Tag: kungfudoc

  • Tudo em Todo Lugar ao Mesmo Tempo

    Tudo em Todo Lugar ao Mesmo Tempo

    Pensei muito se colocaria esse filme aqui como um review, por um lado sim vale a pena pelas lutas por outro eu já entro em um campo de falar do filme em sua profundidade, que é o que faz o filme ser tão bom e grandioso. Mas como eu sempre venho aqui jogar um pouco de reflexões aos meus leitores, resolvi publicar esse artigo afim de abrir a mente para esse filme que não é um blockbuster, e segue um pouco mais essa linha independente, e claro não deixar de falar sobre as lutas.

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    Fonte: Columbus Monthly – https://tinyurl.com/msjxayxp

    Esse filme é um pouco complexo e qualquer informação adicional eu fico com receio de dar spoilers do filme. No geral é uma história que tem como personagem principal a Evelyn Wang (Michelle Yeoh), uma chinesa, que deixou seus pais para trás e foi viver nos EUA junto com seu marido, Waymond (Ke Huy Quan). Nos EUA, eles abrem uma lavanderia e tem uma filha a Joy (Stephanie Hsu). Além disso, o filme também conta com a grande atuação de Jamie Lee Curtis de Halloween (1978) e True Lies (1994).

    Mas você deve estar se perguntando “por que um enredo tão simples faz o filme ser tão grandioso?”, e é aí que o filme começa. A grande sacada do filme é que eles abordam o conceito do multiverso, mas não é aquele multiverso que vemos nos filmes da Marvel, por exemplo, mas o filme usa desse recurso para trazer novos caminhos para a narrativa e criar um lugar que tudo é possível e pode acontecer. Isso causa um certo estranhamento no começo, mas depois você entende que tudo isso tem um significado mais profundo e dá mais densidade a narrativa. É um filme que traz uma montanha russa de emoções, um filme que você ri e se emociona o tempo inteiro.

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    Fonte: BuzzFeed.News – https://tinyurl.com/2chyrxx2

    Acredito que eu consegui explicar o filme sem dar muitos spoilers. E onde entra a luta nisso tudo?

    Bom nessa loucura de multiversos, claro que não podia deixar de lado o kung fu tendo a Michelle Yeoh como protagonista, sem contar que o ator que interpreta seu marido na trama, Ke Huy Quan, é coordenador de dublê, seria um grande desperdício não usar dois grandes talentos.

    As cenas de luta lembram demais os filmes do Jackie Chan, muito bem sincronizadas e também utilizam objetos de cena no meio da luta, tem umas cenas que até tem referência a Matrix (1999). Mas não podemos deixar de mencionar os grandes coreógrafos do filme: Andy Le e Brian Le, que além de terem coreografado as cenas de ação, protagonizaram as principais lutas com a Michelle Yeoh.

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    Brian Le, Michelle Yeoh e Andy Le
    Fonte: Entertainment – https://tinyurl.com/3r89b4sr

    Andy e Brian são dublês e tem um projeto chamado Martial Club, onde eles gravam muitas cenas de lutas, às vezes com muito bom humor, coreografadas por eles mesmos inspirados em clássicos dos filmes de kung fu. Para quem não sabe Andy esteve recentemente no filme Shang-Chi e a Lenda dos Dez Anéis interpretando o Agente da Morte (Death Dealer).

    Depois de ter colocado várias informações do filme vamos para as minhas considerações finais: Eu particularmente adorei o filme e recomendo muito. Inicialmente eu fui assistir o filme por conta da Michelle Yeoh, do Andy e do Brian Le, até porque eu já acompanho o trabalho deles há algum tempo, mas o filme me surpreendeu pela sua densidade e até em aspectos cinematográficos (isso é papo para outro lugar hahahaha) que a luta acaba sendo usada como um grande pano de fundo para o que a narrativa propõe.

    Eu assisti esse filme no cinema e na época já tinha poucas sessões, ainda mais que ele não veio pra ser um grande blockbuster, mas em breve acredito que ele vai estar em algum streaming. De qualquer forma fica o trailer para vocês sentirem um pouco o filme.

  • Bodhidharma e o Templo Shaolin

    Bodhidharma e o Templo Shaolin

    O que eu vou propor hoje é sair “um pouco da caixinha” como eu sempre proponho e mostrar um outro lado sobre a relação de Bodhidharma e as artes marciais de Shaolin. Achei algumas informações importantes que acho válido escrever um artigo só sobre isso.

    Primeiros de tudo temos que enfatizar aqui que muitas fontes ignoram a história das artes marciais antes da chegada de Bodhidharma no Templo Shaolin. Acredito que o Templo teve sim sua grande contribuição e participação nas artes marciais, mas temos que levar em consideração que foi um tempo de muitas guerras e é muito provável o desenvolvimento de lutas nessa época, e nem os templos estavam isentos nisso.

    Segundo Acevedo, Gutiérrez e Cheung (2011, p.41) O Livro de Wei (Weishu) diz que vários templos foram confiscado armas, e um historiado chinês chamado Kang Gewu diz que os monges praticavam jiao li como esporte. Isso desmente a crença que os monges desconheciam sobre as artes marciais antes de Bodhidharma.

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    Bodhidharma caminha sobre um caule lançado nas águas do rio Yangtzé (Estela de Shaolin, 1624)

    Bodhidharma era um monge indiano que foi para China, no monte Song, na região de Louyang nos anos de 480 e foi ele quem introduziu o budismo Chan no país de 480- 520. Algumas obras mencionam que eles esteve na região como Registro dos Mosteiros Budistas em Luoyang (Luoyang qielan ji) de 547 e também nos Registros Preciosos das Transmissões do Dharma(chuanfa baoji), que foi escrita 2 séculos após a sua chegada, e nessa obra ele fala sobre o templo ser um lugar de meditação e onde ele formou seus discípulos do budismo Chan. Porém nenhum deles cita a relação do monge com as artes marciais.

    No Registros Preciosos das Transmissões do Dharma também conta uma história famosa em que um dos discípulos de Bodhidharma, o Huike, amputa o próprio braço e dá ao monge para provar o desapego e em resposta ele foi levada a iluminação. Na obra Registro da Transmissão da Lâmpada do Período Jing (JIng de Chuangdeng lu), de 1004, acabou romantizando essa história.

    O grande motivo de várias histórias serem atribuídas ao Bodhidharma é que os escritores chineses tem o hábito de atribuir escritos a figuras lendárias. Nesse caso, muitos textos atribuídos ao monge foram escritos anos ou até mesmo séculos após a sua morte, e muitos deles estão relacionados com Qi Gong e artes marciais. Alguns dos textos atribuídos a ele são: Metamorfose de Tendões (Yi Jin Jing), Dezoito Mãos de Luohan (Shi Ba Luo Han), Limpeza da Medula Óssea (Xishui Jing), por exemplo.

    Segundo Acevedo, Gutiérrez e Cheung (2011, p.44), existe uma lenda para a atribuição desses textos, onde Bodhidharma deixou uma caixa de ferro com todas as suas obras com seus discípulos antes de ir embora, e a única obra que teria sobrevivido é a Metamorfose de Tendões (Yi Jin Jing), que na verdade foi escrita por um monge taoísta Zhongheng do Monte Tiantai em 1624, onde ele escreveu dois prefácios que acabou falsamente atribuído aos famosos generais Li Jing (517-649) da dinastia Tang e Niu Gao (1087-1147) da dinastia Song. Mas já foi comprovado por historiadores de artes marciais que esse livro é uma mistura de lenda e fatos históricos.

    Diante de todos esses fatos é difícil achar alguma relação dele com o Kung Fu, por exemplo. Mas é fato que ele sim esteve no Templo Shaolin para levar o Budismo Chan para a China. Além dos escritos no próprio templo tem a presença de algumas estelas (pedras com escritos) que mostram a relação do monge com o Templo Shaolin. A mais antiga é de 728 e a de 798 relata o episódio com o Huike.

