Bruce Lee no filme ""
Os filmes de ação com cenas de lutas espetaculares que vemos hoje são dessa forma graças aos filmes de Kung fu.
Sim, os filmes de kung fu contribuíram e muito para a cultura que vemos hoje, seja nos filmes, na divulgação do kung fu pelo mundo, na própria cultura chinesa e também, segundo o documentário “Iron Fists Kung fu Kicks” (2019), contribuíram com o Hip Hop e o Parkour. Aliás, esse artigo tem uma grande base nesse documentário, que eu acho fantástico, e que vale a pena a gente detalhar um pouco mais os pontos para entender a importância dos filmes chineses.

Vamos começar lá na década de 60, em Hong Kong, quando o famoso estúdio Shaw Brothers, liderado por Run Run Shaw, começou a fazer seus filmes baseados nas famosas Óperas de Pequim, mais precisamente na Ópera Huangmei, que era um dos cinco principais gêneros de ópera chinesa. O filme The Love Eterne (1963) é basicamente uma ópera filmada. Os filmes tinham coreografias muito plásticas, a divulgação da cultura chinesa era muito forte e fazia muito sucesso. Vale destacar que atores famosos e reconhecidos como Jackie Chan, Sammo Hung, Yuen Biao são pessoas que vieram da Ópera de Pequim.
O gênero Wuxia veio mais para frente quando o foco começou a ser filmes de ação mas, mesmo assim, as lutas eram pensadas mais na sua plasticidade do que em ser realista, tanto que você consegue ver ritmo nas lutas e acrobacias. Os arquétipos das óperas também estão presentes nos filmes, como o herói sempre aparece limpo e o vilão com uma maquiagem mais carregada ou nas poses dramáticas e trilhas sonoras com gongo, por exemplo.

A grande virada veio no final da década de 60, quando o diretor Chang Cheh, famoso por grandes clássicos como “Os 5 Venenos de Shaolin (Five Deadly Venons) – 1978“, queria deixar o filme mais realista e violento com mais sangue e deixar de lado aquelas coreografias mais “dançantes”. E também queria focar bastante no homem, na sua força e musculatura. Por isso, é muito comum ver nos filmes os treinamentos e lutas de homens sem camisa.
Mas também vamos puxar um pouco para a história que Hong Kong passava nessa época, mais precisamente em 1967, de muita violência e dos grandes protestos contra domínio colonial britânico. Então esse sentimento de revolta e violência fomentou e casou muito com essa mudança no cinema chinês.

Paralelamente, na década de 60, temos Bruce Lee tentando se inserir na TV e no cinema nos EUA. Temos que destacar que o cinema nos EUA, na época, era totalmente dominado por pessoas brancas e não tinha muitos filmes de luta, uma vez que o gênero que dominava era o Faroeste. E quando havia a presença de orientais, estes eram interpretados por brancos muito estereotipados.
Bruce Lee tentou vários papeis que foram recusados, até conseguir se inserir na série “Besouro Verde”, onde ele era o ajudante do protagonista. Apesar de ser coadjuvante, o personagem de Bruce Lee, Kato, fez muito sucesso por sua performance que nunca tinha sido vista antes. Na Ásia, o sucesso era tão grande que a série passou a se chamar “The Kato Show“. Há histórias que as câmeras não conseguiam captar a velocidade do seu movimento, logo ele tinha que fazer os movimentos mais lentos. Vale destacar que houve um “Crossover” da série Besouro Verde com a clássica série de Batman, onde eles vão para Gothan City lutar contra Batman e Robin mas, no fim, acabam se unindo.


Voltando à trajetória de Bruce Lee, houve um fato muito importante e determinante na história que foi a série Kung fu. Bruce fez o teste para a série, foi muito elogiado mas não conseguiu o papel por ser chinês. Até porque, a série ia ser exibida no horário nobre e, infelizmente, havia um forte preconceito. Esse papel foi passado para um ator branco, David Carradine, que não tinha tido contato nenhum com as artes marciais. Segundo os produtores, ele passava uma imagem mais calma e contemplativa para um monge.
A série, para quem não conhece, conta a história de Kwai Chang Caine (David Carradine), um monge Shaolin que, após vingar o assassinato do seu mestre, foge para o velho oeste americano atrás de seu meio irmão Danny Caine. Há histórias que a idéia da série, originalmente, foi escrita por Bruce Lee, mas os produtores da série negam. Mas anos depois a sua filha Shannon Lee, recuperou os os roteiros escritos pelo pai e produziu a série “Warrior” (2019).

Frustrado com Hollywood, Bruce Lee volta para Hong Kong e fecha contrato com a Golden Harvest, de Raymond Chow, que já tinha sido um executivo de confiança da Shaw Brothers. O foco das duas produtoras era bem diferente, a Shaw Brothers focava em quantidade, mas a Golden Harvest queria lançar uma estrela. Isso foi determinante para o fechamento de contrato de Bruce Lee com a produtora, pois ele teria participação nos lucros do filme, diferente do outro estúdio que os atores recebiam salário fixo sem bonificação.
Após fechamento de contrato, a carreira de ouro de Bruce Lee começa com um filme revolucionário da época, “The Big Boss” (1971), com cenas de luta que nunca tinham sido vistas no cinema, consagrando-o como a estrela dos filmes asiáticos. Depois veio “Fist of Fury” (1972), uma grande crítica ao preconceito contra os chineses, enaltecendo o nacionalismo chinês. Os filmes de Bruce Lee conversavam com a população oprimida e isso fez com que eles fizessem cada vez mais sucesso. Foi uma mudança de filmes clássicos com coreografias muito plásticas para um estilo de luta muito mais real.

Mas o primeiro grande sucesso nos EUA não foi o filme de Bruce Lee, foi o filme “5 Dedos da morte” (1972) com Lo Lieh, com muita violência e sangue. Com esse filme, começou a despertar o interesse e curiosidade do ocidental pelas artes marciais. Só um ano depois, Bruce Lee estourou mundialmente com o filme “Operação Dragão”. Foi sucesso de bilheteria e um fenômeno global, o que levou à grande fama de Bruce Lee. Porém, infelizmente, ele faleceu seis dias antes da estreia do filme em Hong Kong e 1 mês antes da estreia nos EUA, fazendo com que ele tivesse uma fama póstuma.
Por outro lado, esse filme fez com que o kung fu ficasse no auge mundialmente. Academias foram abertas no mundo todo e, claro, não podia ser diferente no Brasil. Graças ao filme, o kung fu foi amplamente divulgado por aqui e começamos a construir nossa história nessa época.
O cinema ficou órfão de Bruce Lee e isso fez com que vários sósias surgissem, além de histórias bizarras que Bruce Lee tinha mudado de cara, enfim, tudo para continuar essa febre que foi Bruce Lee e o Kung Fu. E uma vertente muito importante na história foi o surgimento de filmes de artes marciais com atores negros. Como Bruce Lee era visto como símbolo de resistência contra a opressão e o sistema, a comunidade negra se sentiu muito conectada. O astro desses filmes foi Jim Kelly que treinou com Bruce Lee e também participou de Operação Dragão. Mas também tiveram outros nomes, como Ron van Clief, e protagonistas mulheres como Tamara Dobson e Jeannie Bell.

Voltando para Hong Kong, nos anos 70 surge um nome muito importante que é Lau Kar-Leung, um grande artista marcial, ator e coreógrafo de cenas de luta. Ele quis mudar o cinema chinês e fazer filmes em que as pessoas de fato praticassem kung fu. Nessa época, surgiram grandes clássicos dos filmes que conhecemos hoje, inclusive um filme de grande sucesso que é “Câmara 36 de Shaolin” (1978), que fez Gordon Liu se tornar um ícone do gênero.
Apesar desses filmes não retratarem uma luta, digamos que real, com coreografias muito bem encaixadas, é legal pensar na plasticidade do movimento e ver a autenticidade de cada estilo. Perceber como cada estilo se comporta em uma luta, a movimentação, os punhos. Essa é a grande magia do cinema no kung fu.

Em paralelo a esses filmes nascia uma estrela que é Jackie Chan. Em sua biografia, ele conta um pouco dessa trajetória, principalmente após o falecimento de Bruce Lee. E muitos produtores esperavam que ele reproduzisse o jeito de Bruce Lee, a forma de lutar e se expressar. O produtor Lo Wei , com quem ele tinha contrato, tentou essa transformação de Jackie Chan no filme “New Fist of Fury” (1976), mas foi um fracasso. Foi aí que ele foi emprestado para outro estúdio, se juntou com o diretor Yuen Woo-ping e, em 1978, fez dois grandes clássicos da sua carreira: “Snake in the Eagle’s Shadow (Punhos de Serpente)” e “Drunken Master (O Mestre Invencível)”. Foi nesses dois filmes que ele se lançou no gênero de Kung Fu Comédia. Quando o contrato com Lo Wei estava para acabar, a Golden Harvest já entrou em contato e ofereceu a Jackie Chan uma proposta para dirigir seus filmes e um orçamento gigante. E assim nasceram grandes clássicos como “Projeto A” e “Police Story“.
Na década de 80, Jackie Chan revolucionou o cinema pelas lutas, usando objetos de cena, acrobacias e cenas perigosas que ele mesmo fazia, ou seja, ele não tinha dublê. Isso lhe rendeu muitos machucados, partes do corpo quebradas e muitas idas ao hospital. Esse novo estilo de luta que Jackie Chan trouxe e também a mudança desse cenário de estúdio fechado e cenários plásticos para um local mais urbano, fez com que a Shaw Brothers perdesse a relevância. Em 1985, ela encerra a produção de filmes focando a produção em um canal de TV, a TVB.

Nessa época houve um boom de filmes de artes marciais. Jackie Chan, Sammo Hung, Yuen Biao, Michelle Yeoh, Chow Yun-Fat eram nomes fortes do cinema oriental, mas surgiram grandes nomes ocidentais como Cinthia Rothrock e o próprio Jean-Claude Van Damme, responsável pelo grande clássico “Bloodsport” (o Grande Dragão Branco) (1988).
Na década de 90, houve uma crise no cinema em Hong Kong. Apesar de um nome grande, como Jet Li, surgir nessa época, aquela produção desenfreada dos filmes reduziu muito. Mas isso ocorreu por vários fatores como a repetição das fórmulas dos filmes e as produções ficaram “mais do mesmo”. Teve uma explosão de pirataria na época e também uma concorrência com Hollywood, onde os blockbusters na época estavam chamando mais atenção que o cinema local. Fora isso, em 1997 aconteceram dois fatores: uma crise financeira asiática e também a devolução de Hong Kong para a China. Nesse momento, os principais compradores de filmes, como Coreia do Sul, Taiwan e Sudestes Asiático pararam de importar filmes e houve uma instabilidade e tensão, que fez com que os astros e produtores de filmes fossem para os EUA.
Foi aí que nasceu uma grande parceria, Yuen Woo Ping, aquele que foi diretor dos primeiros filmes de sucesso de Jackie Chan, fez a coreografia do filme Matrix (1999). Foi um filme de grande sucesso que transformou a forma de luta do cinema ocidental. Os americanos não sabiam muito bem filmar essas cenas de luta então usava-se muitos cortes rápidos para esconder que o ator não sabia fazer. Yuen Woo Ping exigiu que os atores treinassem e tivessem contato com o kung fu pelo menos 6 meses antes para que pudessem fazer a luta mais real possível. Além disso, ele levou para os EUA a técnica Wire-fu, que é a luta com cabos, onde os atores podiam “flutuar” e desferir golpes com planos mais abertos, uma herança dos filmes de Wuxia dos anos 60 e 70, da Shaw Brothers. No filme conseguimos ver algumas referências a filmes chineses como as cenas de treinamento e, principalmente, existe uma referência a Bruce Lee, quando Neo tem uma postura corporal e faz o gesto com a mão chamando Morpheus.

Matrix abriu ainda mais as portas para os filmes de kung fu e, um ano depois, em 2000, veio o filme “O Tigre e o Dragão“, também coreografado por Yuen Woo Ping. Ele venceu quatro Oscars, sendo eles: Melhor filme estrangeiro, Melhor Fotografia, Melhor direção de Arte e Melhor Trilha Sonora Original. Essa foi a primeira vez na história que um filme chinês foi visto e valorizado por Hollywood.
Depois disso, os filmes de luta e ação estão cada vez mais refinados. Muitos filmes ainda utilizam dublês e coreógrafos de Hong Kong para as cenas de lutas. Hoje em dia é muito comum ter cenas com coreografias rápidas, utilização de artigos da cena nas lutas, golpes cada vez mais agressivos e desafiadores. Mas isso, com certeza, se deve muito à trajetória do filme chinês para o mundo do cinema. E não só para o cinema, mas para a divulgação da cultura chinesa para o mundo. Toda a narrativa construída em torno do kung fu, divulgando sua história pelos filmes, fez com que o Templo Shaolin se tornasse o templo mais famoso do mundo. Não pela sua vertente religiosa, mas por ser imortalizado pela cultura pop.
