Depois de 2 anos de espera, saiu a 3ª Temporada da série Warrior, que agora está sendo produzido e exibido oficialmente pela HBO Max, depois que a Cinemax abriu mão dos direitos da série.
Confesso que eu comecei a assistir e fiquei meio confusa com algumas coisas na história. Tive que rever a série inteira para recapitular alguns detalhes, e foi bom! Parece que a série me prendeu muito mais do que na primeira vez que assisti.
É uma série que, apesar de ter muita luta, ela puxa um contexto histórico gigante da Chinatown de São Francisco na Califórnia, mas claro, tem muita ficção envolvida.
Mas vamos ao que interessa, 3ª Temporada! (Contém muitos spoilers!)
Achei uma ótima temporada, que me prendeu de verdade. Todos os personagens tiveram uma construção e um crescimento muito significativo.
Primeiro, o nosso personagem principal Ah Sahm (Andrew Koji) finalmente foi colocado à prova de qual lado ele está nessa guerra entre as Tongs. Além disso, é um personagem que cresce muito como lutador e isso acaba colocando ele como uma pessoa de destaque em Chinatown. Isso com certeza abala o ego do novo líder dos Hop Wei, o Young Jun, interpretado por Jason Tobin.
Young Jun passa por alguns momentos de crise nessa temporada, pois ele quer se mostrar líder depois que ele “tirou” seu pai do poder, se assim podemos dizer, mas ao mesmo tempo ele não se sente à altura de ser o sucessor do seu pai. Isso gerou também uma insegurança perante seu amigo e subordinado, Ah Sahm, que acaba tendo uma maior confiança e respeito de todos de Chinatown, ainda mais após o episódio da invasão irlandesa no bairro. Além disso, Young Jun passa a ter uma desconfiança principalmente depois de descobrir que Ah Sahm e Mai Ling (Dianne Doan), líder da Tong rival, são irmãos.
As coisas também não ficam fáceis para Mai Ling, que é uma mulher extremamente ambiciosa, e quer expandir os negócios da Tong Long Zii, mas o que ela consegue é só mais desconfiança por parte dos conselheiros dos Long Zii.
Uma grande supresa foi o Mark Dacascos no elenco de Warrior com o personagem Kong Pak. Um clássico ator de artes marciais tinha que estar no elenco dessa série. Ele integra a história como líder de uma Tong que se funde com os Long Zii, fazendo com que ele faça parte do conselho. E claro, ele entrega grande cenas de luta na série.
Além da entrada de Kong Pak, tivemos dois novos personagens muito relevantes para a história: o policial Benjamin Atwood (Neels Clasen) e o Douglas Strickland (Adam Rayner). O policial Atwood tem um papel importante no contexto da xenofobia com relação aos asiáticos, que vem muito forte nessa temporada, sem contar que ele vira uma grande pedra no sapato do Sargento Bill O’Hara (Kieran Bew). Já o Strickland se utiliza de seu grande poder para manipular políticos, Dan Leary (Dean S. Jagger) e também a Ah Toy (Olivia Cheng) e Nellie Davenport (Miranda Raison), que acaba movimentando muito a história.
E claro, não poderia deixar de comentar que a filha de Bruce Lee, Shannon Lee, além de produtora executiva da série, também fez uma participação especial no episódio 6. Foi uma breve participação, porém, foi até que relevante para o desfecho do episódio.
Achei interessante ver como a política acaba interferindo em interesses e também em ideais, como foi o caso do Dan Leary. Depois de ver que ele não consegue muita coisa na força, Leary acaba indo pelo caminho da política, mas até nesse caminho ele descobre o quanto é difícil atender os seus interesses sem ter que abrir mão de algumas coisas e até mesmo passar por cima do próprio ego. Isso fez com que muitos dos seus apoiadores o questionassem se ele estava realmente a favor de seu povo.
Um tema que ficou claro foi a fragilidade da força feminina nessa época. Isso foi mostrado com as personagens de Ah Toy, Nellie Davenport e Mai Ling que foram, de certa forma, prejudicadas e silenciadas por homens que foram atrás dos seus interesses e, claro, foram beneficiados pela justiça.
Falando das mulheres, e a Penny Blake (Joanna Vanderham)? Ela e sua irmã, Sophie Mercer (Céline Buckens), não aparecem nessa temporada deixando uma ponta solta na história. Porém são tantos acontecimentos que não imagino ainda algo que elas pudessem ser úteis nessa temporada.
Se fosse para resumir essa temporada em uma palavra seria: Acordo.
Querendo ou não, todos os personagens se sustentaram e sobreviveram, por assim dizer, dentro da trama por meio de acordos feitos durante a temporada. E chega a ser engraçado como todos os personagens tem o “rabo preso” com alguém.
E as cenas de luta? Continuam muito boas e muito bem coreografadas. Achei que nessa temporada as cenas de quebramentos, cortes com facas e mortes estão mais explicitas. Isso faz com que eu elogie ainda mais os efeitos especiais.
A série continua mantendo o seu nível com ótimas cenas de luta e também com um contexto histórico e político muito rico, fora a cenografia e figurino que deixam a série ainda melhor. Mas vai ter continuação? Até a publicação desse artigo não temos nenhuma confirmação, mas o fim da série deixa algumas pontas soltas principalmente com o destino de Ah Sahm e sua irmã, Mai Ling.
É muito comum quando se fala em kung fu, ou qualquer outra arte marcial, que além de ensinar a luta, ela desenvolve muito a disciplina. Isso não deixa de ser verdade, pois a grande maioria das artes marciais tem seus princípios filosóficos.
No kung fu, por exemplo, falamos sobre o Wude, termo muito comum para nos referirmos aos princípios e ética marcial, entre eles estão respeito, disciplina, humildade, honestidade, paciência, entre outros. Mas para chegar nesses princípios, devemos entender que isso vem de uma grande influência de filosofias que predominavam a China na época. Confucionismo, Taoismo, Budismo são alguns nomes fortes que influenciaram muito o pensamento chinês, alguns chegam até colocar o Maoismo nessa influencia, mas como estamos falando de kung fu e ele nasceu bem antes da era de Mao Tse-Tung (1893-1976), nem vou comentar muito sobre ele.
Entender essas três linhas filosóficas, Confucionismo, Taoismo e Budismo, vai ficar muito claro visualizar a sua influência no Kung fu.
Budismo
O budismo surgiu com o o Sidarta Gautama(Buda), na Índia, no século V a.c, com ele veio o conceito do que é sofrimento que está nas Quatro Nobres Verdades e o Nobre Caminho Óctuplo que é basicamente o caminho para cessar esse sofrimento. Em linhas gerais, são condutas corretas como: Compreensão correta, Pensamento Correto, Palavra Correta, Ação correta, Meio de vida correto, Esforço correto, Plena atenção correta, concentração correta.
É no Nobre Caminho Óctuplo que vemos sua grande influência na filosofia do kung fu. Assuntos como compaixão, “não prejudicar o outro”, “não mentir”, “não matar e não roubar”, “obter o controle da mente”, “sabedoria e serenidade”, não são assuntos estranhos para quem é praticante, e podemos dizer que essa influência veio em peso com budismo.
Taoismo
A grande base da filosofia do Taoismo é o Tao. Sua tradução literal é o caminho, e segundo a Oldstone- Moore (2010), o Tao se refere a um poder anônimo, sem forma e que tudo permeia, que cria todas as coisas e reverte-as ao estado de não ser em um ciclo eterno.
Para os taoístas, seguir o caminho, seria seguir de acordo com o que é natural, com o fluxo da natureza, ou “como as coisas são”. Esse pensamento levou a busca da imortalidade do homem, por isso foi uma época de métodos de muita cura espiritual e física, dando destaque para o I-Ching (oráculo taoista), e o Tai Chi Chuan e Qi Gong, que surgiram nessa época como forma de cura física.
Confucionismo
O Confucionismo começou na China, e como o próprio nome já diz, seu fundador foi Confúcio. Ele viveu e cresceu em uma época de muita miséria devido às guerras que ocorriam nesse período. Isso foi uma grande fonte de inspiração para que ele criasse a própria filosofia em que pudesse mudar o conceito de sociedade. O ideal é que os governantes passassem governar para todos e não para si próprios.