    A obra Registro da Transmissão da Lâmpada do Período Jing é citada na estela de Shaolin:

    Depois que nove anos se passaram Bodhidharma quis retornar ao oeste, para a Índia. Então, ele comandou seus discípulos, dizendo: “o tempo está próximo; cada um de vocês deveria dizer que alcançou”

    Nesse momento, o discípulo Daofu respondeu: “Como eu vejo, a função do Tao consiste em não se ligar em escrituras e não ser parte das escrituras”.

    O mestre respondeu: “você alcançou a minha pele”

    A freira Zongchi disse: “Meu entendimento, agora, é de que isso é algo como a alegria de ver a terra búdica de Akshobhya: reconhecível a primeira vista, não reconhecível a segunda vista.”

    O mestre respondeu: “você alcançou a minha carne”

    Dayou disse: “Os quatro elementos são, na raiz, vazios, e os cinco skandhas não tem existência; do meu ponto de vista, não há um único darma que possa ser alcançado”

    O mestre respondeu: ” você alcançou meus ossos”.

    Finalmente, Huike, depois de fazer uma prostração, apenas permaneceu em seu lugar. O mestre falou: “Você alcançou a minha medula.”

    Segundo Shahar(2011, p.12), nesse texto a expressão “você alcançou a minha medula” foi para expressar metaforicamente que ele atingiu a essência dos ensinamentos, e que mais tarde isso ganharia uma interpretação totalmente diferente como na tentativa de associar Bodhidharma a arte marcial de Shaolin associando a “medula” com o nome de uma manual secreto – O Clássico da Limpeza da Medula (Xisui Jin) – que o Bodhidharma supostamente teria dado ao seu discípulo. Nessa obra contém as ginásticas secretas que permaneceu em segredo por mais de um milênio, e no século VII ele ressurgiu milagrosamente para influenciar as artes marciais.

    A devoção ao Bodhidharma era tão grande no mosteiro de Shaolin que em 1125, época que o budismo Chan estava ganhando mais popularidade, construíram um templo à 800 metros do mosteiro em sua homenagem. No templo você pode encontrar uma grande pedra com a imagem do monge gravada, pois acredita-se que ele ficou 9 anos meditando na caverna que sua sombra ficou impressa na pedra.

    Em resumo, Bodhidharma só esteve no Templo Shaolin para levar o Budismo Chan, o que acaba enfraquecendo a história que muitos conhecem sobre ele ter influenciado nas artes marciais. Ele pode ter influenciado de alguma forma? Pode! Quem sabe outros textos e evidências não sejam achados para nos provar o contrário? Mas eu não estou aqui para dizer o que é certo ou errado, mas sim para te mostrar o outro lado da história.

  • Kung Fu Origens: Pré História – Idade de Ferro

    Kung Fu Origens: Pré História – Idade de Ferro

    O termo Kung Fu não é um registro muito comum nas escritas históricas, ele é um termo mais moderno e utilizado no século 20. Nas escritas históricas tem mais de 40 termos que fazem referência ao Kung Fu, e o mais comum deles é o “Wushu” e “Wuyi“, sendo esse último mais utilizado pois sua tradução literal se aproxima mais a palavra arte marcial.

    Já é de conhecimento que o homem pré histórico usava um pedaço de pau para se defender ou até mesmo caçar. Na China, por exemplo, na província de Yunnan, e também em outros locais, foi encontrado pinturas pré históricas que retratam a luta de homens com animais.

    Há registros na China de armas feitas de pedras como facas e pontas de lança, mais ou menos do período paleolítico. Já no período Neolítico, há estudos que as armas já foram aprimoradas, utilizando além de pedra, ossos, e ainda mais afiadas. Segundo Acevedo, Gutiérrez e Cheung (2011), na província de Yuannan, existem pinturas rupestres do Neolítico que representam caçadas nas quais se pode observar técnicas específicas de ataque, como atacar a partir de uma posição superior (zha) e atacara a partir de uma posição frontal (ci).

    Na província de Shanxi, foi encontrado indícios de uso de pedra polida  para ataque a distância, há mais ou menos 700 mil anos. Essas armas eram feiras com pedras de rios e vulcões, e algumas armas eram feitas dessas pedras amarradas em cordas que podiam até ser amarradas no braço para ser mais fácil de se achada.

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    Balestra

    Depois que essa arma caiu em desuso, veio o arco e flecha e há relatos que ela foi antecessora da balestra, um tipo de arco que atirava pedras. foi encontrado na jazida arqueológica de Miaotigou (província de Henan ), alguns resto que parecem ser de balestras.

    Com o passar do tempo as armas de caça não são suficientes para a batalha, por essa razão começa a ter o desenvolvimento de armas militares: lanças, armas de arremesso, martelos de guerra, bastão, escudo.

    Nessa época não havia escola dedicadas ao treinamento, mas esses conhecimentos eram passados de geração para geração. Nos períodos que não havia luta eles faziam  danças baseadas nos movimentos de luta, os taolus podem ter vindo dessa época.

    Nas dinastias Hsia (2070 AEC – 1600 AEC) e Shang (1600 AEC-1046 AEC) as armas eram feitas de cobre e bronze. Nessa época surgiu algumas armas que conhecemos hoje, como facão chinês (da dao), lança, adaga, e equipamentos de guerra como capacetes. As primeira escolas de artes marciais apareceram nessa época com o ensino de arco e flecha, que será bem popular e importante nas dinastias seguintes. Nessa época também houve o surgimento dos carros  de combate, que eram puxados por dois ou 4 cavalos. 

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    Carros de Guerra

    Na dinastia Zhou (1046 AEC – 256 AEC), com o aumento de treinamento militar, foi criado rotinas para treinar os soldados, e algumas delas eram acompanhadas de músicas, criando um estilo de dança militar (wu wu). Nessa época o Kung Fu era conhecido pelos termos quanyong (luta de punho) e shoupo (combate de mãos), e foi desenvolvido um sistema sofisticado com filosofias profundas, como  yin-yang, baguá e wu-xing.

    Durante o período de guerra (480-221 BCE) vários governos deram muita importância para as artes marciais, tanto que houve uma estreita relação entre o treinamento marcial e intelectual. Confúcio, por exemplo, achava importante que quem fosse da área acadêmica, também fizesse o treinamento marcial. Essa relação é bem presente no livro, que foi escrito nessa época, “A arte da Guerra” de Sun Tzu, que, para quem não conhece, fala sobre estratégias de combate e que hoje é muito utilizado no mundo dos negócios.

    Técnicas conhecidas como jiji (técnicas de luta) e xiangpo (combate interno), e tiro com o arco e lutas com cavalo foram essenciais para a formação marcial. Mas as artes marciais não era exclusivo de elites, classes mais baixas também tiveram acessos, tanto que em algumas pesquisas do historiador chinês Kang Gewu, que houve uma revolta em 841 a.C, e nesses relatos há indício de lutas armadas por pessoas comuns.

    No período da Primavera e do Outono(722 – 481 AEC), quando a China foi dividida em pequenos reinos, foi caracterizado pelo aumento da alfabetização, e também o ferro tornou-se mais barato e mais abundante que o estanho (material utilizado para a fabricação de bronze), possibilitando a criação das primeiras armas de ferro como: espada de dois gumes, facas, lanças e também acessórios militares como os capacetes. 

    E por fim, entramos na dinastia Qin (221 – 206 AEC), um período muito controverso, pois foi muito focado na busca da imortalidade. Qin Shi Huang, primeiro imperador da dinastia Qin e que deu inicio a um governo militar, foi responsável por unificar toda a China com o seu exército bem treinado derrubando todas as muralhas e exércitos, e acabando com o feudalismo. Segundo Acevedo, Gutiérrez e Cheung (2011), ordenou a destruição de todas as armas que a população possuía e seu envio para a capital para que fossem derretidas e transformadas em sinos e estátuas de bronze. Foi um governo muito rígido e burocrático, e segundo Antunes (2014), ele promoveu a primeira grande queima de livros e escritos da história da China, na tentativa de extinguir a diversidade cultural . Nessa época que foi construída a Grande Muralha, afim de delimitar as conquistas dele. Uma curiosidade, é que os Guerreiros de Terracota é justamente o exército do Imperador Huang, que foram feitos para serem enterrados junto com seu túmulo, no intuito de protegê-lo na sua vida pós morte.

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    Guerreiros de Terracota

    Ele acabou introduzindo as modalidades de shoupo (boxe) e juedi (wrestling), em que  os competidores lutavam um um lugar cercado, como esporte militar oficial nas cerimônias.  Essas duas modalidades podem ter contribuído para o inicio do boxe e do wrestling no mundo.

    Após essa dinastia Qin, entraremos na dinastia Han e na idade do Aço, onde as técnicas de artes marciais começam a ficar mais parecidas com o Kung Fu que conhecemos hoje, mas deixarei esse assunto para um novo artigo!

  • Warrior – 1ª Temporada

    Warrior – 1ª Temporada

    Em outubro desse ano de 2020 caótico vai estrear, no canal Cinemax, a 2ª temporada de Warrior, uma série baseada nos escritos de Bruce Lee encontrados pela sua filha Shanon Lee.

    A série mal estreou em 2019 e já foi renovada para uma segunda temporada, e eu vou te dizer o porquê ela mereceu ser renovada.

    A série se passa em 1878, na Chinatown de São Francisco. Uma época de grande imigração chinesa nos EUA, uma vez que a mão de obra deles era mais barata do que a de americanos ou outros imigrantes.

    O foco central da série está em torno do personagem Ah Sahm, interpretado pelo ator Andrew Koji, um imigrante chinês que chega nos EUA e que acaba se envolvendo com a famosa Guerra de Tong da Chinatown, devido a sua grande habilidade marcial. Sim, as Guerras de Tong, ou melhor a rivalidade entre as gangues chinesas de Chinatown são bem reais e bem violentas.

    Como eu falei, as Guerras de Tong foram bem violentas e a série passa muito isso. As lutas são muito bem feitas, e tem muito sangue nos 10 episódios dessa temporada.

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    Mas o que me fascinou mais na série é que eu consegui ver muito o Bruce Lee. Eu, que particularmente gosto muito do Bruce Lee, consegui enxergar ele na série inteira, e também grandes referências de seus próprios filmes.

    Primeiro, a série tem um ar meio “western”ou, no português mais claro, um ambiente mais “velho-oeste”, isso me remeteu muito na época que Bruce Lee escreveu essa série, onde os filmes de cowboys estavam muito em alta, fora que a própria série “Kung Fu”, que o Bruce Lee tentou entrar como personagem principal tinha também essa história de kung fu misturado com o Western. Mas não posso afirmar que isso foi escrito antes ou depois da série Kung Fu, as vezes pode ter sido só uma coincidência.

    Outra referência que eu já peguei de cara na primeira cena da série foi quando o Ah Sahm desembarca nos EUA. A sua postura e a roupa é igual de Bruce Lee no filme “The Big Boss” (O Dragão Chinês – 1971). O estilo de luta é igual do Bruce Lee, e dá até gosto de ver.

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    Ah Sahm interpretado por Andrew Koji

    Agora um pequeno spoiler, o personagem Ah Sahm se envolve com uma garota loira americana, e existe a questão de um chinês estar namorando uma americana. Vi muito o relacionamento do Bruce Lee com a Linda Lee.

    Na série também tem muito a questão da prostituição e do tráfico de drogas, temas muito presentes nos filmes de Bruce Lee, mas me remeteu em particular o filme “Enter the Dragon” (Operação Dragão – 1973). Talvez o próprio Bruce Lee tirou suas inspirações das histórias de seus filmes na própria Chinatown de São Francisco com as Guerras de Tong.

    Em resumo, a série me deu um pouco de nostalgia, talvez de sentir o trabalho do Bruce Lee como se ele ainda estivesse vivo. Acho que deu para perceber como eu sou fã, ou pelo menos gosto muito do trabalho dele, mas fora isso, vale muito a pena assistir a série porque a própria história te prende pelas guerras das Tong, que eu nem detalhei muito para não dar muitos spoilers já que tem muitas reviravoltas, e também pelas cenas de ação, não tem como não gostar. A série teve um bom desfecho e deixou aquela vontade de ver uma segunda temporada.

    Assista o trailer:

  • Bastão de Shaolin

    Bastão de Shaolin

    Temos certeza que os monges de Shaolin são especialistas na arte do bastão, mas suas informações e registros vem em forma de lendas.

    A primeira lenda é sobre os rebeldes, conhecidos como “Turbantes Vermelhos” (紅巾起義), tentaram atacar o Mosteiro de Shaolin, mas foram impedidos de atacar pelo Jinnaluo, ou em sânscrito Vajrapani, que tornou-se um gigante armado com um bastão, que acabou espantando os rebeldes.

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    Estela de Vajrapani (Narayana) de 1517 pelo abada Wenzai. O guerreiro está segurando um bastão.

    Vajrapani é um Bodhidattva protetor de Buda, que segundo a lenda, estava reencarnado em um modesto monge que trabalhava nos fornos carregando lenha. Existe várias versões sobre essa história, e a mais antiga registrada é a estela de 1517, com autoria do abade de Wenzai (1454 – 1524), A Divindade Narayana Protege a Lei e Expõe Sua Natureza Divina (Naluoyan shen hufa shiji):

    No vigésimo-sexto dia do terceiro mês do décimo-primeiro ano (xinmao) do período Zhizheng (22 de abril de 1351), na hora si (entre 9 e 11 horas da manhã), quando o levante dos Turbantes Vermelhors  (Hongjin) em Yingzhou [na atual Anhui ocidental] acabara de se iniciar, uma multidão de saqueadores chegou no mosteiro. Havia um santo (shengxian) em Shaolin, que até então tinha trabalhado na cozinha do mosteiro. Por vários anos, ele dedicadamente carregara lenha e conduzira o fogão. Seu cabelo era desgrenhado e ele estava sempre descalço. Vestia apenas suas calças e seu tronco estava sempre descoberto. Da manhã até a noite dificilmente pronunciava uma palavra, nunca chamando atenção de seus irmãos monges. Seu sobrenome era o nome de seu local de nascimento e seu primeiro nome era desconhecido. Ele cultivava constantemente todas as atividades de iluminação (wan xing).

    No dia que os Turbantes Vermelhos chegaram no mosteiro, o bodisatva empunhava um atiçador de fogo (huogun) e se manteve magistralmente sozinho no topo do destacado da colina. Os Turbantes Vermelhos ficaram horrorizados com sua imagem e fugiram, quando, então, ele desapareceu. As pessoas procuraram por ele, mas nunca mais foi visto. Apenas, então, as pessoas se deram conta de que era um Bodisatva expondo sua natureza divina. Desde então, se tornou o protetor das leis de Shaolin (hufa) e ocupou o lugar do “espírito guardião” do mosteiro (qielan shen).

    SHAHAR, 2008, p.121
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    Vajrapani sobre o Monte Song. Acima está o Bodisatva Avalokitesvara, de quem ele é considerado a reencarnação.

    Porém, essa versão é contestada pelo historiador Tang Hao, em Shaolin quanshu mijue kaozheng (p.55-62.), em que ele conta que o ataque aconteceu em 1356, e não em 1351, e que o mosteiro foi saqueado e parcialmente destruído. Esse fato é confirmado no em duas inscrições do século XIV, onde é comemorado a reconstrução do mosteiro nos primeiros anos da dinastia Ming e também há registros de dois epitáfios de 1373, sobre dois monges de Shaolin que viveram nesse período.

    Segundo Shahar (2008, p.132), os monges budistas impunham suas técnicas de combate às divindades budistas, pois ampliava o prestígio das técnicas de combate de Shaolin. Afirmar que certo método de combate possui origem divina, equivale a garantir-lhe a existência como objeto de veneração. Shahar (2008, p.132) também destaca para o fato que as divindades marciais como o Vajrapani livram os monges de suas responsabilidades pela criação de técnicas militares. Suas lendas, em relação a tal questão, poderiam ser lidas como apologias budistas à prática da violência pelos monges.

    Mas há estudiosos que reconhecem a característica defensiva do bastão, e como seu propósito não é de ferir ou matar ninguém, eles acabam justificando a arma como preferida dos monges budistas. Segundo Shahar (2008, p.149), isso é exemplificado por Cheng Dali:

    O bastão não é um instrumento afiado e, além disso, é feito de madeira. Seu poder de matar ou ferir é muito menor que o do facão, da espada e de outras armas afiadas de metal. Evidentemente, o uso do bastão de madeira é relativamente apropriado à condição de discípulos budistas, para quem o uso das artes marciais é permitido apenas visando objetivos limitados.

    Zhongguo Wushu, p.96

    Esse argumento acaba perdendo força em algumas literaturas militares, ficções e dramas, quando os bastões passaram a ser produzidos com ferro, se tornando uma arma letal, que era capaz de levar a morte. Esses bastões foram usados até por monges budistas em operações militares, que foi descrito por Wu Shu (1611-1695) em Registro de Armas (Shoubi lu, 1678).

    A forma de bastão não era limitado somente ao mosteiro, mas o exército do período Ming tardio já via a importância da arma para o treinamento militar. O general Yu Dayou utilizava o treinamento do bastão também para introdução de outros meios de combate, como facão e lança, por exemplo.

    Há relatos que por volta de 1560, Yu Dayou fez uma visita no Templo Shaolin para avaliar as técnicas de bastão pelos monges. Foi feita uma apresentação por 10 monges, e no final o general ficou descontente com o que viu e chegou a fazer uma demonstração com a sua técnica. Os monges pediram para que ele ensinasse suas técnicas, mas ele disse que precisaria de anos para aprender. Dois monges, Zongqing e Pucong, acabaram acompanhando o general e depois de três anos retornaram para o templo para passar seus conhecimentos.

    O bastão não era só de domínio dos monges budistas, mas a literatura ficcional e as lendas populares acabaram associando isso a eles, o que não significa que eles são os únicos que dominavam a técnica na época.

    Um dos primeiros registros sobre as técnicas de combate no templo Shaolin, foi o Livro da Disciplina Eficaz (Ji Xiao Xin Shu, c. 1562) escrito no século XVI. O contexto desse registro era na época que chineses e japoneses estavam atacando o leste da China, onde o general Qi Jiguang (1528-1588) escreveu os métodos de combate mais eficientes de formas de mãos livres e armas, onde ele cita sobre o bastão de Shaolin, que acabou não desenvolvendo muito sobre elas, e acabou dando ênfase as técnicas do General Yu Dayou. Nesse manual, Qi não fala de mais nenhuma técnica de mãos livres de Shaolin, e segundo Acevedo, Gutiérrez e Cheung (2011, p.48), na opinião de Stanley E. Henning, esse fato pode ser explicado de diversas maneiras: o templo de Shaolin não havia desenvolvido técnicas de combate sem armas dignas de ser mencionadas; Qi não considerou as técnicas de luta de mãos vazias de Shaolin fossem eficazes; ou ainda as técnicas de lutas sem armas de Shaolin eram as mesmas que se praticava fora do templo.

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    khakkhara

    Antes mesmo do bastão ser utilizado como arma, ele era um objeto obrigatório dos monges budistas. Porém ele era um pouco diferente, pois tinham argolas em suas pontas. Seu nome em sânscrito é khakkhara, em chinês foi traduzido como xizhang. Segundo Shahar (2008, p.150), a palavra “xi”, que significa estanho ou latão, talvez se refira ao metal com o qual as argolas eram feitas, ou uma onomatopéia referente ao som que as argolas produziam.

    Fayun (1088-1158) fez uma análise sobre o nome xizhang, e percebeu a importância do som, que seria, primeiro para ajudar a espantar animais peçonhentos, segundo para avisar o proprietário de uma casa sobre a presença de um monge, e por ultimo o bastão pode somente servir como apoio a monges velhos e doentes em suas jornadas.

    No geral, é difícil apontar suas origens, mas pode-se dizer que por ser um utensílio obrigatório de um monge, eles abaram o transformando em uma arma, mas não podemos negar que ele teve um papel muito importante na história de Shaolin e acabou influenciando várias lendas a seu respeito.

  • Ip Man (葉問) – 1893 – 1972

    Ip Man (葉問) – 1893 – 1972

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    Para quem não é do estilo Wing Chun, quando falamos do Ip Man (葉問) lembramos que ele foi o primeiro mestre de Kung Fu de Bruce Lee, há alguns que lembram dele dos filmes protagonizados pelo Donnie Yen, “O Grande Mestre”, como é conhecido no Brasil, ou apenas “Ip Man”.

    Mas Ip Man teve uma grande relevância na história do Kung Fu. Ele nasceu dia 1 de outubro de 1893, na província de Foshan, Guangdong, China. Ele é o terceiro filho de quatro irmãos. Sua infância não foi tão severa, sua era família rica e bem estruturada e ele estudou em uma escola tradicional chinesa.

    Começou a treinar Wing Chun aos 11 anos com o mestre Chan Wah Shun, se tornando o 16º e ultimo aluno. Ele treinou Ip Man por 3 anos até ter um derrame, em 1909. Após o derrame, seu mestre parou de treinar e Ip man ficou treinando com um dos alunos mais velhos de Chan, o Ng Chung-Sok (吳仲素). Foi com ele que Ip man aprendeu todas as suas técnicas e habilidades.

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    Leung Bik

    Após a morte do mestre Chan Wah Shun, aos 16 anos, Ip Man se mudou para Hong Kong e frequentou uma escola para famílias ricas e estrangeiras que moravam na cidade, a St. Stephen’s College. Ele era muito habilidoso no Wing Chun, e sempre estava envolvido em brigas com colegas de escola. Depois de uns 6 meses que ele estava em Hong Kong, um dos seus colegas de classe, o Lai, falou para Ip que o amigo do seu pai lutava kung fu e queria uma luta amigável com ele. Ip aceitou o desafio, pois na época ele achava que ninguém poderia derrotá-lo, uma vez que ele derrotava muito fácil seus colegas devido a sua habilidade, mas acabou perdendo a luta para Leung Bik. Ip ficou inconformado com a rapidez que foi derrotado, e o desafiou para um novo duelo, e acabou perdendo novamente. Depois dessa luta bem desanimado com a derrota e nunca mais falou que sabia kung fu, mas seu amigo falou que Leung Bik perguntou por ele após a luta, mas Ip estava com vergonha de voltar. Porém, Ip Man descobriu que Leung Bik havia elogiado muitos suas técnicas e que ele era filho de Leung Jan que treinou com o Chan Wah Shun, seu mestre. Ip Man acabou treinando com Leung Bik até 1911, quando Leung faleceu.

    Em 1917,  Ip Man voltou a Foshan, tinha 24 anos e se tornou policial. Apesar de não ter uma escola de artes marciais, ele ensinou Wing Chun para vários policiais, amigos e familiares.

    Entre seus alunos mais conhecidos estão Chow Kwong-yue (周光裕), Kwok Fu (富), Lun Kah (佳), Chan Chi-sun (新), Xu He-Wei (徐 和 威) e Lui Ying (應 應). O Chow era o melhor deles, mas acabou parando de praticar para se dedicar ao comércio e  Kwok Fu e Lun Kah lecionaram em Foshan e Guangdong.

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    Ip Man e seus alunos

    Ele se casou com a Cheung Wing-Sing, com que eles tiveram seus filhos: Ip Chun, Ip Ching, Ip Nga-Sum, Ip Nga-wun.

    Ip Man participou da Segunda Guerra Sino Japonesa, onde morou com o Kwok Fu, e só retornou a Foshan depois da guerra. Em 1949, começou a treinar seu filho Ip Ching, e no mesmo ano, mestre Ip, sua esposa e sua filha mais velha chegaram em Hong Kong, através de Macau, após o Partido Comunista Chinês vencer a Guerra Civil, uma vez que Ip era policial do partido de oposição.Sua esposa e filha chegaram a voltar a Foshan para resgatar suas identidades, mas a fronteira entre China e Hong Kong foi fechada e eles foram separados para sempre.

    Ip resolveu abrir uma escola de Wing Chun em Hong Kong. No inicio não foi muito bem, seus alunos ficavam alguns meses e saíam, ele chegou a se mudar algumas vezes. Mas com o tempo alguns alunos foram se graduando em Wing Chun, abriram suas próprias escolas e acabaram duelando com outros artistas marciais, e claro, as vitórias aumentam a fama de Ip man.

    Em 1955, Ip Man conhece Shanghai Po, com quem manteve um relacionamento e teve um filho, o Ip Siu-wah. Como ele não havia se separado de Cheung, Po era como se fosse sua amante, e mesmo Ip não a apresentou formalmente a seus filhos, em 1962, quando eles foram a Hong Kong. Cheung morreu em 1960 em decorrência de um câncer, assim como Po, em 1968.

    Em 1967,  surgiu a Associação Atlética de Ving Tsun ( Wing Chun) (詠 春 體育 會) feita por Ip e seus alunos, com o objetivo de ajudar Ip Man a enfrentar as dificuldades financeira, pois, segundo relatos, Ip havia se endividado pelo seu vício em ópio.

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    Ip Man e Bruce Lee

    Ip Man morreu em 2 de dezembro de 1972, de câncer de garganta, sete meses antes da morte de Bruce Lee. Seu grande legado sem dúvida foi o Wing Chun, deixando vários alunos de grande destaque, são eles: Leung Sheung, Lok Yiu, Chu Shong-tin, Wong Shun Leung, Siu Yuk Men, Bruce Lee, Moy Yat, Ho Kam Ming, Chow Tze Chuen, Victor Kan, seu sobrinho Lo Man Kam e Leung Ting. Em Foshan existe um museu sobre o Mestre Ip com muitos artefatos da sua vida.

    A CGTN fez uma pequena entrevista com Leung Ting confira:

  • Bruce Lee – A Revolução no Cinema das Artes Marciais

    Bruce Lee – A Revolução no Cinema das Artes Marciais

    Como vimos nos artigos anteriores, o caminho de Bruce Lee no cinema não foi fácil, principalmente uma carreira nos EUA, mas ele ainda não desistiu da vida do cinema, e seu amigo James Coburn sugeriu que ele tentasse a carreira na Ásia. Ele fechou contrato com a produtora Golden Harvest de Raymond Chow (apesar de ser o mesmo nome não tem parentesco com a Ruby Chow), e em 1971 começou a carreira de sucesso dele. Na época ele fechou contrato para fazer 3 filmes, e seu plano era emplacar no cinema asiático e depois retornar para o cinema americano e fazer um filme de grande sucesso.

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    James Coburn e Bruce Lee

    A Golden Harvest era uma produtora pequena na época, e estava começando, e como não tinha recursos suficientes, Bruce Lee acabou apostando na produtora, pois a falta de recursos foi uma vantagem, já que tinha uma grande autonomia para rodar seus filmes. Ele podia interferir na direção, edição para fazer um filme que fosse do seu gosto, valorizando principalmente as cenas de luta.

    O primeiro filme foi “The Big Boss” (1971), ou O Dragão Chinês. A história é sobre um jovem, Cheng Chao, que sai da sua terra natal e vai para para a casa de seus tios para trabalhar em uma fábrica de gelo. Porém o dono é ligado a traficantes de drogas e mulheres. Cheng Chao e seus primos tentam acabar com a quadrilha lutando kung fu.

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    Bruce Lee nos bastidores

    O filme fez muito sucesso na época, com cenas de lutas jamais vistos no cinemas. Críticas o colocavam como o maior ator de artes marciais já visto. O filme bateu recordes milionários na Tailândia, Cingapura e Hong Kong. Ele se tornou a estrela dos filmes asiáticos.

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    Bruce Lee no filme “O Dragão Chinês”
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    Bruce Lee e Linda, a direita, na estreia do filme “O Dragão Chinês”, com Raymond Chow à esquerda

    Em 1972, veio o segundo sucesso de sua carreira, “Fist of Fury”, ou A fúria do Dragão, ou Chinese Connection, nos EUA. A história se passa em Xangai, em 1908, e Bruce Lee interpreta Chen, que junto com seus amigos enfrentam os japoneses que sempre ficam os insultando. O filme era totalmente focado na rivalidade entre China e Japão. Foi sucesso de bilheteria também, e o filme conta com muitas cenas de luta, que foi o que agradou o público.

    Foi nesse filme que começaram os desentendimentos, principalmente com os produtores da Golden Harvest. Ele pedia para repetir as cenas várias vezes e chegava a orientar os atores para explicar a maneira correta, na sua visão, de como aplicar o golpe.

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    Raymond Chow e Bruce Lee discutindo idéias para um novo filme
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    Bruce Lee no filme “A Fúria do Dragão”

    Há relatos que sua fama foi tão grande que lutadores, entre amadores e profissionais, iam até o set de filmagem para pedir um duelo e dizem que ele até pedia para gravar a luta para parecer real. E eram tantos que queriam desafiá-lo, que ele chegou a andar com guarda costas. Não sabemos até que ponto isso é verídico.

    No mesmo ano de Fist of Fury, saiu “The Way of the Dragon”, Vôo do Dragão, nessa produção Bruce chegou a discutir com os produtores da Golden Harvest. Ele queria ser diretor e roteirista. Seu desejo foi cumprido e ele foi diretor do filme, criou o roteiro e coreografou todas as cenas de luta. Na história, Tang Lung (Bruce Lee) vai até Roma para ajudar um amigo que está sendo ameaçado pela máfia local.

    Bruce chamou seu aluno, Chuck Norris, para fazer o personagem Colt, que era um dos gângsters. E quis gravar “a” luta em um dos lugares mais famosos de Roma. A cena de luta foi gravada em 3 dias, mas graças a perfeição de Bruce Lee, a cena se tornou um clássico nos filmes de kung fu. A qualidade técnica de ambos era impressionante, que a cada corte eles eram muito aplaudidos.

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    Bruce Lee e Chuck Norris

    Apesar de ser sucesso na Ásia, Bruce ainda queria chegar aos cinemas americanos.  Em entrevista para o jornal The South China Post, falou que havia muitas pessoas que queria se aproveitar da imagem dele e que chegou a recusar um convite para participar da máfia chinesa.

    Ainda sem ter um espaço no cinema americano, ele começou uma nova produção “Game of Death”, Jogo da Morte, nesse filme Bruce Lee seria Billy Lo, que teria que salvar sua namorada de gângsters. Mas para salvá-la ele teria que entrar em uma torre, tipo um pagode com cinco pavimentos, cada um deles tinha um lutador diferente com tipos de lutas diferentes: karatê, wing chun e esgrima por exemplo.

    O ultimo lutador era o aluno dele e jogador de basquete Kareem Abdul – Jabbar. Devido ao perfeccionismo de Bruce, as cenas com Kareem demoraram 10 dias. O filme em si demorou meses para ser feito e acabou não sendo finalizado por Bruce devido a sua morte. Para aproveitar o tempo gravado, e também um pouco da sua fama, principalmente após a sua morte, finalizaram o filme com outros atores que se pareciam com ele, um deles foi o Yuen Biao.

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    Bruce Lee e Kareem Abdul Jabar

    Como  a fama de Bruce já estava ecoando nos EUA, dois executivos da Warner, Fred Weintraub  e Peter Heller, procuraram Bruce Lee durante as gravações de Game of Death, para um projeto em Hollywood, o “Enter the Dragon”, ou “Operação Dragão”. Bruce aceitou o trabalho, voltou para os EUA para finalmente fazer o tão sonhado filme de produção americana.

    As gravações começaram em janeiro de 1973, mas o Bruce Lee faltou duas semanas no set com a desculpa que ele estava repensando melhor no roteiro. Ele entregou para o diretor, Robert Clouse, sequencias de lutas e até a posição da câmera para registrar essas cenas.

    A história é sobre uma vingança de um lutador do Templo de Shaolin pelo assassinato de sua irmã. Ele acaba indo para uma fortaleza cheia de bandidos em uma ilha e acaba enfrentando um a um.

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    Bruce Lee nos bastidores do filme “Operação Dragão”
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    Bruce Lee foi uma peça fundamental nas filmagens, principalmente na luta dos espelhos, ele trabalhou muito no movimento das câmeras para fazer as cenas de luta. Esse filme realmente fez ele se tornar uma lenda.

    O filme rendeu 100 milhões de dólares, sendo que ele nem custou 1 milhão.

    Em abril de 1973 acabou as gravações do “Enter the Dragon”, e em 10 de maio ele começou apresentar sinais que sua saúde não estava legal, se queixava de dores de cabeça com frequência.

    Ele havia voltado para Hong Kong para terminar as gravações de Game of Death, dentro da sala de edição ele se sentiu mal e desmaiou. Foi levado para o hospital Baptist de Hong Kong e chegou a entrar em coma, mas se recuperou dias depois.

    Com a vida intenção de gravação e treinamento, ele chegou a perder 6kg, além disso fumava haxixe e tomava muitos analgésicos, pois dizia que amenizava o stress.

    Bruce fez uma bateria de exames em Los Angeles e viram que ele tinha um acúmulo de fluido no cérebro devido a uma convulsão que ele teve antes de entrar em coma e receitou um remédio para epilepsia.

    Bruce estava ansioso e bem irritado para terminar as edições do filme Enter the Dragon, a Warner já tinha planos para estreia, algumas propostas de filmes e até entrevistas na TV marcadas.

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    Bruce Lee no filme Operação Dragão

    Bruce voltou para Hong Kong para terminar as gravações de Game of Death. Em junho teve outro desmaio em um restaurante com produtores da Golden Harvest, e foi diagnosticado como stress. Ele voltou aos trabalhos vendo roteiros e coreografando cenas de luta.

    20 de julho de 1973, Bruce Lee marcou um Raymond Chow uma reunião em um restaurante e  foi ate a casa da atriz Betty Ting Pei. Havia boatos que eles tinham um caso, uma vez que sempre andavam juntos.

    Ele sentiu uma forte dor de cabeça e tomou o remedio Equagesic e resolveu se deitar. Betty tentaram acordar sem sucesso e foi levado para o Hospital Queen Elizabeth, e as 22h30 foi confirmado sua morte. A causa da morte foi edema cerebral aguda devido a uma reação alérgica ao medicamento.

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    Steve McQueen prestando condolências ao túmulo de Bruce Lee (Bettmann/Getty Images) Fonte: https://www.foxnews.com/entertainment/bruce-lee-may-have-died-from-a-heat-stroke-new-book-claims

    Sua morte foi noticiada em todos os jornais de Hong Kong, uns dando ênfase por ser jovem e estar no auge da fama, outros dando destaque por ter morrido na casa de sua suposta amante.

    Mais de 50 mil pessoas compareceram ao funeral dele em Hong Kong, mas ele foi enterrado em Seattle, EUA, no dia 31 de julho.

    A causa da morte sempre foi motivo de investigações, uns dizem que foi overdose de remédios ou drogas, como haxixe e cocaína. Outros dizem que ele foi assassinado pela mafia chinesa uma vez que ele não se juntou ao grupo, outros até associam a morte por haver muitos inimigos que não gostavam de sua postura com relação as artes marciais.

    O filme Enter the Dragon foi lançado em agosto de 1973. Esse filme foi o maior sucesso de bilheteria que o Bruce Lee teve.

  • Bruce Lee – A vida nos EUA e a busca pela fama

    Bruce Lee – A vida nos EUA e a busca pela fama

    No último artigo, vimos que Bruce foi para os EUA para um nova vida, longe das confusões nas ruas de Hong Kong.

    Mas na sua ida aos EUA, o que muitos não sabem, é que ele foi com pouco dinheiro, e para resolver esse problema ele chegou a dar aulas de Cha Cha Cha no navio, na primeira classe. Ao contrário de muitas histórias, ele não foi sozinho, ele foi com seu irmão Peter e chegou a ficar na casa da sua irmã Agnes, em São Francisco, que lhe deu casa e trabalho.

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    Bruce Lee com o uniforme do exército

    Ele chegou a se alistar no exército, mas foi reprovado no exame médico, e acabou indo para Seattle. Lá ele procurou a amiga de seu pai, Ruby Chow, e acabou trabalhando como garçom em seu restaurante.

    Como ele sempre foi muito indisciplinado nos estudos, ele acabou se matriculando no Edison Technical College, para terminar o colegial.

    Em 1961, em uma apresentação, Bruce Lee conheceu um lutador de Judo que se impressionou com as suas habilidades, Jesse Glover. Ele foi o seu primeiro aluno que não era chinês. Isso atraiu muitos alunos de várias raças e etnias.

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    Bruce treinando a primeira turma na década de 60, em Seattle

    Bruce ficou conhecido e começou a a aparecer na TV local e nos jornais. No início ele não tinha local próprio e nem uniforme, então dava aulas em uma garagem. Depois ele abriu sua própria escola de artes marciais, a Lee Jun Fan Kung Fu Institute, e também deu aulas na Universidade de Washington onde se matriculou no curso de filosofia. Ele gostava de ler e isso iria aprimorar sua bagagem como professor de kung fu.

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    Bruce e alguns alunos da Universidade de Washington

    Muitas pessoas frequentavam as aulas, e uma delas chamou a atenção dele, a Linda Emery, também estudante de filosofia, por quem ele acabou se apaixonando. Começaram a namorar em outubro de 1963.

    Na mesma época ele escreveu o primeiro Livro Chinese Kung fu, “The Philosophic Art of Self Defense“, o livro teve poucas tiragens e tinha várias formas de vários estilos de Kung fu.

    Ele queria sair do restaurante, e logo pediu Linda em casamento, a contra gosto da mãe dela, e juntaram dinheiro e foram para Oakland. Casaram em 17 de agosto de 1964.

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    Bruce e seus alunos na Jun Fan Gung Fu Institute

    Abriu uma academia na cidade que logo fez sucesso. Ele preferia dar aulas particulares e não em grupo, mas na época foi muito rentável para ele a aulas em grupo. A academia recebeu pessoas de vários tipos: negros, brancos, asiáticos, estudantes, pequenos empresários, adolescentes e idosos. Isso incomodou a comunidade chinesa do local, que defendia que não podia se ensinar uma arte milenar oriental para não chineses. Começaram a telefonar para Bruce Lee com ameaças e até abordá-lo na rua.

    Ele não ensinava o kung fu tradicional. Ele ensinava uma mistura de técnicas que envolve wing chun, boxe, jiu jitsu, karatê, boxe tailandês.

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    Demonstrando o soco de uma polegada no Campeonato do Ed Parker

    Em Agosto 1964, foi participar de um torneio de Karatê do mestre Ed Parker, em Long Beach. Ele fez a apresentação do soco de uma polegada que impressionou todo mundo.

    Mais ou menos nessa época que ocorreu a história entre Bruce Lee e Wong Jack Man, que vocês podem conferir nesse link.

    Bruce Lee ficou famoso após esse evento e foi convidado pelo produtor de TV William Dozier a assinar com o 20th Century Fox para fazer o seriado “O Filho de Charlie Chan”

    O seriado não deu certo e Bruce foi atuar do lado de Van Williams no seriado Besouro Verde. Foi um grande sucesso e ele virou astro da série com golpes “mirabolantes” de kung fu, que eram inéditas na época. Bruce e Linda mudaram para Los Angeles, onde tiveram Brandon Lee, dia 1 de fevereiro de 1965.

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    Van Williams e Bruce Lee em uma foto publicitária para Besouro Verde

    Antes o casal queria viver com o que ganhavam na academia, e a Linda até pensou em abrir franquias no país, mas o Bruce se empolgou com a vida da tv e do cinema. Porém em julho de 1967, Besouro Verde foi cancelado.

    Abriu uma academia em Los Angeles, sem placa em Chinatown. Conseguiu mais alunos devido a sua fama, e muitos alunos famosos também, como Steve Mc Queen, James Coburn, Lee Marvin e James Garner, Joe Lewis, Chuck Norris, Bob Wall. Kareem Abdul -Jabbar e Roman Polanski tiveram aulas particulares.

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    Bruce Lee como Kato em Besouro Verde

    Bruce chegou a receber uma proposta para dar aulas em uma academia chamada “Kato’s Self Defense School“, mas ele recusou. No documentário Bruce Lee in His Own Words, ele disse:

    Achava divertido fazer o personagem, mas dar aulas numa escola com esse nome seria sabotar minha arte

    Bruce teve dificuldades em conseguir papéis em programas de TV devido a sua origem. No seriado Kung Fu, ele foi fazer testes por indicação, todos gostaram muito da sua atuação, mas acabaram chamando David Carradine pois os produtores da série achavam que se colocassem um chinês para o papel, o público não se identificaria com o personagem e não teria audiência. Isso gerou uma grande revolta, e ele até cogitou a voltar para Hong Kong, onde a série Besouro Verde também fazia sucesso, mas Linda o convenceu a ficar e continuar dirigindo as 3 academias que ele tinha, em LA, Oakland e Seattle.

    Ele passou dois anos tentando entrar na TV e no cinema sem sucesso. As dívidas começaram a aumentar já que não estavam dando mais lucro, ele chegou a ficar deprimido e emagrecer.

    Em 19 de abril de 1969 nasce Shannon, a segunda filha do casal.

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    Bruce, Linda e seus dois filhos, na década de 70

    Em 1970 a situação econômica ficou ainda pior para eles. Bruce Lee resolveu voltar a treinar, mas em uma intensidade maior. Em um dos treinos machucou as costas grave mente levantando um haltere. A lesão atingiu o 4 nervo sacral.Bruce ficou 6 meses no hospital de repouso, e nessa época de reflexão que ele começou a esboçar seu estilo de luta: Jeet Kune Do

    Bruce Lee compilou todas as suas anotações, que foram feitas aos longo de sua vida, com relação a luta, condicionamento físico, além de citações filosóficas budistas, taoístas e de autoconhecimento. Infelizmente o livro “O Tao do Jeet Kune Do” só foi lançado em 1975, anos após a sua morte.

    O desejo de Bruce Lee é o que o livro fosse  um guia e um registro de sua forma de pensar. A base do estilo é aprender a lutar com simplicidade, seu livro mostra como se deve lutar de uma maneira mais funcional.

    Depois da sua recuperação, ele voltou ao ritmo de treinos intensivos. Há relatos que ele se alongava vendo TV e treinava com halteres enquanto lia um livro. Bruce chegou a pesar 63kg com 1,71m.

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    Quando Bruce se mudou para a Califórnia e estava definindo seu corpo físico

    Continua…

  • Bruce Lee – Da Infância aos EUA

    Bruce Lee – Da Infância aos EUA

    Chegou a hora de falar sobre o Bruce Lee, esse símbolo das artes marciais. A história dele é muito rica, e em poucos anos de vida ele deixou um grande legado e transformou a história das artes marciais no cinema e no mundo!

    Separamos a história da vida dele em algumas partes, e hoje falaremos sobre a infância dele até a chegada aos EUA.

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    Bruce Lee nasceu em 27 de Novembro de 1940 em São Francisco, EUA. Seu pai, Lee Hoi Chuen, era famoso ator da ópera chinesa, e ele estava em turnê pelos EUA. Seu nome em chinês era Li Jun Fan (李振藩 ).

    Porém ele teve vários nomes, primeiro um nome feminino, Sai-fon (細鳳). A mãe de Bruce Lee havia perdido o primeiro filho no nascimento, e segundo superstições é um péssimo sinal. Adotaram uma menina chamada Phoebe, e logo em seguida tiveram o primeiro bebe biológico, Peter. Com a vinda de Bruce, o segundo bebe biológico do casal, devido a superstição, deveria vir uma menina, por isso colocaram um nome feminino para despistar os deuses. Mas logo em seguida foi batizado de Li Jun Fan. O nome Bruce Lee foi dado por uma enfermeira do hospital, a Mary Glover, e foi batizado assim segundo as leis americanas. E por fim Lee Xiaolong (李小龍; Xiaolong significa “pequeno dragão”), que seria seu nome artístico.

    Aos 4 anos já acompanhava o pai nos seus trabalhos e começou a gostar de atuar. Aos 6 anos fez uma participação no filme “The Birth of a Mankind“. Aos 18 anos já tinha feito mais de 20 filmes chineses.

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    Uma das aparições de Bruce no cinema na década de 50

    Na adolescência, Bruce bagunçava muito na sala de aula, incomodava professores e gostava de uma luta com os colegas no pátio do colégio. Lutas contra alunos de outras escolas aconteciam nas ruas de Hong Kong. Várias vezes os pais de Bruce foram chamados na delegacia, mas isso não o intimidava e organizava mais lutas. Os principais rivais de Bruce eram alunos de uma escola britânica, uma vez que chineses e britânicos não se entendiam desde as guerras comerciais no século 19, quando a rainha se instalou em Hong Kong.

    Aos 13 anos, depois de ser transferido para várias escolas devido as suas confusões, resolve treinar sério com  o mestre de Wing Chun, Ip Man. O estilo tem como características movimentos rápidos e econômicos e contundentes, e com esse estilo, ele aprendeu a se defender de golpes potentes e a curta distância.

    Em entrevista a um canal de TV americano, e inserida no documentário “Bruce Lee in His Own Words“, Bruce Lee deu a seguinte declaração sobre a sua infância:

    Da infância à adolescência, fui um cara bem problemático. Era extremamente agressivo, sem paciência. Aí, aos 13 anos, depois de passar um tempo brigando contra gangues, decidi aprender como me proteger. Muito do que aprendi sobre artes marciais foi nesse período com o mestre Ip, quando comecei a moldar meu estilo de luta. Aprendi a neutralizar a energia e a força de um oponente. Tudo isso deve ser feito, me ensinou o mestre, com precisão, sem se deixar levar pela fúria e pela afobação.

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    Bruce Lee campeão de Cha Cha (1958)

    Para aprimorar o equilíbrio e os movimentos do corpo, ele começou a dançar Cha-Cha-Cha. Ele também estava interessando em uma dançarina, a  Pearl Cho. Em 1958, ele ganhou o trofeu Crow Colony Cha-Cha Dancing Championship. Também praticou Boxe e chegou a participar de um campeonato onde venceu o tri campeão Gary Elms, da escola britânica.

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    Bruce Lee indo para os EUA

    Em abril 1959, os pais de Bruce o mandaram para São Francisco, EUA, sua cidade natal, para fugir um pouco da sua vida conturbada, envolvida por brigas. Isso não deixa de ser verdade, mas também há relatos que, por ter nascido nos EUA, se ele se alistasse no exército americano, ganharia a cidadania. Como na época os EUA era um “país da oportunidade”, principalmente após a segunda guerra mundial, Bruce Lee era um homem ambicioso, e seus pais viram sua ida de uma forma bem positiva.

    Continua…

  • Huo Yuanjia (霍元甲) – 1860 – 1910

    Huo Yuanjia (霍元甲) – 1860 – 1910

    Huo é símbolo de patriotismo e nacionalismo chinês desde o inicio do século XX, por desafiar combatentes estrangeiros no momento que a china estava sendo dominada por potências imperialistas, mas não se sabe se eles de fato lutaram.

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    Huo Yuanjia

    Huo Yuanjia nasceu em 1868, na vila Xiaonanhe, que hoje é município de Tianjin, é o quarto filho de 10 filhos. Seu pai Huo Endi (霍恩第), trabalhava com agricultura e, às vezes, fazia escolta de caravanas comerciais para a Manchuria e voltava. Ele praticava o estilo Mizongquan ( 秘宗拳), mais conhecido hoje como Mizongyi (秘宗义).

    Ele era um menino fraco e propenso a pegar doenças. Há relatos que ele teve asma e contraiu icterícia. Devido a saúde frágil, seu pai não quis treiná-lo, então contratou um professor particular do Japão chamado Chen Xeng-Ho, em contra partida ele aprendeu o estilo marcial da família. Mas Huo não deixou de lado seu gosto pelas artes marciais e começou a observar o pai de dia e treinando com o Chen a noite, e acabou se tornando adepto.

    Em 1980 venceu sua primeira luta contra um lutador de Henan que desafiou sua família. Primeiro, seu irmão perdeu a luta, então Huo lutou e venceu com muita ousadia. Seu pai viu que ele estava apto a treinar, e aceitou como seu aluno que acabou superando seus irmãos em habilidade. Foi o começo da construção de uma grande reputação entre os artistas marciais.

    Há uma história que ele se juntou ao seu pai no trabalho de escolta de caravanas, e uma das escoltas de um grupo de monges, eles foram atacados por bandidos. Huo lutou contra o chefe da quadrilha e venceu. Sua vitória se espalhou e aumentou sua fama.

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    Huo Yuanjia

    Em 1896 se mudou para Tianjin, participava de lutas organizadas e fazia bicos, como porteiro, vendedor de lenha e como cobrador de um jovem comerciante Nong Jinsun (农劲荪), ele negociava ervas e medicamentos chineses. Os dois tiveram uma amizade forte e de longa data. Nesse período ele conhece seu discípulo mais famoso Liu Zhensheng (刘振声) e começa a ter contato com a política nacional.

    Há historias que, em 1898, o Huo ajudou o Wang Zhengyi (王正宜), também conhecido como Dadaowangwu (大刀 王 五), que esteve envolvido na Rebelião dos Boxers. Wang era um comerciante muçulmano especialista em artes marciais, e era amigo de Tan Sitong (谭嗣同) que, após o fracasso da reforma dos 100 dias, foi executado e sua cabeça foi colocada em exibição. Wang, por sua vez, havia fugido para Pequim na época e acabou encontrando Huo Yuanjia, que se deram muito bem imediatamente. Huo ajudou ele voltar a Pequim furtivamente para pegar a cabeça de Tan para ser enterrada de forma descente. Depois, em 1900, Wang se uniu a Rebelião dos Boxers contra as Forças da Aliança das Oito Nações e foi morto em Pequim.

    Enquanto isso, a fama de Huo se espalhou. Em 1901 (alguns lugares falam 1902), um homem forte russo estava circulando em Tianjin, desafiando combatentes chineses e os chamando de “Os doentes da Ásia”. Dizem que Huo aceitou a luta, mas o russo supostamente recuou alegando ser apenas um showman e acabou fazendo uma carta de desculpas no jornal, mas essa carta nunca foi encontrada.

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    Cena do filme Fearless: Huo Yuanjia (Jet Li) lutando contra Hercules O’Brian

    Em 1909, o boxeador inglês Hercules O’Brien, publicou insultos nos jornais de Shanghai, chamando os chineses de fracos. Huo foi para Shanghai para uma luta com o boxeador e depois negociações consideráveis sobre as regras da luta, os termos da luta foram acertados. De acordo com alguns relatos, O’Brien deixou a cidade preocupado com a reputação de Huo e, aparentemente, a luta nunca ocorreu.Outros dizem que a luta chegou a acontecer e que O’Brien perdeu a luta. Essa luta foi uma inspiração para os Chineses que começaram a questionar esse domínio imperial.

    Aproveitando a sua fama, com a ajuda de investidores, incluindo seu amigo Nong Jinsun, Huo abriu a Sociedade Atlética Jing Wu. (精 武 体操 学校 mudou mais tarde para 精 武 体育 会)com o intuito de ensinar defesa pessoal e aprimorar a saude e bem estar. Ele atraiu muitos estudantes, bem como a atenção de algumas das principais figuras da China. Ele teve apoio de amigos como Song Jiaoren e Sun Yat-sen (孙中山) que elogiou a escola e disse que “Para tornar um país forte, todos devem praticar as artes marciais.” (欲使 国 强 , 非人 人 习武) ele até enfeitou a escola com sua caligrafia (como era) inscrevendo as palavras para espírito marcial (尚武精神) e dando-a como um presente para o clube.

    Huo yuanjia morreu em 1910, aos 42 anos. E ao contrário do filme “Fearless”, com Jet Li, Huo deixou a esposa, e cinco filhos, sendo dois homens, Huo Dongzhang (霍東章) e Huo Dongge (霍東閣), e três meninas, Huo Dongru (霍東茹), Huo Dongling (霍東玲) e Huo Dongqin (霍東琴).

    Sua morte é cercada por histórias. Como Huo sofria de icterícia e tuberculose, ele começou fazer um tratamento com um médico japonês, que era membro da Associação japonesa de Judô de Shanghai. Há histórias que o médico convidou Huo para uma competição, onde seu aluno, Liu Zhensheng, competiu com um praticante de Judo. Ninguém sabe quem ganhou mas sabem que houve uma briga e que membros da equipe de Judô ficaram feridos, incluindo instrutores.

    Parece que essa confusão influenciou um pouco na morte de uma das personalidades mais importantes da China, pois, segundo o historiador e aluno de Huo, Chen Gongzhe, que depois que ele começou a fazer o tratamento com esse médico, sua saúde piorou. Foi receitado um remédio para sua saúde, mas sua saúde foi piorando. Huo foi internado no Hospital da Cruz Vermelha de Shanghai, onde morreu 2 semanas depois. A morte de Huo Yuanjia levantou especulações sobre envenenamento sendo a causa da morte.

    Em 1989, o túmulo de Huo e de sua esposa foram levados para outro lugar, e foram encontrados pontos pretos nos ossos da pélvis. Os ossos foram levados para a perícia de Tianjin que confirmaram a presença de arsênico. Mas é dificil dizer se foi por envenenamento ou se por prescrição de remédios, uma vez que o trióxido de arsênico foi usado na medicina chinesa por 2400 anos. 

    Outras versões dizem que Huo derrotou o chefe da associação japonesa na competição, e no banquete de comemoração da noite, Huo ficou doente repentinamente, tossindo muito. Logo em seguida ele foi levado a um hospital japonês, onde recebeu “um remédio errado”, que ocasionou sua morte.

    Nunca saberemos ao certo a causa da morte, mas a versão de ser envenenado por japoneses persiste entre as várias versões, tanto que foi mostrada no filme “Fearless“.

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    Cena do filme Fearless: Huo Yuanjia (Jet Li) sentindo os efeitos após ser envenenado

    A associação Jing Wu foi deixada para seus filhos, Huo Dongzhang e Huo Dongge.

    Históricamente, Huo Yuanjia teve um papel extremamente importante na China, é como se fosse um herói chinês que “bateu de frente” com as potências estrangeiras que dominavam o país, aumentando um sentimento mais patriótico, uma busca de identidade.

    Na cultura, o primeiro filme a citar Huo Yuanjia foi “Legend of a Fighter“, de 1982, com a história de um menino fraco, cujo pai recusou de ensinar kung fu devido a sua condição física. O pai, então, chama um professor japones para educar seu filho sem saber que ele é um mestre em artes marciais. O menino acaba aprendendo luta por oito anos até que ele precisa utilizar suas habilidades para defender o pai doente.

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    Cena do filme Fist of Legend

    Outro filme que tem relação com os eventos após a sua morte é o Fist of Fury (1972) de Bruce Lee e o remake Fist of Legend (1994) com Jet Li. O personagem principal é um dos alunos de Huo Yuanjia, Chen Zhen. E por fim, retratando a sua vida, o filme que Fearless (2006), já citado aqui, que conta uma parte mais fantasiosa de sua história. Algumas informações, como a morte da família de Huo, renderam algumas polêmicas e familiares processaram Jet Li e tentaram impedir sua distribuição.

    Se quiserem saber o que achamos do filme Fearless, clique aqui!