qua. nov 20th, 2019

Entrevista com Rafael Viana

O blog convidou Rafael Viana, atleta da Seleção Brasileira para contar um pouco de sua trajetória no wushu.

Wushu Moderno é um esporte de alto rendimento (baseado nas arte marciais chinesas tradicionais, o kungfu). Modalidade que luta para virar esporte olímpico, sendo temas de diversos filmes e documentários. Um dos praticantes mais conhecidos é o ator  Jet Li (Pentacampeão Chines de Wushu). 

O blog convidou Rafael Viana, atleta da Seleção Brasileira para contar um pouco de sua trajetória no wushu.

1- Por que vc começou a treinar Wushu-kung fu?

Rafael Viana: Comecei a treinar Wushu com 12 anos. Um dos motivos é que eu estava acima do peso para minha idade, então havia uma pressão de meus pais para se procurar um esporte. Mas a principal inspiração mesmo para procurar o Wushu e não outro esporte estava em animações de lutas japoneas, como Naruto por exemplo. Queria muito fazer algo parecido (risos)

2- Quando entrou para a Seleção Brasileira?

RF: Meu primeiro treino na seleção Brasileira foi em 2009. Porém fui convocado para o primeiro campeonato internacional apenas em 2012 para o Panamericano no México na categoria de Nanquan Juvenil, como reserva. 

3- Qual seu principais títulos? De todos qual o mais especial?

RF: Meus principais títulos foram, com certeza, o Sulamericano no Uruguai de 2017 em Nandao e o Panamericano em 2018 em todas categorias que compito. Cada um desses campeonatos foram marcos importantes de minha evolução no Wushu, seja na execução de um nandu ou na performance geral do Taolu. Sabe quando você sente que subiu um degrau muito importante em sua evolução? Foi esse o sentimento que me veio após esses dois campeonatos. 
Contudo, queria citar também o Universiade, no ano de 2017. Foi minha primeira competição com atletas de altíssimo nível, atletas inclusive com títulos mundiais. Esse campeonato me proporcionou uma experiência única. Ver nandus nível C, performances que chegam perto de 2.70 abrem a mente de uma forma absurda e te faz querer melhorar ainda mais. Então, esse campeonato também, apesar de não ter conquistado um título, foi um dos mais especiais em minha carreira.

4- Qual a sensação de representar o seu pais em seu primeiro Mundial ? 

RF:Bom, a sensação não é só de grande responsabilidade, mas de orgulho de representar seu país internacionalmente.
A força e destaque dos países americanos vem crescendo aos poucos frente às grandes potências no esporte, e eu espero fazer minha parte com um resultado positivo. Estou trabalhando duro para isso!

5- Voce ja teve lesão? Qual o sentimento e como foi a recuperação?

RF:Já sim, várias. Se tem algo que te deixa angustiado, frustrado, ansioso e triste no esporte é lesão. Principalmente porque geralmente elas aparecem no momento em que você menos desejaria que ela aparecesse. Mas não tem jeito, a paciência e a calma tem quer ser achada de alguma forma, principalmente porque a maioria das lesões tendem a ser por sobrecarga de treino. Busque ajuda médica e a reabilitação necessária. Não ignore o problema. O descanso e reabilitação do membro injuriado é necessário. Porém, nunca parei de treinar mesmo lesionado. Sempre aproveitei esses momentos para treinar outras partes que eu não focava tanto, sem forçar a lesão, claro. Focava em treinar principalmente yan shen (olhar determinado), algo extremamente necessário para performance em um taolu.

6- Ja pensou em desistir do wushu?

RF:Pensar em desistir nunca. Sempre fui muito pragmático e fiel sobre as decisões em minha vida. Cheguei a questionar se era o que eu realmente queria, quando eu entrei em um cursinho para prestar vestibular. Foi uma autoreflexão de 20 minutos, em que decidi continuar, mesmo com uma grande grande carga horária dali para frente. Desde então, nunca mais me veio esse questionamento em minha cabeça, até agora (risos).

7- Na sua opinião, o que precisa para se tornar um bom atleta?

RF:Bom, isso não é algo tão simples para se dizer. Cada atleta possui seu estilo, seus trejeitos, sua forma de encarar aquilo que aparece em sua frente. Não existe uma fórmula pronta.
Pessoalmente, acho que o que torna alguém bom no que faz é com certeza determinação, o foco, paciência e resiliência. Muita resiliência. Saber lidar com todas adversidades e sempre se adaptar a elas, da melhor forma possível, para sempre continuar evoluindo. Acho que isso te levará a algum lugar que te deixe feliz.

Outro ponto muito importante que torna alguém um bom atleta é sua conduta frente ao mundo. Não digo de forma cartesiana, de cumprir regras. Mas no sentindo de sempre respeitar o próximo, independente de cor, raça, gênero, condição social ou nacionalidade. O Wu De, o código de ética no Wushu, é algo impressindível. Sempre a favor do respeito, harmonia e do amor. Nunca acima de alguém. Sem isso, por mais que você tenha tudo aquilo que eu citei anteriormente, você nunca será um bom atleta.

Rafael e Mestre Thomaz Chan

8- Quais seus ídolos no wushu? 

RF:Bom, o ídolo a ser falado aqui, com certeza, é meu mestre, Thomaz Chan. Além de referência na questão técnica, ele sempre foi uma referência naquilo que comentei antes, o Wu De. Muito do que sou agora foi fruto de seus conhecimentos e experiências que absorvi dele. 
Até hoje me recordo do ano de 2010, ainda bem jovem com 16 anos. Não havia sido convocado para a seleção brasileira aquele ano e por isso estava decepcionado comigo mesmo. Foi apenas uma frase: “Tenha paciência, treine forte que os frutos serão colhidos”. Até hoje, a cada conquista que tenho, essa frase me volta à cabeça (risos).
Com certeza, ele é a principal referência que eu tenho no esporte. 

9- Qual conselho voce daria para quem esta iniciando no wushu?

RF:Iniciar Wushu, observando meus poucos alunos que já tive, é algo sempre muito ambíguo. Há uma ansiedade e felicidade em sempre aprender coisas novas e legais acompanhada de um pouco de tristeza e angústia quando há a comparação com atletas de alto nível, principalmente para aqueles que entram com vontade de competir. Portanto, o primeiro conselho que dou para quem inicia o wushu é sempre deixar muito claro quais são seus objetivos no esporte. Só isso já pode previnir muitas frustrações (risos). O segundo conselho é paciência. O wushu é um dos esportes mais complexos que eu conheço. Há uma infinidade de capacidades que o atleta deve ter para se obter um alto rendimento. O terceiro e último conselho, para aqueles que desejam entrar no ambiente competitivo, é que tenham resiliência e perseverança. As dificuldades serão inúmeras, afinal nem mesmo os atletas de ponta no país encontram todos os recursos mínimos para a prática. Além disso, é impossível viver apenas do esporte. Contudo, o Brasil está cada vez mais capacitado tecnicamente no ensino. Muito já mudou nos últimos dez anos para melhor, e se é algo você deseja, você tem o necessário para ser competitivo lá fora. Então sempre busque as melhores fontes para se aperfeiçoar, mesmo à distancia, e não desista daquilo que você ama.

10- Qual o seu sentimento pelo wushu?

RF:Meu sentimento pelo wushu são todos os possíveis. Encaro treinar wushu como uma criança gamer encara um video game. É onde encontro lazer, amigos, desafios e conquistas. Acho que poucas coisas conseguem te dar tantos sentimentos como o wushu.
Eu realmente amo este esporte.

Frase favorita

RF:“Cresceremos do concreto.” Para variar esta é uma frase de uma animação japonesa de esporte. O time mais fraco, do protagonista, é taxado pelo atacante do principal time da liga como um concreto, onde sementes jamais se tornariam frutos. O protagonista, então, o respondeu com essa frase.
Acho que essa frase se aproxima muito da minha historia de vida. Por escolher um curso com alta carga horária muitos diziam que eu não poderia me tornar um bom atleta. Em outras palavras, a medicina, curso que eu escolhi, seria o concreto, e o wushu a semente que jamais cresceria.
Pois bem, estou crescendo do concreto!

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