Confúcio. Autor desconhecido (c. 1770)
Sua filosofia tem muitos conceitos de generosidade, virtude e amor pela humanidade. No kung fu, por exemplo, o confucionismo está presente em algumas virtudes como honra, respeito e sinceridade e até mesmo em meios de treinamento como “estar centrado” durante uma luta, achar o seu centro, algo que Confúcio falava que todos os seres humanos deviam achar.
A prática constante dos Taolus (ou Katis) também é uma forma de pensar de Confúcio. Para ele, a prática é um meio de alcançar a perfeição, a essência. O senso de justiça que aprendemos no kung fu, de quando usar o que sabemos, e utilizar somente para defesa, vem também dessa filosofia.
E por último, essa ideia de que nunca aprenderemos tudo do kung fu que sempre tem algo que temos que aprender e aperfeiçoar, também é uma visão confucionista. Atingir a perfeição e maestria depende de muitos anos de prática e estudos. E kung fu não é só socos e chutes, tem todo um estudo de saber aplicar a técnica de forma perfeita, saber aliar a técnica a força, potência, agilidade, ritmo, etc. E fora tudo isso, toda uma filosofia, uma história, um estudo para entender toda essa arte marcial. E vamos concordar, não é em 2 anos que você adquire tudo isso.
O kung fu definitivamente não é só forma ou só luta, mas puxando toda a sua história a sua construção de movimentos a partir de animais, por exemplo, e vendo o quão profundo é a sua filosofia, vemos como é complexo e rico essa arte marcial.
Finalmente chagamos a época de ouro dos filmes de artes marciais, onde grandes atores de artes marciais foram revelados. Sim! Estamos falando da década de 80 e um dos grandes nomes da época foi Jean Claude Van Damme.
Hoje não vou falar do filme que o revelou como um ator de filmes de artes marciais, mas sim de um grande sucesso, e sou muito suspeita de falar desse filme, que é “O Grande Dragão Branco”, ou “Bloodsport“, de 1988.
Esse filme é baseado em fatos reais da vida de Frank Dux (há controvérsias e eu explico aqui), interpretado pelo Van Damme, que é um militar americano que decide disputar um torneio super secreto e ilegal em Hong Kong, o Kumite. Esse torneio reúne os maiores lutadores de todo o mundo e a regra é que “não há regras”. Nesse torneio tudo pode, até a morte.
Nessa trama toda nos deparamos com personagens chaves, que são os policiais que estão atrás do Dux que acabou fugindo do exército para participar do torneio. A repórter que quer tirar informações do evento para escrever sua matéria. Temos também o mestre de Dux, o Sr. Tanaka, que protagoniza uma das melhores partes do filme, na minha opinião. E claro, o grande vilão do filme o Chong Li, interpretado por ninguém menos que o Bolo Yeung, quem não se lembra dele no filme Operação Dragão com o Bruce Lee? Ah! E temos o Jackson, o amigo que o Frank Dux fez no torneio, é relevante? é…. mas eu particularmente não gosto dele.
Bom, história e personagens apresentados… agora vamos para as partes relevantes!
Primeiro de tudo temos que destacar os filmes de artes marciais dessa época são totalmente “raiz”. Por que? Porque são realmente os atores que estão fazendo as cenas de luta sem efeito especial nenhum. E o mais importante sem pessoas voando e nenhuma “magia”, como está tendo nos filmes de hoje. E claro que temos que destacar que o Jean Claude Van-Damme vem do Karatê e do Kickboxing e a gente consegue ver isso no filme pela sua postura, pela sua habilidade em fazer os movimentos e os próprios chutes dele que são bem característicos, bem marcados e definidos. Bolo Yeung também tem sua experiencia em artes marciais, isso é fato, só foi meio difícil descobrir o que ele praticou mas é bem provável que seja Kung Fu.
Como todo filme de artes marciais dos anos 70/80 temos as cenas de treinamento clássicas, e como eu sempre falo, são as melhores! Frank Dux protagoniza ótimas cenas com seu Sensei, Mr. Tanaka. Como sempre é naquele cenário no fundo da casa do mestre, onde o aluno apanha pra caramba e a gente consegue ver a grande evolução. E é claro que não podia deixar de faltar a cena para mostrar o alongamento em espacate que o Van Damme sempre tem. É clichê, mas é um clássico.
No quesito lutas, acho que elas são muito bem coreografadas, até demais, mas isso não me incomoda, eu enxergo a luta nesses filmes mais fiéis ao real do que muitos filmes de hoje em dia que tem as pessoas voando, por exemplo. Eu sou um pouco suspeita, na verdade muito suspeita, porque eu gosto do estilo de filme dessa época. Como falei anteriormente, foi uma época importante para os filmes de artes marciais, tanto que realmente deu um boom nesse gênero. E quem ocidentalizou isso nos anos 70 foi o Bruce Lee, então considero esse período muito importante para a construção desse gênero de filme e que reflete até os dias de hoje.
O Grande Dragão Branco pode não ter o melhor roteiro ou as melhores atuações mas pra mim ele é um filme excelente, um clássico que eu ja vi milhões de vezes e não canso. Gosto do Van Damme, gosto das lutas, gosto da trilha sonora e claro que toda a ambientação em Hong Kong junto com a trilha sonora nos anos 80 é muito nostálgico e realmente me remete aos filmes de Bruce Lee.
Aqui está o trailer para vocês sentirem o gostinho de como é o filme.
Prefere conteúdo em vídeo? Assista o vídeo abaixo para um resumo visual deste artigo.
Pensei muito se colocaria esse filme aqui como um review, por um lado sim vale a pena pelas lutas por outro eu já entro em um campo de falar do filme em sua profundidade, que é o que faz o filme ser tão bom e grandioso. Mas como eu sempre venho aqui jogar um pouco de reflexões aos meus leitores, resolvi publicar esse artigo afim de abrir a mente para esse filme que não é um blockbuster, e segue um pouco mais essa linha independente, e claro não deixar de falar sobre as lutas.
Esse filme é um pouco complexo e qualquer informação adicional eu fico com receio de dar spoilers do filme. No geral é uma história que tem como personagem principal a Evelyn Wang (Michelle Yeoh), uma chinesa, que deixou seus pais para trás e foi viver nos EUA junto com seu marido, Waymond (Ke Huy Quan). Nos EUA, eles abrem uma lavanderia e tem uma filha a Joy (Stephanie Hsu). Além disso, o filme também conta com a grande atuação de Jamie Lee Curtis de Halloween (1978) e True Lies (1994).
Mas você deve estar se perguntando “por que um enredo tão simples faz o filme ser tão grandioso?”, e é aí que o filme começa. A grande sacada do filme é que eles abordam o conceito do multiverso, mas não é aquele multiverso que vemos nos filmes da Marvel, por exemplo, mas o filme usa desse recurso para trazer novos caminhos para a narrativa e criar um lugar que tudo é possível e pode acontecer. Isso causa um certo estranhamento no começo, mas depois você entende que tudo isso tem um significado mais profundo e dá mais densidade a narrativa. É um filme que traz uma montanha russa de emoções, um filme que você ri e se emociona o tempo inteiro.
Acredito que eu consegui explicar o filme sem dar muitos spoilers. E onde entra a luta nisso tudo?
Bom nessa loucura de multiversos, claro que não podia deixar de lado o kung fu tendo a Michelle Yeoh como protagonista, sem contar que o ator que interpreta seu marido na trama, Ke Huy Quan, é coordenador de dublê, seria um grande desperdício não usar dois grandes talentos.
As cenas de luta lembram demais os filmes do Jackie Chan, muito bem sincronizadas e também utilizam objetos de cena no meio da luta, tem umas cenas que até tem referência a Matrix (1999). Mas não podemos deixar de mencionar os grandes coreógrafos do filme: Andy Le e Brian Le, que além de terem coreografado as cenas de ação, protagonizaram as principais lutas com a Michelle Yeoh.
Andy e Brian são dublês e tem um projeto chamado Martial Club, onde eles gravam muitas cenas de lutas, às vezes com muito bom humor, coreografadas por eles mesmos inspirados em clássicos dos filmes de kung fu. Para quem não sabe Andy esteve recentemente no filme Shang-Chi e a Lenda dos Dez Anéis interpretando o Agente da Morte (Death Dealer).
Depois de ter colocado várias informações do filme vamos para as minhas considerações finais: Eu particularmente adorei o filme e recomendo muito. Inicialmente eu fui assistir o filme por conta da Michelle Yeoh, do Andy e do Brian Le, até porque eu já acompanho o trabalho deles há algum tempo, mas o filme me surpreendeu pela sua densidade e até em aspectos cinematográficos (isso é papo para outro lugar hahahaha) que a luta acaba sendo usada como um grande pano de fundo para o que a narrativa propõe.
Eu assisti esse filme no cinema e na época já tinha poucas sessões, ainda mais que ele não veio pra ser um grande blockbuster, mas em breve acredito que ele vai estar em algum streaming. De qualquer forma fica o trailer para vocês sentirem um pouco o filme.
O que eu vou propor hoje é sair “um pouco da caixinha”, como eu sempre proponho, e mostrar um outro lado sobre a relação de Bodhidharma e as artes marciais de Shaolin. Achei algumas informações importantes que acho válido escrever um artigo só sobre isso.
Primeiros de tudo temos que enfatizar que muitas fontes ignoram a história das artes marciais antes da chegada de Bodhidharma no Templo Shaolin. Acredito que o Templo teve sim sua grande contribuição e participação nas artes marciais, mas temos que levar em consideração que foi um tempo de muitas guerras e é muito provável o desenvolvimento de lutas nessa época, e nem os templos estavam isentos nisso.
O Livro de Wei (Weishu) diz que em vários templos foram confiscados armas, e um historiador chinês chamado Kang Gewu diz que os monges praticavam jiao li como esporte. Isso desmente a crença que os monges desconheciam sobre as artes marciais antes de Bodhidharma.
Bodhidharma caminha sobre um caule lançado nas águas do rio Yangtzé (Estela de Shaolin, 1624)
Bodhidharma era um monge indiano que foi para China, no monte Song, na região de Louyang. Embora tenha vivido na China entre o final do século V e o início do VI, a tradição marca sua chegada ao Templo Shaolin especificamente em 527 d.C., onde introduziu o Budismo Chan no país. Algumas obras mencionam que eles esteve na região como Registro dos Mosteiros Budistas em Luoyang (Luoyang qielan ji) de 547 e também nos Registros Preciosos das Transmissões do Dharma(chuanfa baoji), que foi escrita 2 séculos após a sua chegada, e nessa obra ele fala sobre o templo ser um lugar de meditação e onde ele formou seus discípulos do budismo Chan. Porém nenhum deles cita a relação do monge com as artes marciais.
No Registros Preciosos das Transmissões do Dharma também conta uma história famosa em que um dos discípulos de Bodhidharma, o Huike, amputa o próprio braço e dá ao monge para provar o desapego e em resposta ele foi levada a iluminação. Na obra Registro da Transmissão da Lâmpada do Período Jing (JIng de Chuangdeng lu), de 1004, acabou romantizando essa história.
O grande motivo de várias histórias serem atribuídas ao Bodhidharma é que os escritores chineses tem o hábito de atribuir escritos a figuras lendárias. Nesse caso, muitos textos atribuídos ao monge foram escritos anos ou até mesmo séculos após a sua morte, e muitos deles estão relacionados com Qi Gong e artes marciais. Alguns dos textos atribuídos a ele são: Metamorfose de Tendões (Yi Jin Jing), Dezoito Mãos de Luohan (Shi Ba Luo Han), Limpeza da Medula Óssea (Xisui Jing), por exemplo.
Existe uma lenda para a atribuição desses textos, onde Bodhidharma deixou uma caixa de ferro com todas as suas obras com seus discípulos antes de ir embora, e uma das obras que teria sobrevivido é a Metamorfose de Tendões (Yi Jin Jing), que na verdade foi escrita por um monge taoísta Zining do Monte Tiantai em 1624, onde ele escreveu dois prefácios que acabou falsamente atribuído aos famosos generais Li Jing (517-649) da dinastia Tang e Niu Gao (1087-1147) da dinastia Song. Mas já foi comprovado por historiadores de artes marciais que esse livro é uma mistura de lenda e fatos históricos.
Diante de todos esses fatos é difícil achar alguma relação dele com o Kung Fu, por exemplo. Mas é fato que ele sim esteve no Templo Shaolin para levar o Budismo Chan para a China. Além dos escritos no próprio templo tem a presença de algumas estelas (pedras com escritos) que mostram a relação do monge com o Templo Shaolin.
A mais antiga é de 728 d.C (Estela de Pei Cui) é famosa por descrever a ajuda dos monges de Shaolin ao futuro Imperador Taizong na batalha contra Wang Shichong. O fato de ela não mencionar Bodhidharma como instrutor marcial é revelador. Até mesmo nessa estela, que celebra a coragem militar dos monges, Bodhidharma não é citado como o mestre daquelas técnicas.
A relação de Bodhidharma com o Templo Shaolin é atestada por fontes epigráficas locais, como a estela de 798 d.C., que já reconhecia Huike como seu sucessor. No entanto, a narrativa detalhada e poética desse encontro — incluindo o famoso diálogo sobre ‘alcançar a medula’ — foi imortalizada mais de dois séculos depois na obra Registro da Transmissão da Lâmpada do Período Jing (Jingde Chuandeng Lu), de 1004 d.C. O famoso diálogo, que ecoa a tradição registrada na estela, descreve o seguinte:
Depois que nove anos se passaram Bodhidharma quis retornar ao oeste, para a Índia. Então, ele comandou seus discípulos, dizendo: “o tempo está próximo; cada um de vocês deveria dizer que alcançou”
Nesse momento, o discípulo Daofu respondeu: “Como eu vejo, a função do Tao consiste em não se ligar em escrituras e não ser parte das escrituras”.
O mestre respondeu: “você alcançou a minha pele”
A freira Zongchi disse: “Meu entendimento, agora, é de que isso é algo como a alegria de ver a terra búdica de Akshobhya: reconhecível a primeira vista, não reconhecível a segunda vista.”
O mestre respondeu: “você alcançou a minha carne”
Dayou disse: “Os quatro elementos são, na raiz, vazios, e os cinco skandhas não tem existência; do meu ponto de vista, não há um único darma que possa ser alcançado”
O mestre respondeu: ” você alcançou meus ossos”.
Finalmente, Huike, depois de fazer uma prostração, apenas permaneceu em seu lugar. O mestre falou: “Você alcançou a minha medula.”
Nesse texto a expressão “você alcançou a minha medula” foi para expressar metaforicamente que ele atingiu a essência dos ensinamentos, e que mais tarde isso ganharia uma interpretação totalmente diferente como na tentativa de associar Bodhidharma a arte marcial de Shaolin associando a “medula” com o nome de uma manual secreto – O Clássico da Limpeza da Medula (Xisui Jin) – que o Bodhidharma supostamente teria dado ao seu discípulo. Nessa obra contém as ginásticas secretas que permaneceu em segredo por mais de um milênio, e no século VII ele ressurgiu milagrosamente para influenciar as artes marciais.
A devoção ao Bodhidharma era tão grande no mosteiro de Shaolin que em 1125, época que o budismo Chan estava ganhando mais popularidade, construíram um templo à 800 metros do mosteiro em sua homenagem. No templo você pode encontrar uma grande pedra com a imagem do monge gravada, pois acredita-se que ele ficou 9 anos meditando na caverna que sua sombra ficou impressa na pedra.
Diz a lenda que existe uma técnica famosa atribuída a ele o “18 Lohan Shou” (18 mãos de Luohan” que inicialmente foi criado para aumentar a vitalidade dos monges, com uma vertente mais energética. Porém sabemos que a sistematização marcial veio de séculos de evolução interna dos monges.
Em resumo, Bodhidharma só esteve no Templo Shaolin para levar o Budismo Chan, o que acaba enfraquecendo a história que muitos conhecem sobre ele ter influenciado diretamente nas artes marciais. Ele pode ter influenciado de alguma forma? Pode! Quem sabe outros textos e evidências não sejam achados para nos provar o contrário? Mas eu não estou aqui para dizer o que é certo ou errado, mas sim para te mostrar o outro lado da história.
Recentemente recebi um comentário de um de nossos leitores aqui do nosso site, e ele perguntava o que havia acontecido com a academia e os alunos de Bruce Lee. Eu achei a pergunta muito legal, até porque acho que acabei ignorando esse fato todo esse tempo conhecendo a história de Bruce Lee. Ok, ele nasceu na China, foi para os EUA, montou a sua academia, criou seu estilo de luta, foi para o Cinema e faleceu.
E realmente olhando para essa “ordem cronológica” existe uma ponta solta, o que aconteceu com a sua academia, o Jun Fan Gung Fu Institute, e seus alunos?
A primeira pessoa que veio na minha cabeça foi Dan Inosanto, e de primeira foi nele que eu pensei que continuou seu legado, acho que é o nome mais conhecido na verdade. Mas na hora eu fui buscar se a escola dele tinha o mesmo nome da escola de Bruce Lee, e não tinha. Enfim, fui buscar pelo nome da escola, e já estava esperando encontrar escolas pequenas que podem ter se apropriado do nome, até para tentar vender o Jeet Kune Do “mais fácil”. Sim, tem muitas pessoas que dizem ensinar Jeet Kune Do, cuidado para não cair nessa, pesquisem bem a origem de todo esse conhecimento, até onde sei poucos no mundo são realmente certificados, enfim… vamos parar com a polêmica…
Voltando as minhas buscas eu achei uma página no Facebook e acabei entrando no site dessa página. Lendo, vi que sim, era realmente o site da academia e, sim, ela existe! O grande responsável pela academia é o Taky Kimura.
Taky Kimura
Taky Kimura nasceu em 12 de março de 1924, em Clallam Bay, Washington, EUA. Ele era descendente de japoneses, e ele e sua família logo foram colocados em campo interno durante a segunda guerra mundial, porque eles eram japoneses, mesmo ele sendo um cidadão americano.
Nós argumentamos com eles porque o sistema educacional nos disse que somos iguais perante a constituição. Mas então (quando a guerra veio) tudo de repente mudou e fomos colocamos em campos internos, mesmo que a gente fosse cidadãos. o Serviço de seletiva nos colocou numa categoria 4y, que era uma classificação extraterrestre , e eles nos falaram que tinham boatos que eles iam nos pegar e nos levar para uma ilha assim que eles pudessem se livrar de nós. De qualquer forma, eles nos colocaram em um campo.
Taky Kimura
No pós guerra, Taky conseguiu sair desse campo e foi em busca de trabalho, mas não conseguia um trabalho descente com o sentimento anti-japoneses do povo americano, isso o deixou desmoralizado e sem motivação. E foi nessa época, em 1959, que ele conheceu Bruce Lee. Ele, na época, tinha 18 anos e era cheio de energia, enquanto Taky tinha 36 anos e estava mentalmente devastado, mas Bruce começou a anima-lo, incentivando-o a comprar roupas novas para ele se sentir mais humano, uma vez que Taky ficava todo mal vestido e sem ânimo nenhum. Bruce o incentivou em tantas coisas, que Taky começou a se sentir melhor e logo se tornaram grandes amigos, tanto que ele foi padrinho de casamento de Bruce e Linda Lee.
Taky, Bruce e Linda Lee
Taky assim que conheceu Bruce, já começou a treinar com ele se tornando um dos primeiros alunos de Bruce Lee nos EUA, ao lado de Jesse Glover, James DeMile, Ed Hart, Skipp Ellsworth e LeRoy Garcia. Taky foi aluno e assistente de Lee e juntos eles praticavam e treinavam muito.
Bruce tinha um respeito muito grande por Taky, principalmente por sua moral, e desde 1964, Taky é instrutor do Jun Fan Gung Fu Institute em Seattle. Na verdade, ele foi o primeiro instrutor da academia de Lee, e foi ele que assumiu a academia quando Bruce decidiu ir para a California tentar a carreira como ator. Bruce chegou a chamá-lo para ir com ele, mas Taky decidiu ficar e se dedicar a academia.
Taky e Bruce
Taky nunca aceitou alguma compensação por seu trabalho em nome do Bruce Lee, e, além de ter ter carregado o caixão após a morte de Bruce, ele cuidou muito discretamente de seu túmulo por 30 anos. Isso demonstra muito a relação muito profunda que eles tinham um pelo outro. Ele é um homem muito respeitado na comunidade de Bruce Lee, e é um exemplo muito positivo do impacto da filosofia de Bruce Lee. Tanto que Taky e mais duas pessoas no mundo foram pessoalmente certificadas por Bruce Lee para ensinar sua arte marcial, o Jun Fan Gung Fu e o Jeet Kune Do. As outras pessoas são Dan Inosanto e James Yimm Lee (Nenhuma relação com Bruce Lee).
Infelizmente, Taky kimura morreu em sua casa dia 7 de janeiro de 2021, aos 96 anos, e deixou alguns instrutores certificados de Jun Fan Gung Fu, e um deles é seu filho Andy Kimura, que ainda dá aula no Jun Fan Gung Fu, em Seattle.
Abaixo fica um vídeo de um mini documentário sobre Taky Kimura. E agradeço o nosso leitor pelo insight de trazer um tema diferente para o nosso site!
Jet Li, ou Li Lianjie (nome de batismo), nasceu dia 26 de Abril de 1963, em Beijing na China. Ele era o caçula de cinco filhos, e a vida de sua família não foi fácil depois da morte de seu pai, quando ele tinha dois anos.
Em 1971, quando tinha oito anos ele se matriculou na escola Beijing Amateur Sports, onde começou a estudar Wushu em um programa de verão. Ele foi um dos poucos estudantes que continuaram o treino depois desse programa, e nessa época já era visível o talento que ele tinha para artes marciais, seus treinadores Li Junfeng e Wu bin foram os que mais se esforçaram para ajudar a aprimorar suas técnicas. Jet li atingiu um nível tão bom, que aos nove anos ele ganhou um prêmio de excelência no Campeonato Nacional de Wushu. Devido sua grande habilidade e velocidade no Wushu, seu apelido virou Jet, e que acabou dando origem ao seu nome artístico.
Jet Li e o Time de Wushu
Wu Bin teve um papel importante para a vida de Li, pois após a morte do pai, ele e sua família viveram na pobreza, e Bim chegou a comprar carne para o Jet Li e para a família, até porque a alimentação era muito importante na vida de um atleta.
Em 1974, ele ganhou seu primeiro campeonato nacional, e acabou fazendo uma turnê mundial para fazer algumas apresentações, e uma delas é muito conhecida onde ele se apresenta para o Presidente Richard Nixon, na Casa Branca dos EUA. O presidente dos EUA até o chama para ser seu guarda costas pessoal, e o pedido foi negado por Li.
Jet Li e Presidente dos EUA Richard Nixon
Quando ele tinha doze anos ele sofre um pequeno acidente em um campeonato, os Jogos Nacionais da China, cortando sua cabeça com o seu Facão (Dao), mas isso não impediu que ele ficasse em primeiro lugar. Ele era muito talentoso a ponto de ganhar um título, em 1979, de Campeão Nacional de Wushu na China.
Meu primeiro lugar me causou uma grande sensação porque eu era muito jovem. Eu tinha 12 anos, e os outros dois medalhistas tinham entre 20 e 30 anos. Durante a cerimônia de premiação, enquanto eu estava no topo do pódio, eu era ainda pequeno do que o segundo e o terceiro lugar. Deve ter sido uma visão e tanto.
Jet Li China’s Internet Celebrity
Alguns estilos de wushu que o Jet Li é especialista: Chang Quan (punho longo do Norte) e Fanzinquán. Outros estilos e acabou estudando como Baguazhang, taijiquan, Xing Yi Quan, Zui Quan (Estilo do Bêbado), Ying Zhao Quan (Garra de águia)e Tanglangquan (Louva-a-deus). Ele também tem grande habilidades em algumas armas como Sanjiegun (bastão de 3 seções), Gun (Bastão longo de Wushu), Dao (Facão), jian (espada reta).
Aos 18 anos, Jet li decidiu se aposentar do Wushu, depois de uma lesão no joelho, mas ele continuou sendo assistente de treinador do time de Beijin de Wushu por alguns anos.
Li decide seguir sua carreira no cinema, e em 1982, saiu o filme Shaolin Temple, e foi um sucesso na China, e logo ele já virou um astro. O filme fez tanto sucesso que ele acabou filmando mais duas sequências. Em 1986, ele se aventurou em dirigir um filme, o Born to Defend (Nascido para Vencer), mas não fez muito sucesso.
Em 1987, Jet li se casa com a estrela do filme Kids from Shaolin, e também membro o time de wushu de Beijing, Huang Qiuyan, com quem teve duas filhas, mas se divorciaram em 1990.
Em 1988, ele decidiu ir para os EUA para tentar uma carreira de sucesso no país, mas ele conseguiu nenhum grande papel, até porque ele não tinha um inglês muito bom. Jet Li acaba indo para Hong Kong, e nessa época os filmes de kung fu estavam no auge, e ele consegue um grande papel, em 1991, em Once Upon A Time in China (Era uma vez na China) interpretando o Wong Fei Hung e nos filmes do Fong Sai-Yuk.
Jet Li como Fong Sai Yuk (1993)
Outros filmes muito conhecidos desse período foram Tai Chi Master (Batalha de Honra – 1993); Fist of Legend (Lutar ou Morrer – 1994) que foi um remake do clássico do Bruce Lee, Fist of Fury (Dragão Chinês); e claro que tem muitos outros títulos que para uma fã como eu já vi vários, mas tentei deixar os mais relevantes.
No meio da década de 90, foi um período conturbado para o cinema chinês, essa influência negativa no cinema veio da má fase da economia asiática e também de algumas coisas da China Comunista. Isso deixou Jet Li cansado preparado para se aposentar. Ele acabou focando bastante na sua vida espiritual estudando Budismo Tibetano, mas seu mentor disse para ele continuar no seu trabalho.
Logo Jet Li conseguiu um papel em um filme americano, Lethal Weapon 4 (Máquina Mortífera 4), para interpretar o vilão do filme, com Mel Gibson e Danny Glover no elenco. Nessa época, ele se mudou para Los Angeles e faz um intensivo de inglês para fazer o filme. Foi o grande salto na carreira do Jet Li, que ficou muito conhecido na América, e muitos dizem que ele foi o grande destaque do filme. Seu próximo sucesso americano foi Romeo Must Die (Romeu Tem que Morrer), uma adaptação urbana da obra de Shakespeare, Romeu e Julieta. Jet Li foi muito elogiado pela revista Time, e o filme arrecadou $100 milhões.
Jet Li com Danny Glover e Mel Gibson em Máquina Mortífera 4 (1998)
Em 1999, ele se casa com Nina Li, uma atriz de Hong Kong, com quem teve mais duas filhas. E em uma entrevista ele disse que recusou o papel de Li Mu Bai, que foi dado ao Chow Yun-Fat, do sucesso Crouching Tiger, Hidden Dragon (O Tigre e o Dragão), pois ele havia prometido para a sua esposa que não aceitaria nenhum trabalho quando ela engravidasse. Além desse trabalho, ele recusou outros papeis como interpretar o Seraph na trilogia de Matrix, pois ele acreditava que o papel não precisaria das suas habilidade e que o filme já era icônico e impressionante para colocar o nome dele no elenco. O nome de Li também estava no elenco do remake de The Green Hornet, para interpretar Kato, nos anos 2000, mas houve mudanças de estúdio em 2001, e quando o filme foi pra frente isso era só em 2011 e o papel já ficou com o ator Jay Chou.
Depois do nascimento da sua filha, Jet Li já viajou para Paris para gravar Kiss of the Dragon(O Beijo do Dragão), onde ele interpreta um policial que luta contra a corrupção na polícia francesa. Esse filme foi dirigido e produzido por Luc Besson com Bridget Fonda no elenco. Foi outro grande sucesso de ação, porém Jet Li postou uma nota falando que a classificação indicativa do filme era alta e não era apropriado para crianças, e que o próximo filme, The One (O Confronto) seria mais indicado para a família.
The One chegou em 2001 e não foi muito bem aceito pela crítica. Nesse filme Jet Li interpretava dois personagens, um era bom e outro era o “do mal”. Depois desse filme, ele volta para a China para fazer o filme Hero (Herói), que saiu em 2002, do diretor Zhang Yi Mou, interpretando o papel de um guerreiro na China antiga. O filme fez muito sucesso, chegando a ganhar $17.8 milhões na primeira semana, um record para um filme asiático. Além disso, o filme concorreu concorreu ao Oscar de Filme estrangeiro em 2003.
Jet Li em Herói (2002)
Em 2003, depois do sucesso de Hero, Jet Li deu a voz e também fez algumas cenas de luta para o jogo do PlayStation 2, Rise to Honor e também participou do filme Cradle 2 the Grave (Contra o Tempo), do mesmo produtor de Romeu Must Die (Romeu tem que Morrer), e em 2005, fez o filme Unleashed (Cão de Briga).
Jet Li é muito ligado com a espiritualidade, medita pelo menos 1 hora por dia, e ele sempre olhou seu trabalho como uma forma de mostrar a filosofia do budismo pelas artes marciais para os americanos. Mas em uma entrevista para o Men’s Health, ele disse que estava triste que as pessoas só davam importância para as lutas.
Sempre que eu trabalho nos EUA, as pessoas mais jovem falam ‘Yeah Jet Li! Você chuta (bunda), blá, blá, blá’. Às vezes me sinto triste, porque eu só mostrei para eles que artes marciais machucam pessoas. Eu não tive a oportunidade de mostrar para eles que a coisa mais importante não é chuta (a bunda) de pessoas. Se você entende a cultura ocidental e oriental, você vai entender o equilíbrio do Yin-Yang. Talvez voce cresça. A arte marcial tem três níveis, o primeiro é físico, fazendo seu corpo uma arma; o segundo é usando a psicologia para ajudar nas batalhas; e o terceiro é alcançar a paz interior.
Jet Li
A espiritualidade é tão presente em Jet Li que ele chegou a passar 3 meses no Tibet estudando Budismo. E uma entrevista ele conta que não teme a morte e que pensamentos como esse fazem com que viver o presente seja mais precioso. Esse fortalecimento espiritual faz com que ele também consiga lidar bem com o sucesso e o fracasso.
Jet Li estava nas Ilhas Maldivas quando houve uma tsunami no sul da Ásia, em dezembro de 2004. Ele e sua filha de quatro anos estavam no lobby do hotel quando a onda veio. Ele acabou machucando seu pé quando ele tentava correr para se salvarem. Logo depois ele posto uma mensagem falando que ele estava bem e incentivou as pessoas a ajudarem os sobreviventes da tsunami.
Jet Li em o Mestre das Armas (2006)
Em 2006, ele foi estrela do filme Fearless (O Mestre das Armas), interpretando o famoso Huo Yuanjia e nessa época ele falou que seria seu último filme de Wushu. O filme foi um sucesso de bilheteria nos EUA chegando em segundo lugar no primeiro final de semana.
Eu entrei no cinema de artes marciais quando eu tinha apenas 16 anos. Eu acho que eu provei minha habilidade nesse campo e não faria sentido para mim continuar por mais 5 ou 10 anos. Huo Yuanjia é a conclusão para a minha vida como uma estrela de artes marciais.
Jet Li
Apesar de declarar seu o seu último filme de Wushu, ele disse que continuaria fazendo filmes de outros gêneros. Ele planejou continuar atuando em filmes de artes marciais onde ele lidaria mais com questões de religião e filosofia.
Em 2007, ele fez o filme War com o Jason Statham, mas foi um fracasso de bilheteria nos EUA, comparado com grandes sucessos como Kiss of the Dragon, Unleashed, e até mesmo Fearless. No final desse ano ele retornou para a China e participou do filme The Warlords com o Andy Lau e Takeshi Kaneshiro, um filme mais denso e dramático onde ele recebeu o prêmio de melhor ator no Hong Kong Film Award.
Jackie Chan e Jet Li nos bastidores de O Reino Proibido (2008)
Jackie Chan e Jet Li finalmente fazem um filme juntos em 2008, The Forbidden Kingdom (O Reino Proibido), baseado na lenda chinesa do Rei Macaco. Também nesse ano ele fez o vilão, Imperador Han, no filme The Mummy: Tomb of the Dragon Emperor (A Múmia: a Tumba do dragão Imperador) ao lado de Michelle Yeoh e Brendan Fraser.
Longe dos dos cinemas, em 2009, Jet Li lançou seu programa de exercícios físicos chamado Wuji. Esse programa é uma mistura de artes marciais, yoga e pilates. Em 2011, ele e Jack Ma criaram o Taiji Zen, um programa online combinando o Taijiquan e práticas de meditação.
Depois de uma janela sem aparecer nos cinemas, Jet Li aparece nos cinemas com o filme The Expendables (Os Mercenários), em 2010, com um grande elenco dos filmes de ação. Esse filme ganhou sequência em 2012 e 2014. Na China, em 2011, ainda participou de algumas produções de Wuxia (um tipo de gênero de filme que envolve fantasia e artes marciais) como The Sorcerer and the White Snake e Flying Swords of Dragon Gate . Uma das suas últimas produções recentes é o Live-Action de Mulan, que estreou em 2020 na Disney, onde ele interpreta o imperador da China.
Jet Li (direita)
Uma das últimas noticias que chocaram os fãs foi uma foto publicada em 2018, em que o ator parece muito debilitado e envelhecido. Na verdade ele sofre de hipertireoidismo desde 2010, uma doença que pode acelerar seu coração mesmo em repouso e mudar o metabolismo do corpo. Devido a isso ele não pode exercícios físicos excessivos. Mas, segundo ele, seu sumiço nos cinemas não foi por conta de sua doença, mas por conta de seus trabalhos filantrópicos, onde ele é muito engajado.
No nosso último artigo (se não conferiu, pode clicar aqui), falamos sobre a pré história até a idade de ferro, na dinastia Qin, com o início do Shoupo (手搏)(sanda) e Juedi (角抵)(shuai jiao) na China.
Xiongnu – Fonte: South China Morning Post
Continuaremos nossa história com a Dinastia Han(207 a.C – 220 d.C), e nesse período a China estava travando várias batalhas contra os Xiongnu, que eram uma tribo do norte da China. Eles utilizavam um facão de um fio (pp), que era muito mais barato, durável e mais fácil de treinar do que a espada de dois fios (Jian 劍) do exército chinês. O exército de Han conseguiu derrotar a tribo de Xiongnu.
Um termo muito popular na época para artes marciais era o Wuyi(武藝). Esse termo incluía: tiro com arco, cavalaria, levantamento de peso, shoupo, juedi, combate desarmado, luta com armas e sparring.
Imperador Wu
Os mais populares eram o shoupo(sanda) e o juedi (shuai jiao), e quem ajudou nessa popularidade foi o Imperador Wu(141 – 87 a.C), que era praticante de juedi e organizava competições que atraía muitos espectadores. O shoupo era praticado com short, não utilizavam luvas e não tinham regras muito seguras. O juedi era mais seguro, os competidores não podiam golpear ou chutar e ainda ganhavam pontos jogando o oponente no chão.
Nessa época, os mestres da espada eram muito populares e respeitados, e não era só restrito aos homens, mulheres também eram muito habilidosas nessa arte. As técnicas de espada eram passada como se fossem em Taolu (套路), e as mulheres da época faziam performances com esses Taolu como se fossem uma dança, mas também havia disputas entre artistas marciais muito bem treinados.
A dinastia Han contribuiu muito para as informações que temos hoje sobre o Kung Fu. Foram escritos vários documentos nessa época com táticas de guerra, textos sobre espada, métodos de tiro, e houve alguns escritos sobre o shoupo, mas, infelizmente, esses textos não foram encontrados, e esses métodos foram conhecidos por outras fontes. O historiador Ma Mingda (马明达) fala que o shoupo incluía 4 elementos básicos da luta sem armas: golpear com as mãos (da), chutar (ti),derrubar (shuai) e controlar as articulações (na). Apesar de estarem presentes na dinastia Han, ele se consolidou de forma mais clara em períodos posteriores.
Em 1973, foi encontrado na província de Hunan, uma pintura em seda, datada da dinastia Han, que mostra pessoas fazendo uma série de exercício. Não se sabe ao certo o significado dessas imagens, uns falam que é um manual de kung fu, outros falam que é um exercício de ginástica (Dao Yin (导引).
L0036007 Daoyin tu – chart for leading and guiding people in exercise Credit: Wellcome Library, London. Wellcome Images images@wellcome.ac.uk http://wellcomeimages.org Daoyin tu – chart for leading and guiding people in exercise for improving health and treatment of pain, containing animal postures such as bear walk. This is a reconstruction of a ‘Guiding and Pulling Chart’ excavated from the Mawangdui Tomb 3 (sealed in 168BC) in the former kingdom of Changsha. The original is in the Hunan Provincial Museum, Changsha, China. Poster 20th Century Published: –
Copyrighted work available under Creative Commons Attribution only licence CC BY 4.0 http://creativecommons.org/licenses/by/4.0/
No período de 220-280 d.C, acaba a dinastia Han e começa o Período de Três Reinos, e é considerado um dos períodos mais sangrentos da China, e também foi marcada por uma era taoísa e pela expansão do budismo.
Nessa época, o shoupo era praticado por todos os níveis da sociedade, e até grande pensadores tinham interesse nas artes marciais. Taolu de armas e mãos foram criados com o intuito das técnicas não serem esquecidas, mas havia uma grande diferença entre as formas para lutas e demonstrações.
Mais ou menos nessa época que Bodhidharma veio da Índia para a China para espalhar o budismo, em 527 d.C, ele chegou no Templo Shaolin,e inicialmente ele só veio espalhar o budismo Chan.
Mas, diz a tradição, ele percebeu que os monges estavam fisicamente despreparados, e não aguentavam horas de meditação. Logo Bodhidharma introduziu uma série de exercícios, que podemos associar ao Qi Gong afim de melhorar a condição física dos monges. Segundo ele corpo e mente são inseparáveis.
Esses exercícios acabaram influenciando o desenvolvimento do Kung Fu Shaolin. Um exemplo claro é a técnica 18 mãos de Luohan (18 Lohan Shou) que nasceu para dar vitalidade e como o passar do tempo os monges perceberam que essa técnica dava força, coordenação e que os movimentos imitavam ações naturais como empurrar, desviar, e acabaram aplicando isso em combate também.
Embora essa seja a narrativa tradicional, historiadores modernos como Meir Shahar demonstram que as artes marciais de Shaolin se desenvolveram organicamente devido à necessidade de autodefesa e ao status militar do templo, e não por um único monge indiano.
O desenvolvimento do Templo Shaolin após a passagem de Bodhidharma tornou-se um marco porque, até então, as técnicas de luta eram predominantemente militares, focadas apenas no combate. Com a influência da filosofia budista trazida por ele, consolidou-se, ao longo dos séculos, uma nova metodologia: a união entre saúde interna (Qi Gong) e treinamento marcial. Foi essa integração que permitiu a virada de chave do ‘saber lutar’ para o ‘praticar uma arte’.
Isso foi uma grande inspiração que, séculos mais tarde, surgisse diversas ramificações de estilos e escolas que conhecemos hoje.
Bodhidharma
Entramos na Dinastia Tang (618-906 d.C), e foi nesse período que a China foi unificada novamente. Nessa época, eles começaram a fazer exames imperiais para selecionar guerreiros para os altos cargos, com graduações de distritos e províncias para nível nacional. As modalidades inclusas nessa prova eram cavalaria, luta no solo, técnicas de lança, uso de várias armas, arquearia, levantamento de peso e estratégias militares.
Shoupo e juedi continuaram populares, mas surgiu uma nova modalidade de wrestling, o Xiangpu (相扑) ou Jueli (角力). Nessa técnica eles lutavam com uma tanga e um elástico no cabelo. Essa modalidade pode ter contribuído com a origem do sumô japonês.
Xiangpu (相扑) e Jueli (角力) são a mesma coisa, porém são termos para épocas diferentes. Jueli é um termo mais comum nos manuais militares um termo que siginifica literalmente “medir forças” muito comum entre as Dinastias Han e Tang. O xiangpu é essa técnica em forma de espetáculo. Um termo que ganhou mais força entre as Dinastias Tang e Song. A título de curiosidade, o Xiangpu da Dinastia Song permitia golpes de mão aberta e chutes baixos. Enquanto o Jueli focava em força nos troncos e braços, basicamente o agarrar.
A Dinastia Song (960-1279 d.C.) foi marcada pelo surgimento de escolas e academias militares oficiais.
Imperador Taizu
Diz a tradição que o próprio fundador da dinastia, o Imperador Taizu, era um mestre de artes marciais renomado. Ele criou um estilo próprio, o Taizu Changquan (a técnica de Punho Longo), que se tornou tão respeitado que acabou sendo incorporado ao currículo do Templo Shaolin e incentivou toda a população a praticar para a defesa do império.
O kung fu era conhecido nessa época como wuyi, e muitos clubes de artes marciais foram criados, muitos artistas marciais experientes viajavam para fazer demonstrações públicas de suas técnicas. O mais interessante é que a maioria desses artistas eram mulheres, mas vale destacar que elas eram artistas de rua profissionais.
“Grand Classic of Martial Arts” (O grande Clássico de Artes Marciais)ou em chinês Wujing Zongyao (武经总要), foi escrito nesse período, contendo estratégias e treinamentos militares, e também contava histórias de batalhas importantes antes da Dinastia Song.
Reprodução do Livro: Wujing Zongyao (武经总要)
Chega um momento da história da China que eles são governados por mongóis, na dinastia Yuan (1260-1368 d.C), e uma das medidas tomadas foi a proibição da prática de artes marciais e da posse de armas. Mas uma modalidade de wrestling, de origem mongol, o Zuojiao (zuò jiǎo – 坐脚), ficou popular na China. Essa técnica influenciou diretamente o que conhecemos hoje como Shuai Jiao (摔跤). Ela está ligada ao ato de “derrubar” ou “fazer cair”. Foi nesse período que começou o uso das jaquetas resistentes (de lona ou couro) e se tornou padrão nas lutas, algo que os mongóis já usavam.
Com a proibição de armas para os chineses, as artes marciais foram preservadas secretamente através de dramas teatrais e danças, mascarando a técnica marcial em performances.
Na Dinastia Ming (1368-1644 d.C), além do termo wuyi, o kung fu também era conhecido como quanfa (técnicas de punho). Nessa época as técnicas de demonstração e as técnicas marciais começaram a ficar mais distintas. Os generais do exército faziam competição de lutas entre soldados e os profissionais de kung fu faziam apresentações com técnicas mais “floreadas”.
Assim como Bodhidharma, a atribuição de estilos à personagens é considerada lendária. A partir da dinastia Ming, começam a aparecer os primeiros registros de estilos como o Taijiquan e Louva-a-Deus, por exemplo, mas não há registos históricos que comprovem quem foi o real fundador do estilo. Isso tudo faz com que a gente veja a grandeza do kung fu. É um patrimônio construído por gerações.
Aqui entramos em um terreno fascinante onde a lenda e a história se encontram. Segundo a tradição, o estilo Louva-a-Deus foi criado por Wang Lang (王朗). Porém, se olharmos para os registros históricos, não encontramos evidências diretas dele. Isso não tira o valor da arte; mostra que o Kung Fu era tão precioso que os antigos preferiam atribuí-lo a heróis lendários para preservar sua importância.
Um estilo de Kung Fu raramente nasce de uma pessoa só, como um estalo de dedos.
É difícil apontar um único ‘pai’ para esses estilos porque o Kung Fu funciona como um rio que vai recebendo afluentes. O Taijiquan que praticamos hoje é a soma de séculos de conhecimento da família Chen, influências taoistas e técnicas militares. Figuras como Zhang Sanfeng (张三丰) simbolizam o espírito da arte, mesmo que a história documental nos aponte caminhos mais complexos.
Muitas dessas figuras lendárias foram associadas aos estilos durante períodos de resistência política, como na Dinastia Qing. Atribuir uma técnica a um monge imortal ou a um general heróico como Yue Fei (岳飛) era uma forma de dar moral aos rebeldes e manter a cultura chinesa viva contra os invasores.
Na China antiga, a linhagem era tudo. É como se fosse um selo de qualidade. Uma coisa é falar que eu inventei um soco outra coisa é falar que esse soco é o estilo secreto do General Yue Fei.
O que ajudou também nessas lendas foi a literatura. História com heróis com poderes e estilos incríveis circulavam pela China, então o povo passava a acreditar nessas histórias.
Voltando ao General Yue Fei, só para vocês terem uma noção sobre ficção e realidade, ele viveu na Dinastia Song, mas quase todos os estilos que dizem ter sido criados por ele (Garra de Águia, Xingyiquan) só aparecem em registros escritos séculos depois, durante a Dinastia Ming ou Qing.
Já o General Qi Jiguang (戚继光) (Dinastia Ming) escreveu manuais reais, o Ji Xiao Xin Shu (纪效新书), citando estilos que existiam na sua época, e ele raramente mencionava fundadores lendários; ele focava na eficácia militar.
Reprodução do Livro Ji Xiao Xin Shu (纪效新书)
Em resumo, as lendas não foram “mentiras” criadas para enganar, mas uma forma de resistência cultural. Em tempos de guerra e ocupação, ligar o Kung Fu a figuras como Yue Fei ou Bodhidharma mantinha o orgulho do povo chinês vivo e dava aos praticantes um propósito maior do que apenas lutar: eles estavam carregando o legado dos seus maiores heróis.
As artes marciais chinesas se expandiram para o Japão, quando o mestre Chen Yuan Bian, em 1638, foi ensinar técnica de agarramento/torção (Chin Na) a três ronins no templo Azabu em Edo, que podem ter influenciado alguma linhagem do Jiu-Jitsu.
Os manchus dominaram a China na Dinastia Qing (1644–1911 d.C), e para eles as artes marciais chinesas tinham que estar no exército e não entre a população, até porque eles tinham medo de rebeliões. Eles temiam que o Kung Fu fosse usado como ferramenta para o lema: “Derrubar os Qing, restaurar os Ming” – 反清復明” (Fǎn Qīng fù Míng).
Foi um período de grande crescimento para os estilos internos no norte, como o Taijiquan(太極拳), o Xingyiquan(形意拳) e o Baguazhang(八卦掌) — este último muito popular entre os guardas imperiais. Já no sul, prevaleceu a linhagem de Shaolin. Segundo a tradição, o Mosteiro de Fujian tornou-se um foco de resistência contra os Manchus, o que levou à sua destruição e à fuga de mestres para o sudeste asiático. Esse movimento de resistência ajudou a preservar as técnicas que, séculos depois, chegariam ao Ocidente.
Revolução de Xinhai (1911)
Com a queda da Dinastia Qing e a Revolução de 1911, o Kung Fu deixou de ser uma ferramenta puramente militar para se tornar um símbolo de identidade nacional. Organizações como a Jin Wu, de Huo Yuanjia, e mais tarde o governo chinês com a criação do Wushu moderno, transformaram o Kung Fu no fenômeno cultural e esportivo que atrai praticantes do mundo todo até hoje.
Em 1928, o governo de Kuomintang mudou o termo wushu para Guoshu(国术), que significa “Arte Nacional”, que passou a ter forma muito floreadas de demonstração. Quando o Partido Comunista, em 1949, substituiu o governo, foi feita uma grande campanha para resgatar os grande períodos das artes marciais chinesas, que passou a ser chamada de wushu novamente.
Nessa época foi feito comitês nacionais, e até distritais para promover o wushu, fizeram escolas e faculdades especializadas, muitos times viajaram o mundo para fazer demonstrações e foram publicados vários livros com muitos conteúdos sobre wushu, assim como foram criados vários torneios nacionais e internacionais.Uma das grandes contribuições do governo chinês foi a restauração do Templo Shaolin que atrai praticantes do mundo todo.
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O termo Kung Fu não é um registro muito comum nas escritas históricas, ele é um termo mais moderno e utilizado no século 20. Nas escritas históricas tem mais de 40 termos que fazem referência ao Kung Fu, e o mais comum deles é o Wushu (武術) e Wuyi(武藝), sendo esse último mais utilizado pois sua tradução literal se aproxima mais a palavra arte marcial.
Já é de conhecimento que o homem pré histórico usava um pedaço de pau para se defender ou até mesmo caçar. Na China, por exemplo, na província de Yunnan, e também em outros locais, foi encontrado pinturas pré históricas que retratam a luta de homens com animais.
Pinturas Rupestres em Cangyuan – Província em Yunnan
Há registros na China de armas feitas de pedras como facas e pontas de lança, mais ou menos do período paleolítico. Já no período Neolítico, há estudos que as armas já foram aprimoradas, utilizando além de pedra, ossos, e ainda mais afiadas. Na província de Yuannan, existem pinturas rupestres do Neolítico que representam caçadas nas quais se pode observar técnicas específicas de ataque, como atacar a partir de uma posição superior (zha) e atacar a partir de uma posição frontal (ci).
Na província de Shanxi, foi encontrado indícios de uso de pedra polida para ataque a distância, há mais ou menos 700 mil anos. Essas armas eram feiras com pedras de rios e vulcões, e algumas armas eram feitas dessas pedras amarradas em cordas que podiam até ser amarradas no braço para ser mais fácil de se achada.
Balestra Chinesa
Depois que essa arma caiu em desuso, veio o arco e flecha e há relatos que ela foi antecessora da balestra, um tipo de arco que atirava pedras. Foi encontrado na jazida arqueológica de Miaotigou (província de Henan ), alguns resto que parecem ser de balestras.
Representação de besteiros chineses, a manobrar Cho-ko-nu, em batalha naval
Com o passar do tempo as armas de caça não são suficientes para a batalha, por essa razão começa a ter o desenvolvimento de armas militares: lanças, armas de arremesso, martelos de guerra, bastão, escudo.
Nessa época não havia escola dedicadas ao treinamento, mas esses conhecimentos eram passados de geração para geração. Nos períodos que não havia luta eles faziam danças baseadas nos movimentos de luta, os taolus podem ter vindo dessa época.
Nas dinastias Hsia ou Xia(2070 a.C – 1600 a.C) e Shang (1600 a.C-1046 a.C) as armas eram feitas de cobre e bronze. Nessa época surgiu algumas armas que conhecemos hoje, como facão chinês (dao), lança, adaga, e equipamentos de guerra como capacetes. As primeira escolas de artes marciais apareceram nessa época com o ensino de arco e flecha, que será bem popular e importante nas dinastias seguintes. Nessa época também houve o surgimento dos carros de combate, que eram puxados por dois ou 4 cavalos.
Carros de Guerra
Na dinastia Zhou (1046 a.C – 256 a.C), com o aumento de treinamento militar, foi criado rotinas para treinar os soldados, e algumas delas eram acompanhadas de músicas, criando um estilo de dança militar (Wuwu 武舞).
Nessa época o Kung Fu era conhecido pelos termos Quanyong (拳勇) (luta de punho), focado na eficiência bruta. Essa luta também ganhou extrema importância na dinastia Qin, após o desarme da população. Outro termo conhecido foi o Shoupo (手搏) (combate de mãos) que consistia em golpes com palma e punho, projeções e imobilizações.
Essas duas técnicas são as mais próximas que conhecemos como o Wushu e o Sanda. É do Quanyong que vieram as técnicas de punho, o Quanfa (拳法).
Também nessa época, foi desenvolvido um sistema sofisticado com filosofias profundas, como Yin-Yang (陰陽), Bagua (八卦) (8 trigramas) e Wu Xing (五行) (5 elementos) que são a base da Medicina Chinesa.
Durante o período de guerra (480-221 a.C) vários governos deram muita importância para as artes marciais, tanto que houve uma estreita relação entre o treinamento marcial e intelectual. Confúcio, por exemplo, achava importante que quem fosse da área acadêmica, também fizesse o treinamento marcial. Essa relação é bem presente no livro, que foi escrito nessa época, “A arte da Guerra” de Sun Tzu, que, para quem não conhece, fala sobre estratégias de combate e que hoje é muito utilizado no mundo dos negócios.
Técnicas conhecidas como Jiji (技擊)(técnicas de luta) e Xiangpo (相搏)(competição de combate), e tiro com o arco e lutas com cavalo foram essenciais para a formação marcial.
Hoje na China, quando acadêmicos usam o termo Wushu Jiji (武術技擊) é para se referir a aplicação real das técnicas e o que funciona no combate, o que diferencia do Taolu (套路).
Mas as artes marciais não era exclusivo de elites, classes mais baixas também tiveram acessos, tanto que em algumas pesquisas do historiador chinês Kang Gewu, houve uma revolta em 841 a.C, e nesses relatos há indício de lutas armadas por pessoas comuns.
No período da Primavera e do Outono(722 – 481 a.C), quando a China foi dividida em pequenos reinos, foi caracterizado pelo aumento da alfabetização, e também o ferro tornou-se mais barato e mais abundante que o estanho (material utilizado para a fabricação de bronze), possibilitando a criação das primeiras armas de ferro como: espada de dois gumes, facas, lanças e também acessórios militares como os capacetes.
E por fim, entramos na dinastia Qin (221 – 206 a.C), um período muito controverso, pois foi muito focado na busca da imortalidade.
Imperador Qin Shi Huang
Qin Shi Huang, primeiro imperador da dinastia Qin e que deu inicio a um governo militar, foi responsável por unificar toda a China com o seu exército bem treinado derrubando todas as muralhas e exércitos, e acabando com o feudalismo.
Também ordenou o envio de todas as armas que a população possuía para a capital para que fossem derretidas e transformadas em sinos e estátuas de bronze. Foi um governo muito rígido e burocrático, e promoveu a primeira grande queima de livros e escritos da história da China, na tentativa de extinguir a diversidade cultural . Mas também foi responsável pela padronização da escrita, da moeda e dos pesos e medidas.
Nessa época que foi construída a Grande Muralha, afim de delimitar as conquistas dele e também se proteger dos nômades do norte (Xiongnu). Uma curiosidade, é que os Guerreiros de Terracota é justamente o exército do Imperador Qin, que foram feitos para serem enterrados junto com seu túmulo, no intuito de protegê-lo na sua vida pós morte.
Guerreiros de Terracota
O Imperador acabou introduzindo as modalidades de shoupo (sanda) e Juedi (角抵)(luta agarrada similar ao wrestling e futuramente virou o Shuai Jiao (摔跤)), em que os competidores lutavam um um lugar cercado, como esporte militar oficial nas cerimônias. Essas duas modalidades podem ter contribuído para o inicio do Sanda e do wrestling no mundo.
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Em outubro desse ano de 2020 caótico vai estrear, no canal Cinemax, a 2ª temporada de Warrior, uma série baseada nos escritos de Bruce Lee encontrados pela sua filha Shanon Lee.
A série mal estreou em 2019 e já foi renovada para uma segunda temporada, e eu vou te dizer o porquê ela mereceu ser renovada.
A série se passa em 1878, na Chinatown de São Francisco. Uma época de grande imigração chinesa nos EUA, uma vez que a mão de obra deles era mais barata do que a de americanos ou outros imigrantes.
O foco central da série está em torno do personagem Ah Sahm, interpretado pelo ator Andrew Koji, um imigrante chinês que chega nos EUA e que acaba se envolvendo com a famosa Guerra de Tong da Chinatown, devido a sua grande habilidade marcial. Sim, as Guerras de Tong, ou melhor a rivalidade entre as gangues chinesas de Chinatown são bem reais e bem violentas.
Como eu falei, as Guerras de Tong foram bem violentas e a série passa muito isso. As lutas são muito bem feitas, e tem muito sangue nos 10 episódios dessa temporada.
Mas o que me fascinou mais na série é que eu consegui ver muito o Bruce Lee. Eu, que particularmente gosto muito do Bruce Lee, consegui enxergar ele na série inteira, e também grandes referências de seus próprios filmes.
Primeiro, a série tem um ar meio “western”ou, no português mais claro, um ambiente mais “velho-oeste”, isso me remeteu muito na época que Bruce Lee escreveu essa série, onde os filmes de cowboys estavam muito em alta, fora que a própria série “Kung Fu”, que o Bruce Lee tentou entrar como personagem principal tinha também essa história de kung fu misturado com o Western. Mas não posso afirmar que isso foi escrito antes ou depois da série Kung Fu, as vezes pode ter sido só uma coincidência.
Outra referência que eu já peguei de cara na primeira cena da série foi quando o Ah Sahm desembarca nos EUA. A sua postura e a roupa é igual de Bruce Lee no filme “The Big Boss” (O Dragão Chinês – 1971). O estilo de luta é igual do Bruce Lee, e dá até gosto de ver.
Ah Sahm interpretado por Andrew Koji
Agora um pequeno spoiler, o personagem Ah Sahm se envolve com uma garota loira americana, e existe a questão de um chinês estar namorando uma americana. Vi muito o relacionamento do Bruce Lee com a Linda Lee.
Na série também tem muito a questão da prostituição e do tráfico de drogas, temas muito presentes nos filmes de Bruce Lee, mas me remeteu em particular o filme “Enter the Dragon” (Operação Dragão – 1973). Talvez o próprio Bruce Lee tirou suas inspirações das histórias de seus filmes na própria Chinatown de São Francisco com as Guerras de Tong.
Em resumo, a série me deu um pouco de nostalgia, talvez de sentir o trabalho do Bruce Lee como se ele ainda estivesse vivo. Acho que deu para perceber como eu sou fã, ou pelo menos gosto muito do trabalho dele, mas fora isso, vale muito a pena assistir a série porque a própria história te prende pelas guerras das Tong, que eu nem detalhei muito para não dar muitos spoilers já que tem muitas reviravoltas, e também pelas cenas de ação, não tem como não gostar. A série teve um bom desfecho e deixou aquela vontade de ver uma segunda temporada.