gee Sin teve como discípulo um rapaz de nome Hung Hei Kun, que mais tarde construiu um novo templo Shaolin onde ensinava o Kung Fu nos moldes tradicionais, sendo o seu estilo conhecido mais tarde como Hung Gar (Familia Hung).

    Nos ultimos cem anos em Cantão, região Sul da China, existiram dez mestres que se destacaram por sua habilidade inigualavel.

    Por alcançarem grande fama, chegando a ser conhecidos como os Dez Tigres de Cantão. Dentre eles, cinco eram eram mestres de Hung Gar: Tii Kiu San, Sou Rak Fuú, Wong Fei Hung